À semelhança do que disse acerca de outras efemérides do ano, o dia dos namorados só chateará provavelmente dois tipos de pessoas. Aqueles que justificadamente até gostariam de ter uma desculpa para (mais) um jantar ou (mais) uma prenda, mas lhes falta a cara metade, ou os que encaram a suposta obrigação como uma compensação pelo que não fizeram nos outros 364 dias, e deviam ter feito.
Para mim, uma desculpa para um agrado e uma celebração junto às pessoas de quem se gosta, neste caso a cara metade, é sempre uma coisa boa. Uma desculpa para uma prenda é igualmente boa, já que é mais uma num rol de atenção que não é descurada.
Mas se as pessoas andam todo o ano a pensar em tudo e mais um par de botas, se não há uma palavra constante, um agrado recorrente, uma surpresa e provocação reiterada, então tudo aquilo que o São Valentim traz é uma consciência culpada, e a recordação de uma obrigação onde deveria existir entusiasmo espontâneo. O amor pode até ser espicaçado pela saudade, mas nunca pelo descaso, ou pela ausência de mais uma coisa a fazer ou dizer.
Claro que não há pachorra para os ursinhos fofinhos e os corações de peluche cheio de ácaros, ou, como diz uma amiga minha, a porra da comédiazinha romântica que continua tão inócua neste dia como em todos os outros. Mas a verdade é que é mais um momento para poder fazer um agrado. Os restaurantes ficam cheios de casais que genuinamente se divertem, ou daqueles que mantêm o temível silêncio mal disfarçado por um cumprimento de calendário.
A velha ideia do consumismo só poderá aplicar-se a quem faz desta a terceira e última justificação para uma prenda ou surpresa durante todo o ano. É normal que pareça obrigação consumista, porque se a vontade de dar alguma coisa à pessoa de quem se gosta é impelida por pudor ou conveniência social, a merda já está feita há muito tempo. E meus amigos, se só recebem ou dão prendas à vossa cara metade no Natal, aniversário ou neste dia, é tempo de reavaliação, porque alguma coisa está podre no reino da Dinamarca.
Eu comprei prendas. Eu fiz prendas. Eu pretendo comemorar. Porque não o faço no espírito (supostamente obrigatório) do dia, mas faço-o como mais um evento, mais uma prenda, mais uma situação impelida pela vontade que tenho em criar e dar atenção reiteradamente. Curiosamente, a comemoração será adiada por uns dias, o que até faz com que factualmente, este princípio seja mais aplicável que nunca.
A lógica amorosa (parece um contrasenso em termos, mas não é) reside na vivência das coisas boas, transformadas pela imaginação que as faz brotar de formas que aparentam ser diferentes. E se as pessoas continuarem a sentir que conseguem fazer essas celebrações, dentro ou fora de dias convenientes, então a desculpa para fazer mais um parece-me óptima.
Jantem, falem, comam-se, divirtam-se, embebedem-se, encontrem aquela prenda ou gesto diferente. Se este for apenas mais um dia em que o fazem, então que este seja o melhor possível, sublimado pelo espirito da comemoração e balanço que até ao amor chega. Porra façam-no por respeito ao Santo, que talvez tenha sido o primeiro homem a tornar-se famoso por literalmente perder a cabeça pela sua musa.
O meu dia?
É Vermelho.
Tem Lua.
E um nariz irrequieto... :)
1 comentário:
falta pouco :)
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