ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, novembro 28, 2007

Fotografia: Anne Arden Mcdonald "#46"



E eis que chegamos ao final do ano. Não, ainda não vou dissertar sobre o Natal, nem entupir o blog com referências à quadra, as quais certamente irritarão algumas pessoas mais avessas ao período do ano em causa (embora o vá fazer, claro!).

Mas é chegado um tempo, juntamente com o frio tardio, onde as consciências para várias coisas se intensificam. Os temidos balanços, as falhadas tentativas de despreocupação, a intensificação dos ganhos, a hiperbolização das perdas.


E é curioso verificar, três anos após mudar de perspectiva de vida, que a ideia da maturidade e do alcance das coisas no pico da vida alternam entre a materialidade e a fragilidade ilusória. Há de facto, muito mais confusão, infantilidade e desadequação do que eu julgava. Sinceramente. Recordo uma faixa do Springsteen, a qual ouvia insistentemente há mais de 15 anos, e trauteava o refrão com a ausência de percepção exacta daquilo que ele lá dizia. "Andar como um homem", dizia ele, referindo-se a um trejeito involuntário que indicava uma condição. A condição de quem supostamente sabe o que faz, e fá-lo no lugar que lhe é devido pela forma como o ganhou.


E no entanto, passados esses anos, decorridas as vivências, os conflitos, as perdas e as lógicas contraditórias daquilo que a ilusão nos alimenta como evidente, ainda recordo essa música com perplexidade. Junto-a, talvez, ao que o Alan Ball disse no filme da minha vida.


"Janie's a pretty typical teenager. Angry, insecure, confused. I wish I could tell her that's all going to pass, but I don't want to lie to her."


A verdade é que, pelo menos em parte, este chapéu servirá a todas as pessoas que conheço. Em muitos casos, o chapéu cabe-lhes integralmente, com uma dose visível de desnorte e sofrimento pessoal num tempo onde me parece que se confunde capacidade e autonomia com desenrascanço a todo o custo.

Vejo as ideias que as pessoas tinham, e a tentativa de fazer algum sentido das mesmas, ainda que mais pareçam estar a tentar correr numa passadeira que anda no sentido contrário ao da passada. E olham à volta, conscientes de que o impacto do que provocam, e não só, parece dançar enlevado numa arbitrariedade que arranca dores de injustiça e incompreensão confusa.

Nesta época do ano, os sofrimentos agudizam-se, bem como as emoções. Por boas e más razões, creio eu, mas sobretudo porque é uma época que se quer de ganho pessoal. Não há sucesso material que suporte as tensões de uma certa forma de solidão nesta altura. Especialmente a solidão acompanhada.


E lá está. Correr atrás do prejuízo, manter a cabeça à tona, e tentar pelo menos perceber metade do que se vai passando. Faz-se malabarismo com os acontecimentos, somos pobres e ricos, anjos e safardanas, vitimas e carrascos, e por vezes perante um mesmo olhar, que se transmuta com a evolução simbiótica estabelecida connosco.


Mas sinceramente, aquilo que mais me parece ver em jeito de mágoa, ainda que suave, nos rostos dos que vou acompanhando mais de perto, é a surpresa perante o abortar do plano. Aquele plano que foi vendido enquanto a vida eram letras e numeros em folhas de papel, triunfos para o futuro. Em que seríamos, provavelmente, estrelas de rock, empresários ainda com mais charme do que dinheiro ou elementos de uma familia que não sofreria as erosões do mundo que a vai puxando como um boneco de trapos cheio de areia que a certa altura se rompe.

Afinal de contas, as pessoas também se magoam, os amores também acabam, a estabilidade também se desmorona, a mudança também existe.


A inércia carregada de emoção pode atenuar-se com uma pergunta certeira e bem intencionada, mas no fundo, ainda que forçada, é inacção.


E custa ver isso em quaisquer olhos que realmente nos digam alguma coisa ao coração.


Eu... eu ainda ando a ver se me entendo com esta coisa de andar de um homem...

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