Se há coisa que o meu percurso de vida, claramente cheio para uns e incipiente para tantos outros, me mostrou, é que a questão do Amor é complexa, e sobretudo, originadora de irracionalidades que nada têm a ver com a beleza de conseguir isolar alguém perante tantos outros seres humanos mais ou menos semelhantes entre si. Essa irracionalidades fazem parte de esquemas fragmentados, onde o senso de posse, a teimosia das memórias e a curiosidade pelos desenvolvimentos nunca levados a cabo podem prender pessoas durante vidas inteiras. Não são pedras na engrenagem, mas desvios, que a deixam funcionar, embora coxa.
Seria muito engraçado, para mim bem entendido, pensar que tais coisas prendiam essas pessoas aos objectos da sua afeição devota porque estas lhes deixavam um legado afectivo perene, (daqueles que em muitos casos são escarnecidos por uma realidade demasiado pragmática nas suas premissas de realismo), mas a conclusão que tiro surge-me muito menos bonita que isso. Esses sentimentos, entranhados que estão em algumas naturezas humanas, creio que prendem a pessoa a si mesma. Prendem-na a uma espécie de teimosia não pela pessoa, não pelo sentimento (não raras vezes trágico mas inegavelmente belo), mas pela planificação, pela lógica, pelo que se foi moldando às atitudes e opiniões mais imediatas. Uma espécie de memória de amor ou projecto que mais funcionava como antecâmara definidora da própria estrutura da personalidade. Uma planta da pessoa, sendo aquela realidade um quarto estranho mas antigo, o qual o arquitecto se recusa a apagar.
A natureza do Amor, como a vejo, é absolutamente polifórmica. Acentuando ainda mais o óbvio, creio mesmo que não existem duas experiências iguais, porque cada um saberá que portas abre, e quem ou que deixa instalar-se. Mas não deixo de verificar que para algumas pessoas que vou encontrando, a lógica do pré-delineado, (do amor que não poderia viver porque ao afogá-lo em tudo quanto era incompatibilidade mas o sujeito ainda assim espera que lhe cresçam guelras) traz a surpresa de uma solidão teimosa. Aquela que assenta no guião da história, e não admite cortes, morrendo um bocadito de cada vez quando a consciência lhe reporta que o quotidiano já não qualifica como alicerce. A pessoa do plano escapa, e com ela, as cordas que deveriam partir-se acabam simplesmente por enredar ainda mais sujeito, que se canibaliza.
Vejo pessoas que mascaram isto de Amor perene. E não pensem que não acredito em histórias de Amor com pernas longas e pulmões de maratonista. Muito pelo contrário. Mas também creio que por entre as naturais desconformidades (uma pessoa que não nos irrite um pouco ou não nos dê vontade de gozar um bocadito não pica outras regiões, garanto-vos - mas a palavra chave é um pouco...) o elemento de união tem de ser encontrado nas coisas simples, e essas serão muito mais férreas que as tais linhas da planificação. Aquelas que, infelizmente, enredam algumas pessoas nos seus supostos projectos, e fazem daqueles que se atrevem a entrar, reféns de uma expectativa que nestes casos particulares, é apenas um adiar. E é fácil enredar. O conforto de um controlo acaba por saber a retribuição, se bem que de forma absolutamente enviesada, e porque não dizê-lo, injusta.
Qualquer forma de Amor tem uma dimensão violenta. Uma dimensão onde a pessoa se coloca numa perspectiva de medição consigo mesmo, e crescimento consequente. O Amor tem também, pela multiplicidade de formatos, coisas estranhas, escondidas, por vezes feias, que mergulham na central reactiva e criam o mito do controlo externo. Para estas pessoas de quem falo, essa faceta violenta assenta numa teimosia inimaginável, exercida perante a sua criação de uma realidade que ainda que lhes tenha escapado, as prende pelo que acham que esta afinal lhes deve. E no Amor, como todos sabemos, não há dívidas. Há a maravilhosa capacidade para sermos melhores, por vezes mais livremente estúpidos, e para constituir marcos num percurso de vida.
No Amor não há planos. Especialmente nada mais resta senão a ideia de que deveria ter sido assim. Uma ideia que se estende como um calendário perpétuo. Uma morte externa provocada pela ilusão de algo que, a todo o custo, essas pessoas acham que deveria viver, ainda que sem coração.
Em meu modesto ver, isto não é Amor.
Poderia dizer que é decisão, auto-conhecimento, vontade ferro em ideias fixas. Mas a única coisa que me surge é a teimosia endógena que na presença mascara-se de indiferença calculada, e na ausência irreversível é dor que deixa marca. Daquelas que perduram no tempo e na estrutura.
Pessoalmente falando, comigo ficam (ou eu fico com aqueles) aqueles (poucos) que geram a liberdade para que eu me permita - nem que seja à força - vê-los assim. E embora também tenha tido as minhas plantas e planeamentos, foi o incêndio de que padeceram que me permitiram olhar para tudo como uma maravilhosa potencialidade para a qual tenho a sorte de poder contribuir.
Tudo o resto parecem-me arrogâncias de quem se acha no direito de corrigir o que a natureza já teimou em provar como erro. E exercem-na perante si próprios, o que é pior, já que dificilmente têm a quem pedir responsabilidades ou mesmo justiça.
Not everything is fair in love and war, but a lot of things seem gladly and wonderfully possible...

4 comentários:
«Rebeca, a Inesquecível.»
alguns retratos são marcantes, por razões quase impenetráveis...não pelas que estão mais à vista.
Olá.
Caí do post do Rafeiro no teu espaço. Ainda tenho com certeza, muito para ler, mas vou acrescentar-te aos meus telhados.
Beijo de gata.
Linhas, planos, planificações... notas, anotações, escolhas, pessoas à la carte....
Cada um escolhe o que escolhe e como escolhe. Há quem escolha demais e leve anos a acertar. Há quem não escolha e ache que o Amor pode bem ser à primeira vista. Há quem ache que o Amor é uma escolha, e até digo mais: há quem ache que o Amor é uma corrida de várias pessoas a uma só. Tira põe, parte e reparte e fica com a melhor parte.
Eu, quanto a escolher, escolho sapatos, roupas, carro, casa e bens materiais. Os amigos, se tanto, em primeiríssimo lugar, uma escolha, sim. São também eles uma forma de Amor. Têm tudo a ver comigo. às vezes, outras vezes, não têm nada a ver comigo. Às vezes irritam-me, às vezes desiludem-me, às vezes fazem-me rir, na sua grande maioria são seres humanos como eu. Há pessoas que a mim não interessam nada: os ignorantes e pobres de espírito, os desgraçadinhos e miseráveis, e os hipócritas.
A pessoa que decido escolher por Amor, não cumpre um plano. Já houve vários Eles, já houve vários amores na minha vida. Não tinham nada a ver uns com os outros, prova disso mesmo é a memória que me faz sorrir. Certamente não cumprem a linha e a planificação. nem teria de ser assim. Não precisam ser loiros, morenos ou ruivos. Não têm de ter olhos verdes, não respondem a critérios, mas têm de ter alguns requisitos.
Acho que toda a gente funciona mais ou menos assim. Já a minha avó dizia que para toda a panela existe uma tampa, logo... ela sabia o que estava a dizer...
Não sou radical nesta questão.
Também não sou troca-camisas. A minha opinião mantém-se: pode não ser à primeira vista e não preciso de meses para me decidir. Aceito isso nos outros
O Amor é uma questão de timming, para mim. Para mim.
Gosto do teu post, SK, mas penso que é uma questão demasiado abrangente para se colocar assim tão preto no branco.
A - A ideia é nunca confundir sentimento com teimosia, anseio com plano, drama com emoção.
Existem pessoas, como esta de que aqui falo, que se agarra de unhas e dentes a algo que de tão apodrecido, já nem cheiro tem...
E no entanto é a posse que sobrevém, não um genuíno desejo derivado de um qualquer amor...
E claro, nada é preto no branco, mas as matizes sólidas surgem de quando em vez, e parecem-me inegáveis.
A todos.
A mim, a ti, como bem sabes ;)
Thanks!
Gata - Obrigado pela visita e pela paciência. por veszes tendo a alongar-me. :)
Enviar um comentário