"(...)O toque da tintura de iodo doía sempre muito. Instalava-se entre as fendas nos lábios, causando um arrepio inicial muito forte o qual rapidamente se transformava em dor pulsante quando a carne se apercebia da substância que se lhe juntava. O que arde cura, já dizia a mãe dela e provavelmente milhares de outras mães que esfregavam o álcool ou tintura de iodo nos joelhos esfolados dos miúdos no final de um dia de brincadeira.
Mas ali nunca se brincava. E quando ela pensava que sim, o resultado posterior era sempre bem pior. Não há nada como a fúria mascarada de bom humor ou alegria. A ilusão era teimosa e aparecia sempre. Como um miúdo prestes a ser atropelado depois da proibição de brincar na estrada. Aquela sensação de que as coisas aparentam ser diferentes, a expectativa, o toque que parece tão genuíno. Tão confortante. Não admirava que a dor se tornasse muito pior. Como um contraste brutal que se estendia muito para além das marcas físicas. A quebra de esperança uma e outra vez. A humilhação perante a ilusão.
Isabel olhava-se ao espelho. O rosto era fino, bonito, de traços bem delineados. O nariz, mesmo depois de no passado ter sido partido em dois locais, recuperara a beleza feita de uma curva ligeira e levemente empinada. Os lábios eram carnudos e o sorriso feito da luminosidade própria de quem sorri com todo o rosto. O corpo, segundo aquilo que lhe diziam muitas amigas menos favorecidas pela natureza, era feito daquela massa que suporta todas as passagens do tempo e asneiras do quotidiano. Fizera alguns trabalhos como modelo enquanto tirava o curso de psicologia, mas este levara a melhor sobre uma entrega real ao mundo das passerelles. Fora no entanto num desses desfiles que conhecera o Rui. Um director-geral da maior sucursal de uma marca famosa de roupa em Portugal.Um tipo alto e largo, com olhos de um azul cegante e sorriso encantador. Dinheiro a rodos. Um discurso sedutor que a levou claramente a esquecer o olhar demasiado brilhante e incisivo. A forma como arreganhava o lábio inferior enquanto falava. Os gestos corteses, a capacidade para as melhores surpresas, um certo arrebatamento contido que lhe causava a ela um fantástico senso de insaciedade relativa. Isabel perdeu-se rapidamente, com a facilidade de quem escorrega por uma encosta cheia de gelo. Tudo parecia assentar. As palavras, os gestos, o decorrer dos dias onde sempre existia algo para fazer. Em cerca de um ano, a boda estava marcada.
O inebriamento fez com que Isabel descurasse alguns pormenores, ou na sua linguagem silenciosa e interna, coisas que pareciam tudo mas provavelmente não eram nada. Afinal, toda agente tem mau feitio ocasionalmente, e a quota parte de perversidade em alguns aspectos acaba por simplesmente fazer parte do encanto de cada um. Mesmo que pareçam aquelas coisas que indiciam algum perigo.
Na primeira noite após o retorno da viagem de lua-de-mel, Isabel fez uma proposta sexual pouco habitual para ela própria. Sentia-se completamente rendida aquele homem e a sua mente simplesmente viajava para a exploração de tudo o que fosse possível com ele. E foi então que surgiu pela primeira vez. A expressão feliz, alegre. Um sorriso diferente de tudo porque em si era um paradoxo. Havia quase como que uma luz que se acendia no rosto de Rui, como qualquer filamento brilha intensamente antes de causar um curto-circuito. Quando ela entrou no quarto com as botas de cabedal de salto alto e nada mais e antes que pudesse colocar-se de quatro, o sobrolho direito conheceu a primeira chaga. A mão pesada do marido fechou-se numa espécie de pedra feita de dedos e bateu-lhe na fronte direita, abrindo um corte que necessitaria de sete pontos para fechar. Isabel voou para trás, desamparada pela dor, impacto e surpresa, e caiu no chão. O sangue vertia em golfadas pelo sobrolho esquerdo, desenhando uma pintura grotesca no rosto. As lágrimas saltaram antes mesmo dela perceber, e a cabeça era agora um reino de dor tão forte que chegava a causar náuseas estomacais. Sentia-se completamente perdida. Não tinha qualquer noção do que se passara, e por um instante balsâmico, a mente tentou iludi-la a pensar que teria batido na ombreira da porta. No entanto, a realidade era sempre muito mais lesta como mensageira, e percebeu rapidamente que o Rui lhe tinha batido. Ficou deitada no chão, nua, com as botas calçadas. A pintura já completamente borrada no rosto, e o sangue que lhe coloria a face, as mãos e agora um pouco do peito. E a dor. A dor imensa. A dor da humilhação, da surpresa, do medo. Todas juntas às guinadas insuportáveis que advinham do sobrolho direito, aberto como uma boca em pleno grito.Com uma calma palaciana, Rui aproximou-se dela e agarrou-lhe pelos cabelos. Olhou-a nos olhos.E embora ela só pudesse ver pelo olho direito, e ainda assim meio cego pelas lágrimas, reparou que o sorriso não desaparecera dos lábios. Mas todo o rosto era uma máscara de ira e desprezo demasiado difícil de contemplar. Uma ameaça pura, uma intenção de violência feita olhar. Rui tirou a mão da melena, mas não em antes arrancar uma mão cheia de cabelos pela raiz. Isabel gritou. A sua cabeça era agora um oceano de dor. A mente, um inferno de humilhação sem fim à vista. Apresentava-se perante ela uma estrada de recordação feita de anos.
Isabel e Rui eram casados havia três anos. Os cenários nunca mudariam, e os motivos aumentavam exponencialmente. Isabel sabia que a sua vida era um risco constante. Um risco que implicava ver aquele sorriso. Os motivos nunca eram certos, e não havia forma de evitar. A brutalidade ganhava aquele contorno de elemento auto-explicável. Existia. Como uma tempestade. A tempestade pode ser injusta, mas existe. E ela está lá e não há como escapar quando se está no trilho do tornado. Era esta a ideia de Isabel.Felizmente não tinha filhos. Era este o pensamento que tinha cada vez que curava u ma ferida. Mas naquela manhã o teste fora positivo, pelo que Rui lhe abrira o lábio em três locais. Isto depois de forçar o vómito por tantas pancadas consecutivas no estômago. Isabel vira a morte de perto. Porque não havia o sorriso. Havia a possibilidade da escuridão completa, daquela da qual nunca se despertava."
Em Portugal (fonte – PSP, GNR e APAV – Relatório “Mulheres (In)visíveis”) - No ano de 2005 foram denunciados 18.192 casos de violência doméstica à GNR e/ou à PSP. A APAV recebeu, no mesmo ano, 12.809 denúncias. Entre 65% a 87% dos casos apresentados às autoridades, o agressor era cônjuge ou companheiro da vítima. - Fonte: Amnistia Internacional
Só gostava que fosse mesmo um mero exercício de ficção...
4 comentários:
A tua ficção é perfeita, my King. A realidade nunca o será... :(
Demasiado doloroso.
Esqueces-te de referir o porquê da continuação da personagem Isabel a esse tipo de situação... porque é o que as pessoas nunca entendem e continuamente perguntam porquê... o porquê de continuar ligada a esse tipo de tratamento e humilhação.... é que normalmente esse tipo de doentes (sim, são doentes) têm os seus rasgos de arrependimento e mil desculpas são pedidas, entre lágrimas.... e o perdão é constante até um dia acontecer a ruptura ou algo pior.
A tua narrativa lembra-me o "Dormindo Com o Inimigo"... ou um outro do qual já mal me lembro o nome....
Beijos, meu amigo
Não referi porque nunca sei.
Tirando temor pela própria vida e a dependência económica extrema, nenhuma das outras explicações me parece minimamente aceitável. Falar do amor como justificação para a continuidade de algo como isto é monstruoso.
Tão monstruoso como justificar a agressão por esse mesmo amor.
E se o amor pode ser isto...
Enfim...
Nada justifica, em meu ver, algo assim.
Beijinhos :)
A realidade é assustadora.
A ficção é um auto-exaustor :)
Beijos grandes! :)
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