ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, fevereiro 02, 2007




DIREITO/DEVER
À CONSCIÊNCIA (?)
Embora seja apartidário, é por demais evidente que me inclino para a perspectiva mais à esquerda das coisas. A ideia do humanismo possível seduz-me incomparavelmente mais que o separatismo pragmático do salve-se quem puder e depois logo se vê que a mão invisível regula tudo. Claro que a visão é muito mais abrangente e complexa do que esta, mas para já é apenas uma pequena brincadeira que não anda assim muito longe da verdade, julgo eu.

Mas esta pequena explicação prende-se com o facto de ter amigos de direita. Sim, tenho, e as conversas são sempre inflamadas porque as argumentações acumulam-se e degladiam-se com base em princípios de vivência quotidiana, e aí existem os choques de tolerância e definição dos fenómenos consoante esses princípios.

Mas existem ainda algumas coisas que me deixam perplexo.

A primeira é o facto de alguns irredutíveis ainda defenderem a intervenção americana no Iraque. É um desastre pegado, e já ninguém nega, julgo eu. As notícias de morte, destruição e caos são mais reiteradas que algumas telenovelas diárias.

A segunda é o silêncio conveniente que a economia lança sobre a defesa de princípios civilizacionais. A China, regime totalitário/comunista e absolutamente repugnante em tantas matérias de direitos humanos e civis, é o Eldorado económico. Já nem vou falar em mais um disparate do Ministro da Economia, que me parece o gajo mais incompetente num Governo desde o Santana Lopes ou a Mariana Cascais), mas na complacência de um mercado tão vasto, situado num país que tão grave e frequentemente estraçalha liberdades e direitos que consideramos fundamentais.

A intervenção no Iraque, (hipocrisia mor e historicamente trágica) é defendida pela administração americana com base do "derrube" de um sistema totalitário e
sem respeito pelos direitos humanos. Mas a China é o maior mercado interno do mundo. E isso é absoluta e horrendamente relevante, fazendo com que nenhum país com uma balança comercial viável ou viabilizável se possa dar ao luxo de os afastar da lista de fornecedores ou compradores.

Os EUA, e aqui temos de ser justos,deram o ar da sua graça, e deram o seu contributo através de sanções económicas como retaliação a certas políticas. Mas, relembrando Martin Amis no seu "Koba", a denúncia da complacência criminosa da Europa perante o grande horror stalinista parece aqui, (numa escala menor?) reproduzida por parte das facções que supostamente o denunciaram. A economia, a promessa de mercados e os negócios retiraram a indignação da boca da malta do lado direito, precisamente pelo apoio na inexorabilidade dos mecanismos económicos.
Ou seja, o mercado fala, e a consciência ouve, e encolhe-se os ombros porque, meus amigos, "a vida é mesmo assim." Mas para mim a máxima do Burke ( "All that is necessary for the triumph of evil is that good men do nothing.") é irrefutável, e olhem que é insuspeito porque o gajo é um dos fundadores do conservadorismo, o mais diametralmente oposto da minha orientação política. Não há resposta economicista para a expansão de um estado que é responsável ( à excepção do louco furioso na Coreia do Norte e de alguns regimes africanos) por um regime politico responsável por tudo o que possa ser atropelo a liberdades e direitos fundamentais.
É por estas e por outras que me mantenho mais pegado ao outro lado. Compadeço-me daqueles meus amigos de direita que comigo, por vezes, encolhem envergonhadamente os ombros e olham para a movimentação de um mecanismo que é demasiado grande para vozes individuais.
Aquilo que não posso aceitar é que se defenda essa postura como certa, como justificada do ponto de vista da sua essência. O bombardeamento de Dresden foi desnecessário, e uma carnificina como Guernica. O último foi visto por Picasso, o primeiro contado por Kurt Vonnegut. A denúncia prova que certas coisas são impassíveis de relativismo, e que o direito à indignação é claro e inegável.
Talvez seja pouco, mas a consciência colectiva é o que mais cedo ou mais tarde, muda sociedades. E ainda que por muitos "tenha de ser", não significa que aceitemos como certo. Quando vão pela goela abaixo, sabemos que é um sapo, e não um pedaço de faisão que resolveu espernear.
A malta tendencialmente de esquerda(moderada) também sabe ver a realidade.
E acha que a mesma pode efectivamente sofrer alterações.
"Our integrity sells for so little, but it's all that we really have.
It is the very last inch of us, but within that inch, we are free."
Larry and Andy Wachowski

1 comentário:

Patrícia disse...

Por vezes deixo de achar. Mas espero que sim.