ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, fevereiro 28, 2007

A propósito deste texto, muito bem escrito, como é hábito, mas com o qual concordo apenas em alguns elementos parcelares, "parou-se-me" aqui uma reflexão, que só tem a ver com o texto de forma indirecta. Deve-se à conjugação do mesmo com factos recentes.
Acho que existe um elemento de identificação primordial e preferido em cada pessoa. Aquilo com que preferimos ser conotados. A avaliação externa que ratificamos interiormente quase que por instinto.

E é curioso como a avaliação positiva feita a outras coisas que não a tal ou tais poucas eleitas pelo nosso juízo estético acaba por encolher à dimensão de um detalhe. Torna-se pouco importante, e pode ser, (não raras vezes até é), mais justa que a nossa própria avaliação, ou desejo da mesma. No fundo tudo tem a ver com a capacidade de atracção ( e atenção que não está obviamente circunscrita ao elemento sexual), com a forma como estão organizadas as nossas características e como estas criam magnetismo pessoal.

Se queremos sentir-nos atraentes, o reconhecimento da capacidade de gerar amizade parece curto, parcelar e insuficiente. Se somos atraentes à partida, a simpatia vem sempre acompanhada com um aroma a desconfiança, porque essa unidimensionalidade pessoal acaba sofrer das mesmas insuficiências, e a incapacidade de estabelecer afeição contida na amizade gera dúvidas dolorosas.
Claro que a ideia do "ensemble" é preferível, e já conhecida, mas a verdade é que ao longo dos anos e das vivências, existem fases em que as tendências se substituem. Nuns certos anos, a primeira é mais importante, ou pelo menos de presença obrigatória entre outras, noutros será a segunda.

Mas o que me deixa algo confuso é a razão pela qual a criação de desejo, empatia, atracção, amizade está, por vezes, tão desfasada da mera possibilidade de a concretizar. É óbvio que é agradável sentirmo-nos genericamente atraentes ou agradáveis. Mas porque será que em alguns casos o reconhecimento da atracção, (por exemplo, por parte de uma pessoa que não achamos atraente) que não queremos nem consideraríamos concretizar, acaba por ser tão "uplifting"? O reconhecimento das qualidades através da verificação do desejo criado parece-me um pouco parecido com aquela ideia de mexer para estragar e não para desfrutar. Algo como acenar a cenoura em frente do animal, não para o fazer correr, mas para lhe mostrar o que a cenoura o poderia levar a fazer.

Uma coisa é reconhecermos a capacidade que outras pessoas têm, o seu poder atractivo, o seu cariz. Outra bem diferente é o exercício de um ascendente em abstracto quando não há a mínima intenção de o concretizar.
E claro está, depois existe outro fenómeno, em que aqueles que de alguma forma respondem ao estímulo sofrem as consequências, no fundo, de agirem em conformidade com o que lhes agrada, mesmo que isso implique uma simples demonstração factual do seu sentido e juízo estético.

Atenção, sempre fui partidário de que o que é bom é para se ver e o que é de qualidade é para apreender. Mas de alguma forma, julgo que também há que ter algum cuidado em gerir as capacidades, porque por vezes o respeito (e como é forçado às vezes!) não significa desinteresse, mas tão somente a adaptação ao enquadramento possível. Não morder mais que a boca, no fundo.

Concluindo, para mim, e sem qualquer ideia de generalização que não seja o da minha experiência pessoal, não entendo muito bem as pessoas que gostam de passear o seu charme, que apreciam uma espécie de adoração abstracta (mesmo por aqueles que não consideram seus pares), e que gerem isso com uma falta de cuidado próprio de quem tem uma certa incapacidade de se colocar no papel do outro.

Adoro as pessoas que se sentem bonitas, ou charmosas, ou inteligentes, ou capazes, ou habilidosas, ou genericamente confiantes, e o demonstram. A confiança é um sinal de coerência e verticalidade do ser, e aprecio-o. E não tenho problema nenhum em admitir superioridade de quem efectivamente o é pela sua qualidade.
Seja homem, mulher, vegetal, animal ou mineral.
E gosto de gostar deles(as)!

Mas já tenho dificuldades em entender as pessoas que desejam que o impacto dessa sua confiança seja materialmente verificável. Aqueles que desejam efeitos fenomenológicos, sem que a sua atitude não seja mais que uma aprovação abstracta e regojizada porque mais alguém que reconheceu as qualidades.

Como dizia uma amiga minha, "Adorar, adora-se o menino Jesus".

E sendo eu agnóstico a coisa parece-me ainda mais confusa.





2 comentários:

Anónimo disse...

Gostei de um dia ter conheçido alguém como tu!...Beijo enorme!
Marta

Tuxa disse...

Parece-me que quando o impacto da confianca e materialmente verificavel, cria-se um certo nivel de desconforto inconsciente derivado da sua percepcao.