Pegando num bom ponto levantado por este post da Luna, senti-me tentado a elaborar algumas considerações sobre o chamado Romance ( vulgo sedução, flirt, conversinha de pé de orelha, bater o couro - Luna, tens razão, ainda é a mais identificativa.)
Ora vamos lá organizar-nos.
Não há dúvida que as coisas mudaram. Alguns dirão que para melhor, outros para pior. Mas o ponto levantado pela Luna, e muito bem em meu ver, prende-se com outra coisa. Prende-se com a ideia de facilitismo que rasga uma parte significativa do nosso comportamento socializante, e que, à falta de melhor explicação, se concentra no "mais rápido, mais completo, mais simples".
Em certas coisas, nada contra. Não tenho a mínima pachorra para a defesa da conversa do bandido, porque sinceramente, essa mesma conversa assenta em factores que, a considerar a pessoa como inteligente e bem humorada, se tornam desnecessários. A conversa do bandido, o andar à volta, o toque (ups) acidental, o mascarar da personalidade numa espécie de oleosidade conceptual, acabam por redundar num prolongar desnecessário do processo de "obtenção" de alguma coisa. A conversa do bandido não é flirt. É apenas uma espécie de modelo normalizado de desonestidade simpática que vai testando por eliminatória até encontrar uma de duas variáveis - a) a mulher inteligente que até engraçou com o gajo e não quer perder mais tempo, fingindo que engole as patranhas, ou, b) a burrice que acha reais os encómios rebuscados e por vezes constrangedores de tão formatados (e clichê) que são, confundindo estratégia primária com um olhar especial ou "individualizado".
Nesta lógica, a conversa do bandido, o flirt trapalhão, standartizado, preguiçoso para nada mais serve que esgotar a paciência a uma pessoa, a qual rapidamente indulgencia o autor porque lhe acha piada ao corporal, ou simplesmente condescende e quando tem de ir, desaparece. Se for este o caso, não sei porque raio não vão essas pessoas logo directamente ao assunto. Mais vale. Nos casos da conversa do bandido, mais vale passar adiante e avaliar hipóteses. Aturar uma conversa dessas parece-me algo semelhante a um(a) amante cheio de vigor físico, mas sem jeitinho nenhum, que apesar de durar tempos e tempos, não traz mais nada senão canseira e uma sequência de desilusões, já que a partir de certa altura espera-se que algo melhor venha, mas, desgraça, só continua o marasmo e a sensaboria.
Além disso, a conversa do bandido, em meu modesto ver, só inferioriza a destinatária porquanto a toma por simplória, à qual apenas meia duzia de larachas basta. E gostaria tanto de dizer que conheço poucos casos em que isso acontece, e que nunca vi mulheres muito inteligentes a engolir patranhas no mínimo risíveis. Mas a verdade é mais triste.
Mas outra coisa é o flirt propriamente dito. A conversa, o conhecimento, o jogo, a piada, a sinceridade educada, o atrevimento bem humorado. Isso é outra conversa. E deve ser uma longa conversa. Passar isto adiante é simplesmente retirar todo e qualquer potencial à troca posterior, seja ela o one night stand ou coisa mais prolongada. O sexo é (também e muito) psiquíco. Está na capacidade que o outro adquire de estabelecer uma dualidade, ou seja, deixar-nos curiosos e deliciosamente desconfortáveis ao mesmo tempo. E qualquer espécie de toque será sublimado se a mente se encontrar oleada e sempre carregada por estímulos que derivam da real tentativa de conhecer alguma coisa sincera e única acerca da pessoa em causa. É, no fundo, isso que fará com que a pessoa se sinta especial, porque o interlocutor não tem merdas, respeita a pessoa, e tem mais que fazer do que lhe servir meia dúzia de piropos requentados que nem eficácia "batanete" têm. No fundo, o flirt cria a sensação de curiosidade e semeia alguma afeição. Dure ela o que durar, desde que seja genuína, ganhará o respeito próprio porque acaba realmente por ser algo derivado do interesse que alguém ganha perante nós. E ignorar isto é, em meu modesto ver, estar cada vez mais longe da percepção de coisas no sexo oposto que são do mais divertido e esclarecedor que se possa pensar. A intenção pode ser clara, mas todo o contacto deverá ser uma tentativa de conhecer melhor alguém, e não uma espécie de formulário imaterial para simplesmente aliviar hormonas.
A título de "disclaimer", nada tenho contra as coisas rápidas, ou fugazes que, pela sua natureza assim o tenham de ser. Por vezes mais vale um momento único do que um prolongamento de chatices e incompatibilidades.
Mas nada serve sem a criação do interesse através da revelação do que somos, com a sinceridade q.b., mas sempre despida dos mecanismos subreptícios, as falsas flores, lacinhos e romantismos. Cheiram mal antes mesmo de apodrecerem, o que acontece rapidamente.
O que se passa com o romance?
Bem...
A mesma coisa que sucede com muitas outras coisas, como a leitura, a evolução, a curiosidade intelectual, etc. A malta quer a coisa rápida, eficaz, indolor e incómoda ao mínimo, esquecendo que o sabor de algumas vitórias e conquistas surge precisamente num paralelo com o velho brocardo aplicável ao acto de viajar.
"Getting there is half the fun!"
Certo Luna?
Para mim é. Aliás, sempre foi.
Obrigado pela desculpa dada para me pronunciar sobre o tema.
2 comentários:
"Getting there is half the fun!"
É isso mesmo, you got my point. :)
E ninguém ainda comentou?
Incrível... ou talvez não :)
Flirtar é, para mim, uma Arte que não domino, e não domino por uma razão muito simples: não gosto da intenção. O ser pelo ser e ter de ser. O estar porque sim, o sorriso de "ah e tal, sou um flirtador".
Certo é que se distinguem os mestres do Flirt dos outros, os que aplicam a conversa do bandido, mas andam lá muito perto uns dos outros. A intenção mais ou menos camuflada, pouco natural.
Flirt não tem nada a ver com simpatia.
E tudo isto, muito pouco a ver com Romance. Aliás, eu oporia mesmo o Romance ao Flirt... existe uma base de continuidade não imposta (repare-se) no romancear (há romances que levam toda uma vida a serem executados, tens um desses lá em casa, ehehe)ao passo que no Flirt, as coisas contém-se numa base de rapidez algo insípida.
But that's ... like... my opinion....
Grande grande texto :)
Gosto!
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