ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, agosto 31, 2007

Embora não seja minimamente generalizável, como de resto nada será, ao longo da vida deparei-me com um fenómeno engraçado para o qual nunca me deram uma explicação que me elucidasse. Provavelmente porque o assunto é sempre meio parodiado, e a brincadeira acaba por esconder alguns instintos menos confortáveis de assumir.
Cada vez que me deparava com um grupo de miúdas, no qual existisse uma delas que fosse invulgarmente gira, as restantes normalmente eram, digamos assim, para o menos engraçado. E realmente isto poderia constituir apenas uma espécie de coincidência, mas a verdade é que na maioria dos grupos unidos de moças com que me deparei, uma delas destacava-se claramente das outras. E isso sempre me intrigou. Julgo que não é rara a visão que se tem em locais nocturnos, nos quais se vê um grupo unido de mulheres, normalmente nunca mais de três ou quatro, e uma delas destaca-se claramente das outras em termos de aparência. Não são raras as histórias da amiga que normalmente serve como intermediária para a amiga gira. Ganhar a confiança dessa amiga menos gira normalmente era como passar à tangente numa espécie de triagem apriorística, para chegar depois a uma outra antecâmara. Confesso que numa das raras ocasiões em que isso me aconteceu, fiquei na conversa com a miuda menos gira (sim, ainda assim era gira, mas menos que a outra), e esqueci-me completamente da brasa, que por acaso olhava em volta como se passasse revista ao séquito.
Perguntei a alguns amigos e amigas, meio na paródia, e a resposta oscilava entre a simples coincidência e uma espécie de empatia com posicionamento. Diziam que a miúda gira rodeia-se da maior ausência de competição possível, e que as sequazes acabam por beneficiar da atenção que a brasa recebe, acabando por conhecer igualmente aqueles que se aproximam. Acontence exactamente a mesma coisa com o aquele nosso amigo bem parecido e com charme. O tipo que vai a qualquer lado e parece ter mel, e o efeito gravitacional é o mesmo. Tinha um amigo, pertencente a um grupo antigo que hoje em dia pouco vejo, que conseguia entrar em qualquer lado e algo estremecia. E como era um tipo porreiro, sem caganeirices, a coisa era ainda mais eficaz porque nada nele se assemelhava minimamente a um pintarolas com a mania que os chatos comem alface. E conhecemos algumas das amigas das amigas que se aproximavam, e a coisa parecia uma espécie de intersecção de conjuntos.
Pode parecer pueril, mas a verdade é que me deparei com esse tipo de situação em todas as faixas etárias, embora nunca tivesse uma resposta clara. A mulher gira está muitas vezes rodeada ou próxima de amigas de outro campeonato, e devo dizer, embora aceite perfeitamente a limitação da minha experiência, que raramente vi uma proximidade férrea entre duas brasas. (Com os homens atrevo-me a dizer que é diferente, mas mais uma vez, é por verificação empírica.)
Será que a potencialidade de competição ( e atenção que o facto de ser gira não tem necessaria nem se calhar principalmente a ver com atenção masculina) é capaz de minar a proximidade entre algumas mulheres? Há efectivamente um posicionamento, uma espécie de hierarquia consoante a piada que se tem? Julgo que são imensas as teorias, e digo-o meio em tom de paródia, mas confesso que ainda continuo curioso quanto a uma resposta absolutamente sincera e livre do politicamente correcto.
Ou se calhar não passa mesmo de coincidência...

quinta-feira, agosto 30, 2007



É uma banda que descobri quase por acaso, e ouço recorrentemente.

Foi o único vídeo que consegui encontrar dos Atomship, com imagens anime ou manga, não estou certo.

Fica a letra.

Muito "auto-sintomática" nos dias de hoje...




Estive lá.

E figura, certamente, como um dos mais importantes e únicos momentos da minha vida.

Ainda hoje sinto o profundo arrepio na pele. Não dá para explicar o que se sentiu. Estava na sala e era palpável.



O que sentimos pode ser uma brutalidade.

Uma brutalidade feita de todas as recordações de todos os instantes em que nos sentimos pequenos perante o criámos do nada. Aquilo que agarrámos com unhas em sangue, o que nos construiu através da percepção de que nos perdemos no que nem sequer sabíamos possuir.

São recortes do passar do tempo, erguidos em escaparates feitos de madeira de sândalo, trazida pelas correntezas de todos os mares onde nos atrevemos a colocar um pé ao de leve na água. O sal que provamos, é salivado, tem cheiro de água engolida, de beijos acabados há meio segundo, dolorosamente inéditos e irrepetíveis.

São brutalidades porque passam como serrilhas, sulcando, partindo a unidade da pele em mil conceitos mais pequenos, que não são senão tijolos. E amontoam-se, deixando as perguntas, as perplexidades, a memória dos estados que atravessámos num veículo que cresce como uma coisa viva, embebida na melancolia doce de uma tristeza antiga. De aço. Cárcere.

Por isso, levanta a saia um pouco mais, e mostra-me o mundo, como diz este moço.

E nos sonhos de rapaz, acho-me imperfeito e em consequência, vivo.

Brutalizado.




PERFECT CIRCLE - "BLUE" - II



A PERFECT CIRCLE - "BLUE"

WINNER AND OFICIAL DVD VIDEO



Perfect Circle - "BLUE" I

Em Junho de 2004, Maynard James Keenan e os Perfect Circle lançaram um concurso para videos a adaptar à sua faixa "Blue", que, para mim e a par de "The Noose", é a melhor canção do fabuloso 13th Step.

Os Perfect Circle, ao que parece, findaram as suas actividades, para grande desgosto meu (felizmente os Tool andam de boa saúde, assim como Puscifer, o projecto paralelo de MJK), mas seguidamente ficam alguns dos magníficos projectos que foram a concurso, finalizando com o vencedor, o qual figura no DVD da banda, que me foi oferecido por um grande amigo há uns tempos.

Enjoy... I know I will.

quarta-feira, agosto 29, 2007



Volta e meia, quando a insónia ou o telejornal às sete e pouco da manhã está lento e estou eu a debater-me com o prato de muesli, rodo o canal e deparo-me com este senhor.

Bem sei que o senhor em causa tem uma legião de fãs que ultrapassa em larga medida a lista telefónica de alguns estados dos EUA, mas existem de facto coisas naquele programa que me deixam intrigado e sinceramente perplexo.

Mais do que serem ditas algumas coisas com as quais discordo, o que não é nada por aí além porque felizmente as pessoas têm opiniões diferentes, é o modo como as coisas são ditas, expostas, e colocadas em praça pública. As pessoas aplaudem, como se o facto do Sr. Smith ter encornado a mulher, que por acaso era uma megera cheia de problemas com cartões de crédito, ou como se a Amber ter comido a vizinha do lado porque o marido não se chegava à frente, fossem elementos do mais empolgante espectáculo. A devassa da vida privada é consentida, é um facto, mas é o tom professoral e paternalista que me faz confusão. Não vejo ali um único elemento de pudor perante a vida das pessoas, mas apenas uma espécie de evangelista supostamente compreensivo que simplesmente verbaliza conselhos oriundos da sua douta ciência de análise comportamental.

Atenção, como disse, não suspeito da competência do senhor, e volta e meia o moço diz coisas com as quais concordo e que me parecem certeiras, mas a verdade é que , para mim, aquilo não passa de um circo, onde o guru dispensa a sua imesa sabedoria num espectáculo mediático do que é a intimidade e espaço privado das famílias, e mesmo das pessoas. E não se ensaia em dizer às pessoas que estão erradas, que estão malucas da cabeça, etc, coberto por uma suposta cartilha comportamental sacramental que, curiosamente, nunca tem dados científicos para partilhar e corroborar com os espectadores (nos livros com certeza terá, mas apoio-me apenas nos programas de tv). É preciso uma pessoa ter realmente uma segurança e costinhas bem quentes para julgar as pessoas com aquela facilidade de quem espraia uma espécie de superioridade moral, a qual, julgo eu, é sempre discutível.

Triste parece-me também quem se sujeita a este tipo de coisas. Quem traz a vida privada para a praça pública, aceita câmaras de televisão a filmar discussões, agressões verbais ou físicas, vergonhas, inseguranças, dependências, you name it. Triste que o desejo de mediatização faça com que as pessoas vendam tudo e mais um par de botas, como se aquela meia dúzia de frases e um público pronto a aplaudir quando o cartaz é mostrado pudesse realmente resolver o problema em causa. Por vezes qual é a diferença com o Jerry Springer? Bem, talvez o facto de ninguém ainda se ter pegado à porrada, mas acho que a coisa já esteve por um fio.

E tudo sucede sob a capa da ajuda bem intencionada, mas que diabo, desde que vendável, como as resmas de páginas dos inúmeros livros do Dr. Phil os quais ele não se cansa de promover nos intervalos. Tudo é espectáculo, tudo é vendável, e isso não deixa de me inquietar ou mesmo entristecer. Acho que a mediatização está a chegar às mais impensáveis fronteiras.

Mas cada um come do que gosta, já lá diz a minha mãe.

Sou convicto a concordar com isto.

As botas rasas e ortopédicas de borracha não me convencem, é um facto.


Mas caraças, se são confortáveis...

Não dava para fazer um modelo "em bonito"?
"Quase um habitante em cada oito, nos Estados Unidos da América, vivia abaixo do limite da pobreza, isto é 36,5 milhões de pessoas em 2006, para além de 47 milhões não terem seguro de saúde, revelou o inquérito anual do Gabinete de Recenseamento do país, publicado hoje." - No Público de hoje.
Tendo em conta que esta é a maior economia do mundo, e o modelo de desenvolvimento para tantos, julgo que é no mínimo preocupante que 47 milhões de pessoas possam morrer ou padecer de enfermidades graves e debilitantes, simplesmente porque pode não têm dinheiro para pagar um seguro de saúde que muitas vezes não funciona.

terça-feira, agosto 28, 2007

A assertividade é insubstituível.

Ser conciliador é uma virtude, mas o conciliador-mor de uma tal religião popular acabou cruxificado.

Há uma lição aqui com certeza...

Em primeiro lugar deve esclarecer que não sou pai, o que logo me deixará em desvantagem. Mas também penso que é uma falácia quem me diz que não posso analisar uma situação relativa à parentalidade simplesmente porque não tenho descendência. O empirismo não esgota as possibilidades de análise e conhecimento de determinadas realidades.


Dito isto, refiro-me ao papel de uma determinada forma de disciplina aplicável à chavalada.


É certo que nunca morri de amores pelas crianças, mas entendo quem o sinta, quem simplesmente se derreta ou renda perante os petizes. São formas diferentes de olhar para um mesmo conceito. As crianças podem ser encantadoras, mas também são um veículo de crueldade, manipulação e segregação do mais cortante que se possa imaginar. E não preciso de olhar para elas para o saber. Já fui uma, e sei como é. William Golding é leitura de cabeceira, que posso fazer?


Mas isto também é um detalhe.


É inquestionável que o amor, o carinho e a capacidade de comunicar e argumentar as decisões são fundamentais numa educação e formação da nova pessoa. As crianças devem aprender pela instrução, pela demonstração, pelo encorajamento, pelo desenrolar das realidades num leque de opções para a construção da personalidade.

Mas também, em meu modesto ver, devem aprender o valor de cada coisa, a sentir que merecem o que têm, a respeitar os outros acima de tudo.


Hoje em dia as novas teorias pedagógicas, que vão desde a criação dos novos monstros conhecidos como "crianças-rei", à perfeita estupidez que é não ser escolarmente avaliado até ao 9º ano, insistem que a criatividade da criancinha não deve ser tolhida. Se isso implicar pegar fogo aos cortinados ou encher na professora, pois, parecem ser ossos do ofício. E gostaria de dizer que isto é exagero, mas a hipérbole está cada vez mais próxima do corriqueiro. Claro que existem crianças e crianças, personalidades e personalidades, mas a verdade é que cada vez mais se generaliza um padrão de comportamento ( e tenho amigos professores que mo dizem) onde a desresponsabilização ou a falta de disciplina (legitimada, justificada e sustentada, claro) são palavras de ordem.


Por vezes vejo coisas que me arrepiam os cabelos, assentes numa espécie quase de temor perante os rebentos. Por outras vezes, vejo o sentimento de culpa gerar tentativas de compensação, normalmente material, que redunda em alguns (muitos) casos numa total desvalorização de tudo quanto é recebido. E depois dizem-me que os miúdos estão diferentes, que as coisas não são o que eram.


Eu tive a sorte de ter sido educado com todas as formas de apoio, carinho e estabilidade que alguém poderia alguma vez desejar. Do ponto de vista afectivo, e dos outros, nunca me faltou nada, mas sempre senti internamente que não tinha o direito de rebentar com as oportunidades que os meus pais me proporcionavam, que tinha de merecer o que me davam. Sentia vergonha se ficasse mal perante eles, se não pudesse mostrar o valor que tinhas nas coisas a que me propunha fazer e conseguia graças às condições que me proporcionavam. Tive (e tenho, mesmo depois de adulto) amor, mas tive também muitas e válidas noções do que significa dar valor a alguma coisa. E a disciplina, a ideia de que as regras também contam para alguma coisa, nem que seja para formar carácter, sempre foram a base de qualquer recordação que tenho do tempo em que os meus pais decidiam o meu caminho. Nunca me impuseram nada senão que escolhesse e me dedicasse a um caminho. Segui os meus gostos e opções, mas sempre com a ideia de responsabilidade. Sempre me permitiram ser um espírito livre, mas nunca admitiram que não respeitasse o próximo.


Respeitando obviamente as opiniões de quem é mais versado do que eu nestas matérias, e mesmo quem tenha uma perspectiva diferente, a verdade é que os factos comprovam que esta ideia de facilitismo produz muitos exemplos de prepotência precoce e um senso de desresponsabilização que em muitos casos redunda num desrespeito pelas pessoas, num "estássecagantismo" que incomoda e assusta. Lamento, mas acho que a disciplina encorajadora, a ideia da responsabilização com afeição nunca fez mal a ninguém. Chamar alguém à responsabilidade pelo que fez é tão importante como felicitar pelo que conseguiu. Enquanto se ignorar isso, a geração morangos com açúcar, as crianças-rei, e uma geração de analfabetos com o 9º ano serão realidades preocupantemente abundantes, como de resto os números dos resultados escolares o comprovam. E culpar os professores, como fazem tantos pais, é sacudir a água do capote, porque normalmente as playstations conseguem fazer pelo silêncio aquilo que qualquer manual escolar é infelizmente incapaz.


A disciplina nunca fez mal nenhum a ninguém. Com bom senso, inteligência e encorajamento afectivo, claro.


Mas isto sou eu...

sexta-feira, agosto 17, 2007



Na sequência do post anterior, tudo se pode repetir acerca deste filme, embora a morfologia do conceito se altere.


Esta é uma história de reencontros, do que não pode ficar encerrado, do fio condutor. Gritos. O abismo infinito da vida, ou as mordidelas do horror existencial e tão quotidiano, como diria um outro autor.

E eis Samantha, como havia dito.



Se o Nicholas Sparks conseguisse escrever uma história de amor assim, já teria lido e relido toda a obra dele.

Esta é uma história de amor sem florinhas, sem cortar esquinas, sem poupar as contrariedades do que pode incutir contradições no espírito, sem esconder os medos do tempo, das transformações ( "change of heart" parece-me na mouche). É belíssima, forte e marcada pelo desequilíbrio das personagens quase afogadas nas emoções que a sustentam. É a história que gostaríamos de contar, ou mostrar, a quem nos preenche o coração, e aquela que adoraríamos infligir a quem o partiu.

É uma história que acaba por ser cortante. Seca, afiada, e no entanto colorida como a cabeleira da Clementine.(*)

Fala da memória e apresenta a mais original morfologia da fórmula "o que os olhos não vêm, o coração não sente". E fala do rotundo fracasso que isso pode implicar, porque os pedaços de vida em falta são afinal aquilo que a memória não pode trazer, o que implicaria que nunca ultrapassaríamos os nosso vazios, medos e desconstruções.

Esta é uma história de amor dolorosamente bem contada.

(Especialmente quando o cabelo da Clementine é vermelho ou laranja)

(*) Esta é uma das duas únicas personagens pelas quais tive uma paixoneta. Sim, leram bem. Uma espécie de sentimento de leve ansiedade por alguém que não existe, nem nunca existiu. A outra é Samantha, do brilhante Garden State. Maluqueiras, go figure...

quinta-feira, agosto 16, 2007




Pode ser-se absolutamente feliz perante um instante de uma obra de arte?

Claro que sim. Eu estava lá, em 1999.

Celebre-se.



Existem instantes na nossa vida nos quais parece que entramos em consonância com a vibração mais estruturante do mundo. Como se este nos atravessasse de um lado ao outro, e nos dissesse que em raríssimas ocasiões podemos realmente sentir-nos completos quando em contacto com algo. Este filme, que tem mais 100 cenas tão memoráveis como esta, ainda hoje provoca arrepios na minha pele, e acorda-me do "coma" que o medo do mundo normal tantas vezes traz.

Existem pessoas que não são nada, mas nada nostálgicas.
Ensacam os pertences e vão à vida, desgarrados, viajantes de si mesmos. Conseguem poisar em todo o lado e criar quase imediatamente um ritual, um caminho, um percurso, uma linha. Como se a mudança apenas tivesse trazido um novo enquadramento porque tudo se desenvolve por eles e perantes si mesmos.
Seja a cidade, a casa, as pessoas, o tempo, tudo parece escorrer-lhes da pele, ficando apenas na memória como mais uma etapa de crescimento ou desenvolvimento. A personalidade parece escorregar por todos os poisos e trazer apenas aquilo que a engrandeceu em tais locais. Salvam-se a si mesmos e evadem-se com a facilidade de quem não dispensa qualquer forma de familiaridade. Não é porque não goste dela, mas porque aceita as alternâncias que a mesma por vezes sofre, e segue sem girar a cabeça uma vez.
De um certo ponto de vista sempre invejei essas pessoas e a sua capacidade em ir, em fixar-se, em encontrar pertença e sustentação em tudo o que seja novo, desconhecido e por vezes, agressivo.
Eu sou um nostálgico em certas coisas. Guardo toda a espécie de porcaria, e até de papéis velhos me custa separar. guardo velhas agendas, papelitos em torres empoeiradas. Sinto-me protegido em locais familiares, e embora não seja avesso a toda a espécie de mudança, sou muito (talvez até excessivamente) fiel á cidade onde vivo. Custa-me despedir de sapatos velhos, t-shirts que não visto há dois anos, ou até chavenas que se partam no chão.
Em vésperas de mudança, a minha casa parece agarrar-me com os braços que não tem. Olho para as paredes com a noção de que em breve as deixarei de ver. Paredes, cores, cheiros e contornos que fizeram um modo de vida nos ultimos anos, e que em ultima análise se estabeleceram como o "meu sítio". E embora me pareça que estou a ir para melhor, pelo menos em algumas coisas, a verdade é que olhar para a minha casa e dar-lhe as costas é um exercício doloroso. Há algo de irrepetível naquela porta, naquele chão de tijoleira, nos quadros triangulares. Há instantes que recordarei, mas já não perante as paredes onde os mesmos sucederam.
Para algumas pessoas isto surgirá como uma absoluta parvoíce.
Mas para mim abandonar algumas coisas, cortar familiaridades que apesar de tudo são uma parte boa de mim, traz sempre um custo. Um custo feito de apego que em algumas ocasiões nem sei explicar de onde vem.
Mas está lá.
E deixa as suas marcas. São dores de crescimento, dir-se-ia.
Mas são, afinal de contas dores.

quarta-feira, agosto 08, 2007


"(...)how to shoot somebody who'd out drew ya..."

Jeff Buckley - Halleluyah



Julgo que é pacífico o entendimento segundo o qual as nossas acções e características carregam consigo efeitos. Ao sermos exteriorizados por nós próprios, é inegável a produção de efeitos que se gera em razão de cada uma das nossas características, actos, comportamentos e reacções. É razoavelmente linear pensar que temos uma previsão relativa à forma como afectaremos os outros. No entanto a palavras-chave é previsão, e como a meteorologia, o que é verdade hoje, pode ser varrido pelo vórtice do anticiclone de amanhã. Há algo na nossa singularidade que deixa uma marca, quer queiramos quer não.
Mas questiono-me. Poderá ser de outra forma? Claro que a adaptação é conceito chave nas relações interpessoais. Caso contrário, não passaríamos de um conjunto de eremitas de calhaus e ossos em riste. Mas a verdade é que perante o cenário feito da verdade dos factos, da explicação das motivações, os nossos efeitos são a produção da nossa própria pessoa. Parece-me improvável, ou mesmo impossível que se possa filtrar coisas como o toque, a forma de falar, os reflexos de acarinhamento. Não julgo que seja sequer exigível que, perante a revelação pragmática do que deve estar esclarecido, tenha de haver algum filtro perante as naturalidades do ser, e os seus reflexos comportamentais. Seria algo tão ridículo como programar um beijo para que não seja tão intenso, ou conter uma palavra de alento que pudesse ser disfarçada de encorajamento encapotado.
Ao entrarmos na esfera de outra pessoa, temos múltiplas variáveis. E conhecer o poder de cada uma delas é aceitar o risco que significa abrir seja que tipo de portas, seja a quem for. Podemos e devemos exigir a verdade, e repudiar com agressividade (se tiver de ser) o engano e a manipulação. Mas não podemos nunca ter a noção de que alguém seja responsabilizado ao segundo por ser quem é nas suas naturalidades. Ninguém tem culpa se o seu beijo queima, ou se as suas palavras enchem de sentido o vazio conceptual que acompanhou aquela pessoa que agora as ouve. Se alguém aceita o risco, julgo que terá de acompanhar a luta pelas concretizações do seu "wishfull thinking", sempre consciente de que certas coisas são exigíveis, e outras fazem simplesmente parte do plano de hipóteses e opções que significa estar vivo e em contacto com outros.
Claro que quase sempre existe um temor, uma consciência que surge injustamente pesada em função da responsabilidade que alguém julga ter. Existem poucas coisas piores, para mim pelo menos, que ter a noção de que sou responsável pela criação de algo que nunca esteve nos meus horizontes de opção. Mas a simples noção de que, uma vez posta de parte a ambiguidade perigosa, se possa culpar alguém por ser demasiado certeiro nas sensibilidades de outrem, é achar que o encanto pessoal pode ser algo que se mede em camadas, e que a culpa deve gerir a naturalidade do toque, da forma ou da expressão. Para mim, é algo aberrante.
Estar em contacto com outros é um risco tanto como será um gozo. Pode ser uma luta constante, ou a força geradora da identidade própria, porque como dizia o Kauffman, (também(*)) "somos aquilo de que gostamos, e não (apenas) aquilo que gosta de nós."
Ou como diz acima, a geração de afeição, amor, fraternidade pode ser apenas a quantidade de vezes em que sacamos a arma dialéctica/emocional de forma mais acelerada que o outro. E com sorte, todos levam tiros alternados, e as marcas são apenas de crescimento e evolução, nunca de vazio pela intangibilidade.
Cada um é responsável pela forma como revela o que quer, é um facto, mas nunca, em meu ver, culpado por ser aquilo que é. O efeito que temos ali, é o efeito que sofremos de acolá. Como no basquetebol, estamos sempre no ataque e na defesa. É por isso que é o meu jogo preferido, com lesões e tudo, embora também reconheça que o nível de protecção própria nunca deva ser relevado.
É sacar rápido e ver o que acontece...
Embora não seja explicável, a necessidade de expressão é directamente proporcional à solidão, ainda que esta seja de cariz inexplicavelmente auto-induzido.
Mas surpreender-me com os que não desistem, valida em muito o absurdo de tal condição, por mais inegável e afiada que ela efectivamente seja.
Como é.
Mas desrespeitar as tentativas a todo custo para sermos como somos, é desrespeitar essas pessoas e os seus esforços perante mim.
No que me diga respeito, é isso que não é admissível.
Como sempre, faz-se o que se pode.
Com a gratidão possível.

terça-feira, agosto 07, 2007

Em resposta a este post da A , e talvez porque já fui muito mais fundamentalista relativamente a algumas coisas do que sou hoje, arrisco uma explicação.
Não passa de uma tentativa, baseada unicamente em observação e alguma experiência de vida, mas nestas coisas qualquer esforço de consolidação conceptual perder-se-à, porque não existe um único coração que funcione como qualquer outro.
Razões de infidelidade?
Bem, é um tema complicado e muitos daqueles que conheço e que um dia disseram que nunca o fariam acabaram por meter a pata na poça. Existe uma miríade de razões, e sim, não é exclusivo dos homens.
Isso daria um outro tema, ou seja, a capacidade das mulheres em serem discretas.
Mas voltando a este, julgo que o maior dos perigos é o próprio mundo em que vivemos, e a quantidade de pressões e solicitações a que estamos sujeitos. Conhecemos centenas de pessoas, de personalidades, de formas de ser e parecer, e isso cria uma referência que cresce todos os dias. E pode existir um dia no qual alguém tem algo que simplesmente nos baralha o equilíbrio. (Claro que existem as pessoas que têm uma natureza propícia a isso, e como tal, para eles a monogamia, nem que seja na forma tentada, é uma quimera.) E alguém pode ter uma vida equilibrada, recorrentes momentos de felicidade (porque a felicidade contínua é inexistente), e ainda assim deparar-se com algo que pode perturbar esse equilíbrio. Algo que pode nem tem a ver com cupidez, lascívia, desejo de aventura, reforço, compensação, ou pode ser tudo isto junto. O mais perigoso é aquilo que encontra um espaço dentro de nós, ainda que o que já lá está nunca tenha de se mexer um centímetro.É raro acontecer, mas a verdade é que a traição pode simplesmente ser um azar, um tropeção. E a tentação é tão velha como a própria história do amor e da posse, e sem ela, os outros dois poderiam perder muita da sau força e substância.
Porque "encornam" as pessoas? Bem, existem explicações puramente pragmáticas e simples. E depois existem outras, que se prendem com a velha noção de que por vezes podemos ser apanhados de surpresa. Por coisas que nem sequer sabíamos que existiam, e que pela sua natureza, não podem ser encaradas como alternativa. Em 90% dos casos, conseguimos escapar. Mas julgo que ninguem está livre dessa possibilidade, embora muitos tenham a sorte de passar á margem, assobiando para o alto, e sublimando o que têm.
Sorte, ou talvez mais falta dela, julgo eu.
Porque motivos, a bem dizer, talvez não existam mesmo...
Assim como muitas vezes não sabemos o que se passa com as pessoas, em termos do seu bem estar e equilibrio mental e emocional, o mesmo pode ser dito de cada um sobre si mesmo.
O conjunto de razões que assistem a um auto-diagnóstico são, muitas vezes, determináveis. Temos à mão sempre meia dúzia de explicações para as inflexões dos dias, para os padecimentos que tornam o passar das horas mais complicado.
Ninguém ignora que todos os conceitos são feitos de elementos constituintes. As partes dão pistas, mas é o elemento imaterial da conjugação que constrói esse mesmo conceito. E esse, a mais das vezes, é uma cola imaterial que nos imbui de um espírito ou disposição dificilmente erradicável. Está lá, e a ausência de explicação torna-a omnipresente, como uma disposição por coisa alguma, ou o recortar do humor sem tesoura.
Em consequência, os toques parecem mais ásperos. As vozes demasiado altas. As exposições e os confrontos pequenos rapidamente se transformam em batalhas campais. Os lábios estão mais repuxados para o brilho dos dentes. Os avisos surgem a toda a hora. Os locais de segurança, onde se observa com alguma distância, parecem almofadas de céu. Tudo custa mais. Está mais perro e deslocado.
A ausência de respostas para tal patologia surge então como uma ferrugem generalizada da pessoa. E da ausência de medo passa-se à fortificação, onde nos consumimos para poder redistribuir aquilo que somos. O estalido dos grilhões não tem qualquer parecença com vontade, mas é audível assim mesmo.
E saber o "porquê" talvez seja negar o "quê".
Com sorte, é infalível.

segunda-feira, agosto 06, 2007


Muitas vezes temos uma noção quase certa daquilo que faremos. Daquilo que somos, daquilo que identificamos como estrutura primária da nossa forma de ser. Damos connosco a construir um arquétipo das nossas tendências. Passamos um longo e laborioso tempo a desenhar os cantos e curvas dos prováveis destinatários de todas as nossas formas de amor, identificando-os nas premissas da nossa liberdade, gotejando em direcção ao que pode não passar de perda e dor. A torneira de onde escorremos espraia-se como pouquíssima água em tanta areia escaldada pelo círculo ardente, e no entanto, a queimadura não permite ainda assim ignorar o toque alisador da água.


É engraçado como em quase todas as matérias, a força que nos liga à liberdade é teimosamente insubmissa. As dúvidas, as fugas, as teimosias, surgem como se pudéssemos estancar o tempo e fazer da finitude uma espécie de contínuo circular, onde as felicidades parcelares se moldam como uma ilusão de espiral autofágica. No dedilhar incerto pelas feridas da incerteza brota então uma vida que desconhecíamos, uma espécie de mundo que não morre aos instantes, mas que se torna infindo pela simples prova da sua existência. Aqueles que o tornam possível, cruzam a pele e enrugam-na em cada instante irrepetível de vida. São as marcas da vivência, as surpresas feitas pegadas na tal areia lisa, antes que o sol evapore a água que a fez permeável às formas do tempo que passa, e das pessoas que ficam.


E que mais resta?

Bem, talvez o facto de sermos prisioneiros desses instantes, da tristeza profunda que mata a perenidade, mas que ao salvar dez segundos, salva um mundo inteiro. Um mundo que somos nós, uma lógica que nos pertence, uma libertação em queda livre que, passo a passo, nos molda um bocadinho, como beijos de dentes ávidos que suavemente cortam lábios.


A verdade é que o facto de não sabermos, de ligarmos o carro e nada vermos após a curva, dão-nos a asas que podem derreter-se. Mas os instantes em que se paira, antes que o vento denuncie a queda, podem ser uma vida inteira. E quem sabe, talvez o vento venha de cima, e não por baixo.






quarta-feira, agosto 01, 2007

Adoraria saber o que fazem aqueles que raramente se questionam ou se riem de si mesmos. Como conseguem não temer o facto de poderem descobrir-se diferentes do que gostariam de crer que são, ou do que lutam por tentar ser.
Como raios é que perante um espelho, e o som da própria voz no escuro, alguém pode nunca se enganar e raramente ter dúvidas?
Receitas para o mail acima indicado.
Obrigado.
Nestes últimos tempos, agarrado ao pragmatismo por pura necessidade profissional, tenho-me no entanto deparado com uma sucessão de acontecimentos, os quais envolvem as mais variadas pessoas, nos mais variados enquadramentos.
Por pura sorte, sou admitido em vários ambientes, vários grupos, vários conjuntos de ideias e idiossincrasias, e cada uma das originalidades me parece um filme isolado, mas que vejo em catadupa, devido ao passar do tempo, dividido entre aqueles onde o meu afecto reside. Sempre julguei que o passar do tempo e da idade me trouxesse uma outra percepção das formas de estar, e me destilasse o poder de encaixe. Assim, seria possível extrair eclecticamente o melhor da maioria das pessoas que me rodeassem, e simplesmente ignorar as dificuldades de algo tão simples como o relacionamento quotidiano com alguém que entra na nossa esfera afectiva.
Claro que isto não ocorreu exactamente assim, como nunca ocorre, e percebo que cada dia que passa se torna mais fácil sentirmo-nos personagens dentro de um filme que vemos mas não realizamos. Nos períodos em que essa bifocalidade surge, tudo é estranho. Tocar num copo e vermo-nos a beber como espectadores secundariza o sabor, o que complica todas as experiências afectivas ou sensoriais num período como este.
Podemos estar a falar de cansaço, que desde há tempos se transformou no diagnóstico à prova de bala para qualquer sensação de alienação. Mas quando o sentimos na pele, quando o reflexo da nossa própria manifestação material deixa um sabor estranho a ausência ou défice, todas as explicações parecem curtas e insuficientes. O mal estar traduz-se numa sonolência da auto-aceitação, e a perda da energia associada ao que outrora eram pontes de granito entre nós e os outros. E se assim se entra numa espiral, dificilmente há para onde fugir.
Parece-me claro que é neste momento que as empatias se testam.
É um instante desse filme de fotografia pardacenta no qual testamos a força e correcção no casting. A começar pelo protagonista que somos cada um de nós.
E se calhar... é só cansaço.
Quem sabe?