ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, dezembro 24, 2008

Ora, pois faltam 15 minutos para abrir as prendas.
E é sempre ocasião para fazer determinados balanços, apanhados e perspectivação. Não que alguem vá ler, afinal estão todos de volta das prendas e da festa familiar, mas aproveito a minha taxa de alcolemia para deixar algumas coisa sairem, especialmente nestas ocasiões onde tudo se exacerba. E embora eja difícil acertar nas teclas, e possa apagar tudo mais tarde se assim me aprover, aproveito, como dizia Alan Poe, para tirar carga ou peso à alma, e simplesmente dizer uma ou duas coisas nesta noite de Natal.
Primeiro, falar da sorte que tenho, e olhar para o meu pai, com os seus setenta e nove anos, e vê-lo sorrir forte e feliz no seis daqueles que congregou.É pensar nas pessoas que perderam nem que seja cinco minutos do seu tempo para pensar no momento em que cruzei no seu caminho. É renovar os instantes de acrimónia perante todos os idiotas que nada mais fazem que pensar no seu umbigo e estragar a vida ao próximo. É olhar para mim e tentar perceber onde andam as minhas cicatrizes e as incapacidades que as mesmas geraram, e o que delas deriva.
Feliz Natal para quem se cruza por aqui, ou quem possa de algumas forma cruzar o meu caminho. Apesar de uma crença titubeante, esperarei que quem por mim passe e fique nem que seja um instante, pelo menos pense que não foi uma absoluta perda de tempo.
Boas Festas.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Das piores coisas que me podem fazer é com que sinta que o meu esforço é para mandar ás couves. Como se o mesmo, feito com boa vontade e aplicação, fosse algo de despiciendo, porque simplesmente cada um gere as suas prioridades sem uma única vez olhar para fora do círculo do seu umbigo.
Magoa-me profundamente sentir vergonha da ursice que é pensar que todo o cuidado e esforço para fazer apenas algo por alguém como marcar um jantar ou coisa parecida é vista como uma espécie de merdice, que por acaso até é, e pela qual se correm riscos e abdicam de coisas complicadas e importantes.
É muitíssimo triste pensar não que essas pessoas estão erradas, mas que se é burro, e que de alguma forma ficamos envergonhados porque deviamos simplesmente ver as coisas como elas são, e não fantasiar que por mais do que raras vezes, as coisas poderiam ser um bocadinho diferentes.
Mas como lá dizia a Aimee Mann, "Wise up!"
E já estou a tirar notas...

quarta-feira, dezembro 17, 2008


Só posso imaginar...
Por vezes pede-se às pessoas que tentem definir-se numa palavra. Entre muitas formas parcelares e incompletas (não por culpa delas mas minhas), tenho (também) esta.

AUTODEFINIÇÃO:


Ralph Waldo Emerson dizia que a única dádiva real consiste em entregar um pouco de nós próprios.
As formas diferirão, certamente, porquanto as pessoas tendem a proteger-se devido ao que a experiência lhes acaba por matar ou ferir de morte.
Mas ainda assim, quanto as pessoas transcedem aquele aforismo e conseguimos reconhecer essa capacidade, ele ganha tanta mais força quanto a nossa capacidade em reconhecer isso mesmo. E a forma de honrar essa forma de estar é procurá-la noutros locais, como flores ou animais raros que urge reproduzir e usar em certa forma de contaminação das formas de estar.
Por isso:
Hey, my friend
It seems your eyes are troubled
Care to share your time with me
Would you say you're feeling low and so
A good idea would be to get it off of your mind
See, you and me
Have a better time than most can dream
Have it better than the best
And so can pull on through
Whatever tears at us
Whatever holds us down
And if nothing can be done
We'll make the Best of What's Around
Turns out not where but who you're with
That really matters
That really matters
And hurts not much when you're around
When you're around
And if you hold on tight
To what you think is your thing
You may find you're missing all the rest
She ran up into the light surprised
Her arms are open
Her mind's eye is...Seeing things from a
Better side than most can dream
On a better road I feel
So you could say she's safe
Whatever tears at her
Whatever holds her down
And if nothing can be done
She'll make the best of what's around
Turns out not where but what you think
That really matters
That really matters
That really matters
See, you and me
Have a better time than most can dream
Have it better than the best
And so can pull on through
Whatever tears at us
Whatever holds us down
And if nothing can be done
We'll make the Best of What's Around
Turns out not where but who you're with
That really matters
D. Matthews



Estive aqui.
3:30 H de concerto. Até o "Footsteps" tocaram. Maravilhoso.
Para mim o melhor de sempre, apenas recentemente equiparado a Dave Matthews no Atlântico.
Há 12 anos o céu desceu a Lisboa.

Como já aconteceu outras vezes, conclui-se com a sensação honesta de conhecimento de causa, mas incompleta perante a realidade.
Sem malícia é certo, mas confunde-se força de vontade, que existe, com calmaria, paz ou qualquer espécie estranha de alívio. Na real expressão do que marcamos para nos próprios como sagrado e intransponível, como medidas de honra a fazer lembrar os romances de cavalaria que lançavam Rocinante contra paredes arredondadas perdidas na Mancha, está a suprema dificuldade. Aquela que nos leva a negarmos a simplicidade terrivelmente tentadora da rendição por obediência à medida. E perante o encurralamento de algo que mais parece feito do pathos inexoravelmente lançado para catarse, que nos era ensinado nas primeiras aulas acerca das tragédias gregas, pode assumir-se o destino e responsabilidade pelas agruras de um vento cortante e necessário, mas nunca traduzido num silêncio que mais pareça ignorância, passagem ou desmemória.
Essas benesses não há cá. Quis dar para esse peditório do esquecimento, mas há muito que há regras estritas e rigorosas quanto à inclusão de novos membros.
E não há nada de pacífico ou equilibrado no empedernir.
Há medo, e sobretudo há uma sensação de combate ainda mais feroz para que os monstros que são cabos não ganhem dentes onde antes só havia rugidos.
As memórias, por definição, não são cicatriciais.
São, como em tudo o que exibimos, relevos, e como tal, visíveis e morfológicos.
São provas do que o que dói fazer-nos crescer e reagir, mas nunca esquecer.




terça-feira, dezembro 16, 2008

segunda-feira, dezembro 15, 2008


É na contra-corrente dos dias, no inusitado que as pessoas nos trazem, que a confusão e a real noção de estar vivo se faz bem presente.
É estar num momento com as tripas em cima da mesa, e no seguinte, vermos uma luz no conceito de pessoas que há muito me havia deixado. É de alguma forma perceber que a solidão conceptual é em si parcelar. Que as expectativas, somadas às cicatrizes, podem ser receios de morte assim como são ameaças de vida.
E conviver assim, com tristeza real e alegria surreal, e simplesmente não entender muito do que se passa, mas saber que isso, pelo menos em parte, não é negro, mas azul, como me disseram. Sei que a parcela de negrume que inevitavelmente puxa parte de mim é algo de insofismável. Mas sei também que existe uma outra parte, uma luminosidade teimosa que teima em querer fazer sempre as mesmas perguntas, e que apesar das descrenças parcelares, tudo fará para equilibrar os pratos de uma balança feita de cicatrizes, por um lado, e muito de maravilhoso para contar, por outro.
Porque nem sequer as dentadas dos carnívoros de maior porte são más. São vida.
Nunca sabemos até que ponto a pertença nos reclama, e onde nos encontramos, em parcelas que nos identificam.
É bom chegar a alguma casa.
É bom perguntar pelas coisas boas, e esperar os dias com cores.
Ainda que o negro lá esteja, como em qualquer espectro.

Amigas:

Como é sobejamente conhecido, eu não sou uma pessoa a quem o pio falte facilmente, nem que tenha dificuldades em reagir seja ao que for. E sobretudo que as palavras possa surgir desconhecidas e teimosamente desconexas perante um qualquer evento.

Mas à semelhança, creio eu, dos outros felizardos que foram contemplados com esta absoluta maravilha, foi preciso tempo para digerir o que sucedeu, para conseguir enquadrar a completa amálgama de emoções e constatações que me foram dadas experienciar no dia 13 de Dezembro de 2008, dia que ficará na memória por tudo o que significou e pelas percepções que foram marcadas no que me constitui enquanto pessoa.

Não há forma de agradecer, ou de explicar convenientemente o meu embaraço feliz, a falta de reacção adequada, o espanto, a desconexão perfeita entre intenção e acção. Não tenho qualquer arquétipo reactivo que possa demonstrar o que foi estar naquela tela, perante aquelas pessoas, motivar aquele esforço. Não há forma de recortar em palavras justas aquilo que significou para mim um dos mais singulares e fantásticos momentos da minha vida, e digo-o sem hesitação alguma. Não tenho igualmente forma de me desculpar pela trapalhice em agir de acordo ao profundíssimo agradecimento e amor que suscitou uma das mais cabais demonstrações de afecto de que tenho memória ou sequer imaginação para conceptualizar. Senti-me ao mesmo tempo enorme e pequeno perante a vossa generosidade, perante o afecto que me foi dado e perante a grandeza de gestos que nascem da imaginação que só a mais profunda e férrea emoção podem gerar.

A noite de 13 de Dezembro de 2008 foi, para mim, um marco. Uma espécie de rendição perante algo que o meu cepticismo ultimamente andava a gerar perante a raça humana. Vocês devolveram-me duas coisas que não há uma vida inteira de gratidão que possa pagar devidamente. Alguma crença nas pessoas e um senso de real pertença, de ser parte de algo, de alguém, da perenidade de que são feitas as histórias de felicidade e triunfo pelas quais vale a pena viver a vida.

Faço-vos uma vénia sentida e rendida, abraço-vos com aquilo que extrapola os meus braços, com a perfeita consciência de que é pequeno e incompleto perante cada minuto gasto a tomar atenção a mim, e claro, a cada um de nós. Sou, e digo-o com um feliz tremor, como aqueles que me assaltaram naquela noite e me roubaram a capacidade de reagir, vosso, e com o mais explosivo orgulho.
Se a nossa amizade foi capaz de gerar aquele momento, só por ele já teria valido a pena em cada instante. E sinto o calor de felicidade em pensar os vinte anos que por aí vêm.

Como disse a alguém a certa altura, o mais complicado já está. Os primeiros vinte anos, a constância, a solidez de um laço, a sensação de pertença que a tantos escapa, infelizmente, e da qual faço parte.

Tenho ainda que agradecer o facto de proporcionarem o momento à minha família, especialmente aos meus pais, que sei que muito apreciaram e que, juntamente com todos os outros, foram também as estrelas do evento.

Não tenho nem nunca terei forma de vos agradecer o que ali se passou.
Não tenho nem a capacidade, nem consigo transpor o que para mim significou e significa fazer parte de algo assim, e sentir que fui motivo para tanta criatividade, esforço e afecto.

Agradeço-vos.


Rendido e Vosso.

SK
P.S. - A música que segue abaixo foi a que escolheram. E muito bem, diga-se.


sexta-feira, dezembro 05, 2008

AUTO(?) RETRATOS ELABORADOS POR TERCEIROS COM OLHO VIVO...






Bem, eis-me como "Simpsonized character".

Não me ocorrem muitos comentários, a não ser o retrato está mais ou menos fiel, embora o meu queixo seja bem mais proeminente. O amarelado da pele, de acordo com a minha senhora minha mãe, cada vez que lá passo para almoçar ou jantar, é exactamente o que se me aplica nos dias que correm. A t-shirt preta, de bailarino húngaro como a reputa o meu irmão, está adequada.

A barba de um dois dias é um bocadinho menos cinzenta... mas só um bocadinho. E sim, tento, sempre que possível, sorrir sem mostrar os dentes. Estes tipos sabem o que fazem!









Aham...(pigarrear...) "That my days have been a dream; Yet if hope has flown away(...) All that we see or seem Is but a dream within a dream." Aqui, ler E.A.Poe ( mestre dos mestres) talvez menos fiel que o retrato amarelado acima, mas ainda assim não foge muito da realidade. embora a minha cara não seja tão bolachuda, a cor dos olhos ao menos está certa.

quarta-feira, dezembro 03, 2008



E porque se calhar há mesmo um velhote de barbas brancas, e porque, e porque, e porque joguei no Euromilhões e deve ser desta, e inspirado numa ideia alheia (sorry!), cá vai uma wishlist daquelas mais plenas do impensável, portanto, Volume I :













































quinta-feira, novembro 27, 2008

Existem mudanças que são, ao contrário do que se propala como informação quase auto-evidente, complicadas.
Não são exactamente boas, não são exactamente produtivas, não assentam propriamente num avançar em direcção a um futuro dito "melhor".
São mudanças de sobrevivência, apesar da aparência de uma carapaça intransponível. São passadas afirmativas para algo que não era necessário, mas que se torna imprescindível sob pena da estrutura pessoal se fragmentar para além do que é característico.
É complicado pensar que de certa forma, a aprimoração que segue sempre a estes estados gera-se da necessidade de protecção associada a uma certa ferocidade de desejo que passa incólume. O histrionismo da necessidade parece passar como elemento da sua existência, e isso é afinal doloroso quando o desejo parece invisível e as marcas indeléveis ficam como simulacro de uma impotência humana nas coisas mais simples, mais conhecidas, e no fundo, tão mais complicadas.
E no entanto fica.
Fica a ideia, a percepção, a luz sobre algo que é impassível de negar como visão.
A busca das palavras que torna a ser necessária.
Os rugidos dos ursos chegam longe, atravessam distâncias imensas onde a sua solidão feroz é assinalada. São animais singulares, e a sua passagem é sempre reconhecida.
E vivem muito, muito tempo.



terça-feira, novembro 18, 2008

Tenho um amigo que vive quase desmorto. E o mais curioso, é que essa poderia ser uma condição exterior a si mesmo. Mas, como em muitas outras, enreda-se num princípio muito mais básico e simplificado. Não há cárcere quando nem sequer nos ocorre procurar a porta, mas vociferar apenas que aquela parece ser uma casa demasiado pequena para as elevadas e solenes consequências das suas espreguiçadelas, que mal se confundem com qualquer expressão de desejar.
Se parares dois minutos, ouvires o som dos teus passos, e desenhares o que viste, perceberás o que ficou para trás, de que forma sucedeu, e sobretudo, porque passaste por montes e montanhas onde não te reconhecias, mas onde eras visível e a tangibilidade fazia-se da possibilidade do desenho do porquê do teu contorno e não se eras palpável o suficiente para encerrar no molde da tua própria e avisada morte.


"O que me chateia é que os filhos da puta, depois de mortos, passam a grandes homens" (ou mulheres, que não quero cá sectarismos)
Esta frase é absolutamente sábia.
Aliás, a mim essa premissa chateia-me em dobro, porque a mesma é aplicável a toda a espécie de pessoas. Os gestos, as homenagens, as atitudes mais cuidadas e a revelação de coisas mais preciosas no âmbito do afecto ou qualquer juízo positivo sobre alguém parece adequados perante a ausência do destinatário. E isso é coisa que não entendo.
Muitas pessoas são capazes de falar muito bem acerca de fulano ou cicrano, mas apenas até que este se aproxime. Perante a sua presença, parece vale a inércia do subentendido, onde as pessoas já sabem que valor têm umas para as outras e ficamos assim. "Ele sabe, por isso vamos dizer-lho para quê? Porque raio hei-de ter um gesto consequente à minha admiração por alguém, só pelo prazer de lho revelar, de lhe criar a percepção da afeição que causa?" Mas quando o tipo morre, é uma espécie de tratado do elogio em três capítulos, nos quais desfilam copiosamente as demonstrações, factuais ou em conceito, daquela pessoa a quem, em muitos casos, não se disse uma palavrinha de apreço ou acolhimento real em toda a vida. Talvez julguem que os elogios possam convencer o Caronte, ou coisa que o valha...
E a verdade é que só as palavras, parcas, que possam sair nesse sentido, também não chegam. São necessários alguns gestos. Não é necessário afogar a pessoa em encómios, ou parecerá também uma espécie de juízo acrítico e meloso, que depressa enjoa e faz desconfiar. Demasiados doces dão dores de barriga, e esse é um postulado de muito maior alcance que para gulosos de palmo e meio.
Os gestos são aferidos em termos do instante certeiro em que possam surgir. Por vezes um movimento acertado, um olhar que "percebe", que sabe o que custa, está em jogo ou foi preciso fazer para alcançar o triunfo próprio ou o de outrem, é o suficiente para aliviar uma montanha de peso e solidão. Por vezes perceber que as pessoas admiram e acreditam naquilo que alguém faz, pode fazer toda a uma diferença, e em bom rigor, julgo que fará.
Em meu ver, julgo que um dos verdadeiros veículos da cumplicidade é dizer que se vê mesmo monstros e não moínhos, ou que por vezes a pessoa vai a pontos em que a nossa admiração e afecto não consegue conter a percepção que temos dela, e não nos resta outra coisa que não seja deixar sair.
Adular e reconhecer são duas coisas muito diferentes, e a verdadeira noção de atenção está algures entre o mimo, o desejo de sorriso, o reconhecimento e uma estranha imparcialidade em meio a isto tudo.
Aos que achamos que merecem, digamos. Digamos e façamos coisas. Mostremo-nos. Acho que não vale a pena guardar certas coisas para a surdez da morte ou da distância.
Celebrar as pessoas que queiramos é fazer-lhes justiça, e nada melhor que alguém sentir que a vida que leva não é sempre um disparate pegado, e que lá vai fazendo alguma coisa de jeito de quando em vez.
Eu cá persigo isso, mesmo por entre um mar de disparates.




Estavam 100.000 na rua. Manifestação de peso, pois estas vontades comuns não são assim muito simples de congregar, pelo que deve ser algo que de alguma forma coloca a classe em sintonia de protesto.
Não estou suficientemente informado sobre o assunto, e os orgãos de comunicação social estão mais interessados nos ovos que em explicar às pessoas os méritos das teses em contradita, como de resto é habitual na baderna em que por vezes se tornam os serviços noticiosos.
No fundo, será possível ter conhecimento de ambos os pratos da balança, de forma escorreita, para tentar perceber o porquê de tão generalizado protesto, por um lado, e qual o fundamento do regime aplicado pelas autoridades, por outro? Será assim tão difícil ser esclarecido?
Como digo, não estou informado o suficiente e peço ajuda, mas algumas coisas, numa visão geral e pessoal, parecem-me insofismáveis.
Não deve estar em questão a avaliação dos professores, como qualquer funcionário do Estado. Qual o método? Pois, após esclarecimento talvez se consiga formular uma opinião.
Não julgo que a pedagogia deva sacrificar a ideia de exigência aos alunos.
Mas tudo isto está simplesmente no plano dos princípios, e seria bom ter uma opinião explicativa, com conhecimento de causa, para formular um juízo.
Agradece-se essa visão a quem quiser ter a gentileza.

segunda-feira, novembro 17, 2008


Eis que o ar arrefece, e algo começa a brotar do próprio ar. É como uma espécie de vibração, a qual gera toda uma série de reacções, algumas delas contraditórias com os próprios intentos ou desejos para um período de tempo que tem tanto de agradável como incrivelmente difícil.
Mas o mais curioso é pensar em que tipo de gestos poder-se-ão encontrar as motivações para as viagens pela quadra. E refiro-me exactamente às oferendas, ou melhor, às desculpas que se encontram para as fazer.
Nem sequer vou entrar no discurso purista do espírito de Natal que não se coaduna com as compras e o consumismo e mais o diabo a quatro. Deixo apenas uma ideia - se no decorrer do ano não custa pelo menos pensar em algo que constitua um gesto para as pessoas de quem se gosta, olhar para a escolha de uma oferenda como um custo ou uma chatice parece-me, no mínimo, preocupante. Deveria ser engraçado procurar algo que engatilhe um sorriso, e não uma chatice. Mas falarei disso noutra altura.
Prefiro sim abarcar o outro prisma.
Aquele dos que, como eu, já esfregam as mãos a pensar em que coisas poderão fazer, até mais do que comprar, que isto de crise não é boato.
E há coisas a fazer. Postais a desenhar e escrever. Uma colectânea de música que se grava para dar a conhecer a alguém algo que nos embeleza os dias. Um determinado pedaço de texto trabalhado, uma fotografia certeira num gesto de proximidade pela recordação.
Há, e digo-se sem pejo, um justificado anseio de ser mimado nesta época por aqueles que são capazes de gestos. Há uma legítima expectativa em poder sorrir com um detalhe e uma surpresa, assim como ter o impulso de a fazer ou provocar.
E deixar que o mundo impeça tais gestos durante o ano já é preocupante, mas mascarar essa inércia com uma espécie de resistência ao fenómeno da pressão surge como uma desculpa fabulosa para não se fazer nada senão uma espécie de compra ou aquisição para não parecer mal, mas que, honestamente, parece pior ainda.
Ninguém tem tempo.
Todos têm afazeres.
Mas estas ilhas de inércia que se vão criando entre as pessoas, e a desculpa ritualizada do tempo e das solicitações do dia a dia, são apenas estrangulamentos feitos realidade, e conforme os pequenos crimes entre amigos e amantes vão crescendo, parece que cada vez menos nos preocupamos em encontrar um sorriso inesperado, ou provocar um pequeno oásis de calor no decorrer ritmado de dias afiados.
Por isso digo-o directamente.
Espero cartas, postais, gestos. Brincadeiras, toques certeiros.
Espero algo especial, espero que me apanhem na curva e me obriguem a sorrisos sem jeito.
Porque eu cá já estou a preparar esses dias, e só me atemoriza a possivel falta de originalidade para o tempo que arranjarei, dê lá por onde der, para fazer alguma coisa.
Que comecem as hostilidades de fim de ano!



quarta-feira, novembro 12, 2008


AT THE MOVIES V
(alguns spoilers - passe adiante se não viu o filme)

"IN BRUGES"


Alguns filmes são como algumas pessoas. Como alguns livros, músicas, etc.
Mas em raros casos, talvez só mesmo no filme "Shortbus" terei tido uma surpresa tão grande com a revelação do conteúdo de uma obra como neste "In Bruges".
O que começa como uma espécie de comédia britânica daquelas deliciosas que mexem mesmo com os neurónios, o que já era adiantado pelo trailer, transforma-se numa espécie de cogumelo venenoso. O filme começa a amargar, mas de certa forma nunca larga um certo absurdo por vezes realmente cómico, até que me vi hesitante entre esfregar o estômago devido aos murros que o filme dá, e erguer os cantos da boca num sorriso ou riso sincero pelo humor realmente inspirado se bem que nunca histriónico, quer na sua representação, quer nas reacções que causa. Em algumas situações o riso dá mãos a um senso de culpa semelhante aos risos nervosos perante actos involuntariamente burlescos de classes intocáveis para o humor como as pessoas com deficiência e quejandos. (viram aqui o meu recorte P.C.? Eu sei, não consigo evitar.)
Este é então um filme perturbador com um subcontexto cómico. É horrível e ao mesmo tempo humano e ao mesmo tempo engraçado. É inqualificável e indefinível, e por isso mesmo, de uma originalidade que a mim me parece inquestionável e que me agradou apesar do certo amargo de boca que me acompanhou à saída da sala.
É um filme demente e incómodo, por um lado, mas certeiro numa outra série de coisas. Não é definitivamente uma comédia. Não é nada, e ao mesmo tempo, colocam lá um bocadinho de tudo.
Farrel faz um papel fantástico como um idiota estranhamente puro, um burgesso irlandês que no entanto consegue ser muito mais agradável que o polido frequentador do restaurante a quem o personagem de Colin dá uma pequena sova.
Fiennes está ao seu nível habitual, com uma caracterização demente que é também, no seu desenlace, mais uma das surpresas incómodas mas certeiras do filme.
Mas a estrela de todo o filme é Gleeson com um papel fantástico e um misto de integridade, compaixão e dor no olhar que impressiona pela sua contenção e ao mesmo tempo, tangível e incómoda intensidade, mesmo nos momentos de humor.
Todos são estranhos, originais, incómodos, ou não terminásse a película no meio de um pesadelo de Jerónimo van Acken regado a sangue quanto baste. E no último segundo, mesmo aí solta-se uma gargalhada, já incómoda, mas ainda assim, real.
Recomendo.
Não sei bem que estilo de obra recomendo, mas recomendo-a sem dúvida.
P.S. - Já estive em Bruges e adorei a cidade.


O pior dos estados não é a raiva.
A raiva, como parte dos nossos estados de limite, instila um engano à passagem do tempo, fazendo-o tão incandescente, rápido e volátil como ela própria.
O pior dos estados é a calmaria. A calma derivada da resignação, da aceitação dos estados imutáveis, e ao mesmo tempo, a negação paradoxal das suas consequências. No fundo nunca se aceita. Não é possível. Não há forma, pelo menos ao nível central de todas as traves mestras que nos constituem, de aceitar certo estado de coisas. Ainda que estejamos em dormência, algo não repousa.
De uma forma ou de outra, nunca facilitamos. E nessa medida, porque certa forma de apatia é como septicémia no centro reactivo, faz-se como dizia Bernard Shaw, e tomar o mundo com uma certa desrazoabilidade.
Porque a calmaria sucede-se, ou nasce de uma parcela de incompreensão, e por vezes temos de saber.
Nem que não saibamos exactamente como.
Para sobreviver. Às cegas...


terça-feira, novembro 11, 2008

Julgo que no passar dos tempos, na suposta aquisição de maturidade no decorrer dos dias que se sucedem, enquanto sulcam canais no meu rosto e semeiam campos inteiros de morte na memória, algo surge como inegável.
Talvez como qualquer estado beatifico ou passional, seja ilusório na expansão do seu próprio tempo enquanto simulação de perenidade, mas ainda assim, perduram as questões que lança, e o que perdura transformado em incapacidade de persistir em certa forma de humanização.
O risco de realmente perder a cabeça está a distância de um hálito.
E por isso, hoje é um dia triste e assustador.
Hoje, mas só hoje, só é possível ter medo.
De tudo.


Once upon a time I was of the mind
To lay your burden down
And leave you where you stood
And you believed I could
You'd seen it done before
I could read your thoughts
Tell you what you saw
And never say a word
Now all that is gone
Over with and done - never to return

(chorus)
I can tell you why
People die alone
I can tell you I'm
A shadow on the sun

Staring at the loss
Looking for a cause
And never really sure
Nothing but a hole
To live without a soul
And nothing to be learned

(chorus 2)
I can tell you why
People go insane
I can show you how
You could do the same
I can tell you why
The end will never come
I can tell you I'm
A shadow on the sun

Shapes of every size
Move behind my eyes
Doors inside my head
Bolted from within
Every drop of flame
Lights a candle in
Memory of the one
Who lives inside my skin

Soundgarden - Shadow of the Sun






quinta-feira, novembro 06, 2008

Creio que cada um de nós guarda o seu quinhão de verdade inabalável e permite que as flores aparentes do quotidiano, porque alternam para melhor, se tornem um jardim feito a partir de um pequeno ramo. Claro que o crescimento não dá essas veleidades no seu percurso. Deixa-nos a par e passo com as mais variadas noções de esperança ou expectativa, mas vai mostrando os reais contornos dessa lógica.
É por isso, julgo eu, que crer em alguma coisa é um dos mais galhardos e bonitos actos que podemos praticar. Porque em meio segundo, não queremos saber da realidade para nada, e somos puxados para a essência das nossas mais profundas, ainda que por vezes assustadoras motivações. Tornamo-nos os nossos próprios juízes e decisores. Pregamos uma ideia de uma pessoa só.
No entanto, aquilo que vive para além de qualquer condicionamento está apoiado em três premissas básicas. O reconhecimento, a intensidade e os efeitos.
Um aroma pode ficar connosco durante anos apenas para ser reconhecido. Um tom de voz pode tornar-se um diário. Duas palavras bem esgalhadas podem ser uma carta infinda.
E quem é o responsável por estas situações?
Os próprios, evidentemente. Di-lo-ia num segundo, agente e ofendido. Bifronte.
Mas não só.
Ver é mostrar.
Felizmente...


terça-feira, novembro 04, 2008

"Sei o que estou a fazer".
Todos nós já dissemos esta frase a certa altura. A generalização é intencional porque até acredito que em alguns casos, isso é mesmo verdade. Por vezes sabemos mesmo o que estamos a fazer, porque à semelhança de tantas outras coisas que são divididas pelos habitantes da aldeia, por vezes até temos razão.
Mas por vezes dizemos estas palavras e damos com os burros na água. Dizemo-las porque genuinamente lá nos vai parecendo que passo a passo, a asneira consegue ser mantida ao largo. Felizmente, por vezes, isso não acontece, porque só o próprio reputa tais fenómenos de asneiras.
Mas é genuíno e é ternurento. É engraçado ver a expressão de convicção na face quando a frase é proferida. Gostava de me ver ao espelho e contemplar a expressão plácida de pré-asneira que me percorre os traços quando por vezes acho que sei tanto o que estou a fazer como decifrar uma equação diferencial. Saber o que realmente estou a fazer. E como não tinha qualquer correspondência com a minha ideia inicial.




É muito bom assistir às vitórias ou triunfos dos que nos são próximos.
Especialmente se são merecedores, ou se emergem dos confins de um qualquer gaveto onde outros, ou outras eventualidades, os tentaram fechar.
É bom assistir ao desenrolar de uma glória, ao trautear no solo de passos seguros e cheios daquele ritmo dos dias que finalmente ganham a cor que lhes era devida. Cumprimentar os sorrisos, assistir aos maus fígados dos algozes, sorrir perante a acrimónia perante aqueles que de repente se tornaram incapazes de derrubar o tinteiro sobre a folha de dias azuis claros.
Não há como sorrir perante as horas de felicidade daqueles que a manuseiam como algo que parece fazer parte deles. Ver a recuperação, a tomada de posição, as escorregadelas em direcção ao sorriso, ou à graçola, ou à simples descontração, tão intensa que até a mais aguçada ironia nem irrompe a mais pequena parcela de pele.
É bom ver que aos que conhecem o negro, também se lhes destina o carregar da tocha.
Onde ardem eles próprios e iluminam pela luz que sempre tiveram.


sexta-feira, outubro 31, 2008

As coisas mais importantes ficam muitas vezes guardadas porque de alguma forma se tornam imateriais quando saem. Como qualquer viajante não poliglota, a transmissão dos pragmatismos acontece, mas todo um universo de expressão é solto como uma espécie de canto de ave involuntário, que aguarda um ouvinte enamorado de composições ainda sem pauta.
Acabo por ser aquilo que conforma a minha capacidade de gostar, porque é através dela que todo o meu universo psicossexual, ético e ontológico ( gnoseologicamente falando) se filtra na construção da pessoa.
Descaio para a rendição perante o que julgo ser o melhor do mundo.


Eis que finalmente sai a alteração ao Código Civil e diplomas conexos relativamente à matéria do divórcio (Lei 61-2008, de 31/10).
Consagra-se, de certa forma, o divórcio livre, a ideia de que a união, para mais contratualizada, não deve perdurar para além da vontade de duas pessoas em manter-se juntas.

Não é, obviamente, uma questão fácil ou líquida, e entendo que possa suscitar reacções perante as várias sensibilidades.

A que me preocupa, de certa forma, prende-se com algumas tipologias de casos nos quais a questão da dependência económica não será resolvida. Mas, verdade seja dita, também não o era perante o anterior regime, e esse coarctava determinadas faculdades que me parecem insofismáveis. Haverá alguma razão, não patrimonial, para que duas pessoas mantenham um contrato que se prende com a vivência afectiva e partilha?

Há quem defenda que se assinou o contrato, estava avisado das consequências. Ora, quererão com isto aduzir que as emoções e laços podem ser estabelecidos por contrato? Que aquilo que motiva alguém a estar perto de outrem e partilhar cama, casa e humores, está sujeito a todo o custo a uma espécie de clausulado que deve perdurar ainda que cheguem ao ponto em que não se possam ver nem pintados de azul?

E se de certa forma alguns casos de dependência económica não ficam resolvidos, muitos outros de violência psicológica, em muitos casos impassível de provar em juízo, (até a física é complicada, por vezes) e que ao abrigo do regime anterior tornavam impossível uma dissolução sem culpa do cônjuge abandonante (ainda que em fuga pela sua integridade física e mental), se tornam agora possíveis.

No fundo, há quem, em meu ver, equilibradamente veja o aspecto daqueles que assim correm o risco de serem abandonados, mas muitos protestam com esta lei por motivos meramente morais. E digo meramente, porque não é a ideia da resolução de uma situação que lhes ocorre, mas a fidelidade a um modelo conservador de institutos como o casamento, onde não raras vezes, e acho que todos já ouvimos isto, se ouve dizer que “as coisas são mesmo assim”, e “são fardos a carregar, mas divorciar é que não”, e quejandos. Dizem-no porque ofende a sua sensibilidade moral, religiosa, uma espécie de sistema de valores onde parece, na minha modesta opinião, que a convencionalidade deveria sobrepor-se aos sentimentos e felicidade das pessoas, como se o casamento fosse um qualquer contrato cível e sujeito à máxima pacta sunt servanta a todo o custo. E isso, na minha opinião, é de rejeitar absolutamente. É, mais uma vez, impedir as pessoas de exercerem a sua liberdade onde esta é suprema, ou seja, na sua esfera pessoal, e de sentirem que são livres de se acharem incompatíveis com alguém, ou perceberem que aquilo que as uniu, também pode surgir na forma da génese de separação. Obrigar duas pessoas que não se entendem a ficar juntas como uma espécie de execução específica de um contrato de compra e venda de um imóvel, é algo que a mim, pessoalmente, me repugna, porque as pessoas são mais importantes que os institutos, e os contratos não regulam sentimentos. Devem sim, na medida da vontade, regular aquilo que os sentimentos consensuais ordenarem que se faça, como direitos sucessórios e outros.

Por isso, e apesar de obviamente reconhecer que há questões melindrosas que esta lei pode não conseguir resolver, prefiro esta modalidade.

Prefiro e acolho um regime jurídico que não compare a comunhão de vida de duas pessoas a um contrato de empreitada, porque há edifícios que simplesmente podem não chegar ao telhado, e a lei nunca deverá intervir e obrigar as pessoas a sentir seja o que for.


sexta-feira, outubro 24, 2008

Ele não era uma pessoa normalmente macambúzia ou tristonha. Sim, era algo aluado, mas sempre o fora. Conseguia rir connosco. No entanto, achava que se pudessem olhá-lo de frente, veriam a marca de algo. Algo que passara momentaneamente mas que perduraria. Uma marca expressa naquela qualidade indefinível que são os olhos mergulhados em intensidade. Uma intensidade triste, sofrida, mas com a forma subtil e silenciosa que todas as dores realmente importantes assumem.
Digo isto porque creio que qualquer dor real é muda e discreta. Revela-se com clareza, mas sem alarde, como uma espécie de impermeável impossivelmente diáfano. Mostra-se como algo omnipresente, mas enraizado na pessoa que domina, sem que esta no entanto perca as suas características. Tais pessoas tendem a vasculhar-nos.
Parecem demasiado vivas, julgo eu.



Ao recordar o Verão, a imagem surge.
O sol sobe, apesar de ser a terra que se mexe, e segue-se-lhe a noite. As coisas vão acontecendo na sua sequência normal embora toda a gente olhe pela janela em direcção ao crepúsculo de Verão, com a noção expectante de um dia seguinte que seja de alguma fora diferente. A pouca brisa que existe arrasta algumas folhas carcomidas pelo sol, e os cães aproveitam o fresco para andar um pouco e procurar comida. As cidades e vilas estão provavelmente latentes, sem saberem se vivem com calma ou morrem em vago e lânguido estertor. Há uma aura de distância em todos os rostos, de espera, de antecipação, de teimosia numa crença inconsciente.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Dêem-me vinte palavras cheias de intenção e significado, e suporto mil silêncios.
Deixem-me ver o descaso e a surdez torna-se necessária e irrevogável com o passar suave do tempo.


terça-feira, outubro 21, 2008

Muitas pessoas dizem que olham para dentro de si. Para aquelas coisas com dentes, para aquelas realidades espinhosas e de garras recurvadas. Locais de aromas pestilentos e no entanto magnéticos, recordações de instantes em que todos os crimes do mundo parecem prostrados diante da percepção da inexorabilidade de cada atitude.
Não é fácil fazê-lo.
Não é fácil de alguma forma perceber onde podemos assentar a nossa defesa e onde somos condenados sem qualquer necessidade de processo. Equilibrar essas duas vertentes é aceitar um terror interno. O medo primordial onde, de quando em vez, agimos como carrascos onde já fomos vítimas. Mudança de perspectivas, de forma mais suave, criminosos com asas nas costas. Alternâncias nas portas do Inferno que só queremos observar à distância, como o fascínio perante uma paisagem terrível.
Não, não é fácil.
Não é fácil aceitar a necessidade de lados menos humanos, menos passíveis de contar numa conversa à mesa ou de de relatar olhos nos olhos. Relatar o enredo de uma história que necessita do seu lado horroroso para ser credível, para poder respirar, para ser parte do mundo.
Apesar de tudo isto, por vezes não há alternativa. E os olhos preparados nem sempre o são, e quando surgem como tal, a totalidade da personalidade recolhe-se, como uma flor tocada no estame que se retrai e fecha.
Reflexo, medo.
Ultrapassagem, aceitação.
Unidade. Completo.
A partir daí, qualquer animal com um mau passado pode apenas tentar fazer uma coisa. Contar a sua história, bailar com os seus demónios enquanto lhes trauteia canções irónicas e tentar fazer o melhor possível. E pensar que há sempre mais alguma coisa a fazer. Mais um detalhe para poder voltar atrás e fazer tudo novamente, arriscando a falha, mas crendo que da acção surge uma reacção e nem todos estamos para além de qualquer espécie de redenção.
Lamber os dentes afiados relembrando que também eles compõem um sorriso.
Ou que também há dentadinhas de amor...



“Seria elegante dizer a todos, como eu dizia em várias ocasiões, que a solidão e a curiosidade se podem combater de formas mais dignas ou sofisticadas. Seria igualmente simpático pensar que se vive numa lógica em que as pessoas comunicam das formas que forem possíveis e que os registos empáticos se encontram, como animais da mesma espécie numa miríade de manadas juntas para beber água. (...)
Para mim a normalidade é apenas uma t-shirt que eu visto mais que uma vez. E se tudo isto pareceria não fazer sentido num dia a dia onde o equilíbrio relacional entre personalidades pudesse efectivamente acontecer, a verdade era um bocado diferente. Porque muita gente tem coisas a esconder. Eu tinha algumas. Muitas. Muitas coisas a esconder ou a proteger ou simplesmente a acomodar. Muitas formas de triagem a operar, muito do constrangedor nos outros a evitar. Pouco a arriscar efectivamente. Num dia que por vezes mal chegava para perceber para que lado a terra girava, ou no qual os minutos por vezes se arrastavam como peso morto, ou onde as palavras de tantos me faziam tanta confusão por me parecerem dramaticamente alheias, podia dizer que valia tudo. Valia tudo porque à vista curta não via nada. Adorava fechar os olhos perante poucos outros e dizer-lhes que isso não me despedaçava os dias, mostrando-os insuportavelmente longos. Que não tinha certos terrores, ou que os desejava ter quase que por empréstimo para que algo me enchesse o sangue até eu pudesse gritar, chorar ou arranhar a pele e não sucumbir asfixiado sob o peso do invisível. Do meu invisível, do ódio aceso pelo que me escapava e a curiosidade ansiosa porque reconhecida por cada diferença nos meus dias que pudessem de alguma forma não demonstrar o que realmente eram.”


E eis que finalmente tenho o novo álbum dos (velhinhos?) AC/DC - "Black Ice".
E sim, toda a gente dirá que é mais do mesmo, até eu concordo, mas a verdade é que estes amigos dos três acordes fazem rock and roll como já não se faz, com uma dose de satisfação descomplicada que torna quase impossível não abanar a cabeça quando ouvimos os acordes do rapazinho Angus Young. Não é música complexa, ou que eu diga que me enche as medidas ao ponto de me arrepiar a pele, mas faz-me bater o pé e abanar a cabeça quase imediatamente. Hell Yeah! Rock On, dudes!!!!
É um álbum tão parecido com outros, mas sinceramente, e tratando-se destes decanos do rock (cuja honestidade aprecio muito mais que as merdas delicodoces que os Aerosmith por vezes cospem, embora seja fã das músicas mais amargas e irónicas da banda), quereríamos de outra forma? Deveriam os AC/DC deixar aqueles filhos da mãe daqueles três acordes e ritmo simples que no entanto funciona (quase) sempre? Não me parece.
Estes amigos vêm cá em 2009, ao que parece, e este vosso amigo vai vestir uns calções, uma camisa e blazer, por um boné na cabeça, e dirigir-me onde quer que eles toquem e prestar homenagem. Estes tipos usam um truque antigo, mas que volta e meia desempoeira o dia. Isto é rock and roll, e não importa quantos digam que está morto, ele volta sempre.
Felizmente.


sexta-feira, outubro 17, 2008


No ginásio que frequento, sim tenho um problema com a actividade física (cada um com a sua adicção) são raros os dias em que não existe uma curiosidade sociológica que leva, pelo menos, a um momento divertido.
Sendo um daqueles locais onde, por depoimentos diversos, se considera que as pessoas mais interagem, à excepção do local de trabalho, é curioso ver as formas como isso acontece, e como se orientam as pessoas. No fundo, onde estão as feromonas, conceptualmente falando, claro.
Sem entrar em cogitações acerca da forma como o físico e a mente se devem entrelação, é óbvio que este é um local onde as lógica, por exemplo da internet, se invertem. Aqui o visto antecede o falado ou racionalizado. Tirando a praia, é aquele local onde não há grandes subterfúgios ou truques cosméticos.
E é engraçado ver como as "tribos" se agregam, como os supostos requisitos se potenciam numa lógica concêntrica, apesar das pessoas o negarem veementemente. E estamos a falar de pessoas com uma dimensão física que ultrapassa muito o "razoável". (Se o que dizem acompanha o embrulho ou não é outra história, mas como não conheço as pessoas, não faço juízos.)
Portanto para uma pessoa dita "normal", que por acaso até se cuida um bocadito, a ideia de que esse bom aspecto pode transparecer num local destes é mera ilusão. Há malta ali que simplesmente não dá hipótese, por muito bem que uma pessoa até se possa sentir bem com a sua carcaça.
É cómico porque o ginásio, local onde os "bens" estão à vista, é o sítio menos provável para o sucesso da "mostra". E isto porque se isso for factor único, há lá gente que pura e simplesmente não dá hipótese a ninguém, tal é o nível de excelência. É um sentimento contraditório mas confortante, ou seja, se a maioria das pessoas não conseguir conversar com alguém por outros motivos, não será pela montra que o logrará, a não ser que seja daquela classe de eleitos moldados a cinzel. O que leva a concluir que de facto as pessoas são, ou pelo menos na minha lógica, só conseguem ser interessantes se de alguma forma conseguirem mostrar toda a extensão do que são, na qual o físico, inegavelmente relevante, tem no entanto apenas papel parcial. E num local onde uma pessoa "normal" se sente invisível, é curioso verificar que por vezes as pessoas interagirão por pequenas coisas talvez inexplicáveis, por detalhes, por acontecimentos fortuitos, como talvez seja extensível ao resto dos locais e situações. No fundo, alguma coisa que brilha e que simples e esperançadamente até possa juntar-se em palavras ao que se vê. No fundo é a graça do mundo que nos permite achar piada à diversidade, aos detalhes, ao instante. Nunca renegando o agrado visual através do politicamente correcto, mas simplesmente aceitar que a complexidade do que nos possa interessar nunca está reduzido a uma só dimensão, seja ela palpável ou não. E num local onde tudo se vê é engraçado verificar como muitas vezes surge a pergunta ou curiosidade precisamente sobre o que não está à vista.
Vinicius pedia perdão às feias, visto que a beleza é fundamental. Mas ao recordarmos o poema vemos que em toda a sua descrição o encantamento está precisamente no que vai movendo, ritmando ou caracterizando o invólucro:
(...) "Olhos, então Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca Fresca (nunca húmida!) e também de extrema pertinência. (...)
(...) Que a mulher seja em princípio alta Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.(...)
Tenho dito...

quinta-feira, outubro 16, 2008

A frase mais desejada e mais contraditória:

"Been there, Done that...."

Prefiro:

"Been there, done that, and there's still so much of this...."
Bem, todos têm os seus guilty-pleasures, monstrinhos de armário estético, e por aí fora, e claro está, volta e meia dá-me para gostar de algumas coisas, pronto, menos elaboradinhas... mais formulaicas, de realejo, a roçar o bimbocas, whatever...
Esta música dá-me sol, que hei-de eu fazer?
Pelo menos o vídeo é engraçado...
Guilty Pleasure all the way!
Hell Yeah....
Siga!



Era o Wilde que dizia que era complicado ficar feliz por aqueles de quem gostamos. Ele circunscrevia aos amigos, mas eu permito-me imaginar que ele nada obstaria a que se alargasse o conceito. No meu caos, não concordo exactamente com a ideia. Bem vistas as coisas, não concordo nada. Julgo...
Qual é a dificuldade em vermos o brilho daqueles de quem gostamos? É complicado ter orgulho naquilo de que são capazes, sorrirmos ao vermos as suas capacidades e qualidades emitirem uma luz perante as pessoas ou os ambientes? Porque carga de água? Porque raios não deverá ser celebrada a qualidade, seja no descobrir de um centímetro de pele, numa piada absolutamente certeira, ou num triunfo pragmático admirável?
Nunca me custou verificar que algumas pessoas(ok, muitas) são melhores do que eu. Isso faz com que deseje melhorar, tentar competir, digamos assim, mas provindo daqueles de quem realmente gosto, o que sobrevém é a oportunidade de aprender, de ser melhor porque eles são melhores.
Não julgo que seja complicado ver o sucesso daqueles de quem gostamos. Ver a sua capacidade transformada em materialidade, celebrar cada esforço para serem melhores, simplesmente ter gozo com a demonstração fáctica das suas qualidades, e na forma como isso nos influencia. E verificar isso, nos meus dias, é simplesmente ter sorte. Sorte em que, por alguma razão, poucas(íssimas!) pessoas escolham mostrar-me o que têm, o que fazem, do que são capazes. E isso nunca deve ficar subentendido.
Reconhecer o valor dos outros que escolhem estar connosco parece-me uma forma de também nos valorizarmos. É indirecto e não intencional porque ao desfrutar do afecto vem essa regalia que é saborear a sua qualidade. Mas sabe bem ficar em silêncio quando essas pessoas por vezes falam, observar quando dissertam sobre algo, quando discutem um assunto, quando confessam paixão acerca de um qual fenómeno, quando criam alguma coisa. Mesmo quando são ferozes.
Por isso não acho que seja complicado lidar com o sucesso dos outros.
Muito menos das pessoas de quem se gosta realmente.
Por vezes só gostava de ter mais um pouco dessa capacidade, desse tamanho, desse brilho.
Para poder acompanhar melhor e ser mais parecido com aquilo que tanto lhes admiro.
Para poder explicar porque me contenta tanto que logrem aquilo a que se propõem, ou cada instante onde ficam ainda melhores.
Se é possível tambem gostar pelos lados lunares, não seria incongruente e ilógico angustiarmo-nos pelo aparecimento (recorrente) da luz?
A mim parece-me.
Por isso, celebro sempre que posso os "melhores" que eu, e que por acaso me dão uma goelita na vida que levam.
Gosto de os ver. Como são. A sê-lo.