34.
Quando dito assim, de repente, parece algo maior e mais extenso que o Cretácio(*).
Recordo quando olhava para os polícias, em petiz, e dizia para quem quisesse ouvir que aquele tipo de uniforme deveria ter, sempre, em qualquer circunstância, pelo menos uns então impensáveis 30 anos. Hoje olho para alguns dos fardados e a puerilidade de alguns faz-me engolir em seco e rir em silêncio. Da minha desgraça, claro.
Uma amiga disse-me uma vez que a idade que tinha parecia encarcerar três tempos inteiros de vida. Não sei como se efectua essa medição, mas acho que a entendo um bocadito. Acho que tive o privilégio de ir vendo muitas coisas, de ir percebendo muitas realidades, de ir tomando consciência de perspectivas bem diferentes. Em suma, é tudo uma confusão do cacete, e um dia bom é aquele no qual conseguimos apagar a luz e achar que 30% do dia fez algum real sentido perante o plano pessoal.
Mas seria estúpido da minha parte dizer que parte substancial da piada não esteja aí.
Ou mais estúpido ainda não reconhecer que, apesar das dificuldades, incertezas, inseguranças, constant growing pains (não há nada mais imprudente que alguém achar que já cresceu para além do que a vida ainda lhe pode fazer), inadaptações, sou obrigado pela minha própria vontade a agradecer. Há gente que perde tanto do seu tempo e energia a dar-me muita coisa, a encaixar as minhas idiossincrasias, a rir dos meus disparates (e aí sim, um esforço digno de nota).
Os balanços parecem sempre ridículos, especialmente os meus. Talvez porque comparável á sua inevitabilidade, está a incapacidade de transmitir realmente aquilo que eles significam. Para mim, a capacidade e vontade de contar histórias. Se são boas ou não, sei lá. Teria de avaliar se a minha vida, que pinta essa capacidade e vontade a empirismo, poderá qualificar-se como boa ou má. E parece-me inaplicável tal conceito.
O que sei é que ainda ando a tentar perceber um pouco do que se passa. Mesmo após 34 anos, e pelo menos o que parecem ser dois periodos de vida, tal a sorte que tive em ver tantas coisas, mesmo talvez aquelas que são tão inúteis e desnecessárias para o desenvolvimenmto pessoal, ao contrário de crenças populares próprias de talk-shows manhosos. Vi demasiada gente magoar demasiada gente. E isso pesa sempre nos balanços, quando resolvemos olhar adiante e achar que até vamos chegar a qualquer lado.
Estou grato. Felizmente os meus pais incutiram-me isso, e estou realmente grato. Pelo amor que eles e outros poucos gatos pingados me vão teimosamente dando, por mais piroso que isto possa parecer. A verdade é assim, por vezes. Pirosa e incómoda e felizmente real. A espaços. Um Amor. Uma irmã. Uns poucos cúmplices das minhas pancadas.
Parabéns aos ditos. É por eles que me apetece festejar ou fazer qualquer balanço seja lá do que for. Vénia.
(*) 80 milhões de anos.
Banda Sonora - Aqui
12 comentários:
As far as I see it, you've made it past 33 ;-)
Have a great day and, if you can, enjoy the entire CD of Dave's concert in my mater city. :-) It will be a nice way to celebrate life. And, in fact, that's all one can do.
As kids would say these days, [ε>ks] [<∂><ð>] [ε>ks] [<∂><ð>]
;-)
vénia, com a nudez de palavras.
um beijo
Da maneira como falas... já tou na 3ª idade ! vira a tua idade ao contrário e já sabes a minha !
E agradeço à vida tudo o que tenho, agora e tudo o que me faltou antes, porque no momento presente tem muito mais sabor... para além do que algumas escolhas erradas (pensava eu) que tive no passado e que fizeram sofrer, agora sei que foram as correctas... sou um "Home" feliz !!
É engraçado a maneira como encaramos a idade ao longo das várias fazes da nossa vida...
Bando Sonora 5*
Não posso avaliar senão por aquilo que "vejo".
Mas pela vontade e inegável capacidade de contar histórias de que há tanto tempo sou testemunha silenciosa, acho que a amiga tem razão.
Intuo maturidade (e desencanto, claro, que tudo tem o seu reverso) para três ou mais ciclos de vida.
Mas há que dar graças pela lucidez, que é assim a modos que como um canivete suíço: dá sempre jeito ter à mão, mas incomoda como o caraças no bolso das calças.
Parabéns.
oh... Parabens Stephen :)
E' mais um ano que se avizinha, mais uma oportunidade para continuares a crescer. E mais um ano para crescermos com o que nos ensinas!
Beijinho
Desprendendo-me das palavras (que são bem fiéis àquilo que és e que procuras ser), deixa que te deixe um enorme abraço de aniversário. Daqueles que nos desarmam e nos deixam com um warm feeling cá por dentro.
Parabéns, meu caro!
Não tenho palavras. :)
Muitíssimo obrigado.
Por vezes é bom perceber que alguma coisa lá devo ir fazendo bem, ainda que a espaços. Nem que seja por uma compulsão diária traduzida no constante marretar das pobres teclas.
Sincero obrigado!
O programa segue dentro de momento :)
Muitos parabens SK! Felizmente para nos, alguma coisa fazes (escreves) bem, mais do que a espacos.
"Nasci no dia 29 de um mês frio..." e foi assim que aconteceu aquilo que alguns definem como o início de uma bela amizade.
A necessidade de nos definirmos no calendário é uma constante, e ainda que os balanços sejam algo ridículos, são necessários, para nos ajudar um bocadinho mais a entendermos quem somos. E todos deveríamos parar de quando em vez, certo?
As minhas sinceras desculpas por andar tão ausente, mas estes têm sido dias atarefados...
Espero que tenha sido um óptimo dia, sr dr.
:) Mil beijos
34... curioso, fazia-te mais velho, muito por causa da tua forma de escrever, que dá a entender muita experiência.
Mas a minha ideia reflecte bem o porquê de eu ter deixado de ligar aos anos. Que importa a idade que a natureza nos impõe? Importa sim a idade com que nos sentimos e, mais do que isso, a forma como encaramos a vida. E aí, espero ser uma eterna criança.
Um abraço, SK, e parabéns!
«Quando fui apresentada à sociedade tinha 15 anos, já sabia o papel ao qual estava
condenada,o de permanecer em silêncio, o de obedecer; dar-me-ia a chance
perfeita de ouvir e observar. Não o que me diziam, que nenhum interesse
tinha, mas o que as pessoas tentavam esconder. Pratiquei o distanciamento,
aprendi a ser alegre enquanto me espetava com o garfo debaixo da mesa.
Tornei-me uma virtuose do engodo. Não buscava o prazer, e sim o conhecimento.
Consultei um moralista, para saber como me comportar. Filósofos, para saber o
que pensar. E escritores, para saber do que ficar impune. Resume-se tudo a um
princípio maravilhosamente simples. Vencer ou morrer»
Beijos M. de ...
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