Nestes últimos tempos, agarrado ao pragmatismo por pura necessidade profissional, tenho-me no entanto deparado com uma sucessão de acontecimentos, os quais envolvem as mais variadas pessoas, nos mais variados enquadramentos.
Por pura sorte, sou admitido em vários ambientes, vários grupos, vários conjuntos de ideias e idiossincrasias, e cada uma das originalidades me parece um filme isolado, mas que vejo em catadupa, devido ao passar do tempo, dividido entre aqueles onde o meu afecto reside. Sempre julguei que o passar do tempo e da idade me trouxesse uma outra percepção das formas de estar, e me destilasse o poder de encaixe. Assim, seria possível extrair eclecticamente o melhor da maioria das pessoas que me rodeassem, e simplesmente ignorar as dificuldades de algo tão simples como o relacionamento quotidiano com alguém que entra na nossa esfera afectiva.
Claro que isto não ocorreu exactamente assim, como nunca ocorre, e percebo que cada dia que passa se torna mais fácil sentirmo-nos personagens dentro de um filme que vemos mas não realizamos. Nos períodos em que essa bifocalidade surge, tudo é estranho. Tocar num copo e vermo-nos a beber como espectadores secundariza o sabor, o que complica todas as experiências afectivas ou sensoriais num período como este.
Podemos estar a falar de cansaço, que desde há tempos se transformou no diagnóstico à prova de bala para qualquer sensação de alienação. Mas quando o sentimos na pele, quando o reflexo da nossa própria manifestação material deixa um sabor estranho a ausência ou défice, todas as explicações parecem curtas e insuficientes. O mal estar traduz-se numa sonolência da auto-aceitação, e a perda da energia associada ao que outrora eram pontes de granito entre nós e os outros. E se assim se entra numa espiral, dificilmente há para onde fugir.
Parece-me claro que é neste momento que as empatias se testam.
É um instante desse filme de fotografia pardacenta no qual testamos a força e correcção no casting. A começar pelo protagonista que somos cada um de nós.
E se calhar... é só cansaço.
Quem sabe?
3 comentários:
There is a great deal of difference between an eager man who wants to read a book and the tired man who wants a book to read. G. K. Chesterton
Se calhar, a determinadas alturas, só gostávamos de encontrar um bom livro. Só isso. Que, por uma vez, fosse fácil. Que tudo batesse certo nesse livro, sem acharmos que o autor é demasiado reconhecido por tão pouco que fez. Se calhar, às vezes, o cansaço é justificado e merecido. Se calhar, às vezes, não vale mesmo a pena.
A mais das vezes em que devia estar calada, acabo sempre por dizer mais qualquer coisa, mais não seja porque quero dizê-la, porque está cá dentro, e acaba por sempre sair de forma deturpada, mas há coisas que devem sair no seu estado mais puro, ainda que pouco sofisticado e o seu grau de maturação não seja o melhor... talvez isso me traduza como um ser imbecil e ingénuo... olha, não sei.... sei apenas que é a forma que tenho de exprimir aquilo que sou, e por mais que sejam todas essas vezes em que devia estar calada porque aquilo afinal não saiu lá grande coisa,e o filme seja afinal também ele um pouco mau e duvidoso, resta a ideia de que afinal as dúvidas não eram assim tantas, senão nunca o teria dito ou feito.
Por muito mau que possa ser o filme, por muito bera que seja a crítica (sim, as tais críticas), afinal a protagonista ainda sou eu (isto lembra-me a Adelaide Ferreira lol)e posso dizê-lo um pouco em jeito de orgulho mal disfarçado, que ao menos tem sido divertido, no matter what...
O filme da vida de cada um de nós pode somente ser vivido por cada um de nós, à sua maneira. Críticas à parte. Melhorar todos podemos, eu acho.... o que acho também é que as empatias não se testam.
Beijinhos
As empatias não se testam. Existem ou não.
E quando as empatias e as compatibilidades não existem inicialmente nunca se desenvolverão.
É um erro pensar que podem vir a acontecer.
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