ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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domingo, setembro 30, 2007





"Use what talent you possess:
The woods would be very silent if no birds sang except those that sang best."

Henry Van Dyke

Foto: Misha Gordin - "Doubt"

"Avoid the flourish. Do not be afraid to be weak. Do not be ashamed to be tired. You look good when you're tired. You look like you could go on forever. Now come into my arms. You are the image of my beauty. "
Leonard Cohen

sexta-feira, setembro 28, 2007



Sem discutir os méritos jurídicos da decisão, até porque o fiz quanto ao acórdão de 1ª instância, levanto apenas uma ou outra questão sobre o último, embora a palavra certa talvez seja derradeiro, desenvolvimento do caso Esmeralda.



Como disse, só pergunto uma ou duas coisas. Será realmente a melhor solução, no superior interesse da criança, deslocá-la da única família que conhece aos 5 anos para viver com aquele que, apesar da consanguinidade, é um estranho para a própria filha?



Diz-se, porque não os li, que os relatórios de pedopsiquiatria, bem como da Segurança Social, desaconselharam esta transição, lá está, mais uma vez em nome do supremo interesse da criança.



Talvez fosse realmente bom terminar com a desinformação que exista e explicar muito bem a razão pela qual o real interesse desta criança será verificado afastando-a da única família que alguma vez conheceu. Porque se existe um motivo válido e forte, esperemos que ele ultrapasse a tecnicidade jurídica e que esclareça este "mar de media" em volta do assunto.



Quanto à menina, espero que esse real interesse realmente seja tido em conta, e que lhe esteja reservada a melhor das sortes. Melhor do que aquela que aparenta estar-lhe reservada.



Vejamos.


Deparei-me com isto e sinceramente não sei o que pensar.


Relembrei aquilo que disse há tempos sobre os apoios estatais à natalidade, a minha posição sobre a IVG, e embora as reforce, não tenho qualquer teoria sólida para resolução deste caso. Não sei o que pensar, nem como começar a pensar numa resolução para uma mãe forçada a sair de casa para ganhar o sustento e deixar a prole à sua sorte, ou ficar em casa e começar seriamente a pensar em mudar para uma dieta de calhau, areia e ervas daninhas.


Reforço as minhas posições como ferrenho defensor do planeamento familiar (e da IVG quando este falha), perante este caso. É mais um daqueles casos onde parece vir ao de cima a ideia de que afinal as boas intenções não valem um corno, e que não seriam os euros da ajuda à natalidade que resolveriam o problema destas pessoas. Porque acaba por ser um problema de educação cívica, de acesso aos meios para prevenir este problema.


Uma pessoa com este nível de vida não pode conscientemente ou por descuido arriscar uma prole de 4 filhos (já que a senhora em causa está grávida), porque a descêndencia é uma decisão séria, e talvez a maior responsabilidade que se pode ter. As responsabilidades começam muito antes do acto de sair de casa e deixar 3 petizes à sua sorte.


A solução será retirar a guarda das crianças? A frio, a resposta parece-me evidentemente positiva. Porque por agora foi uma queda de quem queria voar, que por milagre, não redundou em tragédia, mas da próxima vez (uma vez que não se vislumbra que as creches fiquem mais baratas ou que RMG lhe seja aplicável) a coisa pode ser bem mais grave ou definitiva.


Mas o reforço ou concessão de apoio pré-escolar não seria uma solução alternativa? Numa altura em que o país corre sérios riscos com a quebra de natalidade, qual será a mensagem a enviar? Precisamos de nascimentos, mas tenham cuidado com a carteira? São, convenhamos, sinais misturados, contraditórios, e de alguma forma, próprios de um desequilibrio social que, nestes dramas à escala individual parece assumir a sua verdadeira e grotesca forma.


Sinceramente, não sei como responder à ambiguidade de um caso que é, todo ele, feito de necessidade, colocando-o sempre perto da injustiça. Mas parece-me claro que existe mais que uma solução para o caso, e o Estado foi rápido a exercer uma responsabilização moralizadora a quem anteriormente havia abandonado à sua sorte.


E está assim lançada a confusão.

sexta-feira, setembro 21, 2007

"Stupidity is a talent for misconception."

Edgar Allan Poe






Oceansize

The Charm Offensive

Senses oh how could you fail us now;
I check your heart still makes a hissing sound
It’s just another name for sorcery
We still believe in what we never see
Our perception is but a camera trick
Authority a uniform
Another name for a second chance
You offer more the sophomore
You offer more, we offer more

Goldmouth at full voice refuse
This should be our chance
we take this lying down
we take this lying

Goldmouth at full voice refuse
This should be our chance
we take this lying down
we take this lying

And it burns, it burns us all out as it blows Everyone Into Position

We love to lie and pretend that it’s all o.k.
We love to save all these words ‘til another day
So don’t think on your feet
Cos you sink from your feet up
Are you flirting with me?

Charm Offensive, perma-pensive, dream it all away
Some may kill you, as you continue, to lie for us, I pray

It burns, it burns us all out as it blows
And it burns, it blows Everyone Into Position
Harder to the opposition, harder to the opposition

Don’t you think on your feet
Cos you sink from your feet up
But I’m routing for you, routing for everyone, everyone, everyone

They’ve sold us out again;
Thrown us in the fire
They say we’re all the same
Well, yeah, but we’re not liars, liars, liars…



Tenho ouvido esta musica em loop, e cada vez percebo mais porque o faço...


Com base num empirismo no qual verifico que as coisas se vão repetindo, e nos relatos daqueles que infelizmente os têm de aturar dentro de uma sala fechada, verifico que a "criança-rei" é uma realidade conceptual cada vez mais comum, e em meu ver, assustadora.


São as criancinhas que acham que podem ter tudo, que não podem ser disciplinadas porque isso impede o desenvolvimento pedagógico, e sobretudo, aqueles que iniciam a sua vida a pensar que tudo pode ser feito consoante as suas vontades e pequenas tentativas de manipulação.


São aquelas que "destroem" uma sala de aula, aquelas que sabem que a autoridade está minada e vão testando os limites. São aquelas cujos paizinhos se insurgem veementemente contra qualquer medida disciplinadora mais dura, ou a palmada no rabo bem aplicada, mas que não vêm o que se passa na sala de aula, onde as mais profundas faltas de respeito são prática corrente. São aqueles que acham muito bem que os meninos passem sem exames até ao 9º ano, para depois verificarem que não conseguem escrever uma frase sem que pareça uma mensagem sms. São aqueles que acham que a nova pedagogia encontrou formas de dar a volta ao texto, mas que depois olham para cima e assobiam quando os resultados pragmáticos não aparecem ou quando os miúdos simplesmente não querem saber.


O problema é que estes miúdos serão mais tarde os adolescentes e os adultos. Serão aqueles cuja falta de formação de base, seja ela cívica ou académica, redundará num comportamento alienante que confunde carácter e personalidade com egocentrismo e competitividade a todo o custo.


A verdade é que os discursos muito bonitos da pedagogia absolutamente libertária não jogam com a realidade das escolas, onde cada vez mais cedo existe uma atitude de antagonismo egocêntrico, cada vez mais incrementado pela lógica do "deixa andar" doméstico.

E dizem eles que um professor tem de ser capaz de "domar" uma sala de aula, mas eu pergunto: Sem poder dar notas definitivas ou reprovadoras, sem poder suspender, mandar para a rua (ou corrigir com um puxão de orelhas ou uma palmada - sim, digam-me os experientes pedagogos o que farão quando uma amostra de gente de oito anos os mandar para o caralho - sim porque isto é recorrente, não é ficção.) como se domina uma aula? Como é que se exerce autoridade sem qualquer mecanismo mínimo de coercibilidade possível?


A "criança-rei" chegou para ficar, pelos vistos. E temo no que se transformarão quando a trituradora social lhes disser que quando for a vez deles a estar no lado débil da realidade, já não adianta chorar, berrar ou manipular pelo respeito que nunca tiveram (e nunca lhes foi incutido) por nada?


A minha vénia sentida a muitos professores, associada a um temor e tristeza por este estado de coisas...

quinta-feira, setembro 20, 2007



Alguma (arrisco muitas) pessoas escudam-se nas suas familiaridades, e, pelo que vou podendo ver, geram os consensos que, de tempos a tempos, se confundem com proximidade, nem desconfiando que se começa a plantar uma semente de disciplina.


Essa disciplina produz uma espécie de código silencioso de assentimento, uma amostra de dogma que surge nas pequenas coisas, quase como um lençol finíssimo colocando como protecção a uma estátua de mármore que todos reconhecem e respeitam. Surge também como uma pequena membrana alterando em consonância suave as variadas impressões digitais impressas nos gestos mais frequentes.


Esse lençol, como qualquer outro quando colocado demasiado perto da boca, começa a asfixiar quem tenta tirá-lo ligeiramente da frente para ver melhor o contorno. E há quem siga, há quem lute por manter o lençol colocado, e as afeições acirram-se assim perdidas em antagonismos subtis.


Quando lia em alguns carros que Jesus era amigo, nunca pensei tratar-se de uma subtil metáfora comparativa entre religião e amizade grupal...





É certo que o rapaz pode não ser muito articulado, é um facto, mas demonstrou ontem a grande diferença entre ele e os idiotas chapados como o Dani, e a humildade de quem sabe ser grande, grato e respeitar as origens, num gesto simples, mas muito significativo.
Ontem, Ronaldo teve um gesto assim, bonito de se ver.

domingo, setembro 16, 2007



Das coisas que mais lamento é ter-me tornado mais pessimista. Mais desconfiado, mais descrente, menos efusivo ou descontraído nas manifestações de proximidade para com os outros que me saíam com uma facilidade tremenda. É triste pensar que a chuva afinal pode mesmo constipar-nos se nos atrevermos a passear lá fora para encharcar as meias, ou que alguém pode pegar em coisas que dissemos em formato mas não intentamos em sentido, e distorcer para criar pequenas perturbações com potencialidade de crescimento.
Não gosto.
Não gosto de pensar que certas coisas não terão provavelmente resolução antes de eu estar a fazer tijolo. De pensar que o instinto de contenção agressiva perante outros é algo que em mais de metade do mundo se torna tão despiciendo como um lenço de papel usado. Não gosto de pensar que alguém vive bem com a sua consciência ao enviar-me dois homens, sem seguro, para fazer a minha mudança. Não gosto do sabor a conivência com que fiquei, mesmo depois de lhes dar o meu sofá e umas prateleiras para rechearem a sua casa. Não gosto de querer as coisas materiais que são bombardeadas em todos os cenários bidimensionais todos os dias, e perceber que o trabalho somente nunca será veículo para lá chegar.
Não gosto de me queixar das minhas ombreiras velhas, dos meus vizinhos arruaceiros, e depois olhar para o tipo da CAIS que me quer vender a revista no semáforo, entender que ele não tem para onde ir, tem a face carcomida pelo sol, pelo frio ou pela heroína, e ainda assim continuar a queixar-me internamente das minhas ombreiras velhas. Não gosto dos balanços feitos ao passar do tempo, dos feitos atingidos, do que parece que tinha a obrigação de atingir, do silêncio ocasional dos meus amigos, do meu silêncio para com eles, do tempo que me parece demasiado curto não obstante o quão fervorosamente jovem ainda me sinto. Não gosto de me ter tornado mais pessimista.
Três dias fechado em casa, a trabalhar, fazem-nos coisas esquisitas. Mas não nos mentem, mesmo que gostássemos tanto que o fizessem... Como dizia um autor que li na New Yorker (Tim Page), citando um outro (Romand Rolland) o credo só pode ser:
"Pessimism of the intelligence, optimism of the will."
Porque há que equilibrar as coisas, ou isto torna-se mesmo uma grande chatice.
Está na altura de gravar um sol na pele...

Penso que é pacífico admitir que a passagem de etapas traz sempre qualquer forma de prazer. É a sensação do que se julga feito, a lógica do que está cumprido.

Mas não raras vezes pensamos muito simplesmente que, (especialmente se a etapa for complicada de ultrapassar), a hesitação permanece algures entre o desejo de uma próxima prova, e a vontade que as restantes desaparecessem num bater de palmas.

A verdade é que perante uma conquista, os momentos de pausa e paragem para saborear nunca devem ser menosprezados. Já bem basta o fardo do cacete que se tem em ter sempre de arranjar novas escadas para subir, ou aceitar o cansaço desanimador pelos degraus que faltam.
Mas verdade, verdadinha?

Já sabia bem um descanso, e a ausência, ainda que temporária, de coisas com que me preocupar. Quando passa das dez chatices consecutivas, devia pedir-se desconto de tempo, e passar essa fase do jogo.

Give me a break . .
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quinta-feira, setembro 13, 2007

Foto - Misha Gordin


Só a longevidade da memória justifica a necessidade do horror.


Não encontro outra explicação.

Normalmente reenvio as mensagens de adopção de animais porque, de alguma forma, espero sempre que haja alguém que, ao contrário de mim, tenha uma casa comportável para um cão que precisa de correr e sobretudo de companhia. Passo a mensagem, espero que corra tudo bem e não faço mais comentários. Sobretudo uso o mail e não o blog para tais propósitos.
Mas este bicho parece-me diferente por alguma razão. Não sei explicar porquê, por isso nem sequer tentarei.

Acho que num impulso, nunca detestei tanto não ter um quintal como agora, ao deparar-me com este animal. É um cão talvez semelhante a tantos outros, mas a mim causou-me um impacto diferente. Vejam a expressão e se tiverem curiosidade, leiam “A Agressão” do Konrad Lorenz, e talvez seja possível passar alguma empatia relativa à profunda tristeza que significa para mim não poder ficar com este bicho.

Espero sinceramente que alguém possa.
Os interessados queiram por favor contactar o e-mail do cabeçalho desta página, e fornecerei os dados de quem tem este rapazola para adopção, porque assim foi pedido pela pessoa em causa. Quem adoptar, e se não for pedir muito, mande só um e-mail para saber o que foi feito dele.
Gracias.

quarta-feira, setembro 12, 2007



Apesar de nunca ter sido fã desta espécie de programas em que três ou mais idiotas pomposos, sentados num palanque se divertem a gozar com pessoas que obviamente não têm talento para aquilo que se apresentam, devo dizer que este vídeo que vão ver arrepia a pele. Os "críticos" não sabem o que fazer ao queixo.Absolutamente arrebatador.

I've always loved an underdog. :)




Foto: Mona Kuhn


Quando coisas como esta acontecem, a ideia que grassava há alguns anos seria de que coisas destas eram próprias dos "malucos dos americanos". De resto não faltavam romancistas com um talento especial para inquietar as nossas certezas de conforto, ou mexer frequentemente naquele caldo fervente que mais valia deixar sossegado. Cerrava-se os olhos, lá está o sol omnipresente e tudo se recompunha na normalidade tranquila. Mas em Portugal acontece aquilo que acontece noutros locais. Mães assassinam filhos, miudos matam indigentes à pedrada, etc.


Adjacente a esta lógica surgia sempre a noção de que as patologias de índole mental eram "maluquices" ou "mariquices" de quem "não tem nada que fazer". Bem, eu confesso que estou entre aqueles que considera, por testemunho pessoal e obviamente não médico/cientificom que muito daquilo que é aduzido como padecimento mental não passa de inércia reactiva e incapacidade de alterar os registos de vida, sublimando o positivo e tentando a todo o custo abafar o negativo. Há, infelizmente, muita gente que utiliza problemas inexistentes para as suas próprias agendas pessoais, o que faz com que, já lá diz a sabedoria popular, paguem muitas vezes os justos pelos pecadores.


Mas outra realidade é ter de olhar em frente para factos, e entender que as patologias mentais, entre as quais a mais comum é a depressão ou estados depressivos, são uma realidade, e que não vale a pena continuar a assobiar para o ar ou desmistificar com um olhar desconfiado e jocoso. O lixo próprio das contradicções vivenciais da gregariedade, daquilo que surge como preocupações nos talk-shows e depois nada mais é que rocha a terraplanar na realidade quotidiana, produz monstros. Não é o sono da razão, como lá dizia o Goya, mas sim o acordar da ansiedade, da dor mental e da alienação subtil.


Evidentemente que algumas destas patologias têm uma origem endógena ou genética, através da insuficiencia de produção de neurotransmissores como a serotonina. São evidentemente clínicas. Mas muitas são induzidas, e resultam das mais variadas formas de pressão, por um lado, e ignorância alienadora, por outro. A sociedade não pode dar-se ao luxo de ignorar a responsabilidade que tem na ausência de equilíbrio entre a exigência (necessária) e o envolvimento (ultra-necessário). A verdade é que em certa medida, somos todos responsáveis pela insuficiência que criamos junto de outros, na medida em que a lógica do conforto muitas vezes se sobrepõe à assertividade necessária de um gesto. E não é com certeza qualificando o sofrimento mental como uma espécie de luxo mariquinhas do homem de pança farta que se consegue analisar as consequências daquilo que são afinal as excrescências da máquina oleada em que se tornou o dia a dia.


É possível resolver tudo? Julgo que não, mas não teimar num autismo sobranceiro e simplesmente incrementar um pouco mais naquilo que se pode ter a mínima influência junto de alguém já poderá ser uma melhoria. No fundo, já lá dizia o outro, "Se podes olhar, vê, se podes ver, repara." E por vezes pode fazer alguma diferença. Pouca mas melhor que nada, julgo. E contra mim falo.



Sabemos que a nossa cabeça já há muito que fundiu quando combinamos encontrar-nos com um amigo para dar duas palavritas e nos cinco minutos subsequentes esquecemo-nos completamente de aparecer, só nos recordando do caso cerca de 14 horas depois.
Valeu-me a pachorra do amigo para tamanho disparate.

terça-feira, setembro 11, 2007


É já relativamente tarde, pelo menos para quem a alvorada será daqui a menos de sete horas, mas tenho o Rufus a martelar-me a moleirinha com a sua interpretação do Hallelujah e que diabo, torna-se complicado não dizer algumas daquelas coisas já tornadas inconsequentes pelo cansaço.

Pegando na fantástica muleta que esta música significa, surge no meio desse mesmo cansaço uma percepção geral do estado de coisas. E não é sem alguma surpresa, mas muito mitigada por um mais perigoso senso de cansaço, que se verifica o quão de pantanas a nossa vida pode ficar de um momento para o outro. Surge como um processo de acumulação subtil mas em breve, como dizia um professor de latim que tive, as pequenas pedras acumulam-se e tornam-se uma rocha que acaba por pesar como uma falésia.

E esse estado de percepção, em que as pontas são bem mais que soltas e não há mãos para agarrar tudo e mais alguma coisa, parece-me que mais não somos que corredores de fundo. Sabemos que cada passo que dói é apenas reflexo de uma aceitação desse percurso já sem uma lógica clara de vitória, restando apenas uma verificação de progressão. A incerteza da nossa própria finalidade é apenas combatida com uma teimosia em ignorar e contrariar tempos que se desejam felizmente esquecidos. Definições de monstros que ficaram algures perdidos nos medos que os criaram.

É impossível para alguns duvidarem de si mesmos. Para outros, é impossível questionarem-se, reiterarem a sequência dos seus passos e entenderem o local onde se achavam inseridos à guisa do que a sua necessária imperfeição poderia originar. E se bem que é com certeza mais fácil culpar que definir, sê-lo-à bem mais fácil se estiver já aqui à mão, em voz interna, ainda que se substituam as acusações por perguntas.

É na percepção desapontada (sem saber totalmente com o quê ou quem e que se julgava desajustada de certo estágio etário) que reside a capacidade de ver o grande cenário. O cenário em que a tristeza é apenas debilitante no que concerne à energia para explicar os seus factores de produção, e não no que concerne aos meios de combate. E aí, mais do que nunca, a focagem deve ser claramente direccionada para o entendimento feito do despir do próprio. Pelas irregularidades da pele, as faltas de pontaria da voz, as incorrecções necessárias das mil interpretações conceptuais, conseguir raspar a pele ao ponto de nos vermos à transparência.

E perceber que uma vez analisadas as lógicas, e efectuadas as auto-punições, restará avaliar aquilo que, ainda que possa parecer perdido, se possa repetir em conceitos de amor variado, ainda que não nos mesmos habitáculos humanos.

Mais perigosa que a desilusão é o cansaço, apenas alternado pela teimosia de ver em poucos outros o inalterado estado de uma realidade que nos deixa um pé no material, ao invés de transpor a insubstancialidade de uma tristeza tão imensa para todas as manifestações de um ser auto-consciente.

E sinceramente, esta é uma reflexão direccionada aos poucos que ainda teimam em conhecer-me, pelo que fará todo o sentido do mundo para esses, e nenhum para praticamente ninguém.

E com todo o respeito, isso não me importa grande coisa a esta altura, nem nesta circunstância particular.

Amanhã, como diz o cliché, é outro dia. E em breve, serão todos eles outros e todos bem diferentes.
As marcas são afinal como chicotadas. Provocam a reacção, e a reacção é movimento que se define como vida.
So get busy living, or get busy dying... That's goddamn right.



Num país dominado pela palhaçada futebolística, os meninos que se queixam quando têm de jogar duas vezes por semana e que dão a vergonha sonífera semanal talvez devam ver o que é sentir a honra de vestir a nossa camisola.

Até arrepia. :)

Força rapazes!!!

Para quê comentar o caso, sem saber o que se passa? É que já enjoa, sinceramente.
Smells fishy, é verdade (Pais desesperados com entrevistas sempre estrategicamente planeadas e uma agenda que envergonharia um chefe de estado?), mas quero ler o acórdão final, se o houver.
E aí a malta conversa.

segunda-feira, setembro 10, 2007


A discriminação de género existe. Infelizmente é uma realidade à qual é impossível escapar no campo da verificação dos factos, e está tão enraizada em alguns comportamentos quase automáticos, que todos os dias se verificam, mesmo contra o abanar de cabeça poiliticamente correcto. Claro que não vale a pena sermos mais papistas que o papa, julgo eu, e achar que todas as acções devem pautar-se por uma suposta rectidão impoluta, que os maus instintos podem ser completamente erradicados. Que diabo, eu gosto de ver o Willie E. Coyote levar com as bigornas e as catapultas na cabeça, e dificilmente o gostaria de ver na realidade, mas adiante.

No entanto a denúncia de discriminação de género é cada vez mais visível, felizmente, mas também conhece certos fenómenos que retiram alguma da coerência a tão justos protestos. A descriminação sexual está, no meu modesto ver, associada ao poder. É claramente uma decorrência do "can do", e é manejado pelas mulheres com o mesmo à-vontade que durante séculos foi reputado aos homens. Não é uma prerrogativa de género, mas de personalidades.
Os exemplos que vou dar podem parecer prosaicos, mas a verdade é que assentam na mesma premissa de diferenciação entre géneros com base em estereótipos (subtil é certo, mas contundente). As mulheres estão cada vez mais a mostrar um dente afiado para o paternalismo e sexista, o que me parece, em certa medida, próprio daqueles miúdos que quando crescem, enchem a marmita dos supostamente mais pequenos, apenas porque agora já podem.
1 - Ginásios "Pilates" só para mulheres. Ok, o conceito, segundo me explicaram, tem a ver com a quebra de inibições. Mas caraças, está baseado na ideia de que os homens vão exclusivamente para o ginásio para reparar nas mulheres, o que assenta que nem uma luva na concepção tontinha da unidireccionalidade masculina. E se isto não é discriminatório ou qualificativo do todo pela parte, eu não sei o que será.
2 - Confesso que só vi 2 episódios da série "The L word", e por isso posso estar a pecar por precipitação, mas os que vi estão plenos de uma carga condescendente e mesmo agressiva para com o género masculino, com momentos verdadeiramente infelizes que em nada desdenhariam os animais de carga dos balneários e a sua concepção unidimensional da mulher. Num desses episódios, uma dela diz que, perante ter de montar um armário, depara-se com uma das poucas alturas em que detesta ser lésbica. E isto é apenas a ponta do iceberg porque na série em questão os homens que aparecem são pouco mais que uns patetas alegres perdidos no universo da progesterona e colagénio.
Isto somado ao facto de que uma das caracteristicas que é tão apontada aos homens é a sua insistência e fixação no exterior, mas protagonistas da série em causa não só são quase todas umas brasas irrepreensíveis (Mulher- real Dove, my ass! Pois pois, claro...), como a realização insiste e de que no sexo. Aquela malta parece que não faz mais nada senão dar o corpo ao manifesto.
3 - Quanto ao "Donas de Casa Desesperadas", santa Maria!!! Aí os homens são ainda mais tapadinhos, desde cornos (bem) mansos a meninos da mamã, passando por psicopatas. Esta série, mais uma vez, das poucas vezes que vi, tem ao menos a virtude de conseguir ri-se de si mesma. Mas ainda assim, enfim...
Claro que são exemplos prosaicos, de subtilezas na análise comportamental que passam muito ao lado de outros factos reais e aterradores ligados à discriminação de género, mas servem apenas para demonstrar que pé ante pé se dá azo ao brocardo - "é nas costas dos outros que vemos as nossas". Seria engraçado, se não fosse meio preocupante que com o mesmo tipo de poder social e económico, as mulheres conseguem exercer o mesmo paternalismo chauvinista que supostamente era exclusivo dos homens.
Julgo que no mínimo, dá para reflectir...
Disclaimer - quando se fala em mulheres, falam-se em algumas mulheres. Como nem todos os homens são ou foram machistas, nem todas as mulheres serão sexistas. Mas existe em muita, crescente e subtil quantidade, infelizmente.

terça-feira, setembro 04, 2007

Quando olho para estas imagens percebo a quantidade de coisas que não entendo, que não posso imaginar, que me escapam, relativamente às quais sou ignorante.
São histórias que encerram em si realidades que eu nem sequer consigo imaginar... ou talvez não queira. São marteladas de humildade que me deixam a cabeça a latejar, pedaços de realidades tão medonhas que não acabam no momento em que se sai da exposição, embora eu deseje interior e infantilmente que sim.
Bem sei que é impossível carregar sempre um sentimento de culpa por ter tido a sorte de nascer do lado do mundo bafejado por alguma sorte, mas perante a observação do que se sabe ser real e não uma espécie de fantasia negra, as dúvidas assomam. A enormidade do horror, da complacência surda dos que, como eu, olham de longe no conforto e mal reprimem a ocasional vergonha é, para mim, uma espécie de agulhada pela consciência colectiva. A sensação de inutilidade dos esforços diários só para manter as lógicas de vida quotidiana chega a ser ridícula. E no entanto, como a Susaninha da Mafalda, por vezes dou por mim a imaginar e agradecer em surdina o facto de muito do mundo real ser lá bem longe. Digo-o envergonhadamente, mas inegavelmente grato por essa sorte.
Bem sei que é insuficiente, mas pelo menos talvez sirva para alguma coisa ter a consciência de mil histórias reais e diárias que encheriam resmas de páginas de livros, e que isso sirva para que eu me recorde de repetir os gestos de respeito máximo pelos outros, para que a minha vergonha não seja tão intensa como a que sinto agora, ao contemplar aquilo que não posso mudar, e o quão pequeno sou.
Fica uma das imagens que, por motivos profissionais e pessoais me toca bem perto e que vale mais que qualquer palavra, por muito cliché que seja a expressão.