ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, março 12, 2007



Afinal como é?
Existem pessoas que fazem mal, ou pessoas que simplesmente se comportam conforme que lhes é permitido pelas outras?
É um dilema lixado, porque de alguma forma está sempre ligado à noção daquilo que define cada personalidade, dos limites auto-impostos, e mais do que tudo, daquilo que achamos não admissível em abstracto.
Que diabo, fraquezas toda a gente tem, e quem nunca fez asneira ou se comportou de forma da qual não se orgulha particularmente, que atire a primeira pedra. Mas usar conscientemente determinadas estratégias que serpenteiam pelas fraquezas do outro para daí tirar dividendos da sua credulidade é algo que sinceramente me dá alguma urticária.

Mas vamos lá a ver a real perspectiva das coisas.
Até que ponto esse discurso/estratégia tem pernas para andar sem a conivência do ouvinte? Até que ponto os factos justificam uma intervenção racional no sentido do esclarecimento, e da escolha esclarecida?

Os "artistas", coelhos fofinhos com dentes afiados se quiserem (eu gostei imenso da imagem), são como uma engrenagem bem oleada, onde o funcionamento dos conceitos é tão fluido como um mar sulista num dia de verão onde nem o vento sopra. Cai bem, parece ter a lógica daquilo que o ouvinte integra como sendo o encaixe das suas próprias inevitabilidades, e nas quais se escuda para depois tirar as conclusões menos boas.
As pessoas que, mesmo sabendo que os seus alvos são assim construídos, aproveitam essa debilidade, demonstram duas formas de desrespeito.

1 - Pelo outro, porque bater em quem está em baixo ou demonstra incapacidade de se defender é baixo por qualquer padrão aplicável. É sorver o inatacável da outra pessoa, é instrumentalizá-la ao ponto de uma auto-gratificação que se justifica na estratégia aplicável.

2 - Por si próprios, porque se a pica se mantém por pessoas que tão mal se têm em própria conta, que não protestam, que não reagem, então os manipuladores detestam verticalidade e apreciam moluscos invertebrados, o que não os abona muito.
Os artistas, que deambulam numa constância da sua atitude muito bem calculada e inteligentemente armada, predam naquilo que deveria ser matéria da integridade pessoal. Aquelas coisas onde não se toca, onde não devemos mexer, mesmo que pareça tão fácil, tão exposto. Mas se for a ser perfeitamente pragmático, esses especímenes só farão aquilo que lhes é permitido. E se a porta é escancarada, mesmo quando o cavalo é claramente de Tróia, então a ocasião faz o ladrão, já lá dizem os antigos.

Agasta-me mais a atitude de teimosa recorrência, de estupidez (desculpem lá os maus fígados, dormi pouco) a qual, perante as continuas manifestações de histórias coladas com cuspo e desrespeitos variados, escudam o masoquismo e a falta de respeito próprio sob a capa de um sentimento qualquer. E depois queixam-se tremendamente porque afinal de contas, as atitudes e lógicas que se verificam não assentam na perspectiva que idealizavam. É uma outra forma de inflexibilidade por crença auto-imposta.
Perante a verdade, a pessoa pode batalhar. A persistência pode ser muito válida, e até tocante, mesmo quando as coisas parecem não ter remédio. Mas é feito num contexto de opção consciente, de opção perante o que o outro esclarece. E até há histórias que acabam bem, e outras que não.
Mas o essencial é que quer de um lado, quer do outro, não há dissimulação. É preferível quando há um combate o mais honesto possível, coisa que o "artista" não permite, porque a viscosidade do seu discurso assenta em coisas com as quais não se brinca ou manuseia a não ser em caso de extrema verdade ou necessidade.
Por isso o dilema fica.
Recordo uma história do meu homónimo onde os vampiros só entravam em casa depois de serem convidados. E aí, pronto, caldo entornado.
Neste caso, a ideia é algo semelhante.
Será que podemos levar completamente a mal o predador, se a presa teima em deitar-se de barriga para cima e permanecer imóvel?
Bem, no meu caso pessoal, julgo que prosperar junto de outrem à custa das fraquezas reconhecidas deste é sinónimo de indignidade do predador. E o facto de ser fácil, não o torna correcto. Pelo contrário.
Mas também aquele que leva duas pancadas na tromba e fica, é porque não ainda não as levou em número suficiente.



9 comentários:

A. disse...

"Algo na tua cara me recorda um coelho, penso enquanto falas – talvez um certo ar tímido, que poderia parecer esquivo se eu não te conhecesse tanto, a tua forma lépida, quase furtiva, de andar pela casa, o modo como algumas vezes não acabas as frases – porque os coelhos, dizem, também não acabam as frases, deixam-nas como tu assim em suspenso, no ar. Por esperteza, dizem ainda, porque tira o melhor partido do mundo quem não explica muito e apenas deixa adivinhar o que pensa, para depois mudar de opinião conforme as circunstâncias."


Teodolinda Gersão
– A Árvore das Palavras

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...encontrei este texto na semana passada.interessantes palavras :)



bem...ficou em rascunho à espera de um dia ser post...

há coisas engraçadas.




abraço

Dentuças disse...

Damn'!!!

They caught me all up, in the middle of the act...

Wanna ride to the moon?


Take my breath away...
;))LOL

Patrícia disse...

O teu blog não gosta de mim, my King. :D :D :D Tenho de abrir o raio do Internet Explorer para poder comentar (senão, não vejo as letras dançantes), acreditas? E só me acontece com o teu blog! :D

Anyway, poderia puxar este post para outras paragens, distorcer ligeiramente as ideias até resultar no outro lado do espelho, mas... não vou armar-me em carapau de corrida! ;D Em abstracto, concordo com a tua exposição de ideias. O problema é que nos casos concretos consegue-se sempre encontrar pontos de vista diferentes (mesmo apenas entre aqueles que observam do exterior). Tudo depende dos valores prioritários, da história pessoal, das aspirações, desejos, necessidades... Ou assim me parece.

Aí o primo é muito giro! ;D

Lisa disse...

Isto faz-me lembrar a história da burla, que tem sempre como cúmplice, para se consumar, a ganância e cupidez do burlado.

No entanto, e como não gosto de estigmatzar pessoas como "estando a pedi-las", não reconheço a ninguém a legitimidade de se aproveitar das fraquezas dos outros. Mesmo que essas fraquezas, como no caso da burla, consistam em sentimentos ou estados de espírito que, por si só, possam também ser censuráveis.

Quem se aproveita da fraqueza alheia está no patamar mais baixo, sempre. Perante gente desta a vítima é sempre inocente. Ser solidário não é apontar o dedo à vítima ou afirmar-lhe "eu bem te avisei" ou "estavas mesmo a pedi-las". Ser solidário é ajudar a vítima a levantar-se, dar-lhe um ombro amigo. Cedo ou tarde essa pessoa chega à conclusão que, se calhar, até se pôs a jeito. E não o volta a fazer.

Ou então volta, e quem é amigo é quem está por perto para dar a mão, de novo, e de novo...

(ou então sou eu que sou muito ingénua e parvalhona, mas acredito mesmo nisto que afirmei)

Stephen King disse...

Em tese, concordo contigo. :)
A questão é precisamente a malta que levando na corneta, se põe a jeito novamente, e novamente, e novamente. Relativamente a esses, a compaixão passa-me muito rapidamente...

Obrigado a ti e a todos

minerva disse...

Claro que nas situações de "artistas" a maior parte das vezes a presa acaba por ter um comportamento de conivência com o predador. E isto acontecerá por um sem número de factores: falta de racionalidade, credulidade a toda a prova, auto-estima baixa, etc...

Mas, sem dúvida, que o artista também é um bom artista e usa de toda a sua manha e lábia para desempenhar o seu papel à altura.

É preciso não esquecer que na relação predador/presa existe uma relação de força/fraqueza instalada até porque um tem o dominio sobre a situação e engana e joga e o outro desconhece a verdade e na sua boa fé acredita inocentemente (vá-se lá saber porque razão) que o outro está a ser transparente como a água (já não sei se estamos a falar de um artista se de um mágico).

A nós comuns dos mortais conhecedores destas situações resta-nos, por um lado, desmacarar os artistas e, por outro, ajudar os amigos a abrir os olhos e a ver mais com a cabeça do que com o coração - a usarem a racionalidade - e a mimá-los quando descobrem o golpe de artista.

Sorry pelo testamento mas sabes SK o quanto este tema me entusiasma.

Excelente texto sobre um assunto tão actual. ;o)

A. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
A. disse...

...e quantas vezes não somos nós os próprios "Artistas" ?







não esquecer da Arte de representar a vida tal como ela se nos apresenta à vista.posição , distância, aparência e e e...

se da plateia.se de um palco...
(in)felizmente, tudo uma questão de perspectiva.também.

:)




...e hoje, já sem frases deixas, assim, em suspenso e um pouco mais dentro do contexto.não do assunto.
esse, que provavelmente só tu o entenderás na sua essência.

abraços.
:)

Stephen King disse...

Nem tudo é relativizável, para mim, claro. :)