ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, março 22, 2007



Foto - Ben Arieh





É complicado traçar a ideia de progressão e objectivo que temos com toda a clareza que seria desejável. A história que temos como nossa, nem sempre, ou poucas vezes, segue o curso narrativo e “arranjável” que a distância permite ver com clareza. A racionalidade é uma espécie de luxo, mantido a duras penas, e sob uma capa de auto protecção que a mais das vezes não é sequer voluntária. Mas não quer por isso dizer que não possua uma relação causa efeito, ou eu não seja feita de factos ocorrido na peugada no tempo. Em algum momento, a esquina é dobrada, e as perspectivas alteradas trazem um automatismo onde tudo parece feito de mecanismos precisos, mas sem explicações axiomáticas, tão ao gosto dos pragmáticos.

Não restam dúvidas de que a história em causa, em plena medianiz, é feita das hesitações próprias de procuras parcelares, de caminhos feitos de costas em direcção à percepção das razões. E se avançar não significa de forma nenhuma a fuga para a frente, há que perceber que quando a bicicleta atingir o declive de montanha, o esforço para a vencer necessitará de respostas, como sangue claro nos músculos. Se assim não for, o cansaço, como um oroboro, acabará por devorar o próprio esforço, inconsciente da suposta e bem intencionada arrogância dos objectivos, os quais são apenas feitos de busca de respostas, não de efeitos. Sim, é assim tão simples. Assim tão directo. E assim tão indecifrável.

Passaram muitos anos desde a percepção dos espaços inadequados para a arrumação dos intentos, afectos, forças e fraquezas. Como qualquer bom pragmático, a ideia de que entre mortos e feridos, alguém se há-de safar é tão prática como a demonstração de regras tendentes ao holismo, ou desejo de certeza universalizável. E se a incerteza for em si indemonstrável, porque não aceitá-la como escopo do percurso? Se funciona durante tantos anos, a misericórdia do mundo envolvente torna pelo menos mais fácil a sua inclusão na teimosia dos caminhos. Ainda que estes sejam escolhas que, pelo menos parcialmente, afinal não se escolhem. E as dores derivadas não são por isso mais fáceis. Talvez até sejam piores.

O problema das grandes cicatrizes é a convicção de integridade que trazem. E será dispensável qualquer tentativa de transferência sensorial para compreender seja o que for. Num dado momento, um segundo de malfadada percepção muda o mundo, e os efeitos são como uma estrada incerta num país sem montanhas. O facto de o horizonte a engolir, não garante o seu fim. E é complicado fazer chegar a outros a noção clara do que anteriormente tinha uma estrutura una, e de um instante para o outro passa a ser fragmentado, explicado, e terrivelmente desmistificado. Com essa percepção, cessa a percepção da integralidade emocional, e como para qualquer ser perdido seja onde for, a estratégia é clara. Segue-se em frente, porque a algum lado se irá dar com certeza.

Estou certo, pelos relatos que ouvi, e dos quais ainda me lembro, que nenhuma destas percepções é autónoma. Não há inatismos na confusão, ou na incapacidade de arrumar a loja dos sentimentos. Ela nasce, cria-se, e tem o que de poderia chamar de anti-musa. Resiste aos comentários dos arautos do tempo curandeiro, como será compreensível, o cristal colado pode reter tudo no seu anterior, mas não brilha da mesma forma, e em cada caco há uma perspectiva diferente que surge consoante a luz e o olhar nele se centram. E as miríades nem sempre são bonitas. A inconstância não tem tempos de aviso. É uma merda, mas é verdade.
Tendo isto tudo em conta, os detalhes que são dados pela narrativa trazem à tona as realidades. E seria natural que com o passar dos anos, o esclarecimento significasse o fim das questões e da incerteza. Da insegurança e uma certa ira provocada pela fome. Gostaria que dizer que passa, que se funde numa percepção esclarecida do material.

Mas para alguns, não é assim tão fácil.

Para já não creio que aconteça a ninguém. Alguns acabam simplesmente por se render. Outros encontram atalhos, curvas, declives e subidas. E outros continuam. Que se lixe o “para onde”, é preciso é ir. E é nesse caminho que encontramos alguém que poderia fazer parte de uma história (nada) simples. Narrativa progressiva, quase circular. Passos dados pelos afectos, pelas conquistas, pela sede de progressão, pela imprudência dos limites feita de uma luta interna. Essa luta, como disse acima, pode ser adivinhada, mas nunca objecto de compreensão por transferência. Ninguém pode simular a inquietude do cérebro na escuridão, a ausência do sono, a piedade dos gostos parcelares transformados na maior aspirina de alma do mundo.
E no entanto tenta-se.
Entregamos o que podemos, entramos até onde nos deixam, e observamos, com os braços estendidos, um bebé grande que caminha num muro de aresta estreita. E ele lá vai. Por vezes dança, noutras cambaleia, e não raras vezes corre.

Há algo de irremediavelmente poético e irresistível nos esclarecidos teimosos. As partes de si que entregam, por vezes por acidente, são verificáveis a mais das vezes nas escorregadelas das suas fraquezas, nas fragilidades quase patéticas das suas desculpas. O desejo que as corrói, e nos qual por vezes felizmente nos incluem, é a sua viagem de concepção e incêndio. E amamo-los na estreita medida da esperança que nos causam, no vislumbre da percepção que sabemos que têm, e com a qual nos brindam de tempos a tempos.
Mas é um jogo perigoso, e mais ainda, ocasionalmente incongruente. É uma bela estupidez, uma tontice deliciosa, que os reduz e engrandece ao estatuto de miúdos demasiado elucidados, demasiado grandes, demasiado humanos perante as teimosias próprias da sua enorme capacidade de sentir. Apesar de tudo, estão tão vivos que nos vão queimando, irritando, e acabam por se instalar na nossa quota-parte interior reservada dos perenes. Filhos da mãe. Neste caso, também da minha. Bem, a ironia faz bem ao sangue. Não é o que dizem
?

Talvez existissem outros meios de o reconhecer. Sim, porque não me atrevo sequer a esboçar uma explicação. Seria como ter aquelas conversas acerca dos limites da percepção universal, quando já se está com uma bebedeira desgraçada, a qual, felizmente, adormece pelo absurdo a real percepção do horror existencial. E lamentamos informar, existe mesmo.
Sim, é mais fácil desdramatizar e colocar tudo na onda do fixe, não se passa nada, desafectem a cena e sejam realistas “cool”, mas no fundo, os problemas estão lá, as rachas na parede também, e a água, a bem ou a mal, começa sempre a escorrer pelas frinchas como sinal de pressão.

Parece que ainda me recordo da faixa de cabelo por cima dos olhos. Os olhos que apareciam e desapareciam no contexto do rosto. A avenida larga cheia de sol, o quintal, a praia, o calor. Um cenário igual a mil outros, mas totalmente diferente, como são todos os que significam uma perda. Daquelas que não se explicam mas que moldam de forma talvez irremediável. Se são danos ou progressões, só a viagem que encetas consegue responder, e por vezes nem isso. Acho que poderia imaginar cada passo da história. Cada idiotice assim analisada quando se consegue ser racional, e desmontada pelos efeitos na pele. E por vezes olho e encho-me de um sentimento misto se orgulho e tristeza. É difícil não sentir o primeiro na honesta tentativa de uma coerência feita de dor, por um lado, e o segundo por esta mesma, embora a mais das vezes apareça disfarçada. Acho que na ideia de protecção a um ente realmente querido está sempre encerrada a ideia de indicação de um caminho. Dos passos necessários. Mas algumas pessoas tornam essa tentativa mais difícil que outras. Tornam-na redundante, feita apenas de emoção, sem o dom do pragmatismo ou solução clara que abala realmente os tais esclarecidos teimosos.

Seja nativa de uma casa junto da praia, de um cabelo encaracolado, ou tenhas nascido com ela, a voracidade do percurso é um jogo perigoso, como todas as obstinações o acabarão por ser. Têm o encanto da capacidade, do triunfo, da força, da multifacetada caixa de ferramentas. Mas assim como a nicotina, acelera as sinapses do sujeito, ao mesmo tempo que o vai matando lentamente. E ninguém que gosta desses sujeitos está para aturar isso.

A celebração de alguém é sempre expressa da melhor forma através da consciência da sua história. Daquilo que dela surge para sustentar uma narrativa, uma recordação, uma experiência que acrescentou um tom à palete destinada ao real. Que deliciosa é a partilha de histórias, a troça de bom coração, os cheiros e visões detectadas ao mesmo tempo. E como tudo se sedimenta na construção das uniões, das transcendências do sangue, da linguagem não verbal, da assumpção de tiques, gostos e lealdades.

Eu tenho isso tudo, em ficheiros desordenados, é certo, mas bem presente. Alguns instantes posso descrevê-los até ao grão de areia numa camisola, ou o rubor de um rosto. Carimbados pela aprendizagem que originaram, são feitos de um afecto que o tempo não desmembra, de um antagonismo complementar que gera lealdade e o tão raro senso de real pertença.
A vida que tenho, e as minhas obsessões, são inseparáveis da compreensão e contestação das tuas, e ainda mais do percurso que fizemos até chegar aqui. Teve alguns buracos, é certo, mas é da estrada plana que mais me lembro, e aquela que não raras vezes faz falta em virtude das curvas da tua estrada de luz ao fundo. E entre irmão, embora possa parecer estranho, nem sempre sabemos o que dizer. Arrisco a concluir que talvez até seja mais fácil com sangue alheio do que com o nosso. Se estou a escrever isto, fica mais que provado.

E no entanto…

O teu encanto está lá sempre. Aquele de que falo acima. Aquele que te faz fugir, mas nunca desaparecer. Que te faz claro, mas “multi-laminado” e complexo, como uma pedra de xisto cortada pelo vento e encerrada numa daquelas encostas onde cresce o vinho que tanto gostas.
E ainda que na discórdia de algumas essências, na visão diferenciadas de alguns fenómenos, a união desafia a normalidade, complementa-se, acrescenta capítulos a uma história, e faz nascer do antagonismo a honestidade que cria os laços que ficam. Talvez uma maior concordância não permitisse uma abrangência tão grande de amor fraternal, nem uma admiração tão vasta.

Quem sabe?

O sangue não explica tudo.
São as histórias, afinal, que tudo fazem.
Que nos moldam, unem, e lançam um contra o outro na complementaridade.
Que afiam os dentes da lealdade.

FELIZ ANIVERSÁRIO, IRMÃO.
(21/03/1969)

Mais do que o sangue, é algo indefinível e mais abrangente que nos une.

A nós, que somos algo de rocha.














4 comentários:

Patrícia disse...

Belíssimo e merecido. Lindo, meu escritor bendito.

Mais uma vez, a força do Amor que sentes torna a tua escrita, os teus escritos, ainda mais arrebatadores, perfeitos.

Tuxa disse...

Estes rasgos de Amor continuam a iluminar os dias de quem por aqui passa... sabe sempre bem vir a esta casa!

Anónimo disse...

...
Luz, intensa luz,intenso amor vivo
dentro de cada letrinha tua.

Comoventemente vosso.

A disse...

E só quem tem irmãos e os ama desta forma entende. ainda que não seja do mesmo sangue.
Mas acima de tudo, porque há muito mais entre quem o tem.

Defines o indefinível.
Bem hajas.

(faço anos dia 17, lol)

Beijos