ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, março 30, 2007

"Plastic people...

Paper skies..."

Se alguém reconhecer isto, já ganhei o dia.
É precisamente quando o peso parece insustentável, que o erguemos nos braços e mandamos à distância. É nessa altura em que sabemos que recuperámos o sentido do que somos e sempre devíamos ter sido, que tudo encaixa, ainda que mais pareça que não encaixamos em lado algum.
E como corre a adrenalina nascida da capacidade de reagir!

quinta-feira, março 29, 2007

"They are night Zombies" ou "Chicago"...?

Ainda por decidir qual a minha faixa preferida de Sufjan Stevens...
R.C. Zaffon à noite, na cama, com o candeeiro novo anti-miopia de esforço, na viagem de letras que falam das ruas da minha cidade fetiche europeia, e de tanto, tanto mais.

S. King, de volta ao seu estilo mais gore, a 220 kmh, como companhia nas máquinas de cardio-fitness enquanto se recupera de uma lesão á custa de transpiração. O tempo passa e nem dou por ele.



A vida por vezes é boa.
I know the guy who we can blame
I even know his middle name
I never liked his stupid games

And if he tries to hunt us down
Or thinks that he can fool around
Well, we'll find him first and he will see
He'll never get to you or me
He'll never get to you or me

I know the guy who we can blame
He hasn't any sense of shame
He'll always be the stupid same

And if he tries to hunt us down
Or thinks that he can fool around
Well, we'll find him first and he will see
He'll never get to you or me
He'll never get to you or me

I know a guy who we can nail
I've drank with him, I've had his tail
We'll send him something in the mail...

And if he tries to hunt us down
Or thinks that he can fool around
Well, we'll find him first and he will see
He'll never get to you or me
He'll never get to you or me

CTD - "Stupid Same"


Brad Roberts, tu sabes umas coisitas...
Há uma diferença substancial entre mau-feitio e feitio impossível.

O mau feitio pode ser divertido, agradável, porque com um pouco de razoabilidade e conversa sã, os pontos de vista podem não encontrar-se, mas de alguma forma encaixam-se como várias perspectivas de um problema. Esse tipo de feitio tem uma verve geralmente humorística, e muito genuína, a qual acaba por ser também motivo de proximidade.
Esse mau feitio por vezes não nos poupa, felizmente.
A minha namorada tem mau feitio. Ok, invulgar, mas cabe neste conceito.
A minha mãe tem mau feitio.
O meu irmão também, ui, de que maneira!
(O meu pai é outra história. É o único homem que conheço que é mais pato que eu, mas também muito mais encantador, uma história viva. Tem mau feitio, mas são demasiados anos a ver as coisas à sua maneira.)
Alguns dos (poucos?) amigos que se instalam realmente no meu coração também têm mau feitio segundo esta perspectiva. Sobem-lhes os azeites e pronto, é ficar de lado e ver, deleitado.
Mas no fundo, quase sempre se consegue conversar, argumentar, chegar a qualquer lado.
Numa outras perpectiva existem exemplos na blogosfera, com cujo mau feitio por vezes discordo, mas com o qual normalmente convivo bem, gosto muito de ler, e aprendo muita coisa também em concordância.
Além disso, esse mau feitio não é constante. É de ondas, por gatilhos, e debelável, parece-me.
Claro que em alguns casos é motivado pelo que leio, noutros pelo que leio somado ao conhecimento das pessoas, que são inclusive minhas amigas.
Ver aqui , aqui , aqui , só como óptimos e altamente recomendáveis exemplos. Mas há mais.
E depois há o feitio impossível.
A malta que nasceu para embirrar, para "desconstruir" (palavra da moda, eu sei), para criticar tudo e todos, geralmente com base em preconceitos ou egocentrismo de altifalante.
A malta que sobranceiramente não abre espaço para diálogo. Os gajos que interrompem tudo e todos nas conversas de grupo, julgando serem combativos quando estão a ser desagradavelmente "estardalhaçosos".
As pessoas de feitio impossível não racionalizam. Não jogam à bola, mas levam-na para casa. Para essas pessoas, consenso é sinónimo de vitória unilateral, e acordo significa impasse ou ignorância alheia.
As pessoas de feitio impossível são intratáveis, e algumas vezes disfarçam-no, até que se torna demasiado tarde para evitar danos, o que só aumenta a incidência desse mesmo feitio.
São tatuagens que não se deixam disfarçar por qualquer artista, por mais habilidoso que este seja, ou por maior que seja a mais valia que oferece.
E claro está, gosto de pessoas com bom feitio.
Não moleza, mas o desejo de solucionar.
Para eles, mais palavras outro dia.
Desculpem-me.
Não é defeito, é feitio...
Encontrar um padrão feminino absoluto do que é um homem bonito, é como casar um Trotskista com um membro da Opus Dei.

Elas raramente ou nunca têm algo acima de discussão, como por exemplo uma Adriana Lima ou a
Helena Christensen

Foto - Misha Gordin


É inevitável que as pessoas defendam os seus feudos. Especialmente os seus feudos de opinião, mesmo que a convicção possa sair um pouco beliscada no confronto de lógicas.


É normal a evolução das opiniões, quanto mais seja porque vamos crescendo e aprendendo mais, e como tal, juntamos mais ideias ao escaparate ou formatos a esse quadro que pincelamos diariamente.




Simplesmente eu não vejo a evolução como uma descaracterização. Se existem casos em que as alterações, muitas delas de fundo, correspondem a um instalar da realização talvez provinda de sonhos para os quais se fez por conseguir, então fica uma conclusão muito clara.




Alguns têm mais sorte que outros, porque deixam de ser atormentados por aquele insubstancial que vamos buscar a cada letra, som, imagem e diferente experiência pessoa.


Alguns encontraram-se, e podiam ter a amabilidade de identificar o quiosque dos mapas.


Mas acho que entendo o porquê dessa retenção informativa.


Certos segredos não fazem sentido quando partilhados. Talvez até não sejam segredos. E dói muito a banalização dos olhares desencantados perante o brilho do tal feudo. Por isso mais vale mostrá-lo na perspectiva da dialéctica possível, mas sem o X a marcar o "spot".


É que provavelmente de nada serviria, e os feudos têm a ocasional mas péssima tendência para se travarem de razões.




Contemos a história.


E vejamos quem fica na sala.


Mas o que não vale é faltar à apresentação da própria narrativa.


É só isso que passo a vida a dizer.


E poucos ficam na sala, o que não me surpreende.


E já me incomodou mais.

quarta-feira, março 28, 2007

Mudar não significa transfigurar a essência.

Quanto muito, é tentativa de a fazer evoluir.

Os amores abstractos podem mudar de rostos, objectos, atitudes, mas as velhas formas de nos deixarmos invadir têm a consistência dos gostos e das orientações, como a sexual.

Ou será que não?
As pessoas que nos devoram usam os nossos próprios dentes.

E torna-se complicado quando nos sabe bem...

terça-feira, março 27, 2007

Souls they float like the memories I've opened
Go and kiss all the butterflies I've broken
Sow their wings to the coat of my misfortune
Grow to reach the plains I have only spoken

I'm walking on a river
I'm handing out the bread to my father's son
I'm looking at this lonely land
And I'm standing in the eye of a hurricane

Waterfalls upon my hair
Wash away all the tangles in my head
I look inside the poolIt's my reflection
Now I've reached a higher place.

I'm tearin' down a temple
Be alright, gonna build me another one
Won't see me getting tired
I'd break my back just to be inside again
Be inside again...Be inside again...Be inside again...

Well I've had years and years of doubt
Now it's gone.

And I've had years and years of doubt
Now it's gone.

And I've had years and years of doubt
And now it's gone.

And I've had years and years of doubt
Now it's gone.

And I've had years and years of doubt
Now it's gone.

And I've had years and years of doubt
Now it's gone...

Manmade God - "The Path"

A duras penas, por vezes.



P.S. - Tentei colocar aqui o ficheiro de música, mas não o encontro em lado algum. as minhas escusas.






Lover...

O teu silêncio é desperdício.
O manto de invisibilidade é impossível, por mais que o julgues.
É perda do mundo, pelo fogo que lhe pode dar luz.
Na lógica do local onde lhe crias alternativa és tão maior que ao primeiro provocas inveja. Escorres como água, que a todo o lado chega fervente.
Mesmo que como a água, não te apercebas da vitalidade de que és feita.
Do essencial de um mundo que povoas, mesmo que julgues o contrário.
O teu silêncio é desperdício.
Os fogos únicos devem brilhar, porque lá está, nunca se repetem.

Thanks...

For all these trips and Trains...

segunda-feira, março 26, 2007

"For once, you did the right thing."

Sometimes, that's all it takes.

And, as expected, it's the hardest of all things to accomplish.
Existem poucas coisas piores que ver a condescendência por parte daqueles que nos são mais próximos. Aquela desqualificação subtil de aptidões e opiniões, supostamente atenuados por uma afeição intensa.
Existem poucas coisas mais complicadas de aceitar que aquele encolher de ombros cínico, disfarçado de real conhecimento das coisas, como se esse conhecimento nunca possa ser colocado como perspectiva, e a inexorabilidade das análises pudesse de alguma forma matar a discordância. Lá porque é provável, não tem de ser certo. A indignação é parte mestra da integridade. E onde quer nos manietem, dentro da nossa cabeça nunca o poderão fazer.
Existem poucas coisas mais difíceis do que perceber que as nossas aptidões não têm senão o valor de "fait-divers" perante o suposto pragmatismo de quem tem uma memória curta relativa às cicatrizes do mundo.
Existem poucas coisas mais duras que a constatação de que por detrás de um sorriso está a convicção de que as aptidões que temos são apenas um produto de algo a eliminar, e como tal, dispensáveis e despiciendas como restos de um mundo supostamente morto. Como se com um sorriso se tivesse de perceber que existem os que contam, e aqueles que supostamente ainda têm sorte de ainda não terem sido trincados pela máquina de Huxley.

Pintor - Grozs






Disclaimer:
Mais um texto longo e chato "com'á" potassa. Uma seca do cacete. Uma estopada.Você foi avisado(a). Siga por própria conta e risco.
Há tempos, aquilo de que falarei em seguida insurgir-se-ia como uma crítica da minha parte, o que é completamente discutível e reconheço-o. Mas agora surge apenas como uma verificação de situações. Uma comparação, e como tal, o reconhecimento de perplexidades, de faltas de encaixe e da percepção de um distanciamento perante aquilo que se pode talvez chamar de movimentação natural da ordem das coisas, mas que a mim surge como algo mais preocupante. Sim, talvez sejam manias. Ou qualquer outra coisa. Quem sabe?
A vox populi costuma dizer que a certa altura da nossa vida, acabamos por encaixar. Aqueles que de alguma forma estiveram (muito ou pouco) deslocados da lógica comportamental genérica, acabam a certa altura, dizem essas vozes, por encontrar o seu "slot", e lá descansam, com um estalido de encaixe que a mim parece ensurdecedor, mas a outros surge como algo natural e arrisco a dizer reconfortante.
É também costumeiro dizer que crescemos para fora do nosso sentimento de diferença e inadaptação. que a lógica do comum acaba por nos levar, e como tal, acabamos, cedo ou tarde, por pertencer ou na linguagem mais recorrente, por crescer. Aquela alienação que existe durante tanto tempo na vida de alguns, devido à sua forma ligeiramente diferente de ver os fenómenos, é encarada como uma borbulha de acne ou um rubor pueril no rosto. Nasce, cresce, mas como qualquer flor débil, murcha e morre. Morre para crescer, para alargar os braços e ficar como mais uma entre as árvores. Diz-se que com esse crescimento vai-se uma certa angústia de vida. Vão as perguntas, a sede, a insegurança e a confusão. Falam da cartilha, da evolução, da chegada do ponto A ao ponto B por caminhos de normalidade e calmaria que mais me parecem uma espécie de morte gradual. Posso estar enganado, e provavelmente estou (os deslocados estão sempre), mas o aborrecimento e cansaço que vejo naqueles rostos não me parece condizente com a tal serenidade e evolução boa e necessária. Parece-se mais com o estreitamento dos horizontes, e o endeusamento de uma certa responsabilidade porque, afinal de contas, é tempo. É hora. E não vejo mal nenhum nisso, se é aquilo que desejam.
Mas para mim não serve. Definitivamente.
É provavelmente uma espécie de falha ou incapacidade da minha parte, ou uma contaminação de juventude ilusória e a avaliar pelos olhares condescendentes,demasiadamente prolongada. Não entendo os quatro anos sem ir ao cinema, sem um jantar a dois ou a vinte, a abdicação de tudo aquilo que definiu a pessoa. Não entendo as conversas dos "adultos", a ausência de tempo e paciência pra tudo o que não seja o "trabalho, porque isso é que é importante", e a magnífica conclusão de que não ter tempo para dar um traque que seja é que significa respeitabilidade e lá está, a idade adulta. Não critico objectivamente, só não entendo como é que se pode ser feliz abdicando dos degraus mais fundamentais da construção da personalidade. E de uma certa forma, até me sinto algo baralhado, porque chego à conclusão que talvez não as conhecesse assim tão bem.
A verdade é que tal perspectiva isola. As opiniões contrárias a este estado de coisas são encaradas como inexperiência, como uma visão desarmada, como se não fosse possível analisar os fenómenos por observação e raciocínio. E lá voa o Peter Pan enquanto a malta já aterrou.
As perguntas que me coloco são mesmo sinceras.
Creiam.
Será que um dia a dia de trabalho, miúdos, miúdos, trabalho, filmes em DVD em casa, música em casa, jantares em casa, tudo em casa, não enlouquece? Deixa-se de perseguir os hobbies, os gostos, a evolução, as mudanças nos interesses que tanto apaixonam?
Bem, pelos vistos não. A mim constituiria um bilhete para uma casa de repouso em menos de seis meses, mas a "vox populi" contraria essa ideia. E fazem-mo saber com uma eficácia digna de registo. Essa eficácia afasta-me. Coloca-me como um observador distante, uma espécie de arauto de inadaptação à segurançazinha do caminho que a espécie e a civilização já haviam determinado. Há que casar, trabalhar, engordar, e ter putos, e assim é que é. "E tu não experimentaste, portanto não sabes como é."
Pois não. E nunca saberei. E isso é uma certeza.
Posso partilhar a vida com alguém, posso até vir a ter descendência, mas no dia em que for a um jantar de amigos que não se vêm há meses, e em vinte convivas, dezanove resolvam ir para casa à hora do Vitinho porque "já não tenho idade para isso, pá", é altura de enrolar uma corda grossa ao pescoço, e adiantar aquilo que já me aconteceu.
Quando a minha vida consistir em partilhar o cuidado de um infante com a tipa que viva lá em casa, sem que eu possa ( ou ela queira) ir ao cinema, ou jantar, ou fazer qualquer merda que sempre (nos) agradou porque os putos não podem ficar com os avós (por razões esotéricas que me escapam), para depois mais tarde olhar para ela e perguntar "mas quem é a menina e o que faz cá em casa?", é tempo de levar a torradeira para a banheira.
Quando eu já não me conseguir lembrar ou desfrutar dos autores e músicos que fazem a vida valer a pena, ou simplesmente ter alguma coisa porque ansiar, antever e esperar, então crio raízes e lá fico, até secar, ou simplesmente cresço num prado isolado e rezo para que um relampago surja e acabe logo com isso.
Não me entendam mal. Não estou a contestar a felicidade alheia. Se as pessoas se sentem bem com isso, ainda bem. Óptimo. Quero é que sejam felizes. Mas por favor, não me tentem impingir a ideia de que isso é a evolução natural, e que eu é que ainda não sei como é. Não me tentem dar uma espécie de anúncio TV-Shop onde um apresentador demasiado bronzeado para qualquer altura do ano me diz que a vida de "adulto" é um negócio irrecusável, e cedo ou tarde todos vamos lá cair. Sejam felizes. Muito. Mas eu não compro essa bíblia, e não aceito o olhar supostamente esclarecido de quem já encarrilou na ordem natural das coisas. É uma escolha tão válida como a minha, simplesmente a minha veste-me num suposto fato verde, e dá-me asas feitas de pó mágico. E não tolero a ideia que passam de que gosto menos das coisas, dos fenómenos ou das pessoas. É própria de uma arrogância auto-justificativa, e não dou esse direito a ninguém. Não entendo a vossa forma de aceitar a passagem do tempo. E cedo ou tarde, aquilo que se vê na imagem perfeita tem rachaduras, porque alguém acaba por ceder. A constância de tais rotinas acaba por moer a pachorra ao ponto de se procurar alternativas. Alternativas que a mais das vezes estoiram com tudo, quando supostamente são panaceias. E gostaria de dizer que isto é uma abstracção. Mas não é. Tenho demasiados exemplos práticos. Poucos para generalizar, mas suficientes para sugerir uma tendência.
Mas como creio firmemente na máxima, "quem está mal muda-se", acho que no caso em apreço a minoria sou eu, e como tal, a adaptação é um mal necessário. Com ela vem a convivência, mas também a distância. A distância daqueles que ainda recordo como vivos, multifacetados, criativos, mexidos, irrequietos, e que agora cresceram. Cresceram para uma solidão de quem fica.
É um direito.
Que fiquem felizes. E isto é sincero.
Só espero que corra como esperam.
Eu cá terei o fato verde.
Sou o que sou. Talvez ainda e sempre demasiado perturbado pelas coisas que me fizeram desde sempre.
Quem sabe?
Boa sorte a todos.
(isso inclui-me... especialmente)



Dear A

Perhaps this will help.



Ainda no Público de hoje.

Reis Torgal leu-me o pensamento...

Que tristeza de país este...


"Grandes Portugueses": historiador Reis Torgal lamenta possível escolha de Salazar 23.03.2007 - 14h37 Lusa

O historiador Reis Torgal criticou hoje o programa "Grandes Portugueses", da RTP, lamentando que o ditador Salazar possa ser escolhido como "o maior português de sempre", através do que considera ser "memória fabricada".
A título pessoal, Luís Reis Torgal tem prestado apoio científico à câmara de Santa Comba Dão, no âmbito dos contactos que a autarquia tem promovido tendo em vista a criação no concelho de um museu alusivo a Oliveira Salazar, hipótese que o investigador quer ver abandonada.Em declarações à agência Lusa, na semana passada, o catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra disse que preferia que a casa do antigo ditador, natural do concelho de Santa Comba Dão, fosse transformada em espaço de exposições e centro de documentação sobre o Estado Novo.
Num artigo publicado hoje pelo "Diário de Coimbra", Reis Torgal afirma que "não houve em nenhum país, como no nosso, onde a televisão tem uma enorme importância na opinião pública, o risco de um ditador ser considerado 'o maior português de sempre'".
Sublinhando a sua oposição contra o polémico programa da RTP, salienta que, neste caso, "a qualidade de 'grande português' resulta afinal de um 'voto popular', pago, tal como se elege a 'melhor canção' em medíocres festivais ou se vota a saída ou a permanência dos concorrentes nos programas 'voyeuristas' do tipo 'Big Brother'".
"Neste contexto de 'memória fabricada', corre-se o risco de Salazar ficar em primeiro lugar para gáudio e vergonha de algumas gentes deste país, que se recusa a integrar a ideia de que a História é uma ciência de verdade", refere.
No mesmo artigo, Reis Torgal alude ainda à participação de José Hermano Saraiva, "excelente comunicador" e "ex-ministro de Salazar" num outro programa da televisão pública."A História é identificada com a 'estória', interpretada sob a forma de opinião" por Hermano Saraiva, "o qual, coerentemente, vai afirmando, de quando em vez, que o 'fascismo' em Portugal 'nunca existiu", critica ainda o historiador."
Que dizer de um país que se propõe eleger um ditador fascista como o maior português de sempre?
Eu sabia que éramos capazes de coisas incríveis, mas mais uma vez surpreendo-me com a falta de memória e vergonha na cara de tantas pessoas. E a História está aí tão perto...
Juntando a esta inexplicabilidade, aparece este outro fenómeno, provando que realmente os mecanismos da democracia funcionam até para aqueles que a asfixiam com as suas condutas de ódio, segregação, violência, preconceito e prepotência.
Coincidências?
Que merda de mundo e de país este... sinceramente.
No Público de hoje:
Extrema-direita quer entrar nas secundárias e universidades
26.03.2007 - 08h54 Bárbara Wong

Nas escadas que dão acesso ao bar novo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa estão uns fachos pretos pintados no chão. Os sentidos proibidos vermelhos, posteriormente marcados por cima dos fachos, dão uma pequena ideia do que se passa entre os estudantes daquela escola.
No primeiro patamar, confirma-se que há grupos políticos que rivalizam: uns escrevem "a chama vive", outros respondem "a chama queima", ao que os primeiros acrescentam "e o comunismo mata". A palavra final vai para "Fascismo nunca mais"? Não, porque o substantivo foi riscado, deixando o advérbio sozinho.
Os estudantes de Letras têm dois dias para decidir se querem uma associação com dirigentes simpatizantes do Partido Nacional Renovador (PNR) e do movimento da Frente Nacional, a Lista X; ou ligados ao PCP, a Lista U. Para Rita Vaz, dirigente da Juventude Nacionalista (JN) do PNR, a Faculdade de Letras pode ser a primeira de muitas associações que o partido pretende conquistar. A lista, acrescenta, apesar de ter simpatizantes do PNR, é "apolítica", porque também há elementos da Frente Nacional, um movimento nacionalista, e do Bloco de Esquerda, para "mostrar que todos podem participar". "No próximo ano formaremos uma lista nossa", promete.Porque é esse o objectivo do PNR: "Actuar junto dos meios juvenis, nomeadamente escolas secundárias e universidades, disseminando as ideias, princípios e programa do PNR", está escrito na página de Internet da JN. "A nossa intenção sempre foi candidatarmo-nos às associações de estudantes, o que é um bocadinho complicado, porque são controladas pela Juventude Comunista Portuguesa e pelo Bloco de Esquerda", refere Rita Vaz, estudante de Medicina na Universidade da Beira Interior. Miguel Tiago, deputado do PCP, declara que "os movimentos associativos são dos estudantes e não dos partidos" para justificar que não comenta a candidatura rival.Além da Faculdade de Letras, a JN quer conquistar Direito e as universidades da Beira Interior e do Porto; e as secundárias do Algarve, Beira Interior e Lisboa, onde "há núcleos mais fortes". A ideia é "transmitir aos jovens uma mensagem nacionalista sadia, opondo às ideologias esquerdistas da morte e da anarquia os valores da pátria, da família, do mérito e da natureza", continua o site. "Pretendemos chegar a cada escola, formando aí um escol ideologicamente preparado e disposto a actuar politicamente de um modo radical e decisivo", determina.
Na Faculdade de Letras há ameaças e intimidações, dizem alguns estudantes contactados pelo PÚBLICO. "Parece haver ameaças por parte de apoiantes da Lista X, que nem sequer é contra a Lista U", confirma Álvaro Pina, presidente do conselho directivo, mas ainda não foram apresentadas queixas formais, acrescenta.Um dos espaços onde os estudantes alegam ter sofrido ameaças é o bar novo. Álvaro Pina sabe que, de há uns meses para cá, o bar tem servido de "local de encontro para cerca de meia centena de alunos de direita, extrema-direita e também pessoas estranhas" à universidade. Os funcionários e seguranças da escola estão atentos a eventuais problemas.
A organização SOS Racismo denuncia que um dos elementos da Lista X foi um dos condenados pelo assassinato de Alcindo Monteiro, em Lisboa, em 1995. Rita Vaz, da JN, conhece a pessoa, diz pertencer à Frente Nacionalista, mas não sabe se está na lista.
O presidente do directivo confirma que "há um elemento activo na Lista X que tem cadastro", mas não sabe se é essa pessoa. O reitor António Nóvoa está "preocupado e atento", mas "confiante no espírito democrático dos estudantes", informa o assessor da reitoria, António Sobral. O reitor António Nóvoa está "preocupado e atento", mas "confiante no espírito democrático dos estudantes"

sexta-feira, março 23, 2007



"Walk away

Oh no
Here comes that sun again
That means another day
Without you my friend

And it hurts me
To look into the mirror at myself
And it hurts even more
To have to be with somebody else

And its so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes you just have to walk away
Walk away

With so many people
To love in my life
Why do I worry
About one
But you put the happy
In my ness
You put the good times
Into my fun
And its so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes you just have to walk away
Walk away
And head for the door

Weve tried the goodbye
So many days
We walk in the same direction
So that we could never stray
They say if you love somebody
Than you have got to set them free
But I would rather be locked to you
Than live in this pain and misery
They say time will
Make all this go away
But its time that has taken my tomorrows
And turned them into yesterdays
And once again that rising sun
Is dropping on down
And once again you my friend
Are nowhere to be found
And its so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes you just have to walk away
Walk away
And head for the door
You just walk away
Walk away"

Ben Harper







Temos de ser justos e concluir que a memória nem sempre é madrasta.
Volta e meia faz-nos pensar, (isto na sequência de uma conversa que tive com uma pessoa amiga há já algum tempo) acerca de despedidas, das feridas pós-guerra, dos armistícios, e principalmente dos despojos do dia (que me desculpe o Ivory e o Ishiguro ).
Quando a serenidade regressa, quando a mente e a memória conseguem colocar as coisas nos seus devidos lugares, quando a objectividade nos dá a perspectiva, alguns fenómenos tornam-se mais fáceis de entender, e outros permanecem no domínio da perplexidade.
Existem vários fenómenos no âmbito da separação entre pessoas que nunca entendi. Comportamentos que as pessoas designam de normais, de consequenciais, e que a mim me dão uma urticária do cacete. São, a mais das vezes, conveniências sociais, defendidas entre dentes quando o discurso do politicamente correcto cessa, como um código subterrâneo de conveniência e propriedade.
Vejamos um a um:
a) A impossibilidade do contacto ou da amizade por:
  • Razões de ciumeira da (nova) contraparte. Acho que o bom senso ditará que talvez não seja muito recomendável que as pessoas se aproximem muito quando os fumos da empatia ainda não se desvaneceram. É procurar sarilho, porque não é num mês ou dois que o cheiro da pele e o som da voz são varridos do quartel general emocional. Mas que diabo, passado algum tempo, evitar ou simplesmente não ter uma amizade com quem partilhou tantas coisas da nossa vida é absurdo e inexplicável. Se é imposição da outra cara metade, é insegurança, e como tal, ronda o desrespeito porque é colocar uma suspeição em cima da pessoa. Se é pelo próprio, é ainda menos explicável, porque, lá está, uma vez esquecidos os despojos desses dias, a pessoa que nos tocou é a mesma, e as qualidades que nela estimávamos não se esfumaram. Isso não é virar uma página, mas sim envolver de escuridão algo que, a bem ou a mal, nunca deve ser esquecido. (Claro que estou a falar de situações em que a separação não é demasiado acintosa ou mesmo violenta, situações nas quais ao amor que existia se substituiu um ódio ou desprezo mútuo, but that goes without saying, i guess).
  • Razões que se prendem com orgulho. Com questões ligadas a um qualquer receio idiota de subjugação perante o outro. Mas não podemos ser amigos dos que outrora foram amores? Onde raios é que vem escrita essa porra dessa regra? Deve ser no mesmo manual que diz que os enamorados têm de ter palas nos olhos e não ver o mundo à volta, ou que quem já nos viu nus, continua a ver, não obstante o que se passe. Lamento, é uma opinião, e vale o que vale, mas não encontro sentido em coisas que tais.
b) Há quem julgue que a manutenção da distância é manutenção do status quo de alternância necessária e drástica. Ou fodemos, ou nem nos vemos, ou beijo-te na boca ou não te beijo de forma alguma, ou és meu, ou não existes. É uma lógica que me ultrapassa, porque a unidimensionalidade sempre foi coisa que me fez confusão. É quase como reduzir uma pessoa a uma função, e isso roça perigosamente a instrumentalidade e a falta de respeito pela integralidade da pessoa. Por vezes, como diz a canção, temos de ir. Não há outra forma, outra solução, outra saída. Esta música tem o ferrete da memória, e significa muito daquilo que é designado como a aceitação da capacidade de mudança. Nenhum destes fenómenos deixa alguma vez de ser marcante, mas se a mágoa passa, e se não há razão para extinguir todo e qualquer contacto, haverá razão para desaparecimento?
Na minha forma de ver, não.
As despedidas definitivas só se eternizam se a mutualidade dos sentimentos não existir. Aceitam-se se ainda houver algo que só queime de um lado, porque como disse aqui há uns meses, também não entendo o masoquismo. Mas se nada disso ocorre, se não há desejo pelo meio, tudo o resto não pode ser apagado, seja por imposição externa ou interna. Pelo menos não devia ser assim.
Também já me separei de pessoas que nunca mais vi, mas é uma raridade. E a separação foi feita em meio a incompatibilidade e animosidade considerável. O que via nessas pessoas deixei de ver, e quando a máscara caiu, revelou-se uma aversão mesmo conceptual, e a pessoa deixou de interessar no seu todo, e não apenas na parte da convergência amorosa/sexual.
Para mim as pessoas sempre foram um todo.
E talvez por isso se explique que nunca as quis realmente possuir.
Porque aquelas que foram continuam a ser com certeza aquilo que eram, mais ou menos evoluidas, ainda que a paixão ou amor de outrora seja como um daguerreótipo. Datado doutro tempo, mas ainda assim belo e importante no que é um caminho que nos leva até onde estamos.
E se alguém alguma vez conseguiu chegar a um amante ou amor sem passar pelo amigo, que me conte como é.
Como nunca o fiz, não consigo atender como o caminho inverso se torna impossível.
Por vezes é mesmo preciso ir.
Mas talvez o mais enquadrável seja mudar de perspectiva, de posição.
Só desaparece completamente quem nunca existiu de facto.
Parece-me.
Mas isso sou eu.
Retirei a verificação de palavras dos comentários.

O Spam será apagado manualmente.
Thanks Jeff and Leonard...

Hallelujah, by the way.

Sunny outside.

Let's go.

Este blog está muito mais povoado de letras e eventos que o meu Moleskine. E acho que deveria ser ao contrário.

O que só reforça a conclusão que aparece agora, mas que funciona retroactivamente.

Este blog é um diário.

O diário que nunca consegui manter, e exteriorizado de forma a que contenha no núcleo da medianiz os segredos que não podem ser exteriorizados, mas codificados para a minha memória com a clareza de água cristalina.

E tudo porque algumas coisas não podem ficar encerradas, nem ser totalmente reveladas.

É uma excelente solução de compromisso, descoberta quase por acidente.


And so it goes...


quinta-feira, março 22, 2007



Foto - Ben Arieh





É complicado traçar a ideia de progressão e objectivo que temos com toda a clareza que seria desejável. A história que temos como nossa, nem sempre, ou poucas vezes, segue o curso narrativo e “arranjável” que a distância permite ver com clareza. A racionalidade é uma espécie de luxo, mantido a duras penas, e sob uma capa de auto protecção que a mais das vezes não é sequer voluntária. Mas não quer por isso dizer que não possua uma relação causa efeito, ou eu não seja feita de factos ocorrido na peugada no tempo. Em algum momento, a esquina é dobrada, e as perspectivas alteradas trazem um automatismo onde tudo parece feito de mecanismos precisos, mas sem explicações axiomáticas, tão ao gosto dos pragmáticos.

Não restam dúvidas de que a história em causa, em plena medianiz, é feita das hesitações próprias de procuras parcelares, de caminhos feitos de costas em direcção à percepção das razões. E se avançar não significa de forma nenhuma a fuga para a frente, há que perceber que quando a bicicleta atingir o declive de montanha, o esforço para a vencer necessitará de respostas, como sangue claro nos músculos. Se assim não for, o cansaço, como um oroboro, acabará por devorar o próprio esforço, inconsciente da suposta e bem intencionada arrogância dos objectivos, os quais são apenas feitos de busca de respostas, não de efeitos. Sim, é assim tão simples. Assim tão directo. E assim tão indecifrável.

Passaram muitos anos desde a percepção dos espaços inadequados para a arrumação dos intentos, afectos, forças e fraquezas. Como qualquer bom pragmático, a ideia de que entre mortos e feridos, alguém se há-de safar é tão prática como a demonstração de regras tendentes ao holismo, ou desejo de certeza universalizável. E se a incerteza for em si indemonstrável, porque não aceitá-la como escopo do percurso? Se funciona durante tantos anos, a misericórdia do mundo envolvente torna pelo menos mais fácil a sua inclusão na teimosia dos caminhos. Ainda que estes sejam escolhas que, pelo menos parcialmente, afinal não se escolhem. E as dores derivadas não são por isso mais fáceis. Talvez até sejam piores.

O problema das grandes cicatrizes é a convicção de integridade que trazem. E será dispensável qualquer tentativa de transferência sensorial para compreender seja o que for. Num dado momento, um segundo de malfadada percepção muda o mundo, e os efeitos são como uma estrada incerta num país sem montanhas. O facto de o horizonte a engolir, não garante o seu fim. E é complicado fazer chegar a outros a noção clara do que anteriormente tinha uma estrutura una, e de um instante para o outro passa a ser fragmentado, explicado, e terrivelmente desmistificado. Com essa percepção, cessa a percepção da integralidade emocional, e como para qualquer ser perdido seja onde for, a estratégia é clara. Segue-se em frente, porque a algum lado se irá dar com certeza.

Estou certo, pelos relatos que ouvi, e dos quais ainda me lembro, que nenhuma destas percepções é autónoma. Não há inatismos na confusão, ou na incapacidade de arrumar a loja dos sentimentos. Ela nasce, cria-se, e tem o que de poderia chamar de anti-musa. Resiste aos comentários dos arautos do tempo curandeiro, como será compreensível, o cristal colado pode reter tudo no seu anterior, mas não brilha da mesma forma, e em cada caco há uma perspectiva diferente que surge consoante a luz e o olhar nele se centram. E as miríades nem sempre são bonitas. A inconstância não tem tempos de aviso. É uma merda, mas é verdade.
Tendo isto tudo em conta, os detalhes que são dados pela narrativa trazem à tona as realidades. E seria natural que com o passar dos anos, o esclarecimento significasse o fim das questões e da incerteza. Da insegurança e uma certa ira provocada pela fome. Gostaria que dizer que passa, que se funde numa percepção esclarecida do material.

Mas para alguns, não é assim tão fácil.

Para já não creio que aconteça a ninguém. Alguns acabam simplesmente por se render. Outros encontram atalhos, curvas, declives e subidas. E outros continuam. Que se lixe o “para onde”, é preciso é ir. E é nesse caminho que encontramos alguém que poderia fazer parte de uma história (nada) simples. Narrativa progressiva, quase circular. Passos dados pelos afectos, pelas conquistas, pela sede de progressão, pela imprudência dos limites feita de uma luta interna. Essa luta, como disse acima, pode ser adivinhada, mas nunca objecto de compreensão por transferência. Ninguém pode simular a inquietude do cérebro na escuridão, a ausência do sono, a piedade dos gostos parcelares transformados na maior aspirina de alma do mundo.
E no entanto tenta-se.
Entregamos o que podemos, entramos até onde nos deixam, e observamos, com os braços estendidos, um bebé grande que caminha num muro de aresta estreita. E ele lá vai. Por vezes dança, noutras cambaleia, e não raras vezes corre.

Há algo de irremediavelmente poético e irresistível nos esclarecidos teimosos. As partes de si que entregam, por vezes por acidente, são verificáveis a mais das vezes nas escorregadelas das suas fraquezas, nas fragilidades quase patéticas das suas desculpas. O desejo que as corrói, e nos qual por vezes felizmente nos incluem, é a sua viagem de concepção e incêndio. E amamo-los na estreita medida da esperança que nos causam, no vislumbre da percepção que sabemos que têm, e com a qual nos brindam de tempos a tempos.
Mas é um jogo perigoso, e mais ainda, ocasionalmente incongruente. É uma bela estupidez, uma tontice deliciosa, que os reduz e engrandece ao estatuto de miúdos demasiado elucidados, demasiado grandes, demasiado humanos perante as teimosias próprias da sua enorme capacidade de sentir. Apesar de tudo, estão tão vivos que nos vão queimando, irritando, e acabam por se instalar na nossa quota-parte interior reservada dos perenes. Filhos da mãe. Neste caso, também da minha. Bem, a ironia faz bem ao sangue. Não é o que dizem
?

Talvez existissem outros meios de o reconhecer. Sim, porque não me atrevo sequer a esboçar uma explicação. Seria como ter aquelas conversas acerca dos limites da percepção universal, quando já se está com uma bebedeira desgraçada, a qual, felizmente, adormece pelo absurdo a real percepção do horror existencial. E lamentamos informar, existe mesmo.
Sim, é mais fácil desdramatizar e colocar tudo na onda do fixe, não se passa nada, desafectem a cena e sejam realistas “cool”, mas no fundo, os problemas estão lá, as rachas na parede também, e a água, a bem ou a mal, começa sempre a escorrer pelas frinchas como sinal de pressão.

Parece que ainda me recordo da faixa de cabelo por cima dos olhos. Os olhos que apareciam e desapareciam no contexto do rosto. A avenida larga cheia de sol, o quintal, a praia, o calor. Um cenário igual a mil outros, mas totalmente diferente, como são todos os que significam uma perda. Daquelas que não se explicam mas que moldam de forma talvez irremediável. Se são danos ou progressões, só a viagem que encetas consegue responder, e por vezes nem isso. Acho que poderia imaginar cada passo da história. Cada idiotice assim analisada quando se consegue ser racional, e desmontada pelos efeitos na pele. E por vezes olho e encho-me de um sentimento misto se orgulho e tristeza. É difícil não sentir o primeiro na honesta tentativa de uma coerência feita de dor, por um lado, e o segundo por esta mesma, embora a mais das vezes apareça disfarçada. Acho que na ideia de protecção a um ente realmente querido está sempre encerrada a ideia de indicação de um caminho. Dos passos necessários. Mas algumas pessoas tornam essa tentativa mais difícil que outras. Tornam-na redundante, feita apenas de emoção, sem o dom do pragmatismo ou solução clara que abala realmente os tais esclarecidos teimosos.

Seja nativa de uma casa junto da praia, de um cabelo encaracolado, ou tenhas nascido com ela, a voracidade do percurso é um jogo perigoso, como todas as obstinações o acabarão por ser. Têm o encanto da capacidade, do triunfo, da força, da multifacetada caixa de ferramentas. Mas assim como a nicotina, acelera as sinapses do sujeito, ao mesmo tempo que o vai matando lentamente. E ninguém que gosta desses sujeitos está para aturar isso.

A celebração de alguém é sempre expressa da melhor forma através da consciência da sua história. Daquilo que dela surge para sustentar uma narrativa, uma recordação, uma experiência que acrescentou um tom à palete destinada ao real. Que deliciosa é a partilha de histórias, a troça de bom coração, os cheiros e visões detectadas ao mesmo tempo. E como tudo se sedimenta na construção das uniões, das transcendências do sangue, da linguagem não verbal, da assumpção de tiques, gostos e lealdades.

Eu tenho isso tudo, em ficheiros desordenados, é certo, mas bem presente. Alguns instantes posso descrevê-los até ao grão de areia numa camisola, ou o rubor de um rosto. Carimbados pela aprendizagem que originaram, são feitos de um afecto que o tempo não desmembra, de um antagonismo complementar que gera lealdade e o tão raro senso de real pertença.
A vida que tenho, e as minhas obsessões, são inseparáveis da compreensão e contestação das tuas, e ainda mais do percurso que fizemos até chegar aqui. Teve alguns buracos, é certo, mas é da estrada plana que mais me lembro, e aquela que não raras vezes faz falta em virtude das curvas da tua estrada de luz ao fundo. E entre irmão, embora possa parecer estranho, nem sempre sabemos o que dizer. Arrisco a concluir que talvez até seja mais fácil com sangue alheio do que com o nosso. Se estou a escrever isto, fica mais que provado.

E no entanto…

O teu encanto está lá sempre. Aquele de que falo acima. Aquele que te faz fugir, mas nunca desaparecer. Que te faz claro, mas “multi-laminado” e complexo, como uma pedra de xisto cortada pelo vento e encerrada numa daquelas encostas onde cresce o vinho que tanto gostas.
E ainda que na discórdia de algumas essências, na visão diferenciadas de alguns fenómenos, a união desafia a normalidade, complementa-se, acrescenta capítulos a uma história, e faz nascer do antagonismo a honestidade que cria os laços que ficam. Talvez uma maior concordância não permitisse uma abrangência tão grande de amor fraternal, nem uma admiração tão vasta.

Quem sabe?

O sangue não explica tudo.
São as histórias, afinal, que tudo fazem.
Que nos moldam, unem, e lançam um contra o outro na complementaridade.
Que afiam os dentes da lealdade.

FELIZ ANIVERSÁRIO, IRMÃO.
(21/03/1969)

Mais do que o sangue, é algo indefinível e mais abrangente que nos une.

A nós, que somos algo de rocha.














terça-feira, março 20, 2007



Talvez... bem, não talvez, com certeza que não será o melhor pedaço de cinema do ano. Nem o melhor filme. Nem a melhor ideia.

Mas este foi o pedaço de cinema que me fez sair mais realizado da sala, mais feliz por ter decidido adquirir o cartão Medeia, ou simplesmente, por ter tido a sorte de experimentar o efeito subjectivo da obra que alguém completou, e como tal, me trouxe mais uns intantes em que preferi estar consciente, e perceber o que tinha para dizer.

Essa subjectividade cria afectos, nichos, paixões e pequenos cultos internos, semelhantes a amizades fortes, reatadas anos mais tarde, com a sensação da pertença recuperada. E sinceramente, talvez como o filme o diga, certas coisas acabam por ser aquilo que nos salva a vida, ou mais precisamente, o quotidiano, bocadinho a bocadinho, por letras, sons, formas, e essencialmente, presenças.

Este "indie" juntou-se a uma galeria de eleitos para mim. Filmes que formam de um puzzle pessoal, de um recanto onde de forma talvez indecifrável (não é sempre), sinto-me como se chegasse a casa.

Thank someone or something for small mercies.




Ainda a propósito do dia de ontem, fica algo que expressa bem a mais pungente e bela ideia de paternidade que me ficou na memória. No fundo, e sempre, tudo são histórias.


E associado a elas, fica o meu sentido e respeitoso silêncio perante quem ontem não pode entregar um texto ou dar um beijo...

segunda-feira, março 19, 2007




Alguns instantes roubam-nos o fôlego, apenas para o devolverem durante o resto da vida, deixando que nos refugiemos junto a ele.
E ri-se, ao saber-se assim impassível de ser roubado, por maior que seja a malícia ou a suposta esperteza insidiosa de iconoclastas sempre demasiado contentes consigo mesmos...

foto - Peggy Washburn


Quando a anorexia e a obesidade são flagelos de impacto dramaticamente visível, percebemos que os gritos de ajuda dados nos extremos são próprios da cegueira social, e dos danos muitas vezes irreparáveis que a parcialidade de cada estado provoca.

Remediar as coisas quando a merda já está inexoravelmente feita parece-me ter sempre o mesmo efeito.
A catarse paliativa, e pouquíssimo mais.

É no insubstancial de cada dia que se encontram as respostas impassíveis de representação para a fome impossível de identificar ou a saudade pelas coisas que nunca conhecemos.
Confuso?
Então pensem em cada instante em que o quiseram fazer.
Aposto que é geral a impressão que essa intangibilidade deixou, e os efeitos que teve na decoração de todas as outras coisas de sensível trato na vida de cada um.
Bem, pelo menos comigo é assim.

Ligar a vitrola antes de ler, por favor.
Obrigado.









Olá Pai.



Há muito tempo que te conheço. Há muito que sigo os meus passos nos teus, e embora talvez não nos conheçamos assim tão bem como isso, desafiamos há muito o plano das ligações terrenas. Aquelas que dizem ser limitadas, como estações do ano um pouco mais longas no presente da vida de todos, nos espaços do tempo enquanto ele lenta e inexoravelmente prossegue, sabe-se lá em que direcção.

Há tantas histórias de que consigo recordar-me. Tantas que não aceito a progressão da idade sobre ti. Velhinhos que vejo, mais novos que tu, e nunca te consigo associar a eles, porque realmente não o és. Não tenho olhos para essa parcela do passar do tempo. Os olhos estão lá, do verde ágil, das palavras entusiastas, do que não tem tradução relativamente ao que me ensinaste toda a vida. Daquelas coisas que contadas a outros nada dizem, colocadas no plano do meu crescimento, nos instantes em que passei de um momento para o outro, no caminho em que me colocaste.

Se hoje tenho cabeça para pensar, devo-o ao imenso manancial de escolhas que puseste ao meu dispôr sem que eu, como qualquer jovenzinho com sorte, desse por isso. E na construção da minha personalidade, dei os erros que provavelmente nunca querias. E por saber-te felizmente imperfeito, como os modelos devem ser, mostras todos os lados das escolhas, mesmo aquelas que fizeste e que te renderam coisas menos boas. Vi os erros que mesmo assim não toldaram a tua essência. Ensinar e amar é também personificar o erro, porque o que não é tangível, dificilmente se torna interiorizável Deve ser por isso que sou agnóstico, e se for a pensar, devo-to a ti (e a essa senhora aí do teu lado) por também ter podido efectuar essa escolha.


Portanto, reconhecendo a minha falha, porque a lógica do dia de calendário é a pior possível, aproveito as palavras que tenho para falar de um universo onde as coisas são tão por vezes tão íntimas e carnivoras que nenhum vocábulo serve. Tudo parece um balbuciar desconexo, talvez aquele que tenhas ouvido muitas vezes quando ainda lutava para ter dentes, confortado por uma canção de voz grave e mãos poderosas.


Por isso não te desejo um feliz dia, porque seria limitar-te a umas insignificantes 24 horas. E eu tenho 33 anos de histórias. Não para contar, mas para recordar, fazendo um mapa de mim mesmo, por onde passas, por onde deixaste a incondicionalidade de um estado de afeição. Só por isso és tão infinitamente superior, tão mais produto da tua reconstrução, do passar do tempo, da colheita dos frutos do tempo terreno, desgraçadamente limitado.


Este é mais um dia em que vemos o sol juntos.

Tu és o homem do momento. De obra feita, dir-se-ia em linguagem corrente. Mas ainda com muito para acompanhar na conservação da mesma, tão necessitada ainda da tua intervenção.

Para ti não há comboios.

Continua a teimar, se fazes o favor.

Obrigado.



quinta-feira, março 15, 2007

Aquilo de que gosto realmente, que adoro, que amo, dêem-lhe lá o nome que quiserem, tem razão de ser. Essa razão não é toda a fundamentação, e mal estariamos se tudo pudesse ser dissecado por relações simples de causa efeito, bem como se tudo fosse uma aleatoriedade.


Para mim, o amor seja em que forma for nunca é passível de ser despido de parte fundamentável, aquela que assenta no reconhecimento de tantas coisas boas e fora do mundo que os objectos da nossa afeição possuem.


E o mesma lógica é aplicada de forma inversa. Porque há muita gente boa, (e muita má, infelizmente) e dentro da primeira amamos muito poucas pessoas. A magia está aí. Naquilo que fazem com o que têm, em parte sem saberem como ou porquê.


Para mim a beleza é completa dessa dicotomia.


Explico sempre porque gosto realmente de alguém, seja amante ou amigo, mas surpreendo-me pelo que me escapa, pelo que essa pessoa faz sem saber, mas que pela conjugação do que tem, se torna para mim único.


A magia do amor ou afeição é isso mesmo.


É no meio da parte que se explica, "eruptir" a ponta de empatia forte e intangível que nos escapa, nos faz progredir, nos coloca as borboletas no estômago e nos dá a urgência de cuidar e tocar aqueles que passam as nossas portas, ou entram no mar que fazemos nosso.


A magia é ter aquelas qualidades e fazer-nos esquecer que as podemos enumerar, surgindo como uma pessoa que simplesmente é, e da qual simplesmente gostamos com tudo o que temos.




P.S. : Para mim o amor completamente aleatório não existe. Em meu ver, chega a ser insultuoso, e detestaria que alguém gostasse de mim sem saber minimamente porquê, sem que conseguisse apontar-me uma única coisa que pudesse ser a porta de entrada para qualquer afeição grande que me tivesse, sem que eu pudesse concretizar nem que fosse um elemento de merecimento, ou que, inversamente, tivesse tudo esquematizado, como um sistema de avaliação pura e meramente objectiva.