ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, outubro 22, 2007



Por mais que possa pensar que existe uma lógica inerente a todas as pessoas que julgo conhecer mais ou menos bem, existem alguns que simplesmente me trocam as voltas. E fazem-no com um cobertor de naturalidade que me deixa perplexo, porque em bom rigor há uma naturalidade na forma como levam a sua conduta que torna qualquer obervação crítica um misto de ilegitimidade e desnecessidade.


Não há mal nenhum em necessitar de pessoas. Em sentir que elas fazem parte de nós, que são parte fundamental para arquitectar o desenvolvimento do dia a dia, e para conseguir executá-lo da melhor forma possível. Aliás, até me parece desejável.


Toda a gente tem a sua vida. A pressão quotidiana, que chega a atingir patamares idióticos tais são as exigências da casa perfeita, o carro porreiro, as roupas fashion, os amigos "certos", os detalhes, as experiências, as histórias para contar, as vivências para "empatizar" ou invejar, chegam a um ponto em que o discurso desentranhado desta realidade parece ser a única coisa em que se pode confiar. Porque esta espécie de barulho vivencial torna impossível que as pessoas se ouçam, que as angústias saiam cá para fora, que os disparates e as preciosidades possam ser confiadas a mais do que um gato pingado tão perdido como nós. O núcleo nevrálgico da nossa forma de ser é, por natureza, impassível de ser popularizado. É da natureza das empatias serem escassas, mas rejeito claramente a ideia da redução à unidade. Ninguém deveria ser obrigado a falar consigo mesmo ou com o espelho, ou com um tipo sentado numa cadeira que simplesmente aceita profissionalmente um desmontar que deveria ser passível de partilhar com algumas pessoas.


Há, parece-me, uma espécie de vergonha visceral em colocar as fragilidades na balança. Em fazer perguntas reais, em querer dar um passo adiante e escapar aos horrores existenciais que assolam qualquer pessoa, mesmo que não os saiba identificar. Uma batalha sem um centro de comando ou estratégia é carnificina, e ninguém se comanda estritamente sozinho. E no entanto, existem aqueles que lançam a mão, que deitam a escada, que até fazem um primeiro movimento. Existem aqueles que se queixam da superficialidade e escravidão ao conveniente de todos os dias, os que fazem uma vénia à real necessidade de saber com quem se conta num dia plúmbeo onde o frio parece vir de dentro.

E fazem-no. Exibem as críticas, esgrimam com os justos pedidos, porque claramente, quem não chora não mama. Como diz o meu pai, "quem quer bolota, trepa", e isso é tão mais verdade no que diz respeito às pessoas.


Mas depois... ficam-se. Quando há uma pungência momentânea, há a acção, a iniciativa, mas que depois simplesmente cai uma ausência de percepção pelo detalhe, pelo gesto, pelo forjar de real proximidade, pelo que não é expectável, pelo que, fugindo à expectativa, a acabara por superar. Obviamente que cada um será mais do que livre em gerir os seus quotidianos, e as pressões avassaladoras que os atravessam. Mas ao reclamar-se uma espécie de foco de atenção, uma justa necessidade de proximidade feita nem que seja de uma palavra certa ou a verificação de um esforço fora da zona de conforto, deve estar-se pronto para a dar.


Vejo isto constantemente. A cada dia, a cada passo. E de uma certa forma, embora sejamos todos culpados disto, a certa altura (eu já o fiz várias vezes), é na percepção do erro que começa a vontade de mudar ligeiramente, e ao mudar, de chegar ao outro e dizer-lhe com a maior simplicidade que a conversa conveniente e brincalhona deve mudar, e é tempo de agir sobre aquilo que nos vai queimando, e em consequência, queimando a voz.


No fundo, perante um objectivo, convém não caminhar no sentido contrário.

Ainda que por aparente inépcia ou inocência.

Não funciona, e as ilhas perdem superfície.

1 comentário:

a. disse...

...profunda vénia.



abraço.