ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, janeiro 31, 2008

Serei breve.
Recordo o primeiro filme em que vi o rapazito. "Ten things I hate about you", um remake juvenil da peça "The Tame of the Shrew", do tio Guilherme, até bem feitinha, com a Julia Stiles, moça de serviço nestas adaptações de Shakespeare (e que bem que ela ia na saga Bourne). E gostei da postura, do sotaque aussie. Ao contrários da maioria dos tipos com palminho de cara de tais produções, o moço parecia saber representar.
Mas seria mais tarde que o rapaz me levaria a melhor, com a participação no desopilante conto dos irmãos Grimm e no excelente e contundente "Monster's Ball".
E sim, como fã da personagem e da interpretação que Chirs Nolan faz dele, salivava por ver o Joker de Ledger no Batman que por aí vem. O trailer promete muitíssimo, e para quem já tinha gostado do anterior (C. Bale é Bruce Wayne - finalmente alguém!) os vislumbres de Ledger dão a entender que ele provavelmente revolucionará o personagem, dando os arrepios que o esforço de Nicholson não conseguiu, apesar de ter gostado da interpretação deste.
Ver Ledger será ainda mais arrepiante, e incrementará alguma tristeza, porque provavelmente gostarei do papel. E ao gostar, o desperdício parecerá ainda maior, ainda mais inexplicável, ainda menos agradável.
Ledger morre, eternamente jovem como Dean e com ele alguém que parecia agigantar-se no panorama dos actores como Norton, ainda, para mim, o melhor jovem actor desta "nova geração".
Espero que a coisa lhe esteja a correr bem, seja lá onde for. Ao que parece pelas crónicas e testemunhos, era a anti-vedeta, e um tipo porreiro, ainda por cima.
O cinema está mais pobre e arrisco a dizer o mundo.
Que pena...


quarta-feira, janeiro 30, 2008

“If pain could have cured us we should long ago have been saved.”
George Santayana


SIDDHI


O Gabriel era um contador de histórias. Tirando a recorrência a Ravenna, ou o esquecimento da sua própria narrativa pessoal, ele era, e é, um poço de histórias, feitas de recorrências aparentemente triviais. Eu arrisco-me a dizer que ele as colecciona, como alguém que empresta a espaços inúmeras vidas, fazendo da sua a colagem de pequenos roubos. E normalmente tinha uma ideia de que o Verão potenciava o nascimento dessas histórias. O calor fazia coisas estranhas às pessoas, dizia ele. O corpo toma uma consciência multiplicada de si mesmo. Perceber tudo ao mesmo tempo enquanto estamos perdidos na canícula pode ser complicado e perigoso, já que a miríade de sensações eleva-se a milhões de pequenos pensamentos.
Existem muitas pessoas que teimam em definir a importância das histórias. Criam uma espécie de padrão de qualidade das narrativas que vão bebendo ao longo dos dias. No entanto esse padrão era aplicado de forma mais rigorosa aos contadores, relatores ou inventores de histórias. Existem pessoas que conseguem cativar um interesse quase hipnótico mesmo quando lêem a lista de compras a fazer no hipermercado. Outras podem fazer do seu relato da versão inédita do Ovo de Colombo algo tão interessante como ver as ervas crescer.
Gabriel tinha um pouco dos dois. E penso que tal sucedia devido ao amor que tinha a histórias, a acontecimentos e narrativas. A ideia de progressão deixava-o menos ligado ao absurdo existencial que lhe ia arrancado vida desde a viagem, como uma anestesia que simplesmente dava a noção de chegada a um qualquer lado. A imobilidade deixava-o aterrado. Por isso tinha sempre algumas histórias para contar quando nos encontrávamos. Entrecortava-as com relatos sempre da mesma mulher, mas acho que consigo desculpar-lhe essa reincidência. Afinal de contas, as doenças crónicas nunca desaparecem realmente, e a fazê-lo, nunca é por vontade do hospedeiro.
E que me contava ele?
Numa rua perdida de Lisboa vivia uma mulher que supostamente via coisas. Ao contrário de tantas outras que alegam tais situações ou capacidades, esta mulher vivia aterrada pelo que via. Coisa terrivelmente dolorosas que escolhiam as piores alturas para aparecer, plenas da clareza de um filme em tela branca.
Chamava-se Branca. O problema é que esta mulher via toda a sequência de eventos, que aparentemente não tinham qualquer relação entre si, mas que em conjugação dariam origem às situações que chegavam a tirar-lhe noites inteiras de sono. O calor aumentava esta capacidade, como um balão cheio de ar quente que ganha os céus com muito mais velocidade e percorre toda a terra. Além disso, Branca transpirava imenso, o que só aumentava a consciência da sua presença no seu meio ambiente. Era como tocar e pensar tudo ao mesmo tempo, numa incessante passagem de slides.
Tinha uma vida o mais convencional possível. Bancária de profissão, vivia sozinha depois de ter acordado um dos namorados à unhada, em consequência de um sonho que viria a causar-lhe a primeira depressão ou pré esgotamento, como lhe chamara o psicólogo. Regava as plantas que tinha na varanda, alimentava um papagaio falador, enfim, deambularia na felicidade contida da sua normalidade, como ela dizia, se ao menos não tivesse os apagões. Os apagões eram momentos, na sua esmagadora maioria numa fase de pré sono, que se caracterizavam por uma viagem sensorial e psíquica tão intensa que ela se sentia com se saísse do próprio corpo e entrasse em todo o lado. Ou talvez pudesse mesmo, quem poderia saber? Tão depressa podia ser uma maçaneta gentilmente apertada e rodada para abrir a porta correspondente como o joelho esfolado de um miúdo que trepava a uma árvore. Ou coisas muito piores, daquelas que deixam marcas fumegantes nas portas de entrada do pensamento, e fazem temer qualquer espécie de sono ou perda de consciência que levasse a sonhar.
Um piscar de olhos foi o tempo que esta mulher levou a ser considerada absolutamente maluca. Eu cá estou a pensar bem no assunto e não tenho dúvidas de que lhe colocaria o carimbo na testa e em seguida despachá-la-ia para uma das alas do Miguel Bombarda. De rajada mesmo. Não é bonito de se dizer, mas é o que se arranja.
O Gabriel, por seu lado, acompanhou esta história a par e passo. Falou com a mulher durante cerca de uma semana, recolheu elementos, fez entrevistas, compilou uma pequena biografia. Em casa não havia nenhuma bola de cristal, nem símbolos profanos ou zodiacais espetados na parede como posters de cinema ou postais de viagem ampliados. Era uma casa escura, na qual Gabriel sentira um cheiro estranho, indefinível. Era o cheiro a tristeza quente, dizia ele. O encarceramento e melancolia, num claro contraste com o sol ofuscante que castigava a cidade. Contou-me que ela lhe relatara descrições minuciosas de assassinatos hediondos, com pormenores que levam o mais impassível dos estômagos a registar um veemente protesto. Ou actos de crueldade mais simples mas tremendamente eficazes, que ecoavam em pedaços desconexos na cabeça dela. Era como fazer um zapping lento pelos piores canais que se pudessem imaginar. Fazia-o com um olhar cansado, como quem carrega um fardo às costas por demasiado tempo e exibia olhos demasiado velhos para a idade do rosto. Eram tão claros que provavelmente desapareceriam debaixo da luz solar, ou facilmente se confundiriam com a água de uma qualquer piscina límpida onde mergulhasse.
Metódico e curioso como era, Gabriel resolveu ir à polícia judiciária para obter informações. Sabia que o mais provável seria que ninguém ventilasse fosse o que fosse, e que até poderia colocar-se em sarilhos, mas resolveu ir lá à mesma. Como previra, deu bom os burros na água, apesar da cordialidade da responsável pelas relações públicas da instituição. Informação absolutamente confidencial. E mais não disseram. Gabriel nunca mais voltou a falar com a mulher, mas guardou os elementos que recolhera, decidido a escrever um artigo sobre o assunto. No entanto a história entrou na gaveta e lá ficou.
No Verão seguinte, para além das notícias de uma seca avassaladora, um dos jornais televisivos do horário nobre deu cobertura a uma peça relativa ao assassinato de uma mulher.
Branca fora morta com dois tiros no peito por um homem que invadira a casa. Segundo o que Gabriel apurara, estava tudo partido. Mesas viradas ao contrário, janelas estilhaçadas, e o corpo deitado no chão no centro da sala. Uma das balas havia varado o coração, matando-a imediatamente, mas toda ela estava marcada por equimoses derivadas de um espancamento longo e determinado. O caso foi rapidamente esquecido pela opinião pública, mas Gabriel acompanhou-o até ao fim. Desde a prisão ao final do processo judicial. E foram as declarações do assassino que o deixaram sem pinga de sangue, numa batalha plena entre aquilo que ele chamava o cepticismo seguro e a coincidência demasiado extrema para não ser suspeita. Julgo que são perguntas que todos já fizeram a si mesmos numa determinada ocasião, por mais que o neguem.
Parece que o assassino havia perdido a filha de quinze anos na semana anterior. Fora violada e morta por dois homens perto de Alcântara. Metida dentro do carro e levada para um barracão, expirou após longa horas de sevícias que eu nem sequer consigo imaginar. Ou talvez nem queira, sinceramente. Há coisas que não se querem cá dentro por muito tempo, e a estarem, é bom que não lhes toquemos muitas vezes. Eles ainda não haviam sido capturados na altura. Nunca chegariam a sê-lo. Abandonaram o corpo num banco de jardim e evaporaram-se.
Parece que na véspera dos acontecimentos, Branca terá telefonado ao pai da rapariga. O número aparecera-lhe num dos apagões, assim como tudo o resto. Terá tentado avisá-lo, contando o que vira, mas como seria de esperar, recebera pela história um compreensível riso e resposta torta. O pai da rapariga terá dito que não queria comprar nada, e provavelmente, porque raios é que ela não escolhia outro número de telefone para torrar a paciência? Voltou a ligar e levou outra resposta ainda mais rude.
Alguns dias após a morte da rapariga, o pai, completamente descontrolado, tendo conseguido obter a morada da mulher que lhe telefonara através do registo telefónico, dirigiu-se à casa da Branca e uma vez lá, espancou-a até que ela revelasse o que sabia. Branca obviamente não sabia de nada. Vira os acontecimentos como um pesadelo, e recordava-se razoavelmente da cara dos assassinos, mas pelos vistos não tinha quaisquer outros nomes ou localizações. As coisas não funcionavam como o serviço nacional de informações telefónicas. Não adiantava pedir. Não era assim que funcionava. Recordava-se igualmente do sol radioso que espicaçava a cor das árvores que ocultavam o barracão. E o calor. Ao que parece, o desesperado pai ter-lhe-á feito uma ultima pergunta, após a qual disparou a arma duas vezes, matando-a imediatamente. Após dizer isto em audiência, caiu em pranto, e supostamente perdera o resto dos berlindes que tinha na às voltas na cabeça.
Gabriel culminou esta história com uma noção que por acaso partilho, mas que não me deixa nada descansado. Triste e perplexo sim, mas não sereno.
Ela sabia os nomes dos violadores. Sabia que os podia identificar tão bem como o fizera com o número de telefone do pai ou o rosto da rapariga que morrera. Mas Branca achou que era já demasiado. Dissera a Gabriel, aquando da conversa que ambos haviam tido, que os apagões pareciam aumentar de intensidade e frequência, como bombinhas de Carnaval que rapidamente passavam a granadas e que lhe estilhaçavam a cabeça. Sozinha e excluída, meio enlouquecida pelo que supostamente poderia ver, ela achara que era tempo de acabar.
Quando Gabriel acabou de relatar esta que era apenas uma de muitas histórias que ia partilhando comigo, eu fiquei a pensar numa outra coisa. Para mim, a amiga Branca engendrara as coisas muito mais cedo do que se pensava. A dor fora longe demais e que de alguma forma o correio nunca chegaria com a carta de envelope ensolarado, por isso, porquê perder tempo? Para Branca o Verão no qual morrera não fora diferente de nenhum dos outros. O calor era uma forma de estar mais acordada, electrificada por uma consciência que nunca pedira, desafiando a velha noção de que o sol brilhava da mesma forma para todos. Não estou certo de que acredito na história. E acho que nunca estarei. O Gabriel não tem dúvidas. Acho que entendo porquê, mas não vemos a mesma sombra debaixo do sol.



Lisboa - 29-01-2004










terça-feira, janeiro 29, 2008

34.
Quando dito assim, de repente, parece algo maior e mais extenso que o Cretácio(*).
Recordo quando olhava para os polícias, em petiz, e dizia para quem quisesse ouvir que aquele tipo de uniforme deveria ter, sempre, em qualquer circunstância, pelo menos uns então impensáveis 30 anos. Hoje olho para alguns dos fardados e a puerilidade de alguns faz-me engolir em seco e rir em silêncio. Da minha desgraça, claro.
Uma amiga disse-me uma vez que a idade que tinha parecia encarcerar três tempos inteiros de vida. Não sei como se efectua essa medição, mas acho que a entendo um bocadito. Acho que tive o privilégio de ir vendo muitas coisas, de ir percebendo muitas realidades, de ir tomando consciência de perspectivas bem diferentes. Em suma, é tudo uma confusão do cacete, e um dia bom é aquele no qual conseguimos apagar a luz e achar que 30% do dia fez algum real sentido perante o plano pessoal.
Mas seria estúpido da minha parte dizer que parte substancial da piada não esteja aí.
Ou mais estúpido ainda não reconhecer que, apesar das dificuldades, incertezas, inseguranças, constant growing pains (não há nada mais imprudente que alguém achar que já cresceu para além do que a vida ainda lhe pode fazer), inadaptações, sou obrigado pela minha própria vontade a agradecer. Há gente que perde tanto do seu tempo e energia a dar-me muita coisa, a encaixar as minhas idiossincrasias, a rir dos meus disparates (e aí sim, um esforço digno de nota).
Os balanços parecem sempre ridículos, especialmente os meus. Talvez porque comparável á sua inevitabilidade, está a incapacidade de transmitir realmente aquilo que eles significam. Para mim, a capacidade e vontade de contar histórias. Se são boas ou não, sei lá. Teria de avaliar se a minha vida, que pinta essa capacidade e vontade a empirismo, poderá qualificar-se como boa ou má. E parece-me inaplicável tal conceito.
O que sei é que ainda ando a tentar perceber um pouco do que se passa. Mesmo após 34 anos, e pelo menos o que parecem ser dois periodos de vida, tal a sorte que tive em ver tantas coisas, mesmo talvez aquelas que são tão inúteis e desnecessárias para o desenvolvimenmto pessoal, ao contrário de crenças populares próprias de talk-shows manhosos. Vi demasiada gente magoar demasiada gente. E isso pesa sempre nos balanços, quando resolvemos olhar adiante e achar que até vamos chegar a qualquer lado.
Estou grato. Felizmente os meus pais incutiram-me isso, e estou realmente grato. Pelo amor que eles e outros poucos gatos pingados me vão teimosamente dando, por mais piroso que isto possa parecer. A verdade é assim, por vezes. Pirosa e incómoda e felizmente real. A espaços. Um Amor. Uma irmã. Uns poucos cúmplices das minhas pancadas.
Parabéns aos ditos. É por eles que me apetece festejar ou fazer qualquer balanço seja lá do que for. Vénia.
(*) 80 milhões de anos.



Banda Sonora - Aqui

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Maynard James Keenan é um génio.

Ponto Final.

Fica aqui em versão mais quotidiana.




A crítica assemelha-se ao acto de respirar. Cedo ou tarde lá vai ter de aparecer uma. Existir é, num momento ou noutro, chatear os cornos a alguém que, por mais ou menos razões, resolve implicar connosco. Certo é que, ou merecemos ou não merecemos, e a coisa fica por aí. É pacífico. Por mais pacholas que possamos ser para alguém, existem uns quantos fígados que até fervem quando entram em contacto com a nossa presença. É inevitável.
O problema surge quando não entendemos as críticas, ou quando elas emergem de uma descontextualização que nos deixa (pelo menos a mim deixa) boquiabertos porque soa quase a traição. São críticas que são absolutamente insubstanciadas, e ainda por cima, surgem por detrás de um conhecimento que deveria ser imune a tais reparos, e não certamente a outros.
Aquela ideia de que alguém simplesmente nos conota com uma certa forma de pequenez, simplesmente porque os modos de exploração do mundo circundante não se assemelham, é das coisas mais complicadas de assimilar. Magoa porque surge no seio de uma intimidade e um conhecimento onde se pede a verdade, sim, mas nunca a descoberta de uma percepção redutora à custa de olhares moldados pela pretensa experiência de vida.
Aqueles que nos conhece(ra?)m e sabem o que somos, sabem como crescemos, como nunca ficámos quedos porque nunca desistimos daquilo que nos move e nos corta ao mesmo tempo, não deveriam ter a prerrogativa de enfiar a faca onde o tecido é mais desprotegido. Não deveriam ter a percepção falsa de que o seu mundo simplesmente parece mais completo não porque num haja viagem e noutro não, mas porque as viagens são simplesmente diferentes. E o tom casual com que é supostamente dito, à guisa de familiaridade ou intimidade, não esconde uma lógica trapalhona onde a unidade conceptual do que somos é obliterada. Não esconde o carácter incompleto irreconhecido, mas defendido ao reconhecer a suposta debilidade do outro pobre pateta, que por acaso até abriu sempre os braços e até tem em consideração aquilo que aquela pessoa lhe diz.
É duro desiludirmos alguém. E inevitavelmente, acaba por acontecer. Mas quando desconhecemos a razão, quando o motivo para tal juízo aparece como uma surpresa constituida por exposição (quase?) condescendente, à tristeza segue-se o único passo lógico.
É melhor pregarmos para outra freguesia, porque a nossa cantiga afinal sempre soou a uma gavota barroca, quando deveria e julgávamos ser algo parecido à Fiona Apple num entardecer glorioso de Outono.
Custa como a merda, mas segue-se.
E a modos que é assim...
Atiramos o precioso óbvio, mas...


quinta-feira, janeiro 24, 2008

As dependências são, como qualquer outra idiossincrasia, uma característica que se evidencia pelo automatismo e facilidade com que toma conta do seu portador. E bem sei que a mais das vezes, e recordo sempre o Marquês de Valmont nisto, a ideia de controlo assenta na perspectiva mais ou menos realista da capacidade que se tem ou não de acalmar a consciência. No entanto, em meu ver, das dependências mais perniciosas que verifico hoje em dia, prende-se com a dependência de conforto. O conforto que assenta no plano, e o plano que por vezes leva um amante de Ferraris a fazer-se valer dos préstimos de um SAAB porque, afinal de contas, há que ir chgando a qualquer lado.
O conforto vicia porque em cada manifestação de vida exterior ao mesmo está um teste. O teste da ida, da finalidade, e sobretudo, do regresso.
Muitas pessoas verificam que existe um caminho, balizado pela sua convicção, ou pela noção de que há qualquer coisa a fazer, um patamar sequencial e repetitivo a seguir. O conforto é a gordura articular que permite esses movimentos que parecem inexoráveis, os quais criam o senso de objectivo atingido. Que diabo, em certos momentos, entrar em casa é a noção mais apaziguadora e segura que existe, e quando chove lá fora, o toque do calor é em si aparente missão de vida. O problema surge quando o sol aparece, quando as sombras que eram dúvidas são afinal objectos que de noite e promessa de respostas nada têm, e as decisões assemelham-se ao estrondo encarcerador deixado por uma ponte que acaba de ruir após a travessia.
A cantada do conforto é tão convincente que sugere a criação de coisas no vazio, faladas ao espelho como confissões rendidas à mais pura e material das verdades.
O conforto condiciona relacionamentos, escolhas, e a desejável inibição de uma úlcera. O conforto é uma dose maciça de Voltaren, bem vistas as coisas, e gera uma dependência selectiva, mas pavloviana. E diga-se em abono da justiça das coisas, que o status quo não trouxe vida fácil ás vacinas para todas estas coisas. O medo é debilitante, mas nem por isso é ilusório ou injustificado, e "as far as arguments go", é convincente ao ponto de instilar uma dúvida. E a dúvida é como uma coceira. A certa altura torna-se insuportável, e o conforto das unhas parece ser tudo.
O resto depois é de fácil implementação, e por isso mesmo, perigoso. Afinal, a mudez forçada das vozes internas é uma forma de apodrecimento da personalidade. Exactamente como uma dependência fará, ao fim de algum tempo. A morte não pressupõe necessariamente o fim de funções orgânicas, mas apenas o fim da percepção da alternâcia entre estados de consciência.
Lili, estás enganada!
No conforto, estar vivo pode é ser o mesmo que estar morto.



segunda-feira, janeiro 21, 2008

A morte de sonhos são as chuvas de insónias.
"Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream."

E.A.Poe

Saved by the classics....

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Bem sei que é bem mais elegante ser cínico ou desencantado e que a mais das vezes se confunde essa predisposição mental com a verdade ou sinceridade. Não haja também qualquer dúvida que eu próprio concordo algumas vezes com essa premissa ou atitude. Mas naquele instante essa noção irritar-me-ia se nela tivesse sequer pensado, como me irrita agora que a vejo em tela de recordação. Porque era algo ao qual eu desejava dar uma importância que acabou por verificar-se no decurso da minha vida, ainda que os restantes milhões de pessoas no mundo não pudessem estar-se mais nas tintas para isso. É uma realidade dura de enfrentar, e nada nova. Mas nunca me habituei a ela e calculo que ninguém o faça.
Simplesmente tem fases, e alternâncias.


"Tudo mudou muito desde os meus dezasseis anos. Não existe qualquer novidade nesta afirmação, mas é a verdade da percepção disso mesmo que traz algum cansaço associado à admiração. Admiração pelo que deixou de existir, pelo que veio substituir, e pela asneirada incomensurável que poderia ser evitada e não foi. Seja no meu mundo que nada importa, ou no mundo que importa a todos. As minhas perdas, assim todas as que consigo imaginar, são sempre impassíveis de serem justificadas. É a noção cada vez mais vincada que surge quando me lembro do Índio. Ninguém nos consegue explicar o porquê da perda e a estupidez injusta que lhe está associada. Realçar a inevitabilidade como tal não a torna mais suportável ou compreensível. É por isso que é tão difícil acordar e não recordar o que se passou naquela altura.
Então fecho os olhos e vejo a lua prateada a tingir-se de vermelho. Vejo a singularidade de cada momento, através da música que a silhueta toca, percebo com uma pungência terrível aquilo que me escapa e que simultaneamente me faz feliz e sorumbático. A pequenez e a imaginação capaz de delinear aquele contorno.
Ouço e percebo ao deleitar-me com o som.
E acolho a vida como a posso ter."


"Apercebi-me como o dia se pode arrastar, doloroso como uma lâmina deslizando lenta por cima da pele, para fenecer num sono sem expectativa.
Ela aprendeu a definir escolha e defesa.
Ambos aprendemos o que não conseguíamos compreender. Aquilo que surgiu como uma espécie distorcida de ansiedade sem amor, de curiosidade sem real esperança, de vivência sem futuro. Um laço atado pelo rápido discorrer do tempo, e criador de um prazer tão mais pequeno que um medo dormente. E no entanto, maior que o mundo inteiro, era um mundo em si, para mim e creio que para ela, totalmente novo."








Só se vive na verdade adaptável.
O que se tem para dizer, quando incontido, gera solidão.
É matemático.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Video fantástico.
Tem, assim de repente, 16 anos...






Fotografia - Peggy Washburn



"Por favor lê a carta que escrevi.
Com calma. Especialmente onde não traz qualquer sentido aparente.
Vê o rebordo, o papel, as falhas nos parágrafos. Vê o desenho involuntário no intervalos das linhas e letras. A assinatura trapalhona no final.
Pára. Volta ao início. Lê a carta que escrevi, porque fui eu. Porque é minha. Porque só se acende a luz do entendimento se perceberem o que não está lá. O que é dado pela ausência, revelado sem forma aparente.
Não está lá nada e por isso já disse muito.
Lê a carta que escrevi."






Revolvo-me com a ideia acerca do que sei que passas. Da escuridão do dia na tua pele, nos raios de sol despejados pelos desejos dos teus amanhãs, acabam por silenciar-me. Calam-me a voz que teima em definir e a arrogância de poder sequer adivinhar o que é para ti o Sol.
Como poderia ser de outra maneira?
Os outros passos nestes segundos do meu dia traziam-me a lembrança do que era a ausência de sol no dia. No calor na textura da tua pele, nos pedidos surdos com que pintas o sorriso imaginado das cores que só se iluminam com o sol que pedes.
E os pequenos pedaços de cabelo, que caem em espirais enquanto escreves as pequenas linhas do passar lento das nuvens, são em si histórias. Escondem os olhos mas embebem a expressão em fogo líquido.
A ideia do que sei que passas.
Amaldiçoo as nuvens pelo teu desejo de luz que afinal, de ti também nasce.
Devolvam o sol que te pertence.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Muitas vezes, quando ando triste ou desiludido com as pessoas em geral, ouço esta música. E, numa lógica paradoxal ao prazer que me dá ouví-la, fico mais triste ainda. Go figure.
Enjoy.

"The Ballad Of Peter Pumpkinhead"

Peter Pumpkinhead came to town
Spreading wisdom and cash around
Fed the starving and housed the poor
Showed the Vatican what gold's for

But he made too many enemies
Of the people who would keep us on our knees
Hooray for Peter Pumpkin
Who'll pray for Peter Pumpkinhead?
Oh my!

Peter Pumpkinhead pulled them all
Emptied churches and shopping malls
Where he spoke, it would raise the roof
Peter Pumpkinhead told the truth
Peter Pumpkinhead put to shame
Governments who would slur his name
Plots and sex scandals failed outright
Peter merely said
Any kind of love is alright

But he made too many enemies
Of the people who would keep us on our knees
Hooray for Peter Pumpkin
Who'll pray for Peter Pumpkinhead?Oh my!

Peter Pumpkinhead was too good
Had him nailed to a chunk of wood
He died grinning on live TV
Hanging there he looked a lot like you
And an awful lot like me!

But he made too many enemies...
Of the people who would keep us on our knees
Hooray for Peter Pumpkin
Who'll pray for Peter Pumpkin
Hooray for Peter Pumpkinhead
Oh my oh my oh!
Doesn't it make you want to cry oh?”

Crash Test Dummies - Cover de "The Ballad Of Peter Pumpkinhead" dos XTC



sexta-feira, janeiro 11, 2008


"Ela era uma espécie de incongruência num caminho terrivelmente certo da sua fleuma. Saltitava com uma graça surpreendente por entre os meus estados de alma, encarando a minha falta do mecanismo de saudade e voz pardacenta. O meu problema ultrapassava a depressão precisamente porque desta resulta uma tristeza que por vezes se torna ferozmente reactiva. No meu caso poder-se-ia qualificar mais como uma espécie de massagem cardíaca a alguém que nem sequer sabia ter coração. E a maior parte das vezes, o nada reage ao nada."

"Lembro-me perfeitamente que a incapacidade que ela tinha em dizer ou expressar fosse o que fosse e que nascia do hábito de anos, traduzia-se naquela estranha pureza na tentativa de contacto. Uma forma de afecto singular acabava por destroçá-la.
Tenho também a plena convicção que ela estaria a fazer aquilo que muitos considerariam uma pequena viagem interior. Fazia-a, aposto agora, pela primeira vez em muitíssimo tempo. Essa noção apertou-me qualquer coisa no peito, embora fosse incapaz de lho expressar naquela altura. Ainda hoje não seria capaz. As emoções ditas reais produzem silêncio.
Não vale a pena tentar apanhar ou definir o vento."

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Para mim, são efectivamente a melhor banda do momento presente. Não sei mais que dizer da qualidade quer das letras, quer da composição musical, quer da voz de Maynard James Keenan. E este vídeo de tributo feito no Youtube por um admirador cheio de talento só reforça esta noção.
De música trespassada por beleza, poder e talento puro.


Black then white are all I see in my infancy.
red and yellow then came to be, reaching out to me.
lets me see.
As below, so above and beyond, I imagine
drawn beyond the lines of reason.
Push the envelope. Watch it bend.

Over thinking, over analyzing separates the body from the mind.
Withering my intuition, missing opportunities and I must
Feed my will to feel my moment drawing way outside the lines.

Black then white are all I see in my infancy.
red and yellow then came to be, reaching out to me.
lets me see there is so much moreand beckons me to look through to these infinite possibilities.
As below, so above and beyond, I imagine
drawn outside the lines of reason.
Push the envelope. Watch it bend.

Over thinking, over analyzing separates the body from the mind.
Withering my intuition leaving all these opportunities behind.
Feed my will to feel this moment urging me to cross the line.

Reaching out to embrace the random.
Reaching out to embrace whatever may come.
I embrace my desire to
feel the rhythm, to feel connected
enough to step aside and weep like a widow
to feel inspired, to fathom the power,
to witness the beauty, to bathe in the fountain,to swing on the spiral
of our divinity and still be a human.

With my feet upon the ground I lose myself
between the sounds and open wide to suck it in,
I feel it move across my skin.I
'm reaching up and reaching out,
I'm reaching for the random or what ever will bewilder me.
And following our will and wind we may just go where no one's been.
We'll ride the spiral to the end and may just go where no one's been.
Spiral out. Keep going, going...


Lateralus - Tool - Maynard James Keenan



terça-feira, janeiro 08, 2008


"Alguns consideram que tal coisa não existe. Que somos todos passíveis de remendos que nos transportam para uma dimensão imaculada da personalidade que supostamente temos. Mas os que assim pensam estão errados. Pelo menos parcialmente. A evolução não aponta apenas para um sentido. As pessoas danificadas não estão de forma alguma absolutamente incapazes. Ou tolhidas. Se for a pensar bem, elas simplesmente colocam um problema complicado aos que ainda assim as amam e aceitam. Abanam a cabeça em segredo, aceitam a punição e fazem o melhor que podem.
A avaria pode tornar a pessoa diferente, evoluída e pejada de uma percepção de si mesma ao ponto de nem sempre fazer aquilo que supostamente faz sentido. A dor é de marés, e ninguém pode parar a rotação da terra. Simples. Mas a humanidade condicionada é dolorosamente real. Por vezes, aposta fortemente. E é efectivamente capaz de sentir ou esperar. Mesmo em meio ao desespero da confusão, isso consegue prevalecer, ou a tristeza produzida pela denúncia que fazem de si mesmos não passaria de um fait-divers. E se gritamos, existe, se existe, tem efeito, e se tem efeito reconhece-se. Está vivo.
Ela pareceu ter lido isso a partir do meu silêncio, pois passou a mão pelo meu rosto e exibiu um sorriso estranho. Era o sorriso de quem põe Betadine num joelho esfolado. A repreensão surgia como a lógica de causa efeito, sem os panos quentes da cegueira benévola ou o abandono do repúdio. É o direito sagrado de cada pessoa poder lixar a sua vida conforme lhe aprouver, mas a liberdade não parecia garantir-me palmadinhas nas costas ou pontos no cartão da gasolineira. Ela era o beijo de retribuição, a entrega da mais simples ternura pelo esforço na perseguição da mesma. E a vergonha que sentia pela minha imobilidade não era suficiente para lhe dar espontaneidade. Bebia pelo sono, e adormecia pela facilidade."


... a caminho da via sacra da rejeição editorial :)
Ainda acerca do tabaco, andam os tabágicos em grande polvorosa, feridos de morte naquilo que dizem ser o seu direito a fumar. Ora bem, vou tecer apenas mais algumas considerações breves:
1 - Obviamente que é uma idiotice não se fumar em esplanadas, mas ao contrário do que acontece em Espanha, não é proibido por esta legislação, como tal, por aí não há controvérsia.
2 - Durante pelo menos uma década de educação, de instrução quanto aos efeitos, malefícios e sobretudo, o dever de acrescido de respeito que o tabaco impõe, os fumadores mudaram zero dos seus comportamentos. A lei permitia-lhes, e como tal, vai de acender, e se o gajo da mesa ao lado não fuma, e por acaso até está a comer, azaretes. Portanto, enquanto a coisa lhes ia de maré, o incómodo dos outros, dos não fumadores, das pessoas que têm direito a respirar um ar decente enquanto comem, não significava nada. É preciso ter uma lata do caraças vir reclamar agora contra aquilo que supostamente sempre fizeram, sem apelo nem agravo.
3 - Sou claramente a favor das salas com locais destinados a fumadores, desde que a extracção seja suficiente. E existem casos em Lisboa, onde vivo, que o ilustram, e estive no outro dia num deles. Se a eficiência dos outros locais for a mesma que verifiquei no local onde estive, então todos ficam felizes. Agora se a extracção não for suficiente, a simples separação entre zona fumadores ou nao fumadores não funciona, e como tal, reclamar essa falsa barreira é um puro exercício de quem acha normal sobrepor suposto prazer sobre o bem estar e a integridade física dos outros. Se houver condições para todos, óptimo. Se não, pois parece-me que o direito a respirar oxigénio em detrimento de poder expelir monóxido de carbono (e alcatrão) parece impassível de discussão.
4 - Hoje pude entrar na pastelaria situada no meu prédio. Respirava-se. O ar era claro, conseguiamos sentir o cheiro do pão, e não tossir como se não houvesse amanhã, antes das oito da manhã!!! É apenas uma nota pessoal, mas de grande satisfação.
5 - Uma nota à malta com quem falei que fala de fundamentalismo. Sempre fui a favor do exercício das liberdades cívicas e individuais, principalmente. Mas nunca advoguei que essa liberdade pudesse sobrepor-se ao bem estar mais elementar dos outros. Daí que sou a favor das drogas leves, do carácter opcional do uso de capacete em motociclos (excepto crianças, claro), entre outros exemplos. E porquê? Porque é a integridade pessoal de cada um, e não afecta outros. Se me quero charrar ou partir os cornos no asfalto, é um problema meu. Mas empestar o ar dos que me rodeiam, já deixa de ser um problema só meu. Isto parece-me claro. Fundamentalista é este brado contra uma situação que afinal vem tutelar aqueles que nunca foram tutelados.
Fumem em casa, na rua e nos locais com devida extracção. Não tenho nada contra mesmo. Fora isto, o ar é de todos. Respirável, claro.

sábado, janeiro 05, 2008

Pedindo desculpa aos amigos que comentaram os posts anteriores, e prometendo fazê-lo ainda este fim de semana, queria apenas dar uma breve achega ao fim de ano, à suposta festa que representa.
Ao contrário do Natal, que é época que manifestamente gosto, por todas as razões e mais algumas, o fim de ano é sempre uma altura complicada, e esta sim, cheia de pressão. Temos de estar todos nos píncaros da nossa adrenalina, bêbados não de álcool mas de serotonina, porque o evento assim o exige. É, de facto, a maior festa programada do ano, e como tal, os ingredientes nem sempre redundam em real diversão.
Para mim, e especialmente nos últimos anos, o revelhão, como o designa uma querida amiga, é daquelas noites onde o melhor é mesmo o jantar com as pessoas de quem sou próximo. O momento da meia noite é, para mim, como uma injecção forçada de vida e suposta alegria, como se de facto o ano que se segue fosse constituído apenas de momentos kodak. E não é. Nunca é, por mais que mastiguemos as passas.
Há algo de bom no instante. Sempre achei que das melhores coisas que temos é a nossa capacidade de desejar, de querer, de aspirar, de querer trilhar caminhos. Especialmente se isso envolver os nossos amores, nas suas mais variadas dimensões, e a ideia de fazer alguma coisa mais com a nossa vida. E não me refiro a pragmatismos, ou pelo menos não exclusivamente.
No ano novo, e mesmo desde o advento do sms, aproveito para ver a dimensão daquilo e daqueles que me redeiam, fazer o necessário agradecimento pelas coisas que tenho, as pessoas que perdem algum do seu tempo a dar-me atenção, e o cliché da saúde, pois claro.
Mas há anos que não é uma noite especialmente boa para mim. Especialmente porque não se encontra local algum onde a música vá mais além da Ivete Sangalo (arghhh...) e toda a gente me parece imbuída de um desejo "espiralado" de bebedeira ou euforia, nem que tenha de vir à força.
Mas sei que há gente que gosta realmente, e que se diverte realmente, e para quem o instante de promessa de futuro lhes é caro, e para esses, espero que tenha sido a melhor data possível.
No fundo, é um instante onde damos um beijo aqueles que amamos, guardamo-los connosco ainda mais, e só por isso já vale a pena, julgo.

Bom 2008.

A todos.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Este álbum tem algumas faixas (covers) que são uma absoluta delícia...
Inesperado e belo. Que sorte ter dado com eles.
Robert Plant e Alison Krauss. Quem sabe nunca esquece...



Andava a mexer nos meus arquivos de música mais antigos, agora já todos (felizmente) agrupados num disco rigido portátil, maravilha das maravilhas, e dei com um dos meus guilty pleasures. Duas faixas dos Vertical Horizon, daquelas que tento perceber porque me ficaram e, pior do que não encontrar resposta, ouço as ditas canções e a coisa entra novamente. (O resto do album não se aguenta, mas aquelas duas... enfim)
E nem vos falo do Nick Kershaw, para a vergonha não ser completa...

quinta-feira, janeiro 03, 2008



E finalmente entrou em aplicação a legislação anti-tabaco. Finalmente!

Sim, bem sei que há muita gente que se indigna perante o que julgam ser uma restrição da sua liberdade pessoal, com argumentos que, por vezes, roçam o risível pela insustentabilidade dos mesmos.

Mas vamos lá ver.

Não existe liberdade pessoal quando o exercício dessa liberdade causa dano (comprovado) ou contraria a liberdade do concidadão. Por mais voltas que se possam dar, como é que se justifica que uma pessoa não fumadora tenha de levar com as baforadas dos fumadores, que, na sua grande maioria, se estão borrifando para os efeitos da sua prática no ar dos que estão próximos.

Alguns atalham imediatamente com a expressão da vontade, ou seja, se não quiser, não vou ao restaurante, ao bar, à discoteca.

Esse argumento é fraquinho por vários motivos.

Em primeiro lugar, porque as pessoas que trabalham nesses locais não estão lá "porque querem", ou será que a condição de não fumador deveria ser, na opinião dos fumadores convictos, elemento de restrição no acesso à profissão? Deveria mesmo depender da vontade dos trabalhadores empregados nesses locais o facto de escolherem tal posto de trabalho, dependento essa opção da suportabilidade do tabaco? Bem, isso seria mesma coisa que dizer a um trabalhador da construção civil que opera um martelo pneumático que só obteria o emprego se abdicasse dos tampões dos ouvidos, ou dizer aos mineiros que a ventilação eficaz dos poços das minas é opcional, porque afinal só lá vai quem quer. O que, claramente, é um absoluto disparate.

Em segundo lugar, só vai ao restaurante quem quer? Portanto, o facto de eu respirar ou querer respirar decentemente no local onde como é um cercear da liberdade dos que querem encher o local de fumo incomodativo e mal-cheiroso? Que diriam os senhores fumadores, enquanto empestam o ar e lêem o seu jornal em paz, se eu levasse um daqueles rádios (vulgo tijolo), e pusesse a tocar uma boa rajada de Metallica ou Rob Zombie, com o som no máximo, enquanto descansadamente degusto o meu sumo de laranja? Provavelmente davam-me com o tijolo na cabeça, ou saiam. E seria justo afastar a pessoa do local onde gosta de estar, só porque um idiota qualquer resolver perturbar o espaço contíguo com algo manifestamente incomodativo e nocivo à saude? (pulmões num caso, timpanos no outro). Pois é...

A verdade é que os fumadores passivos têm direito a essa protecção, especialmente aqueles que "não têm opção" quanto ao facto de frequentarem esses locais. A extensão da aplicabilidade da lei ao espaço publico fechado por natureza é apenas uma manifestação de respeito pela integridade física do próximo.

Se o civismo fosse uma nota dominante no comportamento dos fumadores, talvez a legislação fosse menos restritiva, porque alguém teria o bom senso e educação de tentar fumar menos ou ter mais cuidado com os que não fumam nos locais públicos. Mas como a maioria se está a cagar, a coisa enrijeceu. É a história da fundamentação coerciva na estatuição das normas quando a educação não produz resultados.

Aceito que, se um local tiver a adequada capacidade de extracção, que existam zonas de fumadores, mas a verdade é que a realidade dos espaços públicos não é essa. Até locais bem arejados, com sistemas de ventilação decentes sabem que colocar uma zona fumador e não fumador implica uma fronteira inexequível no que diz respeito à organização do espaço, logo optaram por ser "locais não fumadores". Se alterarem e o sistema de extracção for eficaz, não serei eu a contestar. Desde que não perturbem o próximo não fumador, be my guest and nail all the coffin's nails your little heart desires.

E o alarido vai passar, por várias razões. Fuma-se no cinema? Em exposições? No teatro? Nos transportes? Não. E os fumadores deixaram de lá ir? Não. Não nego que custe a um fumador não poder exercer o seu prazer (não entendo o conceito de vícios não prazenteiros, excepto as dependências profundas, e mesmo essas, como dizia o Irvine Welsh, é porque em algum momento são mesmo muito boas), mas este não deve sobrepor-se ao que é um molestar do bem estar de cariz físico. Não se trata de diferendos de opinião, mas sim a consequências e incómodo físico.

Quem me conhece sabe que se há coisa que me repugna é qualquer cercear moralista ou inexplicável às liberdades cívicas e pessoais, assentes no consentimento do próprio e desde que isso não ponha em cheque a integridade (comprovada) dos outros. Por exemplo, acho idiota que se obrigue o motociclista a usar capacete. É a sua integridade pessoal. Se ele cair e rebentar as ventas, é uma decisão sua e que o afecta apenas a ele. Mas fumar não é um acto isolado, não pertence apenas à decisão ou livre arbítrio do fumador. Afecta outros, e como tal, não pode esconder-se debaixo da capa da liberdade pessoal, o que constitui um argumento, em meu ver, desonesto. A liberdade pessoal não pode interferir em coisas tão concretamente determináveis como o incómodo e danos à saúde (do outro) provocados pela porra do tabaco e afins.

A verdade é que o pesadelo de milhares de pessoas, que não podiam entrar num café pela manhã sem sairem de lá meio intoxicados, ou de profissionais diariamente maltratados por colegas "chaminés", ou de apreciadores de restaurantes que simplesmente não podia dar uma garfada sem que alguém começasse a queimar alcatrão, se não acabar, vai pelo menos abrandar.

E eu, pessoalmente, ex-asmático/bronquítico e actualmente alérgico, agradeço. E acho que muitos o farão também, pelo exercício de um direito há muito negado pela convencionalidade social de um acto que só diz respeito ao próprio, desde que, óbvia e comprovadamente, não prejudique ninguém.

quarta-feira, janeiro 02, 2008


(Atenção - Spoilers!!! Se ainda não viu o filme, evite ler o que se segue.)



Alguns amigos chamam-me, por vezes, não anti-americano, mas algo detractor do país do Tio Sam. E sim, não renego essa perspectiva, porque os EUA parecem-me, muitas vezes, uma espécie de potencialidade magnífica transformada numa simplificação primária, pela tentação da atenção ao invés da (boa) queda no conteúdo.


Fui ver I Am Legend, e tenho duas perspectivas perfeitamente antagónicas acerca do filme. Como fã incondicional da obra que lhe deu origem, reparo, com grande pena minha, que somente metade do espirito do livro foi seguido, o que impediu o filme, em meu ver, de ser um clássico.

A primeira parte do filme, até à morte de Sam, que foi dos momentos mais difíceis de cinema que vivi nos últimos tempos, é sublime.

Tiro o meu chapéu a Smith, pela interpretação absolutamente credível e comovente, mas sobretudo pelos olhos cansados e a expressão de solidão e leve insanidade que lhe emerge dos olhos. Mas agarro no mesmo chapéu e retiro-o novamente ao realizador, por uma primeira metade de filme assustadora, desolada e bela no seu retrato de vazio e desespero. As imagens de Nova Iorque vazia e em silêncio, especialmente para quem lá esteve, arrepiam a pele e aumentam a tensão. A relação de Smith com o seu vazio, o quotidiano, a comunicação com Sam, as recordações, tudo constitui um ensemble que me deixou absolutamente rendido à obra. Embora diferente do livro, o espirito essencial da viagem pelos meandros da solidão estava impecavelmente transposto.


Mas após a morte de Sam, a coisa descamba um bocado. Há CGI a mais e sombras e inquietação a menos. O livro de Matheson é um livro intimista, exploratório, dolorosamente sossegado, além de irónico e trágico. A ironia final é a cereja no topo do bolo, a qual inclusivamente dá origem àquele que ainda considero como o melhor título de sempre para um livro. O realizador dá uma volta na perspectiva do protagonista que se afasta completamente de Matheson, e fá-lo com barulho a mais, em meu ver.

Por isso, divido a obra em dois, e plagio uma frase que li de um crítico norte americano, na qual ele explana precisamente o que senti relativamente ao total da obra. A magnífica primeira parte não pode ser colocada em causa pelo discutível desenlace, o que acaba por, em meu ver, deixar o filme numa nota positiva que poderia ser de excelência, não fosse a tentação para o desperdício e o barulho excessivo de de uma certa ala americana de que falei acima. E estou à vontade para falar, porque grande parte dos meus autores e cineastas preferidos são americanos.


Mas é uma pena como a fina ironia da obra de Matheson se transforma numa história de martírio, onde deveria ser acerca da ideia de divindade.


Ainda assim, gostei muito do filme. Há momentos que me ficarão marcados, quer pela imagem, quer pelo sentimento que deles emerge. A desolação arrepia a pele. A relação de Neville com Sam tocou-me profundamente, e este último deveria receber um Óscar para melhor actor animal, se algum dia criarem essa categoria. Quem tiver lido o livro e se recordar da cena com o cão, talvez a coincidência de emoções que partem o coração em ambos os registos.


É pena a última meia hora, porque além do desperdício parece existir uma gritante falta de maozinhas para continuar a emissão da mensagem presente na excelente primeira parte, mas enfim,.

Fico ainda assim à espera de uma adaptação mais fidedigna da obra de Matheson, mas não desdenho esta de forma alguma.


I Am Legend acaba o ano numa nota positiva. Se isolarmos metade do filme, seria de excelência.