ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, abril 19, 2007















O conceito de felicidade é uma coisa complicada. Cada pessoa a entenderá de forma diferente, com pressupostos adaptados a cada percurso e cada manancial de expectativas. Mas parece-me indiscutível que qualquer estado de imobilidade ou constância absoluta levará à rotura do estado de realização que se antecipava no "iter" para essa condição de "feliz".


Definir alguém apenas por essa condição é reduzir a amplitude da sua complexidade a uma espécie de deficiência na análise do mundo e da sua dinâmica. Se alguém permanece feliz perante todos os estados e estímulos, então é tão inócuo e insignificante como um niilista para quem nada serve em momento ou circunstância alguma. (E mesmo assim entre uns e outros, ao menos os felizes cheteiam menos a molécula e não têm poses afectadas de suposto esclarecimento sobre o núcleo da verdade do mundo - mas isto é apenas um à-parte). É quase óbvio que a singularidade e construção do contorno pessoa só se atinge na alternência de estados, de visões, e emoções e humores. A terra define-se pela oposição ao mar e vice-versa. Hieraclito 2.0.


Mas há algo de profundamente incomodativo naqueles que também reduzem a felicidade a zero, que a sentem como uma aldrabice plena de ilusão ignorante, como se ao serem sorumbáticos, o mundo lhes pertencesse mais devido a um pretenso e superior conhecimento da natureza das coisas. É algo quase maldoso, de inveja, uma cabotinice preguiçosa de quem, a mais das vezes, não opera o simples mecanismo de equilíbrio entre o bom e o mau, entre o feliz e o infeliz, o agradável e o obnóxio, ou em termos mais simples, não mexe o cu para tornar o seu mundo e o de outros, ainda que poucos, um pedaço melhor. E depois vingam-se naqueles que, pelo seu olhar, se atrevem a sorrir deliciada e genuinamente, ou a sentir uma pulsão agradecida por alguns momentos em que tudo realmente corre bem e o mundo parece só luz.

Eu tenho vários exemplos de instantes em que me sinto feliz, (e julgo-me insuspeito porque também me acompanha uma certa melancolia constante transformada em ira que tenho dificuldade em classificar, além de também explorar os lados negros com avidez), tais como:
O facto de ter o bilhete do Dave Matthews na minha carteira.
O sorriso da ruiva.

O facto do Stephen King, Neil Gaiman, Alan Moore, Zaffon, Alan Ball, Sam Mendes, Scorsese, Thomas Newman, Maynard James Keenan, David Fincher, Chris Nolan, Chris Cornell, Sufjan Stephens, Pure Reason Revolution, e mais uns quantos ainda estarem vivos e poder assim esperar por novas obras destes artistas.


Ter Amigos, ter emprego, ter o cartão Medeia.

Viver num país de sol.

etc...

Não ando com certeza a espalhar aos sete ventos um estado de felicidade, porque a verdade é que por cada coisa que corre bem talvez existam duas que correm mal ou que preocupem, e é nesta alternância maluca, onde o negro parece sobrepor-se ao mais iluminado que tenho de viver. Não há também qualquer defesa de uma espécie de estado de graça para a realidade, porque esta também tem muito de feio, e isso chateia-me em grande parte do meu tempo. Carrego cicatrizes que de alguma forma toldam a lógica de vivência, acrescentando-lhe racionalidade, peso e dificuldade. Tenho alguma melancolia e ira interior que nem sei bem onde a colocar, e muitas vezes nem sei bem o que procuro. Mas também não tenho de impor isto a ninguém como único cenário interpretativo da realidade afogado numa espécie de neorealismo feioso, mas apenas aceitá-lo como um dos estados alternativos na perspectiva de aprendizagem constante em que me encontro.
Pessoas negativistas são uma seca, e o pior, é que são uma seca cabotina e a mais das vezes incongruente e generalizadora por se julgarem em posse de uma qualquer verdade.


Ou melhor:



6 comentários:

C. disse...

SK:

A actualidade é perversa, fastidiosa e cheia de lugares comuns.
Alguma blogosfera também.
Mas tu inovaste, talvez porque escrevas por gosto, por expressão, ou seja lá o que te motiva.
A tua escrita cativa-me, na essência, porque me parece que és feliz e estás feliz!
E a melancolia, que a conserves, porque é dos melhores motores de inspiração.
Por isso, também passei a ler-te.

Até ao próximo post…

Tuxa disse...

Suponho que a proposito das horas perdidas e da Ana de A....
Quando li, pensei o mesmo. Tal e qual.
Neste momento sinto-me mais tempo feliz do que o contrario e nao trocava o como se sinto agora por ha um ano atras. E irrita-me que as pessoas nao fiquem contentes por estar la, onde me custou tanto chegar. Que achem que tudo o que sinto e ilusorio porque se pudesse ser real "eles", que sao tao espertos e cultos, tambem seriam felizes. E portanto, recusam tudo o que nao esteja dentro dos seus parametros. E fazem-no com tanta sobranceria que acredito que convencam muita gente... e e pena.

pigloo disse...

A felicidade é interior, irmão!

Aquele abraço!

(o admirador anónimo)

Rachmaninov disse...

Muito, muito bom :)

Patrícia disse...

Estou fora do contexto do comentário da Tuxa, mas, se consegui perceber a ideia dela, julgo que sentimos algo semelhante. Eu tenho muitíssimo mais momentos em que me sinto profundamente feliz do que o contrário. E penso que já vivo assim há vários anos. A melancolia e o desalento despertam every once in a while, mas são sempre nuvens passageiras, que nem um dia inteiro costumam assombrar, assim como outras emoções menos agradáveis. Nunca fui uma insatisfeita, por muito que possa desejar mais daquilo que me é vital, daquilo que me faz feliz. As minhas cicatrizes sempre funcionaram pela positiva, ou seja, lembrando-me do que fiz mal (pela minha acção ou pela passividade que permitiu que me fizessem mal), do que poderia ter evitado e poderei, portanto, evitar. Não me castraram. Não me limitaram e não me levaram a querer fechar portas. Ainda ontem conversava com quem já muito viveu comigo, e dizia-lhe que, ao contrário dele, eu nunca desejei não mais me apaixonar, para que o sofrimento devastador do desgosto amoroso não tornasse a bater-me à porta. Para mim, o que não faz sentido é optar por um caminho que, embora mais seguro e menos sinuoso, iniba a possibilidade de entrar em êxtase, de viver os sentimentos e as partilhas intensamente. A felicidade passa pela (quase) ausência de medo, já que o terror de ser novamente mutilado pode deixar-nos irremediavelmente inacessíveis. E estes "membros" renascem por si mesmos, com uma ajudazinha de quem se recusa a cruzar os braços.

De braços abertos para a felicidade, ficamos sensíveis à arte (do Stephen, do Maynard, e de tantos outros ;) ), à natureza (praia e árvores... hummm), às pequenas coincidências que surgem quando menos se espera, às gargalhadas dadas com vontade, às surpresas, aos golpes de sorte, à presença acolhedora da família, às marcas inesquecíveis dos amigos,...




Divaguei, claro... Não tenho emenda...


Sejam felizes :)


E a tua felicidade, meu Adamastor, mais do que a de qualquer outra pessoa, é uma realidade que só pode crescer e acompanhar esse homem genial e maravilhoso que és.

A disse...

"realizo a minha completa noção de estar fora no sonho solitário de um dia não precisar de me preocupar com a hora da morte sobre todas as minhas coisas e de mim própria, de continuar a pensar sonhar desejar amar todos os verbos que terminam em ar oxigenante e etéreo, o que é feito de elemento que se materializa noutro elemento qualquer.
a vida é tão simples e breve e bonita e feita do único caminho que temos de tempo que nos guia até à morte. e a certeza de apenas se poder fazer agora todas as escolhas como menos incertas porque não temos outra vida para gastar."



E não, não temos mesmo outra vida para gastar...

Eternal Life is Now On My Trail.....

:)

Mil beijos

e obrigada por seres uma das razões que (também) faz a minha Felicidade, meu bom amigo.