
(Atenção - Spoilers!!! Se ainda não viu o filme, evite ler o que se segue.)
Alguns amigos chamam-me, por vezes, não anti-americano, mas algo detractor do país do Tio Sam. E sim, não renego essa perspectiva, porque os EUA parecem-me, muitas vezes, uma espécie de potencialidade magnífica transformada numa simplificação primária, pela tentação da atenção ao invés da (boa) queda no conteúdo.
Fui ver I Am Legend, e tenho duas perspectivas perfeitamente antagónicas acerca do filme. Como fã incondicional da obra que lhe deu origem, reparo, com grande pena minha, que somente metade do espirito do livro foi seguido, o que impediu o filme, em meu ver, de ser um clássico.
A primeira parte do filme, até à morte de Sam, que foi dos momentos mais difíceis de cinema que vivi nos últimos tempos, é sublime.
Tiro o meu chapéu a Smith, pela interpretação absolutamente credível e comovente, mas sobretudo pelos olhos cansados e a expressão de solidão e leve insanidade que lhe emerge dos olhos. Mas agarro no mesmo chapéu e retiro-o novamente ao realizador, por uma primeira metade de filme assustadora, desolada e bela no seu retrato de vazio e desespero. As imagens de Nova Iorque vazia e em silêncio, especialmente para quem lá esteve, arrepiam a pele e aumentam a tensão. A relação de Smith com o seu vazio, o quotidiano, a comunicação com Sam, as recordações, tudo constitui um ensemble que me deixou absolutamente rendido à obra. Embora diferente do livro, o espirito essencial da viagem pelos meandros da solidão estava impecavelmente transposto.
Mas após a morte de Sam, a coisa descamba um bocado. Há CGI a mais e sombras e inquietação a menos. O livro de Matheson é um livro intimista, exploratório, dolorosamente sossegado, além de irónico e trágico. A ironia final é a cereja no topo do bolo, a qual inclusivamente dá origem àquele que ainda considero como o melhor título de sempre para um livro. O realizador dá uma volta na perspectiva do protagonista que se afasta completamente de Matheson, e fá-lo com barulho a mais, em meu ver.
Por isso, divido a obra em dois, e plagio uma frase que li de um crítico norte americano, na qual ele explana precisamente o que senti relativamente ao total da obra. A magnífica primeira parte não pode ser colocada em causa pelo discutível desenlace, o que acaba por, em meu ver, deixar o filme numa nota positiva que poderia ser de excelência, não fosse a tentação para o desperdício e o barulho excessivo de de uma certa ala americana de que falei acima. E estou à vontade para falar, porque grande parte dos meus autores e cineastas preferidos são americanos.
Mas é uma pena como a fina ironia da obra de Matheson se transforma numa história de martírio, onde deveria ser acerca da ideia de divindade.
Ainda assim, gostei muito do filme. Há momentos que me ficarão marcados, quer pela imagem, quer pelo sentimento que deles emerge. A desolação arrepia a pele. A relação de Neville com Sam tocou-me profundamente, e este último deveria receber um Óscar para melhor actor animal, se algum dia criarem essa categoria. Quem tiver lido o livro e se recordar da cena com o cão, talvez a coincidência de emoções que partem o coração em ambos os registos.
É pena a última meia hora, porque além do desperdício parece existir uma gritante falta de maozinhas para continuar a emissão da mensagem presente na excelente primeira parte, mas enfim,.
Fico ainda assim à espera de uma adaptação mais fidedigna da obra de Matheson, mas não desdenho esta de forma alguma.
I Am Legend acaba o ano numa nota positiva. Se isolarmos metade do filme, seria de excelência.
1 comentário:
Vou ver o filme neste FDS e fiquei com imensa vontade de ler o livro. Como sempre, deve ser bem superior ao filme. Um abraço!
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