
Os amigos também nos lixam.
E de uma forma que é simultaneamente complicada, eficaz e até mesmo arguível perante a natureza da relação que temos com eles.
Essa relação, se a proximidade for férrea, faz com que a lealdade se bata tremendamente com alguns dos nosso princípios, e não raras vezes, comprometemo-los por força de uma confiança que nos é entregue em condições precárias.
Não é segredo para ninguém que desejamos ser cúmplices. Seja no amor, na amizade, nas relações laborais em equipa, acho que não é segredo para ninguém o desejo de pertença que torna a comunicação fluida e a confiança materializável. Quer-se ser parte daquilo que as pessoas têm de melhor, aceitando as falhas que nos dão a perspectiva do todo, e as quais também aprendemos a estimar.
Mas os amigos também nos lixam.
Testam a nossa lealdade, pelo silêncio, pelo teste afectivo a que submetem os princípios pelos quais regemos o nosso livre arbítrio. Os nossos amigos fazem merda, alguma dela injustificável, e a afeição faz com que tenhamos de guardar a reserva de lealdade quando o desejo é de exposição e correcção. São também gajos e gajas para quase colocarem à prova, através de testes indirectos, a força da honestidade que reservamos para eles como prova de afeição e respeito, ao levarem-nos a comprometer essa mesma lógica comportamental.
E no entanto, olhamo-los nos olhos, vemos as suas dificuldades, a luta com as suas pulsões, o teste à nossa paciência, e no limite, agarramos a mão que nos estendem. A pessoa no total acaba por necessitar da nossa compreensão e cumplicidade, e coloca-nos a decisão nas mãos, como se a responsabilidade pudesse ser aliviada pela transmissão da ilicitude a quem não partilha a culpa, mas estende a guarida.
Mas os nossos amigos também só nos lixam até um certo ponto.
Porque se damos guarida, não somos forçados a calar a opinião, e se isso é premissa, então aqueles que nós recorrem nessa ambito, não desejam apenas o apoio e a compreensão da lealdade, mas uma espécie de eco alheio. E os amigos não podem desejar que nos tornemos somente papagaios ensinados a repetir o conforto das opções que a mente, pelos seus próprios processos de conforto, justificou para si mesma. Se o fazem, então são verdadeiros cumplices no crime que desejam, e isso não é legítimo.
Sempre acreditei que os amigos protegem, acreditam, acarinham, mas em contrapartida, no riso da confusão que pode ser a vida de todos, sabem que a pertença não descura o enunciar da verdade. Se assim não for, então o que estaria a fazer era simplesmente deixar que apertassem o gatilho usando a minha mão. E a minha noção de lealdade não é bem essa. Posso amar os meus amigos, mas devo ser leal para com eles em tudo, especialmente na verdade que possa partilhar com eles, ainda que de alguma forma seja conivente por lealdade.
Os amigos também nos lixam às vezes.
Mas se nos corromperem, não somos bons para eles, nem para nós, nem para a causa afectiva que nos une. E nada se aproveita.
Acompanhar sempre, mas isso não significa anuir.
Mas depois também me dizem que sou radical, frio e racionalista.
Mas olhem, é o que temos...
Mas olhem, é o que temos...
Se calhar também me lixaram em tempos, mas nunca aprendo.
2 comentários:
No final do romance 'Cem Anos de Solidão', G. Garcia Marquez escreve que 'os amigos são uns filhos da puta!'.
Ocorreu-me essa frase enquanto li este post.
Mas isto sou eu que hoje acordei torta.
bj citrus.
LOL
O comentário da Tangerina está muito fixe :D
... mas não, os amigos serão sempre os amigos.
Eu diria que tu de frio, não tens nada. As pessoas tendem a confundir frieza/distância com racionalidade/raciocínio/lógica... deixa lá, já me acusaram do mesmo (iamgina, eu... FRIA! lol)
De radical nada tens. Mas mesmo nada. Se tu fores radical, que serei eu???? É que pessoa menos radical que tu... não conheço.... alguém que passa a vida a relativizar e a encontrar as perspectivas todas duma figura geométrica inclassificável: és tu. E isto não tem nada mesmo de radical.
Racionalista sim, concordo.
Aren't we all?
Se não, deveríamo-lo ser. Eu tento, a cada dia que passa, ser mais racionalista. Na abordagem de certas questões e se queremos dar opiniões fundamentadas e apoiadas nalguma espécie de lógica, então será conveniente que as pensemos.
Gosto de ti assim.
Não mudes. Não será por acaso que és uma das poucas pessoas a quem peço opiniões. E uma mão de 5 dedos não chegam para os restantes.
Contudo, seja lá por que carga de água alguém te qualificou dessa forma, das três duas :)
- ou não te conhece
- ou queria chatear
- ou sou eu que não te conheço!
Os amigos serão sempre amigos. Alguns, são-no menos relativamente a nós do que aquilo que gostaríamos; outros, são mais do que podemos ter para lhes oferecer, e por isso passam a vida nas cobranças e não percebem porque é que "nunca mais fomos lá a casa"; outros, seguem caminhos diferentes dos nossos....
Olha, sei lá... amigos serão sempre amigos. Haja paciência, tempo e tolerãncia para muitas coisas que vivemos... afinal ninguém é perfeito e todos temos defeitos.
Beijos
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