ASTROLOGIA OU EFEITO FORER?
TALVEZ MAIS PREVISÃO "ESPERANÇOSO-VAGO-CONVENIENTEMENTE ADAPTATIVA...?
Há um enorme debate sobre intuição, categorização de personalidades e verificação padronizada de tendências. E claro, a capacidade de prever futuro por verificação de supostos padrões ou tendências.
TALVEZ MAIS PREVISÃO "ESPERANÇOSO-VAGO-CONVENIENTEMENTE ADAPTATIVA...?
Há um enorme debate sobre intuição, categorização de personalidades e verificação padronizada de tendências. E claro, a capacidade de prever futuro por verificação de supostos padrões ou tendências.
As ideias dividem-se entre a denúncia de impostura ligada a uma espécie de esoterismo defensor de mecanismos pré cognitivos e diferenciadores de personalidade que permitem antecipar eventos, e a inspirada concepção de coisas que não se explicam, de sentimentos que parecem antecipar factos ou inatismos que formam personalidades e as suas tendências verificáveis e logo previsíveis. No fundo, o choque entre cepticismo racional e, por exemplo, a astrologia.
É curioso como a astrologia (e outras variantes de esoterismo estudado, como medicinas alternativas), a qual tem séculos de existência, estudiosos e curiosos na matéria que vão desde Paracelso ao nosso Fernando Pessoa, granjeia ainda uma popularidade tão grande.
Eu sou um céptico empedernido nestas coisas. Não consigo entender como raios é que Mayas e Paulos Cardosos conseguem fazer as fortunas que fazem conseguindo convencer tanta gente que amanhã é melhor vestir azul senão podemos ser responsáveis pelo afogamento de todos os patos e cisnes na lagoa do Campo Grande.
E muita gente fica no entanto espantada com aquilo que a astrologia consegue "acertar", especialmente nas análises de perfis de personalidade. A frase "bolas, é mesmo isto" é recorrente quando alguém saca de um livro onde se disseca a personalidade dos signos do Zodíaco e curiosamente nos vemos retratados em muito do que lá está. Claro que mais de metade não tem rigorosamente nada a ver com o que somos, e muitas das conclusões que lá encontramos estão tão a leste do núcleo da nossa personalidade que chegamos a reconhecer noutra pessoa que nasceu seis meses depois, mas as coincidências levam a melhor, e a simpatia de muitas dessas coincidências deixam-nos contentes com a análise. Acho que em muitos casos, o "wishfull thinking" entra em acção e damos connosco a pensar que ainda que não sejamos assim, atingir tal estágio comportamental está na calha porque "é coisa própria dos Aquarianos" ser assim ou assado.
Mas toda essa panóplia de avaliações faz lembrar o pouco que descobri há cerca de um ano sobre o Indicador de Tipos de Myers-Briggs (que se inspiraram em várias teorias de Jung), e a refutação feita através da explicitação do Efeito Forer ou Efeito Barnum (EFB) também conhecido pelo efeito da validação subjectiva ou pessoal.
No primeiro caso ( trata-se da aplicação dos modelos de avaliação a tipos de personalidade supostamente classificáveis e a utilização desses padrões para criar coisas como "profecias auto-realizadas", que no fundo são a chave dos horóscopos e quejandos.
No segundo caso (EFB), e assim denunciando as primeiras como falácias (auto-indulgentes, diria eu) surge o efeito Forer, que simplesmente verifica que dando uma definição suficientemente genérica mas aparentemente detalhada, toda a gente encontrará sua personalidade num conjunto de premissas elaboradas com diligência suficiente e com detalhes diferenciadores que talvez até se apliquem a 30% dos supostos sujeitos a que se destinam, validando por exemplo, as análises astrológicas e coisas que tais.
No fundo acaba por ser curioso, porque a astrologia reclama um campo científico e correspondente dignidade, e aparentemente acaba por ir buscá-la a partir de um método indiciário de avaliação psicológica e tipificação de personalidades. Mas a astrologia precede em muitos anos estes métodos, e supostamente fazia a transposição dessas tipificações por padrões nos movimentos dos planetas e coisas que tais.
Quem foi buscar o quê a quem? No fundo parece-me que a ideia da análise, ou mais do desejo de análise, partilha uma premissa comum, algo parecido a lançar o barro à parede a ver se cola. Sinceramente parece-me mais algo assim:
1 - Se eu deixar algo num determinado local, e der a volta à terra numa linha perfeitamente recta, vou acabar por encontrar esse algo.
2 - Um relógio parado também acerta nas horas pelo menos duas vezes ao dia.
Concretizando, a panóplia de especulação sem fundamento comprovável própria dessas avaliações genéricas e supostamente esotéricas acabará, eventualmente, por acertar algumas vezes. E quando no meio da nossa avaliação de personalidade feito naquele livrinho giro de astrologia acerta três coisas em cada sete, temos a tendência para sublimar as correspondências e ignorar as desconformidades. Concordo que é bem giro por vezes vermos alguém acerta no vinte no que diz respeito a algo que reconhecemos em nós, seja algo de chapa ou mais obscuro, embora absolutamente característico.
Mas há malta que faz rios de dinheiro com isto. Há gente racional que despeja carradas de dinheiro nas contas de tipos que desenham uns mapas e aconselham a cor da roupa e personalidades a evitar nas semanas subsequentes. E só me ocorre o que dizia a revista MAD na versão brasileira, numa edição que li há uns anos.
"O que raio têm os planetas situados a zilhões de quilómetros a ver com o que devo vestir amanhã?"
A astrologia e quejandos parecem funcionar como uma espécie de placebo, ou modelação do acaso através de cruzamento de estatísticas. Se cruzarmos dados suficientes, chegamos à conclusão que os tipos que calçam sapatos número 43 são mais propícios a gostar de endívias. Se alguém mentir com suficiente convicção, a certa altura chega mesmo a crer que fala verdade. Se a história contada for boa, convincente e bonitinha, até apetece dá-la por real... mas não é.
3 comentários:
Eu confesso: acho um piadão à astrologia. A sério. Mas fico-me por aí, pela piada, que sou uma céptica (ou forreta...) do pior, e não gastava um tostão furado nisso.
Como céptica, desconfio de tudo o que seja método de qualificação padronizada e taxativa de tipos de personalidade.
Cada personalidade pode ser estudada por si só, mas daí a extrapolar em termos de se ditar leis de padronização... ui, ui.
É claro que é possível estudar tendências, prever determinados comportamentos, mas há sempre (felizmente) uma larga margem de erro. A verdade estatística é apenas isso: a verdade de uma maioria, nada mais, nada menos.
Todos nós nos desviamos de qualquer padrão dito normal, seja em pouco, seja em muito.
Giro, giro, é estudar os porquês. Se calhar é por isso que gosto tanto de abordar o case study, mas sem qualquer pretensão de daí extrair uma lei universal. É preciso muito cuidado: muitos estudos de caso cairam nesse erro de generalização e deram barracas monumentais. Dou-te um exemplo, a questão das memórias reprimidas e falsas memórias (ainda agora comecei a estudar a cena, mas dá pano para mangas).
Uma dica de um livro fenomenal sobre ciência e falsa e pseudo ciência: Um Mundo Infestado de Demónios, do Carl Sagan, que aborda lindamente a questão do espírito científico e cepticismo necessário.
Bom post ;)
Ah, mas há uma coisa que ninguém me convence do contrário: os aquarianos são teimosos p'ra burro :DDDDD
Se te aparecerem uns riscos no carro acho que saberás quem foi...e provavelmente usando a força mental.
Bjs SK
A cada ano que passa, mais me convenço de que é tudo xaropada...
LOL
É como bem dizes: em cada 43454678 coisas que dizem do nosso signo zodiacal alguma hão-de acertar e pensamos "é mesmo isso"... é sim senhor... ehehehehe...
O meu signo? É carapau com ascendente em camaleão... ou lagartixa...
;)
Bom fim de semana
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