ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, março 01, 2007



Há algo que me espanta sempre, não importa o tempo que passe, ou quantas vezes experimente o fenómeno.
A capacidade que temos de criar uma afeição a partir da construção do impacto de uma personalidade alheia parece um truque de magia. Simples, como todos os bons truques o são, mas com a característica da realidade.
Pensem bem.
Conseguir olhar para uma pessoa e importarmo-nos com o que diz. Com o que pensa. Com a forma como ri, com as coisas que nos ensina. Exercer uma preferência, dispensar um bocado de mente e pensamento porque algo na pessoa cria um impulso de proximidade, e como tal, nos faz gostar dela.
O forjar de uma afeição, numa construção simbiótica. Os amigos, amantes e amores, a percepção de que algo que é alheio a nós parece pertencer-nos de alguma forma. E isto ocorre porque simultaneamente lhe entregamos algo saído do simples facto de lhes querermos bem. E a magia não está no reconhecimento das suas qualidades. Nunca achei que afeição alguma pudesse estar despida de fundamentos associados ao mistério das empatias. A causa-efeito também tem voto, e de qualidade.
Mas o truque de que falo é perfeito precisamente quando transformamos esse reconhecimento num gosto pela pessoa, e passamos a reconhecê-la para além daquele. De tal forma a afeição se confunde com a pessoa, que retroage a boa ideia que tinhamos, e os fundamentos parecem então tornar-se mais produto incrementador da afeição, e não o contrário, que afinal lhe deu origem. Fica a ilusão (feita convicção de realidade) de que a pessoa sempre foi assim, talvez até antes de a conhecermos. Sentimo-nos antigos e pertencentes a uma boa história feita de tais protagonistas.
Importarmo-nos com (alguns) outros leva-nos a rever de alguma forma aquilo que somos. A conhecermo-nos melhor. E talvez a equilibrar as perguntas quanto a outros instintos não tão louváveis, mas tão surpreendentes e reais como este.
Normalmente acerca do nosso melhor, julgo eu, porque no fundo nos sentimos gratos por algo que em ultima instância é construido por nós, mas revertido em outrém. E agradece-se, através dos actos inseridos na experiência do gosto e do desejo de provocar bem estar, porque acaba por significar algo para o próprio.
É um truque antigo.
Dos melhores.

1 comentário:

minerva disse...

Absolutamente divino o que escreveste.

Identifico-me de tal forma com este pensamento que poderia perfeitamente dizê-lo relativamente a alguém (desconfio que saberás a quem ;o)).

Beijos, SK