ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, março 08, 2007

(Disclaimer: Como o assunto me interessa muitíssimo, este post é muito grande e chato como a potassa, ao contrário do tema que o motiva. Sintam-se à vontade para seguir em frente.)

Dia da Mulher.

Só por si poderia originar um aceso debate relativamente á natureza e efemérides que parecem conter em si mesmas elementos de discriminação. No entanto, se servir para denunciar de forma oficial os ainda recorrentes e inaceitáveis fenómenos de discriminação e violência que um género imprime sobre o outro em sociedades onde a ideia de um Estado de Direito é uma quimera, já terá alguma utilidade.

Na lógica e âmbito de direitos e deveres como cidadãos e seres humanos, a igualdade deve ser absoluta. Sem excepções que não estejam associadas à própria condição do género e intransponíveis deste para outro, como alguns aspectos da maternidade, interrupção da gravidez, tipos legais de crime específicos, etc.

Se um dia como este servir para denunciar determinadas práticas e afastá-las de qualquer espécie de defesa por diferenciação cultural e civilizacional, então que possa esse propósito significar a própria (muito discutível) defesa de um dia como este.

Parece impossível pensar em determinadas situações que ainda ocorrem, que são prática comum na chamada era da informação, mas que decorrem todos os dias. De acordo com as autoridades da ONU:

- Nos Eua uma mulher é espancada a cada 18 minutos, sendo esta a causa de cerca de 22% a 35% das visitas às urgências.

- No Peru, cerca de 70% dos crimes denunciados à policia envolvem violência doméstica.

- Em todo o mundo, mas com especial ênfase nos continentes Asiático e Africano, dois milhões de mulheres (sim, 2 000 000) são sujeitas a excisões genitais, em práticas que envergonhariam por defeito alguma da barbárie que criada pelas crónicas mais negras da idade média.
- Ainda existem as práticas de selecção de género, sendo o caso mais mediático a China, com as conhecidas salas de morte , onde o que lá acontece desafia a nossa capacidade para adivinhar o horror próprio do gigante económico que todos reverenciam pela sua capacidade de crescer, mas que funciona como uma colónia de formigas, onde quase todos parecem dispensáveis, especialmente as mulheres recém nascidas. Tudo é passível de ser sujeito ao rolo compressor.

- Em Ankara, na
Turquia (como sabem, candidato a Estado Membro da UE) Mehmet Halitogullari ignorou os pedidos de clemência da própria filha de 14 anos, estrangulando-a com um fio metálico até que ela perecesse. Este pai estrangulou a própria filha, vendo-a morrer lentamente, na agonia da asfixia porque a mesma tinha, segundo ele, manchado a honra da família por ter sido raptada e violada. O “pai” justificou a sua acção pelo facto de ter a necessidade de limpar a honra da família, dizendo que ignorou os gritos da filha, assassinando-a a sangue frio. E este é só um exemplo dos assassinatos de honra, o que é prática frequente naquele país, no qual se compara este acto a cortar um dedo. E isto sucede com a conivência da própria família, incluindo em alguns casos, as outras mulheres da família. Correndo o risco de ser pouco objectivo, isto pouco se afasta da psicopatia assassina de muitos serial killers.


- De acordo com relatos da ONU oriundos da Índia, a pesquisa genética para reprodução selectiva é um negócio em expansão, além de que as clínicas especializadas utilizam publicidade na qual se diz que é preferível gastar 38 USD numa interrupção de gravidez de uma menina do que 3800 USD num dote a conceder mais tarde.
A Índia é também conhecida pelos amantes repudiados que desfiguram ou matam a mulher que lhes interessa usando para tal ácido sulfúrico, ou por esposos que consideram o dote adquirido muito baixo.
Além disso, existem os bordéis disfarçados de ashrams “sagrados”, para onde são enviadas as
"meninas viuvas" que Deepa Mehta correndo risco de vida às mãos dos fundamentalistas que, curiosamente, ficaram mais furiosos com a denúncia de um amor entre castas diferentes do que com a admissão da prostituição dessas menina e mulheres viúvas. Apesar dos movimentos reformistas, estes fenómenos parecem continuar a existir nos dias de hoje.


-E para não falar nas violações como prática de eugenia, conhecidíssimas nos conflitos dos Balcãs, bem como em muitos países africanos, e em especial no horror de
DARFUR.


-E finalizando com uma nota de humor, saibam que é, ou irá ser ilegal vender brinquedos sexuais, com especial incidência nos vibradores, em vários estados dos EUA como
Alabama, Tennessee, Texas e Arkansas, dando multas e penas de trabalho pesado, mas onde é facílimo e barato comprar uma arma. Mas a ridicularia não termina aqui, estendendo-se ao Tribunal Federal que legitima a criação deste tipo de legislação. no mínimo idiótica.


Enquanto tudo isto for uma realidade, o dia da mulher, nem que seja pelo facto de chamar a atenção para situações que não figuram nos piores pesadelos de muitos, talvez tenha algum sentido, não como data de diferenciação de género, mas como chamada de atenção para aquilo que ainda ocorre em forma de violência exercida por um género sobre o outro. Nada justifica tal assimetria de direitos e garantias entre seres humanos. E quanto a isto estamos conversados. Qualquer ser humano, homem ou mulher, tem direito à protecção dos seus direitos e igualdade de circunstâncias, tratando-se de forma objectiva de forma igual o que é igual e de forma diferente o que é diferente.

Existem no entanto outras perspectivas, especialmente no ambito da manutenção da diversidade necessária entre géneros e na riqueza que daí advém, bem como nos eternos combates de perspectivas entre os dois sexos, especialmente no que diz respeito à sua inter-relação social, emocional e consequentemente comportamental.

Homens e mulheres também andam às turras, e andarão sempre, pelas formas como a sua genética e condição de aprendizagem, social ou não, os condicionam ou fazem crescer. Essas diferenças vão desde a forma como se pratica e sente o núcleo da prática sexual, bastando para isso pensar que o clítoris tem o dobro das fibras nervosas que o pénis tem, sendo oito e quatro mil respectivamente. Pode parecer uma piada, mas não é efectivamente.

Eu acho sinceramente que as mulheres me enriquecem a vida. Das mães, às namoradas, às amigas, às amantes, muito raramente senti que não tenha aprendido alguma coisa com elas, especialmente em meio à dificil navegação dentro das suas complexidades e necessárias incongruências, típicas do ser humano. Como ser pensante, emocional e sexual, a mulher é sempre um mundo a descobrir, e qualquer atitude de condescendência por razões de género é produto da pior forma de ignorância ou sobranceria possível.

No entanto, algumas das maiores detractoras do machismo ou da tentativa ou exercicio de domínio ilegítimo de um sexo sobre o outro, são defensoras de práticas e posições que em nada diferem daqueles que criticam, e que infelizmente são mais frequentes do que se julga. A pior face do feminismo assenta na condescendência e exercício de preconceito escarnecedor sobre o outro género. É combater fogo com fogo e usar de tácticas de desgaste de um discurso válido para efeitos também eles violentos e em muitos casos, inaceitáveis.

Algumas das vozes do feminismo não defendem a igualdade das mulheres, mas uma espécie de reconhecimento de uma suposta superioridade que deveria ser evidente, sendo denunciada por uma espécie de condescendência infantilizante que além de ser injusta, tenta ser generalizante. No fundo, trocar um dominador ilegítimo por outro, face á denuncia de supostas fraquezas e evidentes inferioridades. Já falei de alguém que o demonstra sem pejo aqui. Alguém que já foi acessora de imprensa do Presidente da República, e que tem a responsabilidade de não passar tamanha demonstração de preconceito para alguma opinião pública que infelizmente a ouvirá e interiorizará os disparates proferidos. Mas como ela existem muitas, e o discurso é perfeitamente reconhecível no seio das nossa intimidade social, onde estes discursos são ouvidos e supostamente legitimados.

Eu não temo mulher alguma. Respeito aquelas que me respeitam, e não tenho problema nenhum em aprender com mulheres que são mais capazes, hábeis e no fundo melhores do que eu. Mas não superiores naquele sentido já referido. Reconheço a qualidade superior à minha, como o faço relativamente a homens, se for esse o caso. Argumentem, convençam-me, e estou-me borrifando para o timbre de voz ou que tipo de volume está na zona do peito. Seja homem ou mulher, valem as palavras, as acções e as formas de estar e viver. Se for melhor e for mulher, entao toca a aprender algo com ela. Sem medos ou inferioridades.

Sim, sou um defensor acérrimo da qualidade da mente e do corpo. Muitas mulheres consideram isso uma espécie de exercício de machismo, porque significa uma pressão para elas. Errado. Porque a pressão, pelo menos para mim, é exercida também no plano mental, emocional e da prática da cidadania, para homens ou mulheres. E deixemo-nos de ideias de que não há pressão física sobre os homens, porque isso é uma treta na qual já ninguém acredita. Há de todas as formas. As pessoas tornaram-se exigentes, e acho bem. Nem nós próprios nos devemos dar por garantidos a nós, e não evoluir é morrer tanto aos olhos dos outros como aos nossos. O truque é ser exigente, mas claro, não maníacos do perfeccionismo. A regra do bom senso não é, como noutras situações, despicienda aqui.

Em suma, este dia diz-me pouco porque não me lembro das mulheres só neste contexto. Mas também não tenho nada contra ele se significar uma forma visível de corrigir desigualdades, injustiças e deter agressões injustificadas (*).

Celebro o conceito da mulher todos os dias. E todos os dias ele me irrita, admira, maravilha, intriga, chateia, desilude, ensina, ou seja, todos os dias o ser humano capta o meu interesse por cada uma das suas facetas psico-fisico-intelecto-sexuais.

Feliz (mais) um dia de metade da humanidade.

Ok, a minha preferida, pronto.

(*)o que por definição são quase todas as formas de agredir seja quem for. Não todas, mas quase.



5 comentários:

Kitty disse...

Tu tens noção de que esse template, embora interessante, dificulta a leitura dos teus posts? :-D

Tuxa disse...

SK,
Independentemente do numero de linhas dos teus posts, e sempre um prazer ler-te... gostei muito.

A. disse...

...na realidade não me apetece de todo falar da Mulher ou do teu magnífico texto
(que só nos/te nobilita, sem dúvida alguma. obrigada SK. )
...preguiça minha.




mas como a minha experiência
"Anatiniana"* foi mais forte que a ingorância.deixo ficar apenas um estado de consciência (assim) meio atrofiado.e meu...







SK...e que não fosse um Mehmet de Ankara, na Turquia!!!

lá está...ele há coisas.que susto!




a.braços

*;)

A. disse...

(Anser is Latin for "goose" and Anas is Latin for "duck."

Anatinus means "of ducks" or "pertaining to ducks." )








...achei melhor explicar(parte)do meu disparate.enfim...

A disse...

(somos umas patinhas, basicamente é isso!) LOL

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aparte o comentário aí da minha homónima queria apenas dizer-te que este texto está belíssimo, completo e é a tua cara.
Orgulho-me de te ter como amigo.
Obrigada é a palavra que me inspira dizer neste momento.

:)

Beijos

(hei-de voltar com mais calma para ler o resto, tens aqui uma produção de textos incrível)