ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, junho 14, 2007


AT THE MOVIES IV
(alguns spoilers - passe adiante se não viu o filme)

Já nem vou cansar a psique a questionar-me quanto às razões que poderão ter restringido esta pequena jóia a uma única sala em toda a cidade de Lisboa, ao passo que as recauchutadas Tartarugas Ninja tiveram direito a dez (!) locais de exibição.
Prefiro falar do filme, da simplicidade divertida, ternurenta e honesta do enredo, e do sabor agridoce que me deixou aquele que pareceu um final perfeito para uma história que vive do instante, das coisas diferentes e dos desejos e mudanças que quase nunca se repetem na vida de cada um.
Morgan Freeman é aquele tipo que poderia ler uma lista telefónica, ou o catálogo de cores estivais da Sotinco, e uma pessoa fica mesmerizada. Há algo na presença, na voz cava, nos olhos solenes que empresta imediata credibilidade aos seus personagens. Passo os fime a esperar que o raio do homem fale. E neste filme ele faz dele próprio, envergando uma complexidade na mimetização (se é real ou não, não sei) da sua suposta vida que deixa o observador rendido. É um homem cansado, mas incansável, triste mas pleno de espírito, esperançoso mas sarcástico.
Paz Vega (passando o inglês macarrónico) faz de espanhola desterrada numa cidade industrial americana, onde a ausência de alternativas e fuga parece respirar a cada canto das ruas sujas e despidas de qualquer idiossincrasia que não lembre uma roda de hamster. Deslocadamente bela, a personagem de Vega é um mimo. Acordada onde toda a gente anda meio dormente, o animal enjaulado surge em repentes e atitudes, na ousadia de querer transcender a sua condição social e profissional. E é uma mulher lindíssima.
É um filme sobre descoberta. Sobre as probabilidades da empatia, em meu ver, tão fácil como querer simplesmente comunicar. Sobre a entrada em pele alheia e a beleza das coisas simples. Não excessivamente complexo ou pleno de ontologias e simbolismos subtis (que será isso?), é um filme que faz pensar e sentir. Uma pequena pérola de simplicidade, mas que em meu modesto ver, não deixa de ter peso suficiente para marcar, para ficar na mente como uma recordação agradável.
A separação final dos personagens é algo que me toca muito. Talvez incremente a minha noção de qualidade porque é idiossincrático, mas senti aquele momento várias vezes. O instante em que abrimos mão de algo que parece tão naturalmente encaixado em nós, e que perpassa pelas formas mais simples de estar com a mira certeira de uma empatia sem justificação apriorística. Aquela despedida feita a coisas e pessoas que se afastam, e a dúvida que nos fica acerca da necessidade de progredir caminho "versus" a nostalgia das coisas que não deveriam perder-se.
E eu tenho bem mais que dez coisas que não gosto acerca de mim, e quase dez que gosto.
Por isso a conta na minha caixa sai tão mais cara, em tantas ocasiões.
Recomendo vivamente.

1 comentário:

M. disse...

O Alvaláxia não é a única sala de Lisboa a passar o Ten Items or Less. É a única do país...