
Da Genealogia e Morfologia do Horror.
Já me havia cruzado com este caso a propósito do livro de Jack Ketchum chamado "The Girl Next Door", que desde já recomendo, embora recomende também um estômago suficientemente forte, porque é absolutamente necessário. Já agora complementem com a leitura do livro "The Indiana Torture Slaying: Sylvia Likens' Ordeal and Death", de John Dean, coisa que pretendo fazer em breve. E depois arejar bem a cabeça para aceitar a informação e expurgar o incómodo amargo que a incredulidade provavelmente deixará na cabeça durante uma ou duas semanas.
A história de Sylvia Likens tem os típicos condimentos de circundância social próprios de histórias de morte ou comportamento desviante. Existe pobreza, miséria, ignorância e abandono. Existem dificuldades associadas à pressão inter-pares, às lógicas de segregação económica e social e à alienação da vida em comunidade.
A miúda de 16 anos que foi torturada e morta por vários membros de uma comunidade, sob o controlo de uma psicopata malévola, é a infeliz protagonista de uma das mais chocantes, revoltantes e injustas histórias de violência infligida sobre uma única pessoa de que há memória ou registo. E não ocorreu na idade média, ou em meio aos cultos bárbaros das civilizações mais obscuras. Aconteceu na década de sessenta, nos EUA. No meio de uma comunidade aparentemente "normal".
Aquilo que uma mulher e alguns adolescentes foram capazes de fazer a um outro ser humano ultrapassa aquilo que os piores pesadelos possam imaginar. O relato das sevícias arrepia a pele e lança uma onda de horror, incompreensão, tristeza e revolta que não tem qualquer cabimento em qualquer espécie de justificação que seja senão uma loucura e maldade conscientes e aterrorizantes. Os detalhes são demasiadamente horríficos para transpor para aqui, mas entre algumas das práticas, ficam as queimaduras de cigarro na pele e a marcação de uma mensagem ofensiva com uma agulha incandescente na pele. E isto é do menos horrífico. E sim, a moça acabou por morrer.
Mas talvez aquilo que mais arrepie, numa perspectiva de análise sociológica, se é que lhe posso dar esse nome, é o facto das agressões e a consequente morte terem sido perpetradas por membros da comunidade, por instigação da dona da casa, como uma espécie de adequação de tratamento por uma suposta qualificação social associada a promiscuidade. Irónia das ironias, e segundo a investigação, a rapariga era virgem.
Um outro grau desta terrível conclusão prende-se com a ignorância e omissão dos vizinhos e transeuntes que ouviam os gritos e testemunhavam as agressões. Não é raro o relato de pessoas que sabiam o que se passava, e que no entanto nada faziam, também divididas entre a qualificação social que tinham dado à rapariga, e a ideia de que o que sucedia era de alguma forma merecido. Um pouco à semelhança de uma conceito abordado por Jeffrie Eugenides e Soffia Coppolla nos "Suicídios Virgens", quem talvez tenha morto Sylvia Lykens (bem como as meninas Lisbon ) tenha sido a ignorância, a omissão, a alienação, se bem que no caso daquela, as coisas tenham contornos muito mais grotescos de realidade que a ficção de Eugenides.
É impossível não sentir a desolação e tristeza que uma conclusão destas traz.
Aquela que nos diz que somos capazes do indizível, do inominavelmente negro, lado a lado com tudo o que de bom também conseguimos fazer.
É aí que a compreensão me falha...
1 comentário:
gostaria que me informasse se existe esse livro em free ebook, na internet.
o meu email é g.ineslp@gmail.com
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