(alguns spoilers - passe adiante se não viu o filme)
Já nem vou cansar a psique a questionar-me quanto às razões que poderão ter restringido esta pequena jóia a uma única sala em toda a cidade de Lisboa, ao passo que as recauchutadas Tartarugas Ninja tiveram direito a dez (!) locais de exibição.
Prefiro falar do filme, da simplicidade divertida, ternurenta e honesta do enredo, e do sabor agridoce que me deixou aquele que pareceu um final perfeito para uma história que vive do instante, das coisas diferentes e dos desejos e mudanças que quase nunca se repetem na vida de cada um.
Morgan Freeman é aquele tipo que poderia ler uma lista telefónica, ou o catálogo de cores estivais da Sotinco, e uma pessoa fica mesmerizada. Há algo na presença, na voz cava, nos olhos solenes que empresta imediata credibilidade aos seus personagens. Passo os fime a esperar que o raio do homem fale. E neste filme ele faz dele próprio, envergando uma complexidade na mimetização (se é real ou não, não sei) da sua suposta vida que deixa o observador rendido. É um homem cansado, mas incansável, triste mas pleno de espírito, esperançoso mas sarcástico.
Paz Vega (passando o inglês macarrónico) faz de espanhola desterrada numa cidade industrial americana, onde a ausência de alternativas e fuga parece respirar a cada canto das ruas sujas e despidas de qualquer idiossincrasia que não lembre uma roda de hamster. Deslocadamente bela, a personagem de Vega é um mimo. Acordada onde toda a gente anda meio dormente, o animal enjaulado surge em repentes e atitudes, na ousadia de querer transcender a sua condição social e profissional. E é uma mulher lindíssima.
É um filme sobre descoberta. Sobre as probabilidades da empatia, em meu ver, tão fácil como querer simplesmente comunicar. Sobre a entrada em pele alheia e a beleza das coisas simples. Não excessivamente complexo ou pleno de ontologias e simbolismos subtis (que será isso?), é um filme que faz pensar e sentir. Uma pequena pérola de simplicidade, mas que em meu modesto ver, não deixa de ter peso suficiente para marcar, para ficar na mente como uma recordação agradável.
A separação final dos personagens é algo que me toca muito. Talvez incremente a minha noção de qualidade porque é idiossincrático, mas senti aquele momento várias vezes. O instante em que abrimos mão de algo que parece tão naturalmente encaixado em nós, e que perpassa pelas formas mais simples de estar com a mira certeira de uma empatia sem justificação apriorística. Aquela despedida feita a coisas e pessoas que se afastam, e a dúvida que nos fica acerca da necessidade de progredir caminho "versus" a nostalgia das coisas que não deveriam perder-se.
E eu tenho bem mais que dez coisas que não gosto acerca de mim, e quase dez que gosto.
Por isso a conta na minha caixa sai tão mais cara, em tantas ocasiões.
Recomendo vivamente.

1 comentário:
O Alvaláxia não é a única sala de Lisboa a passar o Ten Items or Less. É a única do país...
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