ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, maio 31, 2007

Noutros tempos disse:

"As coisas mais importantes ficam realmente guardadas porque de alguma forma se tornam imateriais quando saem. Como qualquer viajante não poliglota, a transmissão dos pragmatismos acontece, mas todo um universo de expressão é solto como uma espécie de canto de ave involuntário, que aguarda um ouvinte enamorado de composições ainda sem pauta. Acabo por ser aquilo que conforma a minha capacidade de gostar, porque é através dela que todo o meu universo psicossexual, ético e ontológico se filtra na construção da pessoa. Descaio para a rendição perante o que julgo melhor no mundo."(*)

Noves fora nada, ainda é mais ou menos isto...



(*) Recordando a ideia adiada de uma tatuagem.
As estrelas não brilham por necessidade.

Brilham porque podem.

Porque conseguem.


A beleza das manifestações amorosas também está no esforço não de criação, mas de recriação das mesmas.

O melhor naquilo que somos capazes de sentir, é a construção que operamos em nome da afeição, do amor, como um derivativo a jorro criativo e não a gotas de hesitação.

É com os ensinamentos do que o fazem com a graça suave de quem domina a estrutura emocional que aprendemos a ser um pouco mais nós.

Aprendemos a perguntar, porque os sorrisos que provocamos surgem como um mistério que ainda por cima de transmuta em apetite.

Amor é também apetite, não na asserção talvez mais frequente e imediatista, mas reflectida no anseio pela criatividade do outro.

Nos trejeitos, nas formas de estar, nos detalhes, na capacidade de provocar por um detalhe conhecido pelo próprio, mas tão unicamente exteriorizado pelo amante.

Espelham-nos com generosidade.

Aprendizagem e modos de sermos melhores do que talvez até sejamos.

Sorte.

É preciso é correr.
Nem que não se saiba para onde, algumas vezes, mas há que pôr um pé adiante do outro, respirar as neuroses e perceber que no turbilhão das coisas, existem instantes nos quais o melhor é nem parar para reflectir.
Minuto, hora, segundo, dia. Passa, passa, passa, massacra, tumulto.
Damos por segunda-feira quando é sexta, e o sono já não chega, a satisfação do descanso é apenas mais uma espécie de recusa de subsídio de alma perante o chão que gira veloz.
É preciso é correr. Adiantar. Esperar, ansiar pelos instantes que felizmente se tornarão irrepetíveis por serem únicos e não por sigularidade.
Coração. Bate. Barulho. Insónia.
Espera, tique taque do relógio, olhos, cores, vermelhos, castanhos.
Altos e baixos, a voz da perspectiva, a lógica da velocidade.
Gritos.
É preciso é correr.
Saber que o chão parece nunca mais acabar e ainda assim ouvir a chuva de passos provados na dores dos pés.
Luz do sol, beijos, pára, anda. Fica, vai. Desenvolve, resume.
Toma. Dá cá.
Correr. Vermelho.
É preciso é correr.
Estelar.

Agitar o sangue nos passos porque estar vivo é tropeçar nas perguntas quando já, em corrida, tentámos começar a responder.
Relógio.
Siga.
Corre.
Não sou info-excluído....

Sou mesmo é
info-estúpido ou info-ingénuo...
Sou de esquerda.
Moderada, é certo, mas acho que sempre deixei transparente a minha tendência esquedizante/social.
Mas a verdade é que o que se passa na Venezuela é chocante, e não vejo os representantes da esquerda elevando a voz a um claro atropelo à liberdade de expressão e um notório exercício de autoritarismo como foi o encerramento do canal de televisão no país referido, e as ameaças efectuadas a um outro.
Isto não é esquerda. Isto é puro totalitarismo, conotado com alguma suposta ideologia social. Reputar isto de exercício legítimo de democracia, é como dizer que o Putin é um pluralista...
Gostaria de ver mais vozes do "meu" lado a condenar veementemente esta situação inaceitável.

Ainda relativamente a este acórdão , gostaria apenas de fazer alguns esclarecimentos:
a) Não sou penalista. Logo, como qualquer jurista, não emiti nem pretendo emitir opiniões de especialista. Como tal, e após ler a dita decisão, e quando o tempo mo permitir, colocarei aqui o que julgo ser uma análise mais aprofundada, na medida das minhas limitações, relativamente ao que considero ser uma má ou perigosa valoração do STJ no caso vertente. Mas cometi um erro, e como tal, peço desculpas. A valoração da situação concreta da criança influenciou a morfologia da decisão, mas não foi elemento único. Se o dei a entender, as minhas sinceras escusas. Analisando, vê-se que influencia, mas não determina exclusivamente a posição tomada.
b) Não sou autista, o que me leva obviamente a rever constantemente as coisas que digo ou faço, porque acho que faz parte da evolução como pessoa perguntarmo-nos constantemente quem somos e como fazemos as coisas que fazemos. Admito, e será provável que tenha cometido erros de pormenor, precisamente porque não sou penalista, mas tenho obviamente a obrigação de os rever. Ou melhor, de esclarecer a minha visão, coisa que espero poder fazer o quanto antes.
c) Na óptica do dito supra, esclareço que são dois elementos que estão na base da reavaliação da medida da pena:
  • O elemento atenuante presente na qualificação precendente como crime continuado, sendo que discordo com ambos
  • As chamadas circunstâncias de prevenção especial, que estão mal fundamentadas, apoiando-se apenas numa lógica de evitar o chamado "alarme social" e estigmatização.

No entanto, no primeiro julgo que está clara, ainda que indirectamente, a relevância da tal diferenciação entre crianças mais novas e mais velhas, o que continuo a achar que não faz sentido pelo explicado antes. Mas como disse, tentarei, mais tarde, explicar com mais minúcia o que deixo seguidamente, fundamentando com outros elementos, pedindo desde já desculpas por alguns erros que os especialistas possam detectar.

Quero apenas reiterar que não efectuei este comentário como jurista somente, mas também como cidadão que se preocupou com esta situação. Quem sou eu para criar doutrina seja sobre o que for...

Assim sendo, e salvo melhor e mais douta opinião, são estas as minhas conclusões preliminares, a desenvolver posteriormente:

1 - Quer na determinação da ilicitude no crime continuado (concordando com a Lisa - aplicar este elemento a crimes contra as pessoas é idiótico quase - é como dizer, por outras palavras "no fundo eles estavam era a pedi-las...") onde a única coisa que encontro como atenuação está na parte final do nº 2 do art., ou seja, a continuação da criação da situação susceptível de levar à prática do crime, o que equivale a dizer, mais uma vez na óptica do STJ (segundo me parece), que a suposta não resistência do menor criou este quadro, já que o arguido não se sentiu suficientemente "repelido" para que a culpa continuasse a ser "elevada". Seja como for, acho este raciocínio do STJ, perigoso, e no fundo, ainda que indirectamente, vai beber às supostas capacidades do menor de 13 anos, que por razões anteriormente explicadas, não me parece procedente e dificilmente justificável.

2 - Então se formos à questão da gravidade diminuída das circunstâncias de prevenção geral, o argumento parece-me ainda mais coxo. O medo do STJ é pela propagação da histeria popular em volta da pedofilia ou pederastia? Bem, um arguido que pratica vários crimes, (sic) "dois deles na pessoa do menor BB, um na pessoa do menor CC e o último na pessoa do menor DD", não está a revelar um padrão? As especiais necessidades de prevenção geral não se encontram mais que encontradas face á pena anteriormente aplicada? Ou considera o tribunal que uma pessoa com um comportamento reiterado como este não deve preocupar a comunidade onde vive? Será como diz o tribunal - "a sua primariedade, a sua integração familiar e, de acordo com a própria decisão condenatória, a sua estigmatização no meio em face deste processo, apesar de anteriormente se poder considerar que o arguido estava plenamente integrado socialmente" (...) ou "Por outro lado, no que concerne às necessidades de prevenção geral positiva, há que ponderar o facto de que a natureza deste tipo de crime é susceptível de causar alarme social, sobretudo numa época em que os processos de pedofilia têm relevância mediática e a sociedade está mais desperta para esse flagelo. Por conseguinte, as necessidades de prevenção geral positiva são relevantes, pois que (…) a reposição da confiança dos cidadãos nas normas violadas e a efectiva tutela dos bens jurídicos cuja protecção se visa assegurar pela incriminação deste tipo de condutas assim o impõe". Ora, concedendo embora em que as necessidades de prevenção geral positiva são relevantes, não se pode concordar, todavia, com a relevância que acabaram por adquirir.
Parece claro que o STJ se limitou a justificar essa atenuação com o argumento de que a conduta não justifica alarme social? A alguém que praticou três crimes (ok dois na forma tentada). Não há aqui um padrão? Uma necessidade de especial prevenção? Eu considero que sim, logo discordo do argumento simplista do acórdão que se limita a dizer "o quantum é excessivo" e pronto. É excessivo porquê? Dois anos e meio a menos porquê? Bem...

Discordo, mas não disse, como não digo (sem ironias - mas quem sou eu perante o STJ???) que está tecnicamente errado. O busilis da questão não é técnico, mas está sim assente em questões de valoração, nas quais discordo da tomada de posição do STJ, achando-a algo perigosa.

Claro que apercebendo-me da provável incompletude científica e técnica para fundamentar juridicamente a situação, espero que no entanto seja suficiente para emitir uma opinião.

Um obrigado sincero a todos por enriquecerem a discussão.
Um blog também é isto. Felizmente. :)

quarta-feira, maio 30, 2007

As pessoas que me conhecem sabem que eu e o Paulo Portas pouco temos em comum. Ou nada mesmo. Mas o desacordo não é sinónimo de autismo, e como não me revejo nessa postura, tenho de aplaudir as palavras do senhor relativamente a esta palhaçada sem limites que são as provas de aferição, e principalmente, o descaso com que foi abordado o problema dos erros de português.
Gostaria de saber quem foi o idiota, o brilhante estratega pedagógico que achou justificável fazer-se provas sem avaliação, e pior, que deu instruções para que os erros de português não fossem tidos em conta para efeitos da avaliação (que não avalia ninguém - salsada total!!!) dos alunos. Mas desde quando é que se deve aceitar que os alunos escrevam mal, desde que apanhem o sentido do texto? Mas é a ortografia despicienda? Será que se grunhirmos em direcção ao conceito da resposta, ela também conta?
A questão da "passagem" obrigatória até ao 9º ano já é um disparate do tamanho de um prédio. Motivar miúdos que acham que passam independentemente do que façam é algo que somente a malta do gabinete é que pode achar exequível. Mas permitir que os alunos escrevam de forma errada, que soletrem mal, que cometam toda a espécie de enormidades à nossa querida língua, que é já tão atacada nestes tempos é uma estratégia cujos proveitos dificilmente consigo perspectivar. Quem beneficiará com isto? Será o tradutor que espetou no ecrã de cinema que o assassino do filme em questão seria um "prevertido"? Este idiota deverá continuar a ser incompetente e a multiplicar pontapés destes na semântica?
A avaliação é uma condição indispensável da pedagogia, em meu modesto ver. Obviamente que os conteúdos devem ser ministrados de forma competente, e de maneira a chegar a todos nas melhores condições possíveis, mas deixar que os erros, as falhas e as asneiras passem incólumes é perpetuar uma cultura de miserabilismo e incompetência, com custos muito altos para... os alunos e futuros profissionais.
É de facto uma educação de faz-de-conta, onde a malta vê as asneiras, mas como são bem intencionadas, nem nos preocupamos em corrigir e voltar a ensinar, consolidando a aprendizagem.
E se este tipo de opções continuar, a nossa fraca capacidade para competir e responsabilizar no campo das qualificações e saberes tenderá com certeza a eternizar-se.
Tenham paciência!!!

Como jurista que sou, e devido a anos de treino na matéria (que valem o que valem), não vou pronunciar-me com todo o possível conhecimento de causa para o qual é necessário ler o acórdão em causa, respectiva fundamentação jurídica e a correspondente aplicação da mesma à matéria de facto apurada e revista (já que se trata de decisão do STJ). Se algum amigo magistrado quiser ter a gentileza de enviar o acórdão, pois muito se agradece, pedindo desde já desculpas por qualquer conclusão que pareça precipitada ou necessariamente mal informada.
No entanto, e com a (pouca) informação que possuo, penso que é possível retirar algumas conclusões sobre todo o enquadramento.
A fazer fé nas notícias veiculadas ontem e hoje, o STJ terá reduzido a a pena aplicada pelo crime de abuso sexual de menor, por achar relevante a diferença de desenvolvimento e discernimento entre uma criança de 13 anos e uma outra de 4, 5 ou mesmo 9 ou 10. Isolando esta última questão, ou seja, a diferença entre estágios de evolução da criança, subscrevo inteiramente. Há de facto diferenças cruciais entre as idades referidas, em todos os campos do desenvolvimento psíquico e físico.
Mas onde tenho mais reservas e resistências será na "valoração" dessa diferença, ou na conclusão pelo maior manancial de capacidades detidas pela criança de 13 anos, como fundamento para uma redução de pena pela prática de um acto de abuso sobre um menor. A verdade é que se a moldura penal estabelece como limite os 14 anos, será porque o legislador não quis estabelecer uma diferenciação abaixo dessa moldura, por considerar que são sujeitos especialmente vulneráveis e como tal, merecedores de maior protecção à luz da lei penal, por um lado, e maior reprovação do ordenamento jurídico, por outro.
E é aqui que a porca torce o rabo, como diz o brocardo popular.
E sinceramente, julgo que há aqui pouco de discussão técnico-jurídica. Há sim um problema de valoração, tendo em conta os condicionalismos da sociedade e a sua evolução. Julgo que o STJ lançou, sob a capa de uma análise técnica e provavelmente fundamentada, um sinal perigoso, e que dificilmente será explicável à opinião pública. Como dizia um magistrado na televisão ontem, este é um daqueles casos em que os magistrados deveriam descer do púlpito e explicar muito bem o que querem dizer com a decisão que proferiram. E esse sinal perigoso pode decompor-se, em meu modesto ver, da seguinte forma:
a) É um Acórdão do STJ. Embora não seja com certeza um acórdão de uniformização jurisprudencial, mas será com certeza utilizado uma e outra vez para fundamentação de decisões, recursos, acusações, etc.
b) Envia uma discutível mensagem que consiste na valoração de supostos comportamentos de expressão voluntarística da criança que são, em meu ver, contra a propria teleologia da norma, que pretende proteger a criança do que pode ser a imposição de poder e influência de alguém mais velho, que condiciona a expressão livre da tal vontade, e como tal, consiste numa forma de coacção da mesma.
c) Mal explicado perante a opinião pública leiga, poderá redundar numa espécie de ideia de "exculpação" de determinados comportamentos, considerando-os "menos graves", num universo tremendamente escorregadio e emocional como é o abuso sexual de menores. Os juízes do STJ terão com certeza muita dificuldade em explicar perante muitos pais, irmãos e familiares a razão que pode levar a valorar o comportamento de suposta anuência de uma criança de 13 anos num cenário de abuso sexual de menor. Claro que o exercício e aplicação da justiça não se deve compadecer com pressões da opiniao pública, mas aqui o problema estravasa em muito a questão da reacção genérica. É, em meu ver, a gravidade de uma observação e qualificação de um comportamento como menos grave, relativamente a crianças e o repensar do nível de protecção às mesmas.
d) O necessário "entroncamento" com a questão da imputabilidade. Porque, e segundo me parece, se o que está em causa é a capacidade da criança de 13 anos poder determinar a sua vontade de alguma forma, levando a que o desvalor da atitude do abusador seja atenuado, entao como ficamos na questão da imputabilidade dos menores de 16 anos? Será que a vontade destes releva para umas coisas e não para outras? Será que serão inimputáveis para responder em certos termos por homicídio (em meu ver qualificado), como no caso do transsexual sem-abrigo que foi morto à pedrada, mas serão "capazes" no sentido de já possuirem qualquer noção de auto-determinação de vontade relativa à sua conduta sexual, especialmente se for com adultos?
Julgo, salvo melhor opinião, que não é possível deixar de questionar esta forma de avaliação desiquilibrada do que é, ou não, a capacidade de formular (materialmente) uma vontade juridicamente relevante.
Das duas catorze:
  • Ou a vontade do menor é relevante para efeitos penais, e como tal, a lei aplicável terá de ter em conta a sua capacidade de determinar os seus comportamentos face ao ordenamento jurídico e correspondentes normas;
  • Ou a sua vontade é irrelevante, porquanto se julga que a pessoa em formaçao ainda não tem a capacidade de formular juízos que devam ser autonomamente valorados como juridicamente relevantes, porquanto essa capacidade de auto-determinação não existe em razão da idade.
  • Se o STJ julga que uma criança de 13 anos é já capaz de perceber e expressar a sua conduta sexual de forma juridicamente relevante (o que parece ter sido tido em conta pela atenuação da pena), então também será pelo menos discutível a revisão do conceito de inimputabilidade dos menores de 16 anos, especialmente em tantos casos de violência como os que vemos hoje em dia.

Na minha modesta opinião, a criança até aos 14 anos continua a merecer especial protecção, e como tal, a valoração especial e graduada consoante a idade (0 aos 14) deveria, quanto muito, acarretar uma agravação da pena para idades mais tenras, mas julgo no mínimo discutível que uma decisão como esta possa simplesmente retirar desvalor ao acto de abuso por considerar que a criança é menos vulnerável aos actos que lhe são infligidos, como se fosse "mais capaz" de se defender ou de se auto-determinar, ou como se os danos pudessem de alguma foma ser menos gravosos ou traumatizantes.

Diz o STJ que não é "certamente a mesma coisa praticar alguns dos actos com uma criança de cinco, seis ou sete anos ou com um jovem de 13 anos, que despertou já para a puberdade e que é capaz de erecção e de actos ligados à sexualidade que dependem da sua vontade”." (sic)

Sim, talvez não seja, mas a verdade é que a partir do momento em que se começam a consagrar em decisões superiores a gradação do desvalor nestes termos, valora-se a suposta capacidade e estado evolutivo do menor, inserindo um elemento esquizofrénico na normal, ou seja, que existe uma protecção especial a crianças abaixo dos 14 anos, mas que há crianças com direito a protecção mais exiegente que outras. Se fosse esse o espírito da norma e legislador, então julgo que teriam sido criadas outras divisões, outras molduras penais, outras lógicas de protecção para diferentes classes etárias de menores.

E rever uma decisão, subtraindo gravidade ao acto por razão da maior capacidade da criança, é de uma certa forma dizer que abaixo dos 14 anos, umas estão mais preparadas para o abuso que outras. Em meu ver, crianças são crianças, e como tal, (nunca deixando longe a questão imputabilidade) deve ser muito bem pensado e esclarecido em que termos a vontade daquelas é relevante, e em quais a protecção deve ser pensada e reforçada. Esta é, repito e em meu modesto ver, uma decisão perigosa.

Mas vejamos o acórdão, e o que trará de mais esclarecedor.

terça-feira, maio 29, 2007

Nota para distribuidoras de cinema em portugal, e quem seja responsável pelas traduções dos filmes:

1 - Que raios ver a ser "Fodão-se e morram"? Fodão-se????? Mas que raio de tempo verbal é este??????

2 - Que vem a ser um "prevertido" ? Terá alguma relação com o verbo "preverter", o qual já agora também não sei o que quer dizer? Ou será que os tradutores poderão deixar de dizer tanta asneira, a qual vai pervertendo o ritual cinematográfico e o prazer que lhe está associado? O David Fincher daria cambalhotas no ar se visse isto na tradução do seu Zodiac...

Sinceramente, por vezes não há pachorra. Pior que isso só mesmo os atrasados mentais que comem pipocas com a boca aberta, os idiotas que não entendem o que significa desligar a porra do telemóvel, e os artolas que comentam o filme como se fossem o Gabriel Alves num derby.
No fundo, são tudo exemplos de desrespeito.
E depois dizem que há menos pessoas nas salas...
Enredados nos pragmatismos, falta-nos o fôlego e a percepção correcta para avaliar senão o mais imediato. E falhamos, em detalhes e acções. Pelo simples esforço de cruzar a esquina e clarear a vista, agir mais ponderadamente e falhar o menos possível.
É nos rostos dos que não vejo, dos que me vão falhando que vejo a destruição higiénica do meu tempo, e a antecipação dos instantes de ultrapassagem.
Mas há sempre alguém mais teimoso.
E costumo ser eu.
Dementia Preacox.

Mais umas semanas como esta, e passa a figurar no meu boletim de saúde...

segunda-feira, maio 28, 2007

Lá vou a concurso.

Com letras minhas.

Medo...




Existem momentos históricos.
Talvez sejam imbuídos da subjectividade própria do que se torna único e irrepetível para cada um de nós, mas ter a sorte de passar por tal instante é algo que não se esquece, algo que marca como um ferrete quente, mas sem dor. Ou pelo menos sem a dor negativa, porque certos instantes de beleza, de intensidade e reencontro com coisas que fizeram cada pedacito da nossa vida, são bem capazes de descascar a nossa pele e isso nunca é indolor. O encontro com o que nos identifica sem qualquer objectividade feita de letras, porque a emoção que sobra não permite tais veleidades.
O concerto de Dave Matthews foi todo ele um reencontro com coisas pessoais, escondidas, íntimas, estruturais e, a espaços, incompreensíveis devido à sua essencialidade nos anos que o precederam. Posso isolar dezenas de momentos fulcrais, por vezes apenas num detalhe, onde o Sr. Matthews meteu o bedelho e fez a diferença. E julgo que existem poucas coisas tão compensadoras como ter a experiência mais intensa possível à custa de algo que se entrelaça na estrutura do que somos, e a potencia em prazer e senso de auto conhecimento.
Existem livros da vida, canções da vida, filmes da vida, quadros, paisagens, enumerem quantas quiserem. Existem coisas, fenómenos, que exercitam aquela parte de ansiedade e pertença e nos fazem procurar e estremecer perante a sua presença e acção.
Foram mais de três horas de concerto, de excelência, de uma candura e entrega, e que diabo, de talento que chega a atemorizar e chatear de tão imenso que é. Três horas pelas quais esperei mais de oito anos e muitas audições dos trabalhos da banda em todos os suportes audiovisuais.
Mas é nestes instantes em que temos a sorte de perceber que o invulgar e o único tem algumas expressões finitas. É nessa finidade que fica um calendário inteiro de memórias, uma espécie perseguição ao tigre na floresta do poente, ou ao fogo fátuo que faz parte de cada apetite que a nossa imaginação se atreve a construir.
Esperei oito anos para ouvir o "Crash" e o "So Much to Say". Sabia, como sei, as letras de cor, a sequência dos acordes, e os instantes em que eles me surgiram ao longo desses anos. Mas não o sabia tão grande, tão imenso, tão completo. Não sabia que o raio do homem cantava tão bem ao vivo como em estúdio, que ver a sua criatividade em discurso directo é pensar 500 vezes em como será ele capaz de imaginar um tão imenso e excelente reportório.
Já vi muitos concertos no Atlântico, mas posso dizer que nunca vi a sala assim. A apoteose foi constante, o plateia estava cheia até às paredes mais distantes e existiam pessoas encostadas ao bares mais afastados. 3 encores. Gravedigger num deles, que lançou a sala em direcção aos céus.
Voltem ou não a Portugal, o que deve ser provável, tal era o estarrecimento da banda, a verdade é que ali aconteceu história.
E como é que se agradece rendido a uma pessoa que não nos conhece, e que no entanto, tanto bem nos fez e faz na vida?
Thanks Dave....

quarta-feira, maio 23, 2007


Vejo-me mal preparado para a morte.

Em geral.

A morte das coisas, das ideias, das pessoas, dos laços. Em conceito, a morte parece-me obscena, ilegítima, profundamente arbitrária.

A ideia da irrecuperabilidade é um dos grandes paradoxos do carácter dinâmico da vida que temos, porque entronca na sua contradicção, ou seja, o desejo de evoluir.

Eu sempre tive um tremendo problema como armazenador. Guardo papéis, objectos, recordações, bilhetes de cinema ou quaisquer outros espectáculos em lindas caixas artesanais.

A ideia da morte em conceito, do fim como mecanismo arbitrário tendente à marcha da evolução da vida parece-me parca desculpa para insultar a finidade.

E no entanto, é na expressão máxima dos instantes únicos, que jamais se repetem, que reside a maior magia de todas as formas de expressão. A criação, ainda que reproduzida, nasce apenas uma vez, e essa unidade de tempo e espaço é que a torna singular, bela e terrível.

Julgo que tenho um coração preparado para jamais trair a memória dos conceitos bons, e aceitar o máximo que consegue relativamente ao facto de simplesmente ter uma vida.

As cores vermelhas, as estrelas, as luzes bailarinas, as letras, e demais recortes que os meus olhos nunca dão o merecimento da exacta excelência que possuem, ensinaram-me a ver dessa e outras formas.

Por isso estou mal preparado para a morte.

Alheia.

Sou egoísta o suficiente e idiota de sobremaneira para julgar que a ilusão de infinidade de que beneficio o é mesmo...

Atenção Gatos Fedorentos, Contra-Informação e quejandos. A RTP poderá estar a um passo de instaurar qualquer espécie de processo, (não disciplinar porque provavelmente funcionam em regime de prestação de serviços, sem subordinação jurídica) ou de retaliação por "bocas" lançadas ao primeiro-ministro.

Aquilo que se está a passar com o professor suspenso é produto da mais asquerosa forma de exercício de poder, e lambe-botismo por parte de uma directora que com certeza tem objectivos altos em termos de carreira política. É de uma tal ridicularia e desplante, que o Ministério da Educação, à boa maneira do regime blindado em si mesmo, nega qualquer intervenção no caso, nem que seja para o necessário esclarecimento de partidos políticos e pessoas em geral.

Além de ser um atentado absurdo à liberdade de expressão, (quantos mails não circularão com bocas e comentários aos membros do Governo), é uma expressão do mais básico exercício da prepotência, na lógica de baixar a bola aos dissidentes e discordantes. Penso em toda a espécie de rábulas, nacionais e internacionais (pense-se no Daily Show do Jon Stewart, ou o Leno), feitas aos políticos, algumas delas mesmo agressivas, e depois olho para isto, e surge um riso consternado e cansado.

Seria cómico se não fosse asqueroso.

Seria risível, se não fosse perigoso.

O autarca de Vila Nova da Rabona parece cada vez mais vestido de pele real...

Por vezes sinto que o melhor mesmo é correr a música do TN que está aí ao lado, e ficar assim.
Ela diz mesmo tudo.

terça-feira, maio 22, 2007

Dá efectivamente muito que pensar. A cassete dos "imperativos do mercado" tem mais buracos que um queijo suíço...
Não sou economista, e tento apenas informar-me o mais possível, na perspectiva de um leigo que no entanto tenta raciocinar e chega à conclusão que dificilmente se explicam cortes de pessoal numa empresa onde os administradores ganham 300 vezes o que ganha o operacional mais básico na estrutura produtiva. Como alguém me disse, a empresa que tem máquinas com 20 anos, mas um conselho de administração com Audis TDI à porta, não pode explicar-se com imperativos de mercado.
O Presidente do Banco de Portugal não pode vir falar de rigidez de legislação laboral, e de necessidade de contenção salarial, e depois encomendar alguns BMW série 7 ( + ou - 20 000 contos cada) para se transportar de um lado para o outro.
As contradicções estão à vista. E são imensas.
Considero apenas triste e de uma hipocrisia tremenda falar-se em condicionantes de mercado quando o mesmo pode claramente ser regulado, e a ganância do lucro sem contrapartidas de evolução ou progresso ser controlada pelos árbitros - os Estados. Se existirem regras, a selvajeria não se generaliza.
Se afinal de contas não passamos mesmo de factores de produção, de simples elementos na roda dentada, então a ideia de competência e profissionalismo rapidamente é substituída por qualquer pessoa que possa ser espremida o mais possível, pagando o menos possível. E isto parece-me, no mínimo, perigoso e anacrónico, próprio de outras eras negras da história social.
Acredito numa economia de mercado, no valor da concorrência, da competência e profissionalismo, mas nunca a todo o custo, e jamais sem regras. Os árbritos devem ser rigorosos e as regras são para cumprir, porque o sucesso deve ser sempre obtido com as pessoas, e não à custa delas, porque cedo ou tarde, a pressão é demasiada, e algo vai estalar e a derrocada é inevitável. Não entreguem o peixe, mas sim as canas, e que os fiscais vigiem os rios. Assim será mesmo através do valor e trabalho que as pessoas chegarão a algum lado, e não pela eficácia da sua implacabilidade competitiva.
"Nenhuma força de mercado impõe que um administrador tenha que ganhar um salário de 12 milhões de dólares por ano – nem sequer de 2 milhões; mas os conselhos de directores e as comissões de compensação corporativas formadas por amigalhaços podem assumir esta generosidade à custa dos trabalhadores. E é este mesmo grupo de fabricantes de decisões, em conjunto com os funcionários políticos que eles apoiam e subsidiam, que afirmarão enganadoramente, por exemplo, que são as forças do mercado, a pressão inflacionária, e a potencial perda de postos de trabalho que os obrigam a bloquear as tentativas para aumentar o ridículo salário mínimo nos Estados Unidos de 5,15 dólares por hora, e que se mantém há uma década.(...)
Stephen J. Fortunato Jr. - Membro do Supremo Tribunal de Justiça de Rhode Island. Os seus ensaios e análises têm sido publicados no Georgetown Journal of Legal Ethics, no Harvard Law Journal, no In These Times e noutras publicações.

segunda-feira, maio 21, 2007

A natureza dos diários pessoais, sejam eles de que espécie forem, resume-se sempre a um encontro com coisas que desejamos externalizar, mas num monólogo recoberto com o anonimato possível.
Como qualquer outra forma de expressão, um blog, como o meu, e perante a idade que já tem, torna-se um receptáculo da própria pessoa, que ao ler-se, relembra as coisas mais ou menos certas que disse sobre alguma coisa, em certo dia.
Tenho andado afastado do meu diário porque a sua natureza esgotou-me, e porque farto da minha narrativa própria, lancei-me na imaginação de outras. Nestas sinto-me mais à vontade, enquanto inventor mentiroso, de boas ou más intenções, lançando pessoas que não existem de encontro a vivências que nem sei de onde vêm, deixando assim o meu diário ao sabor das suas ausências.
Mas seria ainda mais mentiroso, pelo menos mentiroso da má espécie (se é que existe uma boa), se dissesse que a exteriorização do meu quotidiano, (das coisas que afinal de contas estão apenas reduzidas à insignificancia da minha própria vida), não me estivesse a fazer falta.
Talvez porque escreva na lúcida perspectiva de que não tenho outra escolha. Talvez porque, como qualquer pulsão, ela possa surgir acerca de coisa alguma, ou ser afinal o produto de muitas coisas que nunca conseguirei explicar devidamente.
Mas é também o encontro com as pessoas que provoca o desabar da porta ou o estilhaçar da fechadura do diário.
E é por causa delas que a pulsão da escrita não obedece a critério algum de exactidão nos seus fundamentos, mas de escrita porque sim.
Acho que estão (re)abertas as hostilidades.
Acho...

quinta-feira, maio 17, 2007

E eis-me, a pedido de um amigo, a fazer parte ou a criar o chamado meme.

Confesso que ainda não agarrei bem a lógica do conceito, mas aguardo instruções, e sobretudo, esclarecimentos sobre este movimento, ideia ou conceito.
Bem, de volta á escrivaninha.
Até breve.

segunda-feira, maio 14, 2007


Olá Mãe.

É uma vergonha que tenha de esperar estes dias para escrever uma ou duas letras para ti. É igualmente uma vergonha que não transpareçam as motivações que surgem, e nunca se esgotam, muito menos num dia do ano.


É curioso pensar no decorrer do tempo. Longe vão as tardes dos Parodientes de Lisboa, dos Tulicreme, das invectivas pelo mudar do mundo e o decurso do relógio. Do olhar pela janela e a transformação do carreiro lamacento em estradas, paredes e fim de sossego.
Recordo também uma noite em Vila Praia de Âncora, em que vimos juntos o nascer do sol, mas não por amor à Natureza. Noite de resistência, essa, daquelas criadoras de laços, daquelas que desafiam a lógica e fundam a proximidade em coisas tão duras como betão armado.
Recordo as posições de força, as incongruências de emoção, os tropeções, os triunfos, as dificuldades, as realizações, os sustos, as surpresas. São passado feito facto contemporâneo, feito em gestos de cada dia.


Se hoje sou agnóstico, ou gosto de me julgar pelo menos como pensador livre, devo-o a um senso misto de educação com regras e simultânea faculdade de escolher e decidir. E durante muitos anos será das coisas que mais agradeço, porque à férrea noção de força pessoal, deste-me a escolher entre um ser imaterial e a adoração possível pelas coisas boas dos outros. E a escolha tornou-se óbvia.


A verdade é que não exponho vezes suficientes a importância dos teus detalhes, a sorte que possuo em trocar galhardetes contigo, na pouca ordem que vais ajudando a manter na minha vida a partir de certo momento crucial. É de facto um aparente paradoxo, mas perante aqueles que estão mais debaixo da nossa pele, a distância necessária para confissões afectuosas sem medo é extremamente complicada de criar ou manter.


Sorte é acaso. Mas a manutenção da mesma é trabalho e uma lição dura e valiosa sobre dedicação. Ter a sorte de ser recorrentemente filho e menos vezes adulto não acontece a muitos. Nem muitas vezes. E no entanto tenho a possibilidade de cair nessa rede com a frequência de quem faz do conceito de dedicação um tipo de material digno de ser leccionado.


Até a tua cabeça dura, a inflexibilidade da visão de quem ferreamente sustentou tanto peso tem todo o cabimento na pessoa que sempre nos foste mostrando. Feitio que nos contaminou, lógica de corda que não parte, resistência acima da tentação da comodidade.


As pessoas de quem mais gostamos, que são o pano de fundo dessa sorte, acabam por conhecer-nos nas ausências, pressentir os recortes de personalidade quando os baralhamos em formatos pouco nítidos. Uma mãe, das reais, faz-nos ter a percepção clara de que a vida que temos não pode senão respeito por um propósito. Tu deste-me sempre a crer que o melhor que podemos ser surge pelo melhor que conseguimos fazer. O senso de pertença que nos acolhe é tão instintivo que qualquer questão que lhe coloquemos desvirtua a sua natureza. E somos tão pequenos perante aquilo que nos é dado, que mais vale aceitar e entender como normalidade. E nisso sempre foste exímia.


É um aniversário, mas a tua força está estacionária.


É um passar de tempo, mas nada significa senão que pareces maior que ele.
É o teu dia, mas é mais um. Porque o cordão umbilical, mantido ao longo de todos estes anos (exceptuando a parvoíce da adolescência, mas temos de ser estúpidos durante uma fase da vida), é feito da solidez de algo que não tem nada a ver nem com sangue, nem com carne, nem com convenções gregárias de sociedade. Tem a ver com aquilo que tu, (de todas as formas, bem como esse senhor aí ao teu lado,) escolheste fazer.


Sou, assim como o meu irmão, produto da tua escolha em querer fazer uma pessoa de cada um de nós. Onde falhámos, a culpa é nossa, onde triunfámos, o empurrão foi teu. Porque quanto mais olho à volta, e vejo o que se passa, mais vejo os risco que impediste que corrêssemos, e nessa óptica, conseguimos emergir como homens. Homens que aceitam as suas contradições, mas não tropeçam nelas. Homens que entendem de onde vieram, e aceitam humildemente a dádiva em pertencer a essa origem. Uma origem feita de um escudo e nunca uma bolha, de uma lição e nunca uma ordem.


És ainda mais mãe do que a palavra denuncia.
Por isso este é um dia de muitos outros, onde és tão maior do que podes parecer.
Nunca serei adulto o suficiente para agradecer aquilo que fica nas entrelinhas onde o sangue é apenas um detalhe, e a tua vontade e feitos são tudo.


Obrigado…

FELIZ ANIVERSÁRIO…

quarta-feira, maio 02, 2007



Na sequência de um post escrito anteriormente, eis a voz e música por trás da voz de George Clooney, John Turturro e Tim Blake Nelson no filme "Brother Where Art Thou".

Não sou um fã de country music (embora goste de algumas coisas que andam ali na fronteira com os blues - Ryan Adams é fabuloso e claro está, há sempre o grande mestre e já desaparecido Johny Cash), mas esta música deixa-me incrivel e inexplicavelmente feliz, e macacos me mordam se sei exactamente porquê.


O mesmo pode ser dito do filme em causa.

Mistérios felizes, julgo eu.

P.S. - Esta canção foi escrita por um violinista/guitarrista/cantor do Kentucky chamado Richard "Dick" Burnett, o qual perdeu a visão devido a uma ferida provocada por uma espingarda no decorrer de um assalto em 1907. Na sequência deste incidente tornou-se músico profissional.

Cansadíssimo como ando, e ainda por cima carregando este céu plumbeo às costas o qual mais parece um cobertor de algodão molhado e sujo, algumas coisas ficam espartilhadas na dentada egoísta do tempo que nem por nada aceita esticar-se.
Espreguiça-se, mas ali fica, parco, em gotas para um sol de sede, e uma pessoa vê-se na contingência de tentar apagar dez fogos com duas vassouras e um balde furado.
E um tipo irrita-se com esta percepção de que provavelmente espreme o tempo para nada mais que cansaço.
Mas por outro lado, qualquer triunfo saberá sempre melhor.
Velha história da alternância.
As conversas sobre o tempo são tábuas de salvação. Um pouco à guisa daquela tábua que manteve a protagonista do Titanic à tona de água (embora sempre me tenha perguntado a razão pela qual não alternaram para que nenhum morresse gelado), têm no entanto algum préstimo. São desbloqueadores de conversa, por um lado, e pontes de comunicação, por outro. Dão jeito, em linguagem mais informal. São aqueles segundos que nos permitem a imaginação prodigiosa capaz de produzir algum discurso que conduza a conversa a algo que realmente interessa, ou que servem como plataforma para observar um par de olhos, um contorno, uma emanação da pessoa.
Claro que a conversa sobre o tempo tem uma premissa menos fácil de lidar. Aquela que nos diz que algo tem de suceder-lhe, sob pena do diagnóstico meteorológico não servir de antecâmara a algumas frases que façam a diferença, mas apenas a prática demonstrativa da limitação imaginativa de uma personalidade. E isso nós não queremos.
Até porque o tempo é feito de sol, de cores, de tendências, como qualquer pessoa que temos a possibilidade de ver e conhecer. É complexo, variado, e nunca surge da mesma forma em dias seguidos. E a conversa sobre ele pode apesar de tudo demonstrar a vontade de conhecer a forma como este afecta o nosso interlocutor, e dar-nos pistas sobre isso mesmo.
O tempo pode ser o reflexo do humor, e falar dele pode ser uma tradução de ideias e sensibilidades espelhadas no meio ambiente.
O tempo acaba por partir o ano em partes. E quem diz em partes, acaba até por fazê-lo em atitudes ou lógicas, porque também somos feitos do que nos rodeia. Não é por isso estranho que Robert Frost falasse em árvores e William Blake em tigres incendiados ao pôr-do-sol.
É o tempo.
O tempo tem muito mais virtualidades do que julgamos, mesmo em tópico de conversa. É um acesso, um caminho, uma forma.
O tempo é afinal de contas, o primeiro produtor de cores, de cenários, de enquadramentos. É um elemento vivo de tudo o que nos situa algures.