Há algo que me espanta sempre, não importa o tempo que passe, ou quantas vezes experimente o fenómeno.
A capacidade que temos de criar uma afeição a partir da construção do impacto de uma personalidade alheia parece um truque de magia. Simples, como todos os bons truques o são, mas com a característica da realidade.
Pensem bem.
Conseguir olhar para uma pessoa e importarmo-nos com o que diz. Com o que pensa. Com a forma como ri, com as coisas que nos ensina. Exercer uma preferência, dispensar um bocado de mente e pensamento porque algo na pessoa cria um impulso de proximidade, e como tal, nos faz gostar dela.
O forjar de uma afeição, numa construção simbiótica. Os amigos, amantes e amores, a percepção de que algo que é alheio a nós parece pertencer-nos de alguma forma. E isto ocorre porque simultaneamente lhe entregamos algo saído do simples facto de lhes querermos bem. E a magia não está no reconhecimento das suas qualidades. Nunca achei que afeição alguma pudesse estar despida de fundamentos associados ao mistério das empatias. A causa-efeito também tem voto, e de qualidade.
Mas o truque de que falo é perfeito precisamente quando transformamos esse reconhecimento num gosto pela pessoa, e passamos a reconhecê-la para além daquele. De tal forma a afeição se confunde com a pessoa, que retroage a boa ideia que tinhamos, e os fundamentos parecem então tornar-se mais produto incrementador da afeição, e não o contrário, que afinal lhe deu origem. Fica a ilusão (feita convicção de realidade) de que a pessoa sempre foi assim, talvez até antes de a conhecermos. Sentimo-nos antigos e pertencentes a uma boa história feita de tais protagonistas.
Importarmo-nos com (alguns) outros leva-nos a rever de alguma forma aquilo que somos. A conhecermo-nos melhor. E talvez a equilibrar as perguntas quanto a outros instintos não tão louváveis, mas tão surpreendentes e reais como este.
Normalmente acerca do nosso melhor, julgo eu, porque no fundo nos sentimos gratos por algo que em ultima instância é construido por nós, mas revertido em outrém. E agradece-se, através dos actos inseridos na experiência do gosto e do desejo de provocar bem estar, porque acaba por significar algo para o próprio.
É um truque antigo.
Dos melhores.
1 comentário:
Absolutamente divino o que escreveste.
Identifico-me de tal forma com este pensamento que poderia perfeitamente dizê-lo relativamente a alguém (desconfio que saberás a quem ;o)).
Beijos, SK
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