ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Quando as pessoas ficam genuinamente surpresas pelo facto de lhes fazerem bem, e encolhem os ombros em reconhecimento quase indiferente quando lhes fazerem mal, algo está definitivamente mal.
Há uma espécie de aceitação comum perante as imperfeições maldosas ou a preguicite empática, o que me faz uma confusão tremenda. Além disso, é triste.
Claro que todos fazemos merda. Todos metemos a pata na poça, e todos somos melhores num dia e piores noutros. Mas sinceramente, é a ausência de disponibilidade para pensar numa pequena originalidade, ou no estabelecimento da empatia minima com alguém que me assusta. A ausência de vontade de fazer bem apenas porque sim é uma modorra social que muitos atribuem a crescimento, mas que para mim redunda numa dormência emocional medonha. E normalmente tem resultados complicados, como mortes pessoais prematuras produtoras de fantasmas rotineiros e olhos baços e dias vazios.
E sim, sei que por vezes os esforços que fazemos perante algumas pessoas, ou muitas, saem furados. Mas tentar é sempre possível. Há sempre uma ave rara parecida connosco, algures, que entende as nossas maluqueiras, e por mais difícil que seja fazer com que estranhos se preocupem ou estimem o que é importante para nós, tal fenómeno é possível. E a diversão que existe em conseguir estabelecer real empatia com uma personalidade dá por si mesma um senso de pertença, um gozo pela viagem conjunta em direcção a algo. Dure uma semana, ou a vida inteira, existem alguns gatos pingados que, sendo tão alienados como nós próprios, entendem uma linguagem. E se o nosso esforço, em coisas pequenas como um telefonema, uma prenda, uma ideia ou um gesto, as puder fazer sentir proximidade real, então algo de válido já foi feito.
Se pudermos apanhar a surpresa por um agrado, ao invés do enfado pela normalidade mais negra, julgo sinceramente que se consegue alguma coisa.
O mundo não é salvo, nem nada que se pareça.
Mas a recusa em aceitar a normalidade do escurecer mantém a vela acesa em vento mais forte.
Quando fazer algo por alguém querido se torna um imperativo da espontaneidade, cria-se um laço real. E são esses que nos dão a mais perfeita ilusão de perenidade, ou a verdadeira surpresa da solidez sem prazo de validade.
Qualquer desculpa para a inércia é falaciosa.
Ou então não se gosta realmente de pessoa alguma.
O que também é perfeitamente legítimo.
Mas deve ser triste e terrivelmente enfadonho.

2 comentários:

Patrícia disse...

Unbearable, if I may add.

A disse...

Fantástico como neste texto conseguiste reproduzir tudo aquilo que penso de uma ave rara que tive o desprivilégio de conhecer o ano passado... confesso que a páginas tantas, e alternando a minha curiosidade mórbida, a minha estupefacção e incredulidade perante certos acontecimentos e circunstâncias, bem como algum sentido de missão (confesso), cheguei a uma conclusão: é que eu, de facto, não sou missionária nem tenho pachorra para tal.

Penso que quando as pessoas são completa e totalmente distintas por formação e educação, não há nada que justifique nem sequer aenas "porque sim".

Entendo que viver implica sacrifícios e já que não podemos escolher a família que temos, ao menos que o façamos com os amigos, e façamo-los por todos, os sacrifícios, tanto por família como por amigos, mas há coisas que não se devem tolerar ou suportar. O descrédito. O descaso.
Os "assim assim" os mais ou menos e as sonsices que me fazem salivar e uma vertigem de nojo a lembrar que a vida passa num instante e que não nos podemos entregar á mediocridade nem perder tempo com pessoas dessas.

A mais das vezes, são pessoas com um Q.E. muito baixo :) ou como tu dirias... niilistas.

Um sorriso
Um abraço
Um beijo

para ti. Meu amigo.

(há-de passar, vais ver)