
Muitas vezes temos uma noção quase certa daquilo que faremos. Daquilo que somos, daquilo que identificamos como estrutura primária da nossa forma de ser. Damos connosco a construir um arquétipo das nossas tendências. Passamos um longo e laborioso tempo a desenhar os cantos e curvas dos prováveis destinatários de todas as nossas formas de amor, identificando-os nas premissas da nossa liberdade, gotejando em direcção ao que pode não passar de perda e dor. A torneira de onde escorremos espraia-se como pouquíssima água em tanta areia escaldada pelo círculo ardente, e no entanto, a queimadura não permite ainda assim ignorar o toque alisador da água.
É engraçado como em quase todas as matérias, a força que nos liga à liberdade é teimosamente insubmissa. As dúvidas, as fugas, as teimosias, surgem como se pudéssemos estancar o tempo e fazer da finitude uma espécie de contínuo circular, onde as felicidades parcelares se moldam como uma ilusão de espiral autofágica. No dedilhar incerto pelas feridas da incerteza brota então uma vida que desconhecíamos, uma espécie de mundo que não morre aos instantes, mas que se torna infindo pela simples prova da sua existência. Aqueles que o tornam possível, cruzam a pele e enrugam-na em cada instante irrepetível de vida. São as marcas da vivência, as surpresas feitas pegadas na tal areia lisa, antes que o sol evapore a água que a fez permeável às formas do tempo que passa, e das pessoas que ficam.
E que mais resta?
Bem, talvez o facto de sermos prisioneiros desses instantes, da tristeza profunda que mata a perenidade, mas que ao salvar dez segundos, salva um mundo inteiro. Um mundo que somos nós, uma lógica que nos pertence, uma libertação em queda livre que, passo a passo, nos molda um bocadinho, como beijos de dentes ávidos que suavemente cortam lábios.
A verdade é que o facto de não sabermos, de ligarmos o carro e nada vermos após a curva, dão-nos a asas que podem derreter-se. Mas os instantes em que se paira, antes que o vento denuncie a queda, podem ser uma vida inteira. E quem sabe, talvez o vento venha de cima, e não por baixo.
4 comentários:
Muits outras vezes achamos que no definitivo de uma incerteza, o querer dos outros nos conduz a decisao.
Que o vento, afinal so sopra daquele lado e que esse e a nosso caminho.
Nao deixes que isso uma dia te possa acontecer. Nao saber ao certo o que se quer nao e importante. Importante é sempre saber o que nao se quer.
Mi, The Strange
Sábio conselho o do comentário anterior.
O importante é sabermos o que não queremos. É esse saber que nos deve nortear a vida.
Se nos deixarmos ir ao sabor do vento e das vontades dos outros corremos o risco (elevado) de irmos cair em lugares que não são nossos.
E não pode existir nada pior do que não estarmos no lugar a que pertencemos.
O nosso mapa deve indicar-nos a rota certa. É também para isso que servem os amigos verdadeiros. Para nos ajudarem a encontrar o caminho certo para o nosso lugar.
"Se nos deixarmos ir ao sabor do vento e das vontades dos outros corremos o risco (elevado) de irmos cair em lugares que não são nossos."...
...Mas e se gostarmos tanto "dos outros" que as suas vontades sejam suficientemente fortes para nos impelir para lá?
E nem sempre, "cairmos em lugares que não são nossos" é mau. Pode tornar tudo uma aprendizagem constante, à custa de alguma dificuldade de adaptação no começo, é certo...mas que pode ser compensada largamente no futuro.
Os verdadeiros amigos podem fazer parte desse caminho, mas não o devem "indicar". O caminho de cada um é isso mesmo, de cada um, não deve ser influenciado, nem ninguém o deve tentar influenciar, por mais amigo que seja ou julge ou pareça ser.
...Ah...e os verdadeiros amigos compreendem a existência dos "outros"...não os desdenham, nem procuram influenciar, tentando mostrar que são os "verdadeiros amigos" que interessam e não "os outros"...
Suficientemente confuso? Ou suficientemente explícito?...
Cumps
Curioso: "O caminho de cada um é isso mesmo, de cada um, não deve ser influenciado, nem ninguém o deve tentar influenciar, por mais amigo que seja ou julge ou pareça ser."
Vamos ver se percebi... só os "outros" é que podem influenciar, é? Os amigos não?
É que numa parte do texto estamos de acordo: "O caminho de cada um é isso mesmo, de cada um, não deve ser influenciado, nem ninguém o deve tentar influenciar". E até podemos estender o conceito... A vida é de cada um e cada um deve fazer dela o que bem entender. Sem pressões, nem exigências, nem faltas de educação sérias aos amigos(falsos, como classifica).
Incomoda muito a existência de amigos, é? Talvez porque faça com que as pessoas não cedam tão facilmente aos caprichos e os amigos os façam pensar pela sua cabeça. Realmente incómodo para quem o sonho de vida é controlar...
Na minha modesta opinião, que vale o que vale - ao contrário de outras pessoas tão sábias nas suas afirmações - que estranha forma de amar o quer dominar... Já ouviu dizer que os animais são bonitos de se ver é no seu estado selvagem e não fechados em gaiolas?
E já agora, alguém com tanta capacidade critica não deveria ter a coragem de se identificar? Ou é fácil falar quando encobertos pela capa do anonimato?
Peço desculpa por responder tão tardiamente mas só hoje vi tão simpático comentário... Porque será que não estranho tanta simpatia??
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