
Ligar a vitrola antes de ler, por favor.
Obrigado.
Obrigado.
Olá Pai.
Há muito tempo que te conheço. Há muito que sigo os meus passos nos teus, e embora talvez não nos conheçamos assim tão bem como isso, desafiamos há muito o plano das ligações terrenas. Aquelas que dizem ser limitadas, como estações do ano um pouco mais longas no presente da vida de todos, nos espaços do tempo enquanto ele lenta e inexoravelmente prossegue, sabe-se lá em que direcção.
Há tantas histórias de que consigo recordar-me. Tantas que não aceito a progressão da idade sobre ti. Velhinhos que vejo, mais novos que tu, e nunca te consigo associar a eles, porque realmente não o és. Não tenho olhos para essa parcela do passar do tempo. Os olhos estão lá, do verde ágil, das palavras entusiastas, do que não tem tradução relativamente ao que me ensinaste toda a vida. Daquelas coisas que contadas a outros nada dizem, colocadas no plano do meu crescimento, nos instantes em que passei de um momento para o outro, no caminho em que me colocaste.
Se hoje tenho cabeça para pensar, devo-o ao imenso manancial de escolhas que puseste ao meu dispôr sem que eu, como qualquer jovenzinho com sorte, desse por isso. E na construção da minha personalidade, dei os erros que provavelmente nunca querias. E por saber-te felizmente imperfeito, como os modelos devem ser, mostras todos os lados das escolhas, mesmo aquelas que fizeste e que te renderam coisas menos boas. Vi os erros que mesmo assim não toldaram a tua essência. Ensinar e amar é também personificar o erro, porque o que não é tangível, dificilmente se torna interiorizável Deve ser por isso que sou agnóstico, e se for a pensar, devo-to a ti (e a essa senhora aí do teu lado) por também ter podido efectuar essa escolha.
Portanto, reconhecendo a minha falha, porque a lógica do dia de calendário é a pior possível, aproveito as palavras que tenho para falar de um universo onde as coisas são tão por vezes tão íntimas e carnivoras que nenhum vocábulo serve. Tudo parece um balbuciar desconexo, talvez aquele que tenhas ouvido muitas vezes quando ainda lutava para ter dentes, confortado por uma canção de voz grave e mãos poderosas.
Por isso não te desejo um feliz dia, porque seria limitar-te a umas insignificantes 24 horas. E eu tenho 33 anos de histórias. Não para contar, mas para recordar, fazendo um mapa de mim mesmo, por onde passas, por onde deixaste a incondicionalidade de um estado de afeição. Só por isso és tão infinitamente superior, tão mais produto da tua reconstrução, do passar do tempo, da colheita dos frutos do tempo terreno, desgraçadamente limitado.
Este é mais um dia em que vemos o sol juntos.
Tu és o homem do momento. De obra feita, dir-se-ia em linguagem corrente. Mas ainda com muito para acompanhar na conservação da mesma, tão necessitada ainda da tua intervenção.
Para ti não há comboios.
Continua a teimar, se fazes o favor.
Obrigado.
4 comentários:
Lindo, lindo, lindo. Já lhe imagino as lágrimas teimosas. :) Lindo, my King.
És tão grande nesse teu Amor profundo...
E se o mundo fosse feito de mais elegias deste grau de beleza, provavelmente estaríamos todos "on a better plain"...
Abraço a ti e ao teu pai.
Belissimas palavras. Nas palavras ao teu pai (que sei muito sentidas) a homenagem a todos os pais do mundo...
Beijos ao filho e ao pai. Ter um filho que lhe dedique estas palavras é a prova de que fez um fez um bom trabalho, se outras provas não existissem. ;-)
Arrepiante.
Não é para todos.
Um grande homem, sem dúvida... pois um grande homem vê-se também na sua obra, e que melhor obra define um homem senão o seu filho?...
Beijos meus
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