Existe uma espécie de código civilizacional contemporâneo contra qualquer espécie de segurança. O facto das pessoas poderem ter algum descanso que seja na forma como conduzem a sua vida é posto em causa como uma heresia que contraria a nova religião urbana da competitividade a todo o custo. É a velocidade, o conseguir, o ter, o chegar lá que motiva as passadas, e instila o medo. O medo que nos mostra uma garganta profunda evitada apenas por um carreiro mal enjorcado, que sem qualquer aviso pode ruir.
O medo está instalado. O receio faz com que as pessoas troquem determinados pontos de integridade fundamental por uma qualquer ilusão de segurança. Aquilo que pensam deve ceder Perante o péssimo hábito partilhado por todos e que consiste em ter de comer todos os dias.
Fala-se em objectivos, em querer evoluir e progredir, mas os ditâmes economicistas fazem da originalidade uma perda, da criatividade um risco e da honestidade e respeito pelo próximo uma ingenuidade indefensável.
É impressionante o ponto de proximidade a que nos encontramos do mais negro dos degredos sociais. Aterradora a facilidade com que poucos nos podem deitar a mão, e quantos simplesmente olham para os que caem na roda dentada da selecção moderna com o horror da expectativa. Avassaladora a facilidade dos cinismos que surgem como baluartes de um admirável mundo novo, mas baseado em vícios antigos.
O medo actual é corporificado pela cada vez menor capacidade de reagir, de alternar, de poder realmente apresentar a qualidade pessoal como mecanismo para a reinserção.
E quando estes receios atingem níveis de colectivismo relevante, o tecido da evolução rasga, o cordão umbilical é cortado demasiadamente cedo e o sangramento é visível como uma mancha negra de morte num mar cálido e translúcido.
Se a regra do tem que ser se sobrepuser sempre ao pode ser, se esse postulado for inalterado, então porque raios se temem os efeitos dessa guilhotina conceptual?
Se coçamos a crosta e ela sangra, porque surpreende a dor?
Se qualquer forma de segurança é a heresia social dos tempos modernos, porque será que o medo incomoda tanta gente?
Talvez porque a seguir ao calafrio da descida, verificamos que o carro da montanha russa acabou por descarrilar...
2 comentários:
Tememos porque somos inseguros.
Tememos porque há sempre algo a perder.
Tememos porque somos humanos e é esse o sentimento básico da raça humana: temer o desconhecido...
Ai que eu estou tão poética...
É, em meu modesto ver, bem mais complicado ... :)
Publicar um comentário