
E finalmente entrou em aplicação a legislação anti-tabaco. Finalmente!
Sim, bem sei que há muita gente que se indigna perante o que julgam ser uma restrição da sua liberdade pessoal, com argumentos que, por vezes, roçam o risível pela insustentabilidade dos mesmos.
Mas vamos lá ver.
Não existe liberdade pessoal quando o exercício dessa liberdade causa dano (comprovado) ou contraria a liberdade do concidadão. Por mais voltas que se possam dar, como é que se justifica que uma pessoa não fumadora tenha de levar com as baforadas dos fumadores, que, na sua grande maioria, se estão borrifando para os efeitos da sua prática no ar dos que estão próximos.
Alguns atalham imediatamente com a expressão da vontade, ou seja, se não quiser, não vou ao restaurante, ao bar, à discoteca.
Esse argumento é fraquinho por vários motivos.
Em primeiro lugar, porque as pessoas que trabalham nesses locais não estão lá "porque querem", ou será que a condição de não fumador deveria ser, na opinião dos fumadores convictos, elemento de restrição no acesso à profissão? Deveria mesmo depender da vontade dos trabalhadores empregados nesses locais o facto de escolherem tal posto de trabalho, dependento essa opção da suportabilidade do tabaco? Bem, isso seria mesma coisa que dizer a um trabalhador da construção civil que opera um martelo pneumático que só obteria o emprego se abdicasse dos tampões dos ouvidos, ou dizer aos mineiros que a ventilação eficaz dos poços das minas é opcional, porque afinal só lá vai quem quer. O que, claramente, é um absoluto disparate.
Em segundo lugar, só vai ao restaurante quem quer? Portanto, o facto de eu respirar ou querer respirar decentemente no local onde como é um cercear da liberdade dos que querem encher o local de fumo incomodativo e mal-cheiroso? Que diriam os senhores fumadores, enquanto empestam o ar e lêem o seu jornal em paz, se eu levasse um daqueles rádios (vulgo tijolo), e pusesse a tocar uma boa rajada de Metallica ou Rob Zombie, com o som no máximo, enquanto descansadamente degusto o meu sumo de laranja? Provavelmente davam-me com o tijolo na cabeça, ou saiam. E seria justo afastar a pessoa do local onde gosta de estar, só porque um idiota qualquer resolver perturbar o espaço contíguo com algo manifestamente incomodativo e nocivo à saude? (pulmões num caso, timpanos no outro). Pois é...
A verdade é que os fumadores passivos têm direito a essa protecção, especialmente aqueles que "não têm opção" quanto ao facto de frequentarem esses locais. A extensão da aplicabilidade da lei ao espaço publico fechado por natureza é apenas uma manifestação de respeito pela integridade física do próximo.
Se o civismo fosse uma nota dominante no comportamento dos fumadores, talvez a legislação fosse menos restritiva, porque alguém teria o bom senso e educação de tentar fumar menos ou ter mais cuidado com os que não fumam nos locais públicos. Mas como a maioria se está a cagar, a coisa enrijeceu. É a história da fundamentação coerciva na estatuição das normas quando a educação não produz resultados.
Aceito que, se um local tiver a adequada capacidade de extracção, que existam zonas de fumadores, mas a verdade é que a realidade dos espaços públicos não é essa. Até locais bem arejados, com sistemas de ventilação decentes sabem que colocar uma zona fumador e não fumador implica uma fronteira inexequível no que diz respeito à organização do espaço, logo optaram por ser "locais não fumadores". Se alterarem e o sistema de extracção for eficaz, não serei eu a contestar. Desde que não perturbem o próximo não fumador, be my guest and nail all the coffin's nails your little heart desires.
E o alarido vai passar, por várias razões. Fuma-se no cinema? Em exposições? No teatro? Nos transportes? Não. E os fumadores deixaram de lá ir? Não. Não nego que custe a um fumador não poder exercer o seu prazer (não entendo o conceito de vícios não prazenteiros, excepto as dependências profundas, e mesmo essas, como dizia o Irvine Welsh, é porque em algum momento são mesmo muito boas), mas este não deve sobrepor-se ao que é um molestar do bem estar de cariz físico. Não se trata de diferendos de opinião, mas sim a consequências e incómodo físico.
Quem me conhece sabe que se há coisa que me repugna é qualquer cercear moralista ou inexplicável às liberdades cívicas e pessoais, assentes no consentimento do próprio e desde que isso não ponha em cheque a integridade (comprovada) dos outros. Por exemplo, acho idiota que se obrigue o motociclista a usar capacete. É a sua integridade pessoal. Se ele cair e rebentar as ventas, é uma decisão sua e que o afecta apenas a ele. Mas fumar não é um acto isolado, não pertence apenas à decisão ou livre arbítrio do fumador. Afecta outros, e como tal, não pode esconder-se debaixo da capa da liberdade pessoal, o que constitui um argumento, em meu ver, desonesto. A liberdade pessoal não pode interferir em coisas tão concretamente determináveis como o incómodo e danos à saúde (do outro) provocados pela porra do tabaco e afins.
A verdade é que o pesadelo de milhares de pessoas, que não podiam entrar num café pela manhã sem sairem de lá meio intoxicados, ou de profissionais diariamente maltratados por colegas "chaminés", ou de apreciadores de restaurantes que simplesmente não podia dar uma garfada sem que alguém começasse a queimar alcatrão, se não acabar, vai pelo menos abrandar.
E eu, pessoalmente, ex-asmático/bronquítico e actualmente alérgico, agradeço. E acho que muitos o farão também, pelo exercício de um direito há muito negado pela convencionalidade social de um acto que só diz respeito ao próprio, desde que, óbvia e comprovadamente, não prejudique ninguém.
8 comentários:
Estou em Chicago ha quase 4 meses e ate agora so encontrei duas (sim, DUAS) pessoa a fumar na rua.
E o cheiro a fumo de cigarro lembrou-me Lisboa :) Hehe
Também me chateiam profundamente certos argumentos contra esta lei da proibição do tabaco como: "os carros também exalam gases que são prejudiciais à saúde e não é por isso que os proibem!". São argumentos que nada têm a ver com o tema, mas há quem os use. Eu adorava que esta lei fosse respeitada, imaginar sair à noite e vir de lá sem aquele cheiro entranhado até parece mentira, uma mentira bem agradável!
Pois. Claro que ninguém deve ser prejudicado pelo fumo dos outros, mas acho obscena a nova legislação sobre o tabaco.
O meu Amigo Stephen King e os dois comentadores de cima deveriam compreender que leis como esta, por mais justificadas que sejam as suas intenções, representam sempre uma limitação às liberdades individuais. Por isso, a sua aplicação deve ser rodeada das maiores cautelas, designadamente no que respeita à sua necessidade e proporcionalidade.
Não acho que a nova lei seja adequada ou razoável. É irrazoável, porque comina sanções absurdas e desproporcionadas: num país de pobres em que a maioria das pessoas ganha menos de 500 euros, prevêem-se multas por acender um cigarro que podem ascender aos 750 euros! E é ineficiente, porque não protege nenhum não fumador: ninguém vai deixar de fumar por causa de uma multa, tal como ninguém deixou de fumar por causa dos impostos exorbitantes sobre o tabaco.
O único verdadeiro ganhador é o Estado português, que aproveita para arrecadar mais uns milhões com o pretexto da saudinha dos cidadãos.
O que virá a seguir na lista de proibições higiénicas: a carne vermelha, o pastel de nata e a fruta cristalizada? (Ui, a obesidade, que medo!)
Eu concordo contigo mas há sempre um mas e não é por ser fumadora... actualmente garanto-te que tenho os meus pulmões mais limpos que os teus, até porque fumo um cigarro por dia. E o meu "mas" será com um post que te deixará de sorriso nos lábios. Obviamente as Leis são para ser cumpridas e eu sou partidária disso mesmo. Até concordo com a Lei e etc, mas há o tal "mas".
De resto, vou começar a peidar-me nesses restaurantes e quero ver se inventam uma Lei que me proiba de tal. E olha que um peido meu pode bem incomodar muito mais que o cheiro do meu cigarro.
:D
Caríssimos Flávio e Ana:
De forma sintéctica, qualquer fundamentalismo é, por natureza, exagerado. Mas a verdade é que em termos de tabagismo involuntário, coisa de que padeci inúmeras vezes em inúmeros locais, a educação de nada serviu, e a liberdade pessoal termina precisamente quando o dano sobre o outro é claro e verificável. A maioria das pessoas que fumam está-se borrifando se a atmosfera seria ou não respirável. E como tal, estatuiu-se onde a sugestão de nada serviu.
Como aconteceria com a flatulência :), mas nunca com a obesidade, porque aí e um risco do próprio,não afectando os outros directamente no instante da sua prática. É a razão pela qual sou, por exemplo, a favor da despenalização das drogas leves, e a retirada da obrigatoriedade do capacete para os motoqueiros (excepto crianças). Tem a ver com a autodeterminação, e aqui Flávio, entenderás muito bem, com a protecção ou disponibilização do bem jurídico que só o próprio pode fazer, ou seja, vida e integridade física. É por isso que o suicídio ou a auto-agressão não são puníveis :)
Ainda no outro dia estive num local para fumadores, mas com extracção eficiente, e garanto-vos que os fumadores fumaram, e os não fumadores não sofreram. Porque não assim? Agora entrar na pastelaria de manhã e não poder respirar, como acontecia, tenham pachorra.
Abraços a todos e obrigado pelas intervenções :)
A extracção sempre foi possível em certos locais e sim, é eficiente, mas custa uns bons 4000 contos.
Carote.
Pois olha deixei-te a minha opinião aí em cima :)
Obviamente que a questão de flatulência era a brincar.
:D
Ah, e outra coisa: sou fumadora, mas juro-te que me incomoda o fumo dos outros!
Da última vez que estive no Noites Longas, uma discoteca um pouco underground de Coimbra, saí de lá como nunca antes na minha vida, com a garganta a rebentar de fumo e nem um cigarro lá fumei.
(Sou fumadora de 1 cigarro por dia e hoje em dia, já nem isso ;) people change!, mas não me estou a ver naquele grupinho de secas dos ex-fumadores, esses sim, os verdadeiros fundamentalistas da coisa!)
Enviar um comentário