ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, agosto 08, 2007


"(...)how to shoot somebody who'd out drew ya..."

Jeff Buckley - Halleluyah



Julgo que é pacífico o entendimento segundo o qual as nossas acções e características carregam consigo efeitos. Ao sermos exteriorizados por nós próprios, é inegável a produção de efeitos que se gera em razão de cada uma das nossas características, actos, comportamentos e reacções. É razoavelmente linear pensar que temos uma previsão relativa à forma como afectaremos os outros. No entanto a palavras-chave é previsão, e como a meteorologia, o que é verdade hoje, pode ser varrido pelo vórtice do anticiclone de amanhã. Há algo na nossa singularidade que deixa uma marca, quer queiramos quer não.
Mas questiono-me. Poderá ser de outra forma? Claro que a adaptação é conceito chave nas relações interpessoais. Caso contrário, não passaríamos de um conjunto de eremitas de calhaus e ossos em riste. Mas a verdade é que perante o cenário feito da verdade dos factos, da explicação das motivações, os nossos efeitos são a produção da nossa própria pessoa. Parece-me improvável, ou mesmo impossível que se possa filtrar coisas como o toque, a forma de falar, os reflexos de acarinhamento. Não julgo que seja sequer exigível que, perante a revelação pragmática do que deve estar esclarecido, tenha de haver algum filtro perante as naturalidades do ser, e os seus reflexos comportamentais. Seria algo tão ridículo como programar um beijo para que não seja tão intenso, ou conter uma palavra de alento que pudesse ser disfarçada de encorajamento encapotado.
Ao entrarmos na esfera de outra pessoa, temos múltiplas variáveis. E conhecer o poder de cada uma delas é aceitar o risco que significa abrir seja que tipo de portas, seja a quem for. Podemos e devemos exigir a verdade, e repudiar com agressividade (se tiver de ser) o engano e a manipulação. Mas não podemos nunca ter a noção de que alguém seja responsabilizado ao segundo por ser quem é nas suas naturalidades. Ninguém tem culpa se o seu beijo queima, ou se as suas palavras enchem de sentido o vazio conceptual que acompanhou aquela pessoa que agora as ouve. Se alguém aceita o risco, julgo que terá de acompanhar a luta pelas concretizações do seu "wishfull thinking", sempre consciente de que certas coisas são exigíveis, e outras fazem simplesmente parte do plano de hipóteses e opções que significa estar vivo e em contacto com outros.
Claro que quase sempre existe um temor, uma consciência que surge injustamente pesada em função da responsabilidade que alguém julga ter. Existem poucas coisas piores, para mim pelo menos, que ter a noção de que sou responsável pela criação de algo que nunca esteve nos meus horizontes de opção. Mas a simples noção de que, uma vez posta de parte a ambiguidade perigosa, se possa culpar alguém por ser demasiado certeiro nas sensibilidades de outrem, é achar que o encanto pessoal pode ser algo que se mede em camadas, e que a culpa deve gerir a naturalidade do toque, da forma ou da expressão. Para mim, é algo aberrante.
Estar em contacto com outros é um risco tanto como será um gozo. Pode ser uma luta constante, ou a força geradora da identidade própria, porque como dizia o Kauffman, (também(*)) "somos aquilo de que gostamos, e não (apenas) aquilo que gosta de nós."
Ou como diz acima, a geração de afeição, amor, fraternidade pode ser apenas a quantidade de vezes em que sacamos a arma dialéctica/emocional de forma mais acelerada que o outro. E com sorte, todos levam tiros alternados, e as marcas são apenas de crescimento e evolução, nunca de vazio pela intangibilidade.
Cada um é responsável pela forma como revela o que quer, é um facto, mas nunca, em meu ver, culpado por ser aquilo que é. O efeito que temos ali, é o efeito que sofremos de acolá. Como no basquetebol, estamos sempre no ataque e na defesa. É por isso que é o meu jogo preferido, com lesões e tudo, embora também reconheça que o nível de protecção própria nunca deva ser relevado.
É sacar rápido e ver o que acontece...

3 comentários:

A disse...

Resumindo em muito poucas palavras aquilo que penso sobre todo este grande tema... sim, eu posso dizer de boca cheia que amo as minhas amigas. Contudo, não sou lésbica. Posso dizer que amo os meus amigos, ainda que nunca tenha ido para a cama com eles. Aliás, se for a pensar mesmo bem no assunto, amo mais algumas pessoas que outras, e isso quer dizer muita coisa. Sexo à parte, o amor é algo que surge naturalmente, mas que provém de atitudes próprias e de outros, e é na balança do dar e do receber que a relação se equilibra.

Cada um terá os seus mecanismos e eu conheço bem os meus. As minhas relações e afectividades têm um peso, e estão escalonadas por patamares. Se posso dizer que gosto mais de y x ou z? Posso, e até devo. Alguém disse que não existem almoços grátis e a incondicionalidade é algo de muito bonito, mas na hora do aperto é que são elas... o aperto de te veres só e ninguém se chegar ao pé de ti. Já nos aconteceu a todos, a uns mais que outros, mas para isso eu também tenho uma teoria: se ninguém se chega ao pé, das duas uma: ou não te interessas por ninguém ou interessas-te demais.
Na primeira hipótese, obviamente se és daquelas pessoas que se está literalmente a borrifar, pensas que os outros é que têm de se interessar primeiro e sempre por ti, achas-te a vítima e não entendes porque é que não tens amigos. Na segunda hipótese, de tanto estares sempre lá,as pessoas habituam-se e acham que tu é que tens de te interessar primeiro... normalmente são pessoas muito compreensivas e inteligentes. Guess what? A inteligência não é nem nunca foi sinónimo de afectividade.
O "tu" é figurado.

Sinceramente, eu acho que TU encaixas na segunda premissa.
Porque estás sempre lá e toda a gente se habituou a isso.
Eu? Faço demais por alguns (demais porque não recebo na mesma medida, o que acaba por esvanecer essa pretensa amizade), faço o que devo por outros e nada por outros. Dou sempre ao máximo a quem acho que merece, e nem todos damos da mesma forma, pois não sentimos todos da mesma forma. Felizmente,tenho encontrado boas pessoas na minha vida e orgulho-me imenso por saber que estarão sempre lá quando eu as chamar.

Por isso, meu caro, há que saber gerir afectos, equacionar, medir e a seguir, simplesmente viver. Esta gestão, por assim dizer, tem o seu início desde os tempos de escola primária, na família, e segue pela vida fora até ao mundo do trabalho, em que queremos pertencer (ou não) a um grupo, em que queremos liderar um grupo, em que queremos ser parte de algo, e é esse sentido de pertença que nos define e coloca no centro de alguns mundos afectivos: os dos outros.

Beijinhos, gostei do post.

E claro, da música.

Klatuu o embuçado disse...

E? Gastaste quê, 300 palavras...?

SK disse...

Ana:

Em primeiro lugar obrigado pelo comentário, e sobre a questao do meu posicionamento temos de conversar em voz :)

Caríssimo Klatuu:

Estava a apontar para as mil, mas faltou-me o tempo, porque ando um bocado atrapalhado com trabalho.
Mas há tantos outros locais, provavelmente mais económicos em palavras do que este onde gastar o tempo, não há? Bem sei, sou um fariseu e falta-me a pachorra para o Bergman, mas tenho aí uns links ao lado de óptimos blogues. Divirta-se.