ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, junho 28, 2007

Se Orson Welles tivesse pregado aquela partida na rádio em Portugal, eu seria um dos primeiros a sair para a rua, à espera de ver os seres verdes e as máquinas destrutivas.

Embora não saiba exactamente porquê, sei que o faria.

terça-feira, junho 26, 2007

Não tenho a mínima pachorra nem consideração por anónimos.
Normalmente se tenho algo a dizer às pessoas, digo-o, ou se a praça pública não é o local adequado, envio um mail ou uma carta, expressando o meu desacordo ou coisa que o valha.
O anonimato total, que se expressa através da ideia do toca e foge, faz lembrar os sacos de água suja ou os palitos nas campainhas dos prédios. A partir dos seis ou sete anos deixa de ter graça ou justificação.
Já o tinha dito, mas fica aqui novamente a chamada de atenção.



Reality check...

segunda-feira, junho 25, 2007

A memória acaba por não permitir escapatória, Porque ao contrário das palavras, a memória basta-se a si mesma, e se tenta alguma coisa, é porque normalmente já partiu do princípio que conseguirá.
É na presença ensurdecedora dos demais que os realmente especiais tudo silenciam.
A grande inimiga dos dias céleres é a apatia. Não porque os detenha, mas porque ainda os incrementa como tal, tornando-os apenas imperceptíveis.
E isso não é esquecer, mas apenas uma simples, terrível e subtil esquiva à existência.
A escolha por um olhar aprofundado, insistente e curioso é o primeiro passo para demasiada informação por unidade mensurável de expectativa.
São algumas das relações inversamente proporcionais que definem a necessidade que outros representam, bem como os efeitos das suas queimaduras, ao escolher-se olhar de frente para alguns desses sóis ilusórios.
Consegue sempre perceber-se a violência perpetrada pela forma como surgem colados os cacos.
Quando não se presume nada, descobre-se tudo.

sexta-feira, junho 22, 2007

Eu gosto de pessoas.
Não haja dúvidas quanto a isso. Gosto e pronto.
Mas também existem coisas acerca delas que detesto. A inércia, ou o comodismo/"encostanço" disfarçados de descontração deixam-me piurço, ou pior, triste.
O descuido com os pormenores porque "isso não interessa nada", ou "mas qual é o stress", é apenas uma maneira blaze que alguns encontram para achar que chegar a horas é um detalhe, ter um gesto é desnecessário, que a inclusão não se faz de pequenos feitos e intenções.
Claro que todos somos atreitos a momentos de isolamento, de escassez de tempo, de menor disponibilidade, mas a consideração, ou a gratidão simples pelas coisas também simples não se consegue de forma estática. Não é como abrir a janela, apanhar vento na tromba e está feita a respiração do dia.
A verdade é que na complicação que se tornam os relacionamentos interpessoais, sejam eles de natureza mais ou menos intensa, existem dinâmicas saltitantes. Hoje estamos aqui, amanhã mais ali. Mas a ideia de que uma personalidade cooperante e mais resistente significa um costado necessariamente mais largo para levar umas pancadas, é uma falácia. E a espaços, perigosa. Leva muita gente a defender-se, a criar barreiras, ou a exibir dentes assertivos onde apenas um pouco mais de intenção materializada seria remédio santo para um pouco mais de paz alegre.
Os gestos não são só isso.
Não basta saber que gostamos das pessoas, e que isso lhes basta como contributo. Há que ir com um martelo e quebrar a redoma dos dias sufocantes. Há que saber-se que a intervenção e presença não podem ser pedidas, mas que surgem, por vezes das formas mais directas, simples, e eficazes.
Eu gosto hoje menos de pessoas do que gostava há uns tempos. A porradaria das percepções dá para perceber isso. O espanto e calafrio da desilusão feita surpresa também. Por vezes aparece de onde menos se espera, e isso é um facto. E o que mais me custa (e talvez menos desculpe a alguns de quem esperei outra coisa) é terem-me levado a pensar assim, de forma conclusiva e serena, apesar de todos os meus próprios protestos. Faz-me sentir irado, estupido, otário e crédulo, como acho que o fará a toda a gente que assim se sinta, e no entanto a ideia da expectativa ainda se renova.
Mais do que ainda gostar de pessoas, ainda creio nelas em conceito.
Haverá maior parvoíce da minha parte?



Este filme, e esta magnífica faixa trazem recordações, mas sobretudo, reflexão.


Sempre achei extremamente difícil contar uma boa história de amor. Talvez porque a natureza contraditória do fenómeno faça com que a sua materialização se deva revestir de especiais cuidados, sob pena de ficar soterrado pelos constrangimentos, e não elevado pela intensidade daquilo que o torna (perigosamente) único.


Também considero que o amor é um “transmorfo” subjectivo. Cada hóspede da sua influência cria um universo próprio para o poder vivenciar, e as manifestações alteram-se consoante a capacidade do seu portador. É como um vírus (a maior parte das vezes benigno, mas nem sempre) cujas mutações correm pelo contorno do seu portador, chegando mesmo a transformá-lo.


Recordo aquele texto que andou a circular na internet, do MEC (A Causa das Coisas continua a ser, para mim, a referência. A crónica "Almoços" é a melhor e mais hilariante crónica que alguma vez li na vida), a propósito do chamado "Elogio do Amor Puro". Entendendo a posição do senhor (e o texto é de facto belo), mas não posso deixar de discordar com algumas coisas, que foram defendidas e assumidas como máxima de vida por uma carrada de gente, começando logo pela designação "Amor puro".


Não sei o que significa. Que vem a ser amor puro? Pureza num conceito tão contraditório, violento e caótico como este parece-me quase como colocar uma tiara de fada na cabeça da MAE WEST. Não joga. Quanto muito existe um destilar da capacidade de querer, a qual torna o sentimento tão afiado e intenso que corta tudo à sua passagem, mas não há nada de puro, nada de cândido ou limpinho. Amor é sangue e pele debaixo das unhas, e transmuta-se como uma segunda pele, adaptando-se ao tamanho e ritmo dos corações. Quando estes se partem, a tal pele estala, e como diz o outro, o vento acaba por levar tudo. O amor é sim o mais contaminado de todos os sentimentos, julgo eu.


Depois elogiar o amor sem razão alguma, aleatório, estúpido, cego e doente, mais parece uma ronda de tiro aos patos. Mas que merda de mania esta de achar que os mais elevados e poderosos sentimentos humanos se caracterizam por uma total ausência de relação "causa-efeito", ainda que seja parcial! Será assim tão nobre e bonito olhar para alguém e, assim do nada, deixar de ter capacidade de “empatizar” seja com o que for porque a suposta rajada aleatória do amor varre tudo à sua passagem? Será que a ideia do valor intrínseco da pessoa, daquilo que nos encanta na sua capacidade de comunicar, de ser, de se mexer, de problematizar, de fazer rir, de deixar sair as contradições que a fazem humana, são meros detalhes despiciendos, perante a tal grandeza da estupidez linda do suposto amor de origem desconhecida? A mim parece-me terrível que algo tão importante como o amor possa ser definido como uma indeterminação arbitrária, onde aquilo que sou como pessoa é simplesmente dispensável, perante o grande mistério totalitarista do amor que não se sabe de onde vem.


Tenham paciência...


Existe, obviamente, mistério no Amor. Porque entre dezenas ou centenas de pessoas que conhecemos, muitas delas com charme, encanto, inteligência, beleza, só muito poucas nos fazem suar com a antecipação do toque. É esta espécie de triagem que constitui o mistério, por uma combinação de coisas cuja matriz desconhecemos, e que nos retira o peso do corpo ao descobri-la. Mas que diabo, o substrato está lá. Há algo que reconhecemos como fundamento parcial daquele ser humano que nos encanta. Olhamo-lo, ouvimo-lo, cheiramo-lo e sabemos que lá está algo que tem coincidência com os nossos pontos de aceitação, com juízos estéticos, éticos, emocionais, e mesmo aquilo que nos irrita compõe o ramalhete. Aceitar a total falta de fundamentação, é, em meu modesto ver, reduzir a pessoa e o próprio amor a uma espécie de esoterismo dogmático, e o amor tem para mim muito pouco de religioso ou de "é assim porque é e o que é que a malta há-de fazer." (E sou tão sensível ao maravilhoso final do "The Dead" do Joyce como qualquer romântico inveterado.)


Se a beleza do amor é a falta de comunicação, a casmurrice, a ansiedade, os gritos, a falta de um mínimo de lógica e senso, as tragédias gregas, e se só isto significa esse algo que entra por nós a dentro e nos desequilibra, nos faz melhores, mais completos e mais vivos, então eu estou mesmo morto e não recebi o aviso lá em casa. Escandaleira, possessividade paranóica e drama não é amor, mas apenas uma forma de exercer poder sobre alguém.


Amor real, para mim, traduz-se em sentirmos que, por causa de alguém, somos muito melhores do que éramos, mais capazes, mais completos, e sobretudo, diferentes. Diferentes porque maiores, porque algo transforma as realidades, que parecem sempre iguais, em algo para o qual existem fundamentos, mas raramente uma explicação cabal.


Amor é perdermo-nos no que somos, e no que alguém é. É perceber que o coração pode partir-se e esse risco pode transformar-se num abandono à realidade que se vê sem cores ou formatos. Amor não é um tom pardacento ou misturado no completo desconhecimento. É passar do cinzento ao vermelho, e viver as gradações como se caíssemos de uma falésia, mas nunca em total desconhecimento.


Amor não é puro.

É justamente o contrário.

O amor é a mais notável forma de contaminação.

As boas histórias (acerca dele) são feitas de perguntas, de descobertas e sobretudo, de reconhecimentos inauditos, braço dado com as novidades de quem levou aquilo que era um pouco mais longe no nosso reconhecimento.

(E, claro está, é também um aroma corporal de fazer dobrar os joelhos e transpirar sem calor...)


quarta-feira, junho 20, 2007

William Golding, ao aceitar o Nobel da literatura em 1983 disse:
"I came to Sweden characterized as a pessimist, though I am an optimist. Now something - perhaps the wonderful warmth of your hospitality - has changed me into a comic. That is a hard position to sustain. It reminds me of days long ago when as a poor teacher I would take turn about during the night with my wife, getting our infant daughter to sleep. I remember once, how at three o'clock in the morning when I began to creep away from the cradle with its sleeping child, she opened her eyes and remarked: "Daddy, say something funny".

However, the moment has come for me to put off the jester's cap and bells.
I do thank Sweden for its wonderfully warm hospitality and I do thank the Nobel Foundation and the Swedish Academy for the welcome and unexpected way in which they have, so to speak, struck me with lightning. I only wish all borders were as easy to cross and all international exchanges as friendly.

I have been in many countries and I have found there people examining their own love of life, sense of peril, their own common sense. The one thing they cannot understand is why that same love of life, sense of peril and above all common sense, is not invariably shared among their leaders and rulers.

Then let me use what I suppose is my last minute of worldwide attention to speak not as one of a nation but as one of mankind. I use it to reach all men and women of power. Go back. Step back now. Agreement between you does not need cleverness, elaboration, manoeuvres. It needs common sense, and above all, a daring generosity. Give, give, give!
It would succeed because it would meet with worldwide relief, acclaim and rejoicing: and unborn generations will bless your name."
Isto dito por um homem que escreveu um dos mais negros, pungentes, belos e horrendos livros que alguma vez li. Um homem que, a julgar por esta obra, seria um pessimista, porque retrata sem complacência a nossa queda para a selvajaria.
Mas acho que temos sempre que aprender muito com aqueles que são capazes de fazer um mundo, de produzir algo que o tempo simplesmente se encarrega de continuar a engrandecer.
Quando leio coisas destas, e depois sou forçado a confrontar-me com discursos neorealistas liberais que glorificam o salve-se quem puder, reitero a convicção de que muito do que não se pode fazer depende única e exclusivamente de quem detém demasiado poder nas mãos.
Pensar no outro ainda é possível, e não uma quimera gozável.
Felizmente.
"ALL things uncomely and broken, all things worn out and old,
The cry of a child by the roadway, the creak of a lumbering cart,
The heavy steps of the ploughman, splashing the wintry mould,
Are wronging your image that blossoms a rose in the deeps of my heart.

The wrong of unshapely things is a wrong too great to be told;
I hunger to build them anew and sit on a green knoll apart,
With the earth and the sky and the water, re-made, like a casket of gold
For my dreams of your image that blossoms a rose in the deeps of my heart."

William Butler Yeats

Mais Yeats para um dia melhor... :)

Sempre gostei mesmo, mesmo, mesmo muito deste senhor...
Mesmo muito.
A mermaid found a swimming lad,
Picked him for her own,
Pressed her body to his body,
Laughed; and plunging down
Forgot in cruel hapiness
That even lovers drowm


William Yeats



Eu sempre gostei muito deste senhor...
Tanta verdade em tanta beleza simples...

terça-feira, junho 19, 2007





"It is the oldest ironies that are still the most satisfying: man, when preparing for bloody war, will orate loudly and most eloquently in the name of peace. This dichotomy is not an invention of the twentieth century, yet it is this century that the most striking examples of the phenomena have appeared. Never before has man pursued global harmony more vocally while amassing stockpiles of weapons so devastating in their effect. The second world war - we were told - was The War To End Wars. The development of the atomic bomb is the Weapon to End Wars.
And yet the wars continue."

Alan Moore - "Watchmen"

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"JON: I'm leaving this galaxy for one less complicated.

VEIDT: But you'd regained interest in human life.

JON: Yes, I have. I think perhaps I'll create some.

VEIDT: I did the right thing, didn't I? It all worked out in the end.

JON: "In the end?" Nothing ends, Adrian. Nothing ever ends."


Alan Moore - "Watchmen"


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"Who watches the watchmen?"

Juvenal, Satires, VI, 347


"As far as we can discern, the sole purpose of human existence is to kindle a light of meaning in the darkness of mere being."

Carl Gustav Jung

segunda-feira, junho 18, 2007



"(...)O toque da tintura de iodo doía sempre muito. Instalava-se entre as fendas nos lábios, causando um arrepio inicial muito forte o qual rapidamente se transformava em dor pulsante quando a carne se apercebia da substância que se lhe juntava. O que arde cura, já dizia a mãe dela e provavelmente milhares de outras mães que esfregavam o álcool ou tintura de iodo nos joelhos esfolados dos miúdos no final de um dia de brincadeira.

Mas ali nunca se brincava. E quando ela pensava que sim, o resultado posterior era sempre bem pior. Não há nada como a fúria mascarada de bom humor ou alegria. A ilusão era teimosa e aparecia sempre. Como um miúdo prestes a ser atropelado depois da proibição de brincar na estrada. Aquela sensação de que as coisas aparentam ser diferentes, a expectativa, o toque que parece tão genuíno. Tão confortante. Não admirava que a dor se tornasse muito pior. Como um contraste brutal que se estendia muito para além das marcas físicas. A quebra de esperança uma e outra vez. A humilhação perante a ilusão.


Isabel olhava-se ao espelho. O rosto era fino, bonito, de traços bem delineados. O nariz, mesmo depois de no passado ter sido partido em dois locais, recuperara a beleza feita de uma curva ligeira e levemente empinada. Os lábios eram carnudos e o sorriso feito da luminosidade própria de quem sorri com todo o rosto. O corpo, segundo aquilo que lhe diziam muitas amigas menos favorecidas pela natureza, era feito daquela massa que suporta todas as passagens do tempo e asneiras do quotidiano. Fizera alguns trabalhos como modelo enquanto tirava o curso de psicologia, mas este levara a melhor sobre uma entrega real ao mundo das passerelles. Fora no entanto num desses desfiles que conhecera o Rui. Um director-geral da maior sucursal de uma marca famosa de roupa em Portugal.Um tipo alto e largo, com olhos de um azul cegante e sorriso encantador. Dinheiro a rodos. Um discurso sedutor que a levou claramente a esquecer o olhar demasiado brilhante e incisivo. A forma como arreganhava o lábio inferior enquanto falava. Os gestos corteses, a capacidade para as melhores surpresas, um certo arrebatamento contido que lhe causava a ela um fantástico senso de insaciedade relativa. Isabel perdeu-se rapidamente, com a facilidade de quem escorrega por uma encosta cheia de gelo. Tudo parecia assentar. As palavras, os gestos, o decorrer dos dias onde sempre existia algo para fazer. Em cerca de um ano, a boda estava marcada.


O inebriamento fez com que Isabel descurasse alguns pormenores, ou na sua linguagem silenciosa e interna, coisas que pareciam tudo mas provavelmente não eram nada. Afinal, toda agente tem mau feitio ocasionalmente, e a quota parte de perversidade em alguns aspectos acaba por simplesmente fazer parte do encanto de cada um. Mesmo que pareçam aquelas coisas que indiciam algum perigo.


Na primeira noite após o retorno da viagem de lua-de-mel, Isabel fez uma proposta sexual pouco habitual para ela própria. Sentia-se completamente rendida aquele homem e a sua mente simplesmente viajava para a exploração de tudo o que fosse possível com ele. E foi então que surgiu pela primeira vez. A expressão feliz, alegre. Um sorriso diferente de tudo porque em si era um paradoxo. Havia quase como que uma luz que se acendia no rosto de Rui, como qualquer filamento brilha intensamente antes de causar um curto-circuito. Quando ela entrou no quarto com as botas de cabedal de salto alto e nada mais e antes que pudesse colocar-se de quatro, o sobrolho direito conheceu a primeira chaga. A mão pesada do marido fechou-se numa espécie de pedra feita de dedos e bateu-lhe na fronte direita, abrindo um corte que necessitaria de sete pontos para fechar. Isabel voou para trás, desamparada pela dor, impacto e surpresa, e caiu no chão. O sangue vertia em golfadas pelo sobrolho esquerdo, desenhando uma pintura grotesca no rosto. As lágrimas saltaram antes mesmo dela perceber, e a cabeça era agora um reino de dor tão forte que chegava a causar náuseas estomacais. Sentia-se completamente perdida. Não tinha qualquer noção do que se passara, e por um instante balsâmico, a mente tentou iludi-la a pensar que teria batido na ombreira da porta. No entanto, a realidade era sempre muito mais lesta como mensageira, e percebeu rapidamente que o Rui lhe tinha batido. Ficou deitada no chão, nua, com as botas calçadas. A pintura já completamente borrada no rosto, e o sangue que lhe coloria a face, as mãos e agora um pouco do peito. E a dor. A dor imensa. A dor da humilhação, da surpresa, do medo. Todas juntas às guinadas insuportáveis que advinham do sobrolho direito, aberto como uma boca em pleno grito.Com uma calma palaciana, Rui aproximou-se dela e agarrou-lhe pelos cabelos. Olhou-a nos olhos.E embora ela só pudesse ver pelo olho direito, e ainda assim meio cego pelas lágrimas, reparou que o sorriso não desaparecera dos lábios. Mas todo o rosto era uma máscara de ira e desprezo demasiado difícil de contemplar. Uma ameaça pura, uma intenção de violência feita olhar. Rui tirou a mão da melena, mas não em antes arrancar uma mão cheia de cabelos pela raiz. Isabel gritou. A sua cabeça era agora um oceano de dor. A mente, um inferno de humilhação sem fim à vista. Apresentava-se perante ela uma estrada de recordação feita de anos.


Isabel e Rui eram casados havia três anos. Os cenários nunca mudariam, e os motivos aumentavam exponencialmente. Isabel sabia que a sua vida era um risco constante. Um risco que implicava ver aquele sorriso. Os motivos nunca eram certos, e não havia forma de evitar. A brutalidade ganhava aquele contorno de elemento auto-explicável. Existia. Como uma tempestade. A tempestade pode ser injusta, mas existe. E ela está lá e não há como escapar quando se está no trilho do tornado. Era esta a ideia de Isabel.Felizmente não tinha filhos. Era este o pensamento que tinha cada vez que curava u ma ferida. Mas naquela manhã o teste fora positivo, pelo que Rui lhe abrira o lábio em três locais. Isto depois de forçar o vómito por tantas pancadas consecutivas no estômago. Isabel vira a morte de perto. Porque não havia o sorriso. Havia a possibilidade da escuridão completa, daquela da qual nunca se despertava."

Em Portugal (fonte – PSP, GNR e APAV – Relatório “Mulheres (In)visíveis”) - No ano de 2005 foram denunciados 18.192 casos de violência doméstica à GNR e/ou à PSP. A APAV recebeu, no mesmo ano, 12.809 denúncias. Entre 65% a 87% dos casos apresentados às autoridades, o agressor era cônjuge ou companheiro da vítima. - Fonte: Amnistia Internacional

Só gostava que fosse mesmo um mero exercício de ficção...



"There was a time that the pieces fit

But I watched them fall away

Mildewed and smouldering

Strangled by our coveting

I've done the math enough to know

The dangers of our second guessing

Doomed to crumble unless we grow

And strengthen our communication

Cold silence hasA tendency to

Atrophy any

Sense of compassion

Between supposed brothers..."

A facilidade com que se pode cair num ressentimento generalizado faz pensar. A facilidade com que determinadas coisas deixam de ter importância, ou como podemos rebelar-nos contra elas, é assustadora na sua simplicidade.

A geração de respeito pelos outros, na sua ausência de compaixão ou simples desinteresse em ver a perspectiva alheia, pode estar precisamente no endurecimento do trato. É com absoluta tristeza que se verifica que a guarda mais baixa só produz fatalidades, que, apesar de pequenas, infectam o tecido da proximidade e geram os isolamentos surdos.

A guarda baixa é um imã. Atrai aquilo de que não deveríamos ter de nos proteger. Gera a noção de fraqueza onde se quer apenas empatia e comunicação sem complicações ou artifícios. É triste porque é fácil, e raramente se explica em conceitos unos. Muitas vezes parece fazer-se apenas porque se pode.

Por vezes, fazer as coisas unicamente como queremos é apenas uma forma de sobrevivência. As tentativas de concordância abrem brechas que esperam toque, mas encontram unhas de lâmina.

E na percepção dos cortes, o antiséptico nada faz, porque se confunde com a inevitável armadura, dentro da qual nada sara ou piora.

É essa a ironia da situação. Algo infecta a meio caminho entre a ausência de curativo, e a protecção abafada e infecciosa que o receio gera, de forma espontânea e inexorável. Muros vivos, que crescem sem mão, ou justificação plena, deixando-nos algures entre a moínha persistente e a calma ressentida e orfã própria da protecção.

sexta-feira, junho 15, 2007

Cardinal faults Amnesty on abortion By NICOLE WINFIELD
Associated Press Writer © 2007 The Associated Press
On today's Houstou Chronicle - 15-06-2007
"VATICAN CITY — A Vatican cardinal said Wednesday that Roman Catholics shouldn't contribute to Amnesty International because the group adopted a new policy calling for access to abortion services for women under certain circumstances.
The human rights organization reversed its longtime neutral stance on abortion in April and adopted a policy urging governments to ensure access to abortion services for women in the case of rape, incest or when pregnancy represents a risk to the mother's life or a grave risk to her health.
Cardinal Renato Martino, who heads the Vatican's justice and peace department, criticized the policy, saying it represented a betrayal of Amnesty's goals of ensuring human rights around the world. "The inevitable consequence of this decision, according to the cardinal, will be the suspension of any financing to Amnesty on the part of Catholic organizations and also individual Catholics," according to a statement from Martino's office.
In a statement, Amnesty said it had never received any financing from the Vatican or from official Roman Catholic organizations. Spokesman Riccardo Nourey acknowledged that the group may well have received financing from "Catholic-inspired" groups as well as individuals, but not from organizations that are an official extension of the Catholic Church. In fact, Amnesty's statutes specifically say that the London-based organization is independent of any government, political party, church, religious confession or other group.
In the statement, Amnesty explained that its new abortion policy came about as part of its global Stop Violence Against Women campaign. The group, winner of the 1977 Nobel Peace Prize, said it recognized that women and girls were victims of gender-based violence and bear the consequences of "the abuse of their sexual and reproductive rights." Amnesty says it isn't taking a position on whether abortion is right or wrong, and will not campaign generally for abortion rights. But it says it decided to make the policy so it could address abortion as it relates to its core work of ensuring the right to health for women and fighting violence against women.
Martino, who was the Vatican's U.N. envoy for 16 years, often makes headlines with his pronouncements on issues of the day: He has expressed support for genetically modified foods, saying they could help feed the world's hungry; and he has backed scientists who question the gravity of climate change. The statement from Martino's office was carried by the official Vatican Radio. However, the statement on the Vatican Radio Web site omitted a key phrase from the original in which Martino says even individual Catholics should withhold financing for Amnesty. A Martino spokesman said he didn't know why Vatican Radio had omitted the section, but insisted that the cardinal fully meant that individual Catholics should suspend donations to the group. Martino's office issued the statement to expand on the cardinal's comments that appeared in an interview with the National Catholic Register, a U.S. Catholic weekly."


Os tipos andavam sossegados, e eu também. Em espécie de política "live and let live". Mas a Igreja não pode passar muito tempo sem deixar escapar um dos seus homéricos disparates, como é este caso.
De acordo com o cardeal supra citado, a política da AI sobre aborto em reacção a acções de violência sexual levada a cabo sobre mulheres deve ser fundamento para cessação de apoios à organização.
Para além de ser um disparate idiota e monumental, (semelhante a ir a África e dizer a países com problemas de sobrepopulação e disseminação preocupante de DST que o preservativo era pecado), pode causar problemas a estas organizações, que em muitos casos também dependem de donativos da generalidade das pessoas e de mecenas. Bem vistas as coisas, criar esta mancha de desaprovação sobre uma organização com tanta importância como a AI, aprovando implicitamente os resultados de violações, é algo que só vem juntar-se ao rol de disparates anacrónicos e dogmáticos de uma das várias religiões dominantes no mundo, que se preocupam, no plano dos principios (e de muitas concretizações), mais com a cartilha que com as pessoas a quem deveriam dirigir-se.

E depois perguntam-me porque raio sou agnóstico.

quinta-feira, junho 14, 2007

Temo sempre ser genérico, mas a necessidade de aprovação pelo que somos talvez atinja todas as pessoas. Há uma transferência de poder que damos a algumas pessoas, e através dela, colocamo-nos no caminho do tornado.
Existem pessoas que têm o poder de nos fazer questionar tudo, e rearranjar o que se calhar nem sequer está escangalhado.
Porque ao querermos que vejam coisas, concretizamos o temor do que possamos tornar-nos por falhas que tememos ter.
Existe uma espécie de código civilizacional contemporâneo contra qualquer espécie de segurança. O facto das pessoas poderem ter algum descanso que seja na forma como conduzem a sua vida é posto em causa como uma heresia que contraria a nova religião urbana da competitividade a todo o custo. É a velocidade, o conseguir, o ter, o chegar lá que motiva as passadas, e instila o medo. O medo que nos mostra uma garganta profunda evitada apenas por um carreiro mal enjorcado, que sem qualquer aviso pode ruir.
O medo está instalado. O receio faz com que as pessoas troquem determinados pontos de integridade fundamental por uma qualquer ilusão de segurança. Aquilo que pensam deve ceder Perante o péssimo hábito partilhado por todos e que consiste em ter de comer todos os dias.
Fala-se em objectivos, em querer evoluir e progredir, mas os ditâmes economicistas fazem da originalidade uma perda, da criatividade um risco e da honestidade e respeito pelo próximo uma ingenuidade indefensável.
É impressionante o ponto de proximidade a que nos encontramos do mais negro dos degredos sociais. Aterradora a facilidade com que poucos nos podem deitar a mão, e quantos simplesmente olham para os que caem na roda dentada da selecção moderna com o horror da expectativa. Avassaladora a facilidade dos cinismos que surgem como baluartes de um admirável mundo novo, mas baseado em vícios antigos.
O medo actual é corporificado pela cada vez menor capacidade de reagir, de alternar, de poder realmente apresentar a qualidade pessoal como mecanismo para a reinserção.
E quando estes receios atingem níveis de colectivismo relevante, o tecido da evolução rasga, o cordão umbilical é cortado demasiadamente cedo e o sangramento é visível como uma mancha negra de morte num mar cálido e translúcido.
Se a regra do tem que ser se sobrepuser sempre ao pode ser, se esse postulado for inalterado, então porque raios se temem os efeitos dessa guilhotina conceptual?
Se coçamos a crosta e ela sangra, porque surpreende a dor?
Se qualquer forma de segurança é a heresia social dos tempos modernos, porque será que o medo incomoda tanta gente?
Talvez porque a seguir ao calafrio da descida, verificamos que o carro da montanha russa acabou por descarrilar...

AT THE MOVIES IV
(alguns spoilers - passe adiante se não viu o filme)

Já nem vou cansar a psique a questionar-me quanto às razões que poderão ter restringido esta pequena jóia a uma única sala em toda a cidade de Lisboa, ao passo que as recauchutadas Tartarugas Ninja tiveram direito a dez (!) locais de exibição.
Prefiro falar do filme, da simplicidade divertida, ternurenta e honesta do enredo, e do sabor agridoce que me deixou aquele que pareceu um final perfeito para uma história que vive do instante, das coisas diferentes e dos desejos e mudanças que quase nunca se repetem na vida de cada um.
Morgan Freeman é aquele tipo que poderia ler uma lista telefónica, ou o catálogo de cores estivais da Sotinco, e uma pessoa fica mesmerizada. Há algo na presença, na voz cava, nos olhos solenes que empresta imediata credibilidade aos seus personagens. Passo os fime a esperar que o raio do homem fale. E neste filme ele faz dele próprio, envergando uma complexidade na mimetização (se é real ou não, não sei) da sua suposta vida que deixa o observador rendido. É um homem cansado, mas incansável, triste mas pleno de espírito, esperançoso mas sarcástico.
Paz Vega (passando o inglês macarrónico) faz de espanhola desterrada numa cidade industrial americana, onde a ausência de alternativas e fuga parece respirar a cada canto das ruas sujas e despidas de qualquer idiossincrasia que não lembre uma roda de hamster. Deslocadamente bela, a personagem de Vega é um mimo. Acordada onde toda a gente anda meio dormente, o animal enjaulado surge em repentes e atitudes, na ousadia de querer transcender a sua condição social e profissional. E é uma mulher lindíssima.
É um filme sobre descoberta. Sobre as probabilidades da empatia, em meu ver, tão fácil como querer simplesmente comunicar. Sobre a entrada em pele alheia e a beleza das coisas simples. Não excessivamente complexo ou pleno de ontologias e simbolismos subtis (que será isso?), é um filme que faz pensar e sentir. Uma pequena pérola de simplicidade, mas que em meu modesto ver, não deixa de ter peso suficiente para marcar, para ficar na mente como uma recordação agradável.
A separação final dos personagens é algo que me toca muito. Talvez incremente a minha noção de qualidade porque é idiossincrático, mas senti aquele momento várias vezes. O instante em que abrimos mão de algo que parece tão naturalmente encaixado em nós, e que perpassa pelas formas mais simples de estar com a mira certeira de uma empatia sem justificação apriorística. Aquela despedida feita a coisas e pessoas que se afastam, e a dúvida que nos fica acerca da necessidade de progredir caminho "versus" a nostalgia das coisas que não deveriam perder-se.
E eu tenho bem mais que dez coisas que não gosto acerca de mim, e quase dez que gosto.
Por isso a conta na minha caixa sai tão mais cara, em tantas ocasiões.
Recomendo vivamente.

segunda-feira, junho 11, 2007




Disseram-me uma vez que a expressão de qualquer coisa através de uma construção funcionava como um paliativo. Era uma forma não de evitar uma morte, mas de a ir adiando, definhando em desaceleração, aceitando os impactos das coisas que se perdem ou deixam de ver como uma onda de erosão lenta, e destruição longínqua e imprevisível.

Essa expressão surge na forma como nos criamos. Toca em tudo. Constrói tudo. Forma-nos e encabeça a teimosia da nossa originalidade. É razão de ira quando se mascara de algo que não se descortina, quando entoa os seus cânticos em timbre baixo e com letra incompreensível.

A expressão pode é, lamentavelmente, aparecer em necessidade e perder-se em forma. Como querer respirar o vento, algo do seu imenso acaba por escapar-se e nada resta senão a percepção de algo que não se delineou.

E quando não se sabe o que é, aceita-se?

Não, teima-se com o que temos à mão. E deixa de ser paliativo.

quarta-feira, junho 06, 2007

FERIADOOOOOOOOOOOOOOOOO...

Thank Someone or Something for small mercies...




AT THE MOVIES III





(Atenção, alguns spoilers! Se não viu o filme, não leia este post!)


Bem, é uma autêntica salada russa, confusa, com tantas linhas de história, algumas delas que nem sequer se concluem (o que raios acontece à Calipso? Vai-se simplesmente embora, transformada em caranguejinhos?), estendida até à exaustão. Só se safa realmente o grande Depp e a personagem de Sparrow que impede o filme de mergulhar no total desgoverno, embora ande lá muito perto.


Sparrow faz-me lembrar outro magistral excêntrico, o Ichabod Crane de Depp naquele que ainda é o meu filme favorito do Burton, o espantoso Sleepy Hollow. É uma personagem completamente radiosa, hilariante e imprevisível no meio de tanta formatação de capa e espada. Não seria justo dizer que os personagens não são algo complexos. Barbossa, por exemplo, deambula entre o bruto sanguinário e trapaceiro, e o defensor de liberdade, e a própria Miss Swann lançou o inefável Jack para as entranhas do Kraken, portanto a coisa não se centra no dualismo dos bons e maus rapazes (e raparigas, diga-se).


No entanto, o filme perde-se. Gore Verbinsky parece um mau condutor a tentar segurar um Ferrari, e são só curvas e contra curvas mal calculadas, trajectórias e resoluções dramáticas em mudança primária, estendidas até à exaustão, já que o filme é extremamente longo. Não se perdia nada em cortar meia horita.

Diverte, sim, é um facto. As imagens e os efeitos são laboriosamente criados para dar a sensação de espectáculo e fantástico, mas este é um número 3 que se distancia muito da agradável surpresa que fora o primeiro capítulo desta saga (o primeiro filme é, em meu ver, um bom filme de acção e aventura, relembrando e inovando a imagem dos corsários e as intrigas de capa, espada e rum de outros tempos).

No fundo, Hollywood faz o mesmo novamente. Espreme a mama do potencial lucro até que nada mais resta senão muito barulho e pouca substância perante o potencial que uma aventura destas teria. Fica a sensação de vazio, de desperdício, como um estomago saciado reclama invariavelmente depois de um enfardamento de MacDonalds.

Bem pelo menos fica-nos o conforto em saber que Depp fará a versão "Burtoniana" de Sweeny Todd, que desde já antecipo com grande expectativa, e para piratas, tenho lá este para ler, quando o sol e o trabalho me permitirem espraiar na areia e saber o que realmente se passava nos barcos com as caveiras e os ossos cruzados asteados.













Quando os ciclos se completam e a linha curva que os fecha irrompe como uma bolha se sabão, criando novas realidades, a mudança do status quo aparece como uma inevitabilidade sempre com algo de dor à mistura.
Não será, na maioria dos casos, uma dor grave, mas mais um sentido de proximidade e relativa pertença que se perde, ou esboroa, perante a criação da distância pragmática necessária.
Ao longo do tempo, algumas das pessoas que fazem parte do nosso quotidiano afastam-se. Levadas pelo trabalho ou por mudanças de vida estruturais, deixam-nos sem a recorrência da sua voz, do seu contributo, dos pequenos mundos criados pela sua presença. São eventos naturais, até comuns, mas que descobrem sempre o lado menos luminoso das necessárias mudanças de qualquer percurso de vida.
Felizmente, em muitos casos, as mudanças são para melhor, o que nos deixa mais aliviados relativamente a essas pessoas. Rigozijamo-nos porque a alteração traz algo mais, algo melhor, algo de sentido de evolução.
Mas fica sempre esta ideia. A ideia de um lugar mais vazio pela ausência daqueles que o fizeram reconhecível e pertencente a algo partilhado.
Bonne chance!


terça-feira, junho 05, 2007

Se repararem, o dia de hoje encerra uma curiosidade engraçada...

Hoje é dia 05/06/07 ...
Disclaimer:
Não há qualquer intenção de generalizar, nem de passar qualquer atestado de igualdade redutora seja a que género for pelas palavras ditas seguidamente. É apenas uma experiência pessoal, que é necessariamente limitada.
Dito isto, e ao longo dos anos constato que a esmagadora maioria dos grupos a que pertenci se desagregaram ou destruiram por acção das mulheres que deles faziam parte. Há algo que azeda inexplicavelmente, e inquina tudo. Eu prefiro atribuir tal coisa a um infeliz acaso, até porque a esmagadora maioria das pessoas mais próximas a mim e mais queridas são mulheres. Mas há algo no agrupamento que lança as moléculas em estado dissociativo, apodrecendo a atmosfera, até que pouca coisa reste. E por mais que parta a cabeça a pensar, não encontro um motivo para tal fenómeno. Só sei que se tem repetido ao longo do tempo, em enquadramentos bem diferentes.
E é uma pena...
O Verão chega, acompanhado sempre dos últimos passos de uma maratona de efeitos.
Nos últimos anos tem sido sempre assim.
Padrões de alternância, diriam alguns.
Por vezes espero que a calmaria chegue. Mas ela nunca vem.
Como sempre, depende tudo dos mesmos, e o agnosticismo tem mais do que uma forma de cansaço.
Sem arrependimentos. Apenas bolhas de caminhada. Só isso.
A ironia faz bem ao sangue.

Repita eu mil vezes, e a frase parece-me sempre nova...
Ouvindo hoje a TSF, fiquei com uma ideia curiosa na cabeça.
Curiosa ou assustadora, consoante a lógica que se lhe aplique. Eu prefiro encará-la como um desafio, embora admita que as forças de constrangimento sejam sérias o suficiente para que o optimismo seja, no limite, moderado.
Todos falam em globalização. É uma realidade. Mas eu nem sequer vou abordar a questão económica, e aparentes contradicções dessa realidade. Falo sim da formatação comportamental, e alguma confusão quase difamatória relativamente à individualidade, tantas vezes confundida com individualismo.
A individualidade é o elogio do característico. É a percepção do pessoal, do próprio, da diferenciação indefinível. Expressa-se pela consciência da liberdade pessoal e o esforço construtivo, através de juízos éticos e estéticos para encontrar uma identificação. Essa identificação, em meu modesto ver, cresce e dignifica-se com a partilha. A experiência da liberdade pessoal sublima-se com a feliz contaminação da aprendizagem mútua. Somos mais e melhores quando aproveitamos o que de bom e entendível a individualidade de outro nos traz.
A multiculturalidade, e a interpenetração de influências é algo já amplamente debatido e reconhecido como positivo (Não confundir com relativismo cultural absoluto, que rejeito veementemente).
Mas é na expressão da evolução diária que subsiste o gozo e beleza da expressão da liberdade pessoal. O reconhecimento da justiça, dos juízos éticos, do esforço de exploração criativa e de partilha, para que o universo de cada um seja cada vez mais seu, no respeito da sua idiossincrasia, mas em colaboração com os outros.
É por isso que me preocupa a ideia da formatação.
A pressão esmagadora das conformidades, dos medianos, dos trilhos pavimentados, sem altos ou raízes de pergunta que possam crescer por baixo e estalem esse pavimento. Preocupa que a individualidade seja confundida com individualismo, que as ideias de reacção sejam esmagadas por um discurso de conformismo e aceitação de uma qualquer noção de poder omnipresente. Chateia-me que a diferença, que as perguntas nos olhares e nas formas de estar possam de alguma forma ser catalogadas como desvios.
A globalização deveria ser feita da contaminação por conhecimento e oportunidades, não por uma "new world order" em que a competição se sobrepõe claramente à colaboração, atingindo mesmo as esferas pessoais. A evolução não põe de parte a comunicação, julgo eu. Porque quando isso acontece, o mundo das pessoas fractura, violentamente, se assim tiver de ser.
E todos lamentam.
A verdade é que a individualidade não sobrevive sem a percepção do outro. Eu creio que a mesma deve ser feita em termos de conhecimento e descoberta de formas de colaboração, como um par de idiossincrasias que se alimentam mutuamente.
No fundo, desiludido ou não com as pessoas, a verdade é que as mesmas são a fonte da minha individualidade. Só assim ela fará sentido, e como tal, é na expressão da discordância que desenharei esse contorno.
Custe o que custar.

segunda-feira, junho 04, 2007

Aqueles que não te ouvem, raramente ou nunca o farão.

Por mais que gostem de ti.


E custa.
Quem por vezes cuida de nós são aqueles cuja natureza nunca lhes criou obrigação alguma, mas que se tornam autonomamente indicados e inexcedíveis.
E que sorte tenho por vezes, ao ver o esforço dos que não tinham nada que o fazer, motivados também pelo pouco que lhes posso dar. E como tornam a minha vida possível, pelo simples prazer de me terem por lá, com os meus disparates.
Antagonismos felizes...
Há algum tempo atrás, alguém me disse, acertadíssima, que por vezes as pessoas tendem a canibalizar-se. Confesso que nessa altura fiquei algo perplexo, porque não entendia a lógica subjacente a tal ideia.
Dizia ela, muito acertadamente, que a convivência reiterada de algumas pessoas, de acordo com as suas personalidades, leva a que essas mesmas pessoas se canibalizem, numa espécie de trituração pelos nutrientes necessários à união, e a formação de unidades diria que quase utilitaristas para manutenção de um estado. Surgem os líderes, e com eles, estabelece-se o trend, ou melhor, e menu, e a malta simplesmente devora a singularidade para criar uma espécie de bloco unitário onde o desvio de disciplina se paga caro. Com carne, metafórica e contextualmente falando.
Dentro de um grupo surgem então os subgrupos. As uniões fortalecem-se mas a capacidade de alargar o senso de união começa a sofrer de um constragimento de suposta proximidade. E digo suposta porque relembrando um pouco a metáfora do Garland, a ideia de perturbar o menos possível a disciplina prazenteira (do "é preciso é 'tar-se bem' "), torna-se uma espécie de tirania higiénica. Há uma desaprovação suave, um discorrer jocoso acerca das diferenças, e os pontos de contacto são explorados e sublimados quase à exaustão, ou à surdez.
"Em suma, se não és da malta, é com que comeces a pensar rapidamente em rever as tuas lógicas pázinho, porque o progrma do espectáculo já está decidido, e tu sabes o que acontece se não entras no programa..."
Julgamos nós que estas coisas se esboroam com o tempo, que os detalhes de exclusão se tornam subtis ou mesmo inexistentes quando a idade fortalece os laços e a temperança os torna pertença. Pois, estamos enganados. Porque para alguns, a ideia do fio contínuo do mínimo esforço comum continua a ser a palavra de ordem, e a dissidência é paga com luvinhas de pelica untada a simulacros de perfume de paz. Paz podre, claro, que depois redunda nas coisas que se sabem por terceiros, nas junções que geram relatos de coisas onde não estivemos, nos esforços que não se fazem, nas atenções que não se têm, porque o programa é o programa, e o resto... é o resto.
Não tenho qualquer pretensão a que me aturem. Bem vistas as coisas, sempre defendi que ninguém é obrigado a aturar ninguém. É a beleza da liberdade empática. A malta é livre para gostar de quem quiser. Mas o que custa são as incongruências, os cinismos suaves das falsas pertenças, o sublimar conveniente daquilo que afinal de contas são instantes a marcar no calendário e a passar adiante.
Custa a percepção subreptícia da tal disciplina, os sorrisos de anfitriões e não de coabitantes.
Pode parecer um exercício de maus fígados, mas o que realmente custa é a ausência de percepção para estas coisas. É não se saber a razão pela qual elas acontecem ou percebê-las arbitrárias, em alguns casos, por um desejo de protagonismo pequenino. Ou pior, por coisas que nem se sabem o que são ou porque se tornam tão fulcrais.
A convivência consegue fazer com que as pessoas se canibalizem, é um facto.
A capacidade de reunir pode ser limitativa em números (qualquer estrutura gregária o será), mas é sempre triste perceber que as pessoas de alguma forma se servem das utilidades dos outros, e palitam os dentes com um sorriso consolado, fazendo saltar as grainhas que outrora acidificavam o fruto da tal paz meio podre.
Será sempre assim?
Vou continuar a observar, mas faz pena que as verificações se acumulem, e que não percebamos a razão pela qual a manutenção de certa individualidade gera o ferrar do dente.
Tinhas razão. Só espero é que a tua teoria não seja aplicável sempre, mas apenas a instantes. O problema é que se multiplicam.
Lamentavelmente.

sexta-feira, junho 01, 2007

Um grande amigo que deixa saudades, mas que está em luta por algo melhor pelo seu país. Homem de Justiça.

C., és a imagem daquilo que sempre te conheci e do qual beneficiei.

Um homem de coerência, coragem, inteligência. Mas é também a tua humanidade que tanta falta faz por aqui, no grupo a que pertencíamos, pela amizade que sempre teremos.

Grande Abraço!

Pegando num bom ponto levantado por este post da Luna, senti-me tentado a elaborar algumas considerações sobre o chamado Romance ( vulgo sedução, flirt, conversinha de pé de orelha, bater o couro - Luna, tens razão, ainda é a mais identificativa.)

Ora vamos lá organizar-nos.


Não há dúvida que as coisas mudaram. Alguns dirão que para melhor, outros para pior. Mas o ponto levantado pela Luna, e muito bem em meu ver, prende-se com outra coisa. Prende-se com a ideia de facilitismo que rasga uma parte significativa do nosso comportamento socializante, e que, à falta de melhor explicação, se concentra no "mais rápido, mais completo, mais simples".
Em certas coisas, nada contra. Não tenho a mínima pachorra para a defesa da conversa do bandido, porque sinceramente, essa mesma conversa assenta em factores que, a considerar a pessoa como inteligente e bem humorada, se tornam desnecessários. A conversa do bandido, o andar à volta, o toque (ups) acidental, o mascarar da personalidade numa espécie de oleosidade conceptual, acabam por redundar num prolongar desnecessário do processo de "obtenção" de alguma coisa. A conversa do bandido não é flirt. É apenas uma espécie de modelo normalizado de desonestidade simpática que vai testando por eliminatória até encontrar uma de duas variáveis - a) a mulher inteligente que até engraçou com o gajo e não quer perder mais tempo, fingindo que engole as patranhas, ou, b) a burrice que acha reais os encómios rebuscados e por vezes constrangedores de tão formatados (e clichê) que são, confundindo estratégia primária com um olhar especial ou "individualizado".


Nesta lógica, a conversa do bandido, o flirt trapalhão, standartizado, preguiçoso para nada mais serve que esgotar a paciência a uma pessoa, a qual rapidamente indulgencia o autor porque lhe acha piada ao corporal, ou simplesmente condescende e quando tem de ir, desaparece. Se for este o caso, não sei porque raio não vão essas pessoas logo directamente ao assunto. Mais vale. Nos casos da conversa do bandido, mais vale passar adiante e avaliar hipóteses. Aturar uma conversa dessas parece-me algo semelhante a um(a) amante cheio de vigor físico, mas sem jeitinho nenhum, que apesar de durar tempos e tempos, não traz mais nada senão canseira e uma sequência de desilusões, já que a partir de certa altura espera-se que algo melhor venha, mas, desgraça, só continua o marasmo e a sensaboria.
Além disso, a conversa do bandido, em meu modesto ver, só inferioriza a destinatária porquanto a toma por simplória, à qual apenas meia duzia de larachas basta. E gostaria tanto de dizer que conheço poucos casos em que isso acontece, e que nunca vi mulheres muito inteligentes a engolir patranhas no mínimo risíveis. Mas a verdade é mais triste.

Mas outra coisa é o flirt propriamente dito. A conversa, o conhecimento, o jogo, a piada, a sinceridade educada, o atrevimento bem humorado. Isso é outra conversa. E deve ser uma longa conversa. Passar isto adiante é simplesmente retirar todo e qualquer potencial à troca posterior, seja ela o one night stand ou coisa mais prolongada. O sexo é (também e muito) psiquíco. Está na capacidade que o outro adquire de estabelecer uma dualidade, ou seja, deixar-nos curiosos e deliciosamente desconfortáveis ao mesmo tempo. E qualquer espécie de toque será sublimado se a mente se encontrar oleada e sempre carregada por estímulos que derivam da real tentativa de conhecer alguma coisa sincera e única acerca da pessoa em causa. É, no fundo, isso que fará com que a pessoa se sinta especial, porque o interlocutor não tem merdas, respeita a pessoa, e tem mais que fazer do que lhe servir meia dúzia de piropos requentados que nem eficácia "batanete" têm. No fundo, o flirt cria a sensação de curiosidade e semeia alguma afeição. Dure ela o que durar, desde que seja genuína, ganhará o respeito próprio porque acaba realmente por ser algo derivado do interesse que alguém ganha perante nós. E ignorar isto é, em meu modesto ver, estar cada vez mais longe da percepção de coisas no sexo oposto que são do mais divertido e esclarecedor que se possa pensar. A intenção pode ser clara, mas todo o contacto deverá ser uma tentativa de conhecer melhor alguém, e não uma espécie de formulário imaterial para simplesmente aliviar hormonas.


A título de "disclaimer", nada tenho contra as coisas rápidas, ou fugazes que, pela sua natureza assim o tenham de ser. Por vezes mais vale um momento único do que um prolongamento de chatices e incompatibilidades.
Mas nada serve sem a criação do interesse através da revelação do que somos, com a sinceridade q.b., mas sempre despida dos mecanismos subreptícios, as falsas flores, lacinhos e romantismos. Cheiram mal antes mesmo de apodrecerem, o que acontece rapidamente.

O que se passa com o romance?
Bem...
A mesma coisa que sucede com muitas outras coisas, como a leitura, a evolução, a curiosidade intelectual, etc. A malta quer a coisa rápida, eficaz, indolor e incómoda ao mínimo, esquecendo que o sabor de algumas vitórias e conquistas surge precisamente num paralelo com o velho brocardo aplicável ao acto de viajar.
"Getting there is half the fun!"

Certo Luna?
Para mim é. Aliás, sempre foi.
Obrigado pela desculpa dada para me pronunciar sobre o tema.