
Da Racionalidade Afectiva
À primeira vista pode parecer uma contradição em termos. O espaço para a racionalidade no afecto parece aferível a partir de uma lógica quase semelhante ao método científico.
Mas será?
Será mais afectuoso eliminar a racionalidade, a lógica, a explicação, todas direccionadas num caminho direccionado à reconstrução, à ajuda consciente e material do objecto de afeição? Ou será preferível deixar que o afecto se manifeste como uma exculpação emocional onde a mesma só significará a persistência dos erros, e o correspondente sofrimento do que teima em permanecer imutável?
Sinceramente, acho que ambos são necessários, sempre numa lógica de ajuda. Saber que a afeição nos pode levar no caminho claro do respeito pelo outro. É mil vezes preferível sentir o afecto ao ponto de aplicarmos uma lógica que conduza ao melhoramento do outro, não porque somos melhores, mas porque reforçamos e sublimamos aquilo que aquele tem e que pode ser tão visível e material, ao ponto de o arrancar do local onde se afunda.
A racionalidade afectiva é dizer o necessário porque se gosta. É trilhar o caminho do que é mais difícil de dizer porque o respeito a isso obriga. É celebrar as qualidades pela indignação que causa vê-las escondidas pela teimosia da própria pessoa. É ser mais activo na procura da verdade pessoal, mas sem cegueira, e sem condescendências. É querer mesmo o melhor na pessoa, sentindo que ela o pode dar.
Existem aqueles que a aplicam, que a professam e pregam, mas sempre na acção, na vertente do outro, daqueles que lhes causam o afecto, e que o merecem no melhor que pode ser dado, no qual a racionalidade não está esquecida. Existem aqueles que não estão quietos, nem conseguem. E o que seria de nos sem esses teimosos, que agem, que fazem, que mexem, tudo porque de alguma forma, sabem que a inacção condescendente e a pancadinha inerte mas combalida e "afectuosa" nas costas é apenas mais uma demonstração daquilo que o Paul Thomas Anderson dizia serem "as coisas que deveríamos estar a fazer uns pelos outros... e não estamos."
E o mais fantástico é que não acham o que fazem nada de especial.
Acham normal. Acham convictamente racional que perante o afecto, só se possa agir assim.
Ainda bem...
2 comentários:
Só um homem maravilhoso como tu pode receber tantas e tão significativas demonstrações de afecto. Merece-lo. Que te possam sempre alimentar.
Beijo...
Um homem de afectos a caracterizar a afeição.
Claro que afecto (racional ou não) é isto; é ver no objecto de afecto sempre o seu melhor e lutar para que isso venha à tona.
O afecto é incondicional. Faça o outro o que fizer é amado (no sentido lato) da mesma forma. Mas, concordo em absoluto com quem diz que não faz nada de especial. Claro que não! A escolha do objecto de afecto não é volitiva. Descobre-se que é e pronto. O resto vem por arrasto. Mimamos, estamos, ouvimos, partilhamos. A empatia faz o resto.
E quem de nós não teve já este sentimento por alguém? Ou por vários? E deve lembrar-se do quão compensador isso é!
Bjs, SK
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