As dependências são, como qualquer outra idiossincrasia, uma característica que se evidencia pelo automatismo e facilidade com que toma conta do seu portador. E bem sei que a mais das vezes, e recordo sempre o Marquês de Valmont nisto, a ideia de controlo assenta na perspectiva mais ou menos realista da capacidade que se tem ou não de acalmar a consciência. No entanto, em meu ver, das dependências mais perniciosas que verifico hoje em dia, prende-se com a dependência de conforto. O conforto que assenta no plano, e o plano que por vezes leva um amante de Ferraris a fazer-se valer dos préstimos de um SAAB porque, afinal de contas, há que ir chgando a qualquer lado.
O conforto vicia porque em cada manifestação de vida exterior ao mesmo está um teste. O teste da ida, da finalidade, e sobretudo, do regresso.
Muitas pessoas verificam que existe um caminho, balizado pela sua convicção, ou pela noção de que há qualquer coisa a fazer, um patamar sequencial e repetitivo a seguir. O conforto é a gordura articular que permite esses movimentos que parecem inexoráveis, os quais criam o senso de objectivo atingido. Que diabo, em certos momentos, entrar em casa é a noção mais apaziguadora e segura que existe, e quando chove lá fora, o toque do calor é em si aparente missão de vida. O problema surge quando o sol aparece, quando as sombras que eram dúvidas são afinal objectos que de noite e promessa de respostas nada têm, e as decisões assemelham-se ao estrondo encarcerador deixado por uma ponte que acaba de ruir após a travessia.
A cantada do conforto é tão convincente que sugere a criação de coisas no vazio, faladas ao espelho como confissões rendidas à mais pura e material das verdades.
O conforto condiciona relacionamentos, escolhas, e a desejável inibição de uma úlcera. O conforto é uma dose maciça de Voltaren, bem vistas as coisas, e gera uma dependência selectiva, mas pavloviana. E diga-se em abono da justiça das coisas, que o status quo não trouxe vida fácil ás vacinas para todas estas coisas. O medo é debilitante, mas nem por isso é ilusório ou injustificado, e "as far as arguments go", é convincente ao ponto de instilar uma dúvida. E a dúvida é como uma coceira. A certa altura torna-se insuportável, e o conforto das unhas parece ser tudo.
O resto depois é de fácil implementação, e por isso mesmo, perigoso. Afinal, a mudez forçada das vozes internas é uma forma de apodrecimento da personalidade. Exactamente como uma dependência fará, ao fim de algum tempo. A morte não pressupõe necessariamente o fim de funções orgânicas, mas apenas o fim da percepção da alternâcia entre estados de consciência.
Lili, estás enganada!
No conforto, estar vivo pode é ser o mesmo que estar morto.
1 comentário:
À medida que vou envelhecendo, tenho dado cada vez mais importância ao conforto. Não sei se isto é bom ou mau.
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