ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, novembro 05, 2007

Ainda a propósito da polémica MST vs VPV, e tendo em conta um post que encontrei aqui , reproduzo o e-mail que enviei ao autor do blog em causa, porque foi questão que sempre me intrigou. Talvez alguém me possa dar uma ajuda, e isto é dito sem pingo de ironia. Mesmo.


«Li este seu post e quis comenta-lo, embora o blog não o permita, pelo que espero que possa desculpar esta interpelação da minha parte.

Na entrevista a que se refere, a qual também escutei há dias, julgo que MST levanta alguns pontos bastantes pertinentes, sem colocar em causa que o discurso daquele também possa estar inquinado por alguns tiques, mas vejamos.

Julgo, e esta é uma opinião, portanto vale o que vale, que a cultura ou erudição não são nunca desculpa para se ser uma besta ou para, em meu ver, cometer-se um pecado ainda maior que querer ser amado, ou seja, achar-se a dádiva divina para o mundo que o rodeia. E VPV é uma pessoa inteligentíssima, mas há muito que perdeu qualquer objectividade quando fala de qualquer outra coisa que não seja a sua produção e trabalho. Há muito que perdeu a noção de que existem mais fenómenos literários, e que a qualidade pode efectivamente existir em todos os tipos de literatura ou arte. Nunca, ou raramente se vê uma qualquer crítica construtiva de VPV seja ao que for, à excepção do que dele parte ou por ele é criado. Se isto é a característica de um intelectual, então realmente quem tenha um espírito mais aberto e perceba que esta coisa da qualidade raramente se afasta de um juízo subjectivo acerca da verdade daquilo que se quer transmitir, expressar ou criar será um medíocre?

Quando alguém como VPV e seus seguidores fazem da sua missão de vida cascar, (muitas vezes sem qualquer fundamento que não seja linguagem hermética), na obra de outros, (diminuindo e muitas vezes ofendendo quem se calhar para além dele até possa ter alguma coisa para dizer), pergunto-me o que aconteceria a uma carrada de criadores e escritores que sofreram as mesmas (injustas) sevícias e mais tarde vieram a ser grandes? - ocorre-me assim de repente Toole, Bronte, Poe, Dickens, etc...
Uma vez escrevi a um desses sequazes e pedi a grelha ou bitola para calcular a qualidade, uma espécie de escala que tornasse tão explicável as suas frequentes e inexplicáveis invectivas contra tudo e todos. Claro que não recebi nenhuma resposta, porque o meu português sofrível espelhado na carta que escrevi devia ser uma ofensa para tais olhos, mas a verdade é que para criticar e destruir obra alheia convém ter alguns argumentos para além disto, na carta escrita a José Manuel Fernandes:

"Equador" é um romance popular, com a típica obsessão do género pela comida, a roupa, a paisagem, a meteorologia e o sexo. Fora isso, é também uma absurda idealização do autor, entre o patusco e o patético. Esta literatura tem, e merece, o respeito concedido a qualquer indústria alimentar. Mas, para seu mal, e por evidente snobismo, Sousa Tavares decidiu transferir as suas proezas de grande sedutor e a sua famosa "consciência trágica" para o princípio do século passado, época sobre a qual nada sabe. (...)Por mim, uma pergunta: por que razão gasta o PÚBLICO tinta, espaço e trabalho com a incultura quase cómica de Miguel Sousa Tavares? Gostava de perceber. Acredite.Vasco Pulido Valente - Hospital Amadora-Sintra»

Concordo plenamente consigo quando diz que a tiragem e vendas nada dizem da qualidade da obra, mas a verdade é que a obscuridade total ( e sejamos francos, nenhum dos grandes é totalmente obscuro, verdade? - Lee, Coetzee, Tolstoi, Conrad - citando apenas alguns do que gosto) também não indica nada acerca da obra? Wilde dizia que quando os criticos estão em desacordo o artista está de acordo consigo mesmo. Ora para VPV toda a gente deveria estar era quieta, não criar nada, porque acabaria por ofender a sua apurada sensibilidade e a intelectualidade capaz de aferir os misteriosos e supostamente inalcansáveis (excepto para ele) cânones da qualidade aceitável. Isto parece próprio daqueles mestres escola dos tempos da outra senhora, e sinceramente, acho no mínimo, discutível e ausente de qualquer critério de objectividade e bom senso para sequer gerar uma boa discussão.

E sou insuspeito para falar porque não li o livro de MST, mas julgo-me algo legitimado para perceber que há formas e formas de nos dirigirmos às pessoas e suas obras, e sobretudo, quando existem críticas, convém explicar porque é patético e não dizer somente que é patético. E é isso que VPV nunca faz, sendo a última frase da sua carta algo parecido aquele miudo encovado, escondido no fundo da sala e que grita "então é eu? então e eu?? - o que claramente soa a inveja.

Gostei da sua abordagem e da forma como apresentou a questão, e acredite que as minhas questões são genuinas. Que argumentos ou espólio terá alguém para poder cascar assim sem mais em tudo e todos? Onde está a obra que, para além de qualquer contestação, elucidaria a superioridade do inatacável e intratável VPV? Não há qualidade para além de VPV? Se não há qualquer bitola, qual a escala para aferir o que é literatura e aquilo que não é literatura? A que se referem as pessoas quando dizem, "isto é giro, mas não é literatura?" Qual a escala? Existe? Em que se baseia? Haverá alguma teoria racionalizável sobre isto?»

E pergunto genuinamente... haverá?

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