Existem pessoas que não são nada, mas nada nostálgicas.
Ensacam os pertences e vão à vida, desgarrados, viajantes de si mesmos. Conseguem poisar em todo o lado e criar quase imediatamente um ritual, um caminho, um percurso, uma linha. Como se a mudança apenas tivesse trazido um novo enquadramento porque tudo se desenvolve por eles e perantes si mesmos.
Seja a cidade, a casa, as pessoas, o tempo, tudo parece escorrer-lhes da pele, ficando apenas na memória como mais uma etapa de crescimento ou desenvolvimento. A personalidade parece escorregar por todos os poisos e trazer apenas aquilo que a engrandeceu em tais locais. Salvam-se a si mesmos e evadem-se com a facilidade de quem não dispensa qualquer forma de familiaridade. Não é porque não goste dela, mas porque aceita as alternâncias que a mesma por vezes sofre, e segue sem girar a cabeça uma vez.
De um certo ponto de vista sempre invejei essas pessoas e a sua capacidade em ir, em fixar-se, em encontrar pertença e sustentação em tudo o que seja novo, desconhecido e por vezes, agressivo.
Eu sou um nostálgico em certas coisas. Guardo toda a espécie de porcaria, e até de papéis velhos me custa separar. guardo velhas agendas, papelitos em torres empoeiradas. Sinto-me protegido em locais familiares, e embora não seja avesso a toda a espécie de mudança, sou muito (talvez até excessivamente) fiel á cidade onde vivo. Custa-me despedir de sapatos velhos, t-shirts que não visto há dois anos, ou até chavenas que se partam no chão.
Em vésperas de mudança, a minha casa parece agarrar-me com os braços que não tem. Olho para as paredes com a noção de que em breve as deixarei de ver. Paredes, cores, cheiros e contornos que fizeram um modo de vida nos ultimos anos, e que em ultima análise se estabeleceram como o "meu sítio". E embora me pareça que estou a ir para melhor, pelo menos em algumas coisas, a verdade é que olhar para a minha casa e dar-lhe as costas é um exercício doloroso. Há algo de irrepetível naquela porta, naquele chão de tijoleira, nos quadros triangulares. Há instantes que recordarei, mas já não perante as paredes onde os mesmos sucederam.
Para algumas pessoas isto surgirá como uma absoluta parvoíce.
Mas para mim abandonar algumas coisas, cortar familiaridades que apesar de tudo são uma parte boa de mim, traz sempre um custo. Um custo feito de apego que em algumas ocasiões nem sei explicar de onde vem.
Mas está lá.
E deixa as suas marcas. São dores de crescimento, dir-se-ia.
Mas são, afinal de contas dores.
1 comentário:
Pois eu pertenço à raça dos que descreves primeiro.
De olhos postos na realidade porque é disso que sou feita e são as escolhas que fiz; responsabilizar e assumir a vida que tenho pois foi apenas o resultado das opções que conscientemente fiz e faço a cada ano que passa.
Nem todos temos alma de cigano, nem temos de ter.
:)
Good Luck!
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