ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Disclaimer: Não sou um aficcionado por miúdos. E quanto mais vejo, menos me convence. Considerandos feitos...
Qual será a razão para uma espécie de tolerância dos adultos para a simplicidade das crueldades entre as criancinhas e pré-adolescentes? Porque será que aquelas coisas "próprias dos miúdos", como ouço, deverão passar ser uma qualquer achega por parte de quem observa.
Há quem diga que as crianças são isto e aquilo, mas já observaram de perto um grupo de miúdos deixados a brincar à solta, por exemplo, num parque infantil? Eu já fiz esse exercício, e sinceramente, fico sem pinga se sangue perante aquilo que vejo. E adicionada a esta percepção está um facto que me surge como irónico e até mesmo triste. As crianças que acho encantadoras, porque a sua necessária infantilidade não lhe dá para a petulância insuportável, mas para uma espécie de aceitação sem filtro do que o mundo lhe traz, traduzida em generosidade e alegria não possessiva, são simplesmente esmagados ou ostracizados como os idiotas ou cândidos da pandilha. Dir-me-ão que isso é normal. Tudo bem, mas lá porque é normal não tenho de achar piada, sinceramente. E não é por vir de miúdos que acho "giro", ou "uma gracinha". Pelo contrário. Há algo naquela ideia de que a infantilidade lhes garante certa impunidade que não me encanta, nem me derrete. Pelo contrário. Aumenta-me o pessimismo, e eu não preciso de mais veículos para aumentar essa minha parcela de interpretação do mundo onde vivo.
A verdade é que ao ver crianças a brincar entre si, ou adolescentes mais jovens a organizar-se, vejo mini-sociedades de regras por vezes implacáveis. E se isso não pode ser evitado pelos próprios, como é "natural", a complacência dos adultos que o observam, e pior ainda, os sorrisos derretidos ou despreocupados ao verificá-lo, deixam-me algo perplexo. Especialmente quem ensina aos miudos que a lógica é nunca ficar por baixo, não importa ao que tenha de se recorrer. A ideia é ser sempre melhor que os outros, e não melhor com eles. E acho que disso os miúdos já têm de sobra, não necessitando assim de reforço "positivo" na matéria.
Olhando para as realidades de hoje na lógica da pedagogia, e ouvindo os verdadeiros relatos de horror acerca do que se passa nas salas de aula, onde o próprio sistema alimenta a lógica da impunidade, mascarando-a de inclusão. E o que se passa nas casas então... medo...
Caraças, mas porque é que não fui eu a escrever isto?

Concordância em género, número e grau.
Excelente...
Porque ouço as palavras tristes da minha menina e alguns bons amigos professores, após dias e dias de confronto com os selvagens, e com as atitudes do establishment, não posso senão transcrever e subscrever aquilo que parece uma transferência de responsabilidade absoluta, quando deveria ser uma responsabilização conjunta. A escola não pode substituir a formação em casa, a formação dos modelos familiares. Por mais que tente, por mais que esta ideia idiota da pedagogia "não traumatizante" ganhe adeptos. Estes gajos deveriam ler Golding, e a coisa seria muito mais clara.
Pela enésima vez, encorajamento e pedagogia não excluem disciplina legimitada. Aprender a dar valor ao que se tem e principalmente ao que se conquista pouparia muitos problemas...
Que tristeza de país, este que por vezes temos...
MANIFESTO
Os professores estão a atravessar o momento mais negro da sua vida profissional desde o 25 de Abril. Com um pacote legislativo concebido em sucessivas fases, começando pelo novo Estatuto da Carreira Docente e culminando com o novo modelo de gestão escolar, passando pelo Decreto Regulamentar da avaliação de desempenho, a actual equipa do Ministério da Educação desferiu um golpe profundo na imagem social dos professores, na sua identidade enquanto grupo profissional e nas condições materiais e simbólicas necessárias para que os mesmos se empenhem na qualidade do ensino. A um sentimento de enorme frustração soma-se hoje a insegurança quanto ao futuro profissional, uma insegurança decorrente de todos os mecanismos de fragilização da carreira e de instabilidade de emprego que o governo actual tem vindo a introduzir.Torna-se agora cada vez mais evidente que os professores deste país foram as cobaias de um ataque aos direitos laborais, segundo uma receita de efeitos garantidos: uma campanha inicial de difamação orquestrada com a cumplicidade de uma comunicação social subserviente, que visou justificar, no plano retórico e propagandístico, a redução sistemática de direitos no plano jurídico. Hoje é também óbvio que este programa teve como objectivo essencial a quebra do estatuto salarial dos professores, que passaram a trabalhar mais pelo mesmo dinheiro, que viram a progressão na carreira arbitrariamente interrompida, e que foram, desse modo, uma das principais fontes drenadas pelo governo para satisfazer a sua obsessão de combate ao défice.Hostilizados por uma opinião pública intoxicada e impreparada para reconhecer aos docentes a relevância da sua profissão, desprovidos dos meios legais e materiais que lhes permitiriam dignificar o seu trabalho, é com fatalismo, entremeado por uma revolta surda, que os professores deste país encaram hoje o futuro mais próximo. Muitos consideram o Estatuto da Carreira Docente como um facto consumado, procurando adaptar-se-lhe o melhor possível. No entanto, as piores consequências desse Estatuto só agora começarão a revelar-se, e há sinais de que a ofensiva do governo contra os professores e contra a escola pública não chegou ainda ao fim:· Este ano vai ter início o processo de avaliação do desempenho, pautado pela burocratização extrema, por critérios arbitrários e insuficientemente justificados que poderão abrir a porta para acentuar o clima de divisão e a quebra de solidariedade entre os professores, para «ajustes de contas» adiados, para a perseguição aos profissionais que se desviem da ideologia pedagógica dominante, para a subordinação dos resultados dos alunos à demagogia ministerial do sucesso escolar compulsivo.· O governo prepara-se para aprovar, sem discussão pública que mereça esse nome, um novo modelo de gestão escolar que se traduz pela redução ainda maior da democracia nos estabelecimentos de ensino, já antecipada ao nível do Estatuto da Carreira Docente, pela diminuição drástica da influência dos professores, atirados para uma posição subalterna nos órgãos directivos, pela sua subordinação a instâncias externas, muitas vezes movidas por interesses opostos ao rigor e à exigência do processo educativo.· Finalmente, o governo tem também a intenção de suprimir as nomeações definitivas para a grande maioria dos funcionários públicos, iniciativa que terá particular incidência numa classe docente cuja garantia de emprego já está, em muitos casos, consideravelmente ameaçada.Tudo isto deveria impor, desde já, a mobilização dos professores e o abandono de uma postura de resignação. Não há processos legislativos irreversíveis. Por outro lado, não podemos esperar por uma simples mudança de ciclo eleitoral ou de legislatura para que o ataque à nossa condição profissional seja invertido. Ninguém, a não sermos nós, poderá lutar pelos nossos direitos.Por tudo isto, e para contrariar a atitude cabisbaixa que impera entre a classe docente, consideramos importante lançar um conjunto de iniciativas, algumas delas faseadas, outras que poderão ser desenvolvidas em paralelo. Assim, propomos:- apoiar o movimento, que começa a surgir na blogosfera dedicada à nossa profissão, no sentido de se alargar o prazo de discussão do novo modelo de gestão escolar, e organizar nas escolas espaços de debate desse projecto-lei, tendo o cuidado de o situar no quadro mais geral dos constrangimentos legislativos a que hoje se encontra sujeita a nossa actividade profissional;- promover, nas diferentes escolas e nos agrupamentos de escolas, a discussão sobre as condições de aplicação do Decreto que regulamenta a avaliação de desempenho dos professores, tendo em conta a necessidade de se fixar critérios mínimos de rigor e de justiça nessa avaliação, e considerando que, se a avaliação dos alunos tem sido objecto de muita elucubração teórica, as escolas se preparam para avaliar os docentes sem ponderarem devidamente as dificuldades científicas e deontológicas que semelhante processo suscita;- encetar um processo de contestação do Estatuto da Carreira Docente nos tribunais portugueses e nas instâncias judiciais europeias, considerando que esse diploma atinge direitos que não são simplesmente corporativos, mas que constituem a base mínima da dignificação de qualquer actividade profissional.- pressionar os sindicatos para que estes retomem os canais de comunicação com os professores e efectuem um trabalho de proximidade junto destes, o qual passa pela deslocação regular dos seus representantes às escolas a fim de auscultar directamente os professores e de discutir com eles as iniciativas a desenvolver;- contactar jornalistas e opinion-makers que, em diferentes órgãos de comunicação, tenham mostrado compreensão pelas razões do descontentamento dos professores e apreensão perante o rumo do sistema de ensino em Portugal, no intuito de os incentivar a prosseguirem com a linha crítica das suas intervenções e de lhes fornecer informação sobre o que se passa nas escolas;- propor políticas educativas que se possam constituir em defesa de uma escola pública de qualidade, que não seja encarada como simples depósito de crianças e de adolescentes e como fábrica de «sucesso escolar» estatístico, políticas capazes de fornecer alternativas para as orientações globais do Ministério da Educação e para as reformas mais gravosas que o mesmo introduziu na nossa profissão.Se concordas com o MANIFESTO divulga-o o mais possível.
Para mais informações usa o seguinte e-mail
João Paulo Soares
Matosinhos - Portugal

quinta-feira, fevereiro 28, 2008



Foto by YU



A Mão que indica o Pólo Sul


Como qualquer forma de acrimónia que anda de mãos dadas com o magnetismo, o sexo gera muitos subtemas, que em bom rigor, servirão em muitos casos para extrapolar a discussão para os (des) entendimentos. E entre géneros, eles são fartos.
A propósito de uma conversa em corrente de mail, a qual, lamentavelmente, até deu pouco feedback para o que se estaria à espera, falava-se do empurrão """"subtil"""" do homem à cabeça mais ou menos arisca da moça que partilhe nudez e fluidos com eles em dada ocasião.
Falava-se, como já se falou tantas vezes, da relutância em sentir a mão "condutora", e a lógica de escolha e à-vontade que daí advém.
Bem, até aí, é pacífico. A malta faz o que quer, como quer, e a consensualidade lá vai ditando os compassos ritmados do tango. No entanto, a verdade é que há uma lógica neste tipo de observação que faz alguma espécie. E faz espécie porque parece direccionada ao homem, ao ser masculino que supostamente parece querer exercer alguma pressão pouco sofisticada neste momento. Os comentários que se suguem caminham no trilho da generalização supostamente divertida dos pensamentos com a "cabeça de baixo" e a pouca sofisticação da sexualidade masculina, e blá, blá, blá.
Esta lógica não só é uma treta generalizante, e como tal, torta à nascença, como acaba por ter dois gumes. A verdade é que as queixas acerca da falta de iniciativa oral por parte dos homens reverberam por todo o lado, mas raras são as corajosas (na minha experiência pessoal) que relatam qualquer episódio de "condução da cabeça" do parceiro, optando por queixas silenciosas ou testemunhos que ficam bem em talk-shows acerca da adaptabilidade no seio de uma troca, seja ela mais ou menos plena de envolvência emocional.

Qual é o problema aqui?

Simples.

Em primeiro lugar, qualquer movimento condicionador da iniciativa leva a perguntas desconfortáveis. Se nos primeiros passos de descobrimento do outro isso se pode justificar, (se bem que a iniciativa na lógica do vale tudo menos tirar olhos pode aniquilar essa coisa do cuidado...) quando está estabelecido, e por sorte, conjugada uma série de vontades e rituais, a chatice da falta de iniciativa só é superada pelos gestos condicionadores dessa mesma inércia. E atenção que não estou a falar de gestos rituais onde as pessoas gostam de brincar mais a bruta, fingindo que são obrigadas a fazer alguma coisa. Falo do gesto porque a pessoa que supostamente deveria receber essa dádiva já entendeu, de alguma forma, que a coisa não vai lá sem lembrete. E pior que isso, só emitir mesmo o lembrete, seja por palavra ou trejeito.

Em segundo lugar, a verdade é que se a queixa feminina existe quanto a inércia idêntica, é porque se reconhece que a falta de iniciativa chateia, talvez até mais do que o toque do sino a lembrar que é hora de descer uns quantos meridianos no corpo. E se há esse reconhecimento, então o que será pior? A mão na cabeça, ou o queixume silencioso quanto à ausência daquilo que deveria surgir sem ter de se pedir? Aliás, a iniciativa é tão importante, que um dos gozos magistrais é precisamente a competição divertida e saudável, expressa no "agora sou eu.. não não, sou eu, não desculpa, mas sou eu..." e por aí fora.

Isto leva também a reflectir sobre aquela dualidade entre a suposta e constante predisposição masculina, que é o Matusalém das falácias, face à má reacção feminina perante a ausência de tal apetite ininterrupto, quando as moças estão dispostas. A verdade é que a ideia de sofisticação no sexo prende-se com os mecanismos que criam a ansiedade e vontade associada, a vulga "pica", e não nos actos propriamente ditos. Achar que duas pessoas podem foder como se bailassem no palco do São Carlos é, em meu ver, uma visão distorcida da perda de controlo que tanta falta faz à saúde intrínseca de qualquer relação sexual. Parece performance e concentração, quando o que se quer é escorregar sem conseguir reganhar equilíbrio.

Claro está, e salvo melhor opinião, cada um gostará do que gosta, o que leva a concluir algo muito simples. São as empatias que marcam o passo. E se a coisa necessita recorrentemente da mão na nuca ou do queixume da inércia feito piada sexista, então a empatia padece de um grave estado de saúde. A mão na cabeça ou a sugestão verbal, se recorrente, significa algo mais que a simples condenação de um gesto. Sinceramente, até acho que aquilo que chateará muitas mulheres que o sintam talvez seja o facto de terem de ser lembradas, e não o gesto em si. É talvez no facto de ser exposto o seu "esquecimento" que reside o desagrado. Ninguém gosta de lembranças acerca dos seus esquecimentos intencionais. Especialmente na comunicação não verbal deste calibre, que salvo novidades absolutas, deveria ser precedida de todas as pistas.

E na cama, julgo eu, quanto mais acções, melhor. Quer na descoberta, quer na alternância, quando a primeira está mais ou menos feita.


Mas isto digo eu, claro...





quarta-feira, fevereiro 27, 2008

As impressões acerca de momentos iniciáticos são, em primeiro lugar, geralmente muito mais comedidas que as expectativas que as precedem. A realidade das coisas e das personalidades têm-mo mostrado na esmagadora maioria das ocasiões. A imaginação que nos pertence precede a concretização de pormenores e incide sobre a realização do que é efectivamente característico. Temos a tendência para anotar aquilo que não correu bem, que deveria ser esperado embora ainda sem morfologia aplicável, e no entanto, nunca conseguimos deixar de nos sentir algo desiludidos, não obstante a inevitável e adivinhável consequência.
Feita a devida justiça, existem determinadas coisas que constituem um reforço do nosso esquema de segurança. Aquilo que é anseio, mas que não bebe da vasilha da realidade, não prova do sabor do realmente inesperado, se calhar por um amor doentio da verdade por si mesma.



Pode ser meio pateta, mas o que é que querem... Choro a rir com isto...
Causa uma estranha sensação de inquietação vislumbrar algumas pessoas emersas nos modos brandos e tímidos, e ainda assim observar uma realidade diferente nos olhos, aparentemente demasiado conscientes, demasiado vivos para quem deseja tanto passar ao lado de tudo.


Os Modernos e os Receosos.
A palavra delírio vem do latim e significa "sair do trilho...
Dixit...
"Ela – Conheces uma fotógrafa chamada Renee Cox? Ou James W. Bailey?
Ele – Nem por isso. Sou admirador do Sebastião Salgado, conheço a foto que toda a gente conhece do Steve McCurry, mas o meu conhecimento em fotografia fica por aí.
Ela – São muito bons. Mas estes são fotógrafos mais complicados. Mais polémicos. Um deles, a Cox, retratou a ultima ceia substituindo Cristo por uma mulher negra nua.
Ele – Estou a ver que a coisa não pode ter ficado pacífica.
Ela – E vês bem. A senhora tem uma ala própria, de acesso restrito num dos museus onde tem trabalho exposto permanentemente. Parece que a correspondência de ódio e ameaças não pára. Até o presidente da câmara de Nova Iorque ameaçou interditar o trabalho dela.
Incrível, não achas?
Ele – E suponho que tu tenhas o mesmo estilo de trabalho.
Ela – Exacto. Recordas-te ou viste o “Intimidade”?
Ele – O filme?
Ela – Sim. Sabes de certeza qual é. Aquele em que a protagonista, a Kerry Fox, faz sexo
oral real ao colega de cena?

Ele – Ah, sim, já sei. Pois… ouvi falar qualquer coisa acerca disso.
Ela – Foram feitas muitas entrevistas. Os tablóides ingleses começaram a tocar a corneta
e as histórias começaram a vir ao de cima. Há uma entrevista do Linklater… o namorado… a um jornal inglês, onde o tipo tenta explicar como é que se lida com a mulher a ter sexo real à frente das câmaras.
E conta uns episódios engraçados.
Sabes o que é que ela disse ao namorado, quando ele lhe perguntou porque é que ela
queria arriscar-se a fazer o tipo de cenas de sexo que o realizador lhe pediu para retratar no filme?

Ele – Não faço ideia…
Ela – Porque, como actriz e mesmo cinéfila, nunca fizera aquilo antes. Espero que a ti te explique muita coisa.
Ele – Entendo. Mas ainda assim, como seriam as conversas daquele casal depois da estreia do filme…
Ela – Sim, é complicado, mas por vezes para se fazer certas coisas, há uma escolha legítima, em meu ver. É uma afirmação, mais nada. Um modo de vida. Ela como artista, escolheu fazer as coisas assim e correr o risco. Ele aceitou. Não é qualquer um que o faz.
Ele – É o teu caso?
Ela – Sim. Isso choca-te? A violência que viste é encenada mas o sexo é real. As fotografias não funcionavam se o sexo não fosse real. Exactamente como naquele filme. A emoção surge, nesse contexto, na reprodução do sentimento que se quer causar. E eu quero abanar o barco, digamos
assim. É caso para dizer que neste momento tens de fazer perguntas muito complicadas ao que chamas de moralidade própria.

Ele – Para já acho-a suficientemente elástica, mas porquê exactamente?
Ela – Para saberes se valeu a pena vir aqui. Agora estou a ser provocadora, eu sei, mas quem anda à chuva…
Será que não vieste também tentar a tua sorte? Apesar do medo, quero eu dizer.
No fundo, é tudo encenação. Arte. Trabalho.
Os verdadeiramente curiosos dão os melhores modelos, sabias? São os únicos entusiastas, na minha opinião.

Ele – Bem, não sei…ahmn…. Se é tudo trabalho,
onde é que fica a emoção para causar o tal impacto da
arte que falaste?
Ela – Isso só descobrirás por ti próprio."
Pois...

terça-feira, fevereiro 26, 2008


Como é que explicamos a alguém que este nada representa para nós? Como é que pegamos naquilo que as pessoas realmente significam, o que gostariam de significar, fazemos a síntese e convencemos o sujeito de que essa é a única possibilidade? Que é o que temos? Porque quando o descontrolo se instala, qualquer pessoa se oferece. Há uma espécie de expectativa nos efeitos do auto-abandono. Algo dentro de cada um nunca entende a razão pela qual o objecto do seu desejo consegue ficar impávido perante a imensa ferida que abrimos e mostramos. Como é possível não querer aquilo que se oferece desta forma, perguntam muitos? Parece um juízo egoísta e injusto, mas as emoções também são feitas dos pedidos impossíveis, das exigências sem explicações, do querer como única força argumentativa, da empatia que se semeia. Não sei sequer se ela teria tinha colocado essa questão a si mesma, mas eu simplesmente não quereria responder, caso fosse comigo. Por todas as razões, mas essencialmente por uma. Porque ela tinha traído o pressuposto mais importante, onde a única sensação de segurança num enquadramento dormente auto-criado, acabava de apresentar a factura.

E não há como conseguir explicar o que não se é...

A ausência de expectativa é impossível.

Esperamos sempre alguma coisa de alguém, assim como esperam de nós. E ainda bem, acho eu. Que mundo seria este onde as pessoas simplesmente não conseguissem criar uma qualquer espécie de laço mutualista ou cúmplice. A liberdade de acção é sagrada, mas o descaso hedonista (faço quando me apetecer mesmo e viva o velho), leva a coisas complicadas como o espaço vazio na necessidade. A mim já me chamaram generoso, mas eu tenho-me apenas por normal. Por alguém que faz o que é normal, quando o que está em causa é afeição entre as pessoas.

O cuidado que se tem com alguém revela a atitude que se tem com a maioria das coisas na vida. E esse cuidado cria amizades, amores, laços intemporais, porque certa forma de sorriso ou surpresa, nenhuma naturalidade ensina aos que se julgam verdadeiramente próximos. Por isso sim, acho que a gratidão e a acção espontânea criam um senso de singularidade e união num mundo cada vez mais umbiguista e escondido. E posso exigir das pessoas apenas que elas tenham cuidado comigo e com outros. Não que gostem de mim ou percam tempo a fazer-me seja o que for. Mas se gostam, têm de ter (algum) cuidado, alguma atenção. Não há laço que sobreviva sem que nos coloquemos um pouco na pele do outro, e façamos nascer quase do nada a vontade de lhe fazer alguma coisa. E se isso não podemos exigir, o que concordo, elegemos. Mas aqueles a quem fazemos bem, e que se revêem agradados nesse bem, a inércia não pode ser resposta, nem o descuido. Daí a ontologia da exigência e a selecção dos realmente importantes.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Em breve opinião (crítica?? nãã) acerca dos filmes galardoados. Especialmente quando vir os que me faltam, que estas semanas têm sido um pandemónio do qual não há memória.
No entanto, e a julgar pelo livro, ter-se-á feito justiça com os Cohen.
A ver.
Até lá.
E eis a vencedora do Óscar para melhor argumento original.
E no meio do espalhafato divertido, há ali um cérebro pulsante e grau "zero" de medo relativo qualquer julgamento. No bullshit whatsoever, isso é no mínimo, admirável. Neste caso, muito divertido.
Pedrada no charco, definitivamente.

E se já tencionava ver "Juno" desde que o "Rotten Tomatoes" falara sobre o mesmo, ( já há uns tempitos atrás - maravilhosos idiotas os responsáveis pelas nossas distribuidoras), agora é que vou mesmo!



sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Este é um daqueles filmes, ou momentos de imagem e som que arrisco a caracterizar como dos mais belos que já vi. É absolutamente arrebatador. Um filme de uma beleza que chega a ser excruciante na sua dimensão simples e tão bem expressa pelos cineastas que dedicaram 17 meses da sua vida ao local mais agreste do planeta.

É um documentário sobre aves aquáticas, mas é simultaneamente tão mais do que isso. Sobre o respeito, luta e beleza intrinseca à vida, muito destacada da racionalidade de que tanto nos orgulhamos. Por vezes, nem sei bem porquê...

Maravilhoso.









Dez anos após a primeira exibição deste filme, os seus "feitores" sentraram-se a uma mesa e produziram esta deliciosa entrevista a quatro vozes. Para mim falta ali o autor da história, Stephen King, mas ok, passa.
Apenas uma nota pessoal. Morgan Freeman poderia ler a lista telefónica e a voz hipnotizaria à mesma. (Recomendo vivamente a sua versão do belíssimo "Marcha dos Pinguins". )

Enjoy!





A propósito de uma conversa tida há uns dias, recuperei este texto do baú, já anteriormente "publicado" aqui em Dezembro de 2004. Ainda me parece adequado.
"Existe uma grande classe de pessoas que utiliza aquele que talvez seja dos mais irritantes dos fundamentos para alguma coisa. Dizem-no com uma postura rendida, mas plenamente confiante, como se o acabassem de dizer tivesse uma justificação plena. Na pose socrática pré-cicuta, dizem, calmamente que :
"Não é defeito, é feitio".
Não se pode ser estúpido por defeito, mas sim por feitio.
Não fica bem ser cruel por defeito isolado, mas e aceitável quando é feitio.
É impensável ser desonesto por defeito, mas aceitável quando se trata de feitio.
O egoismo isolado em determinadas manifestações é recriminado violentamente, mas aceite como uma idiossincrasia quando é reiterado e transformado na constancia de um feitio.
Então eu pergunto:
As coisas e detalhes que não são positivos, que causam mal a terceiros, e não raras vezes aos próprios, são inaceitáveis quando expressos isoladamente, ou por momentos, mas tornam-se passáveis quando perduram no tempo e nas atitudes e escolhas que são feitas ao longo deste? Sou só eu que acho que a constância de um defeito, quando se conhece o dano que exerce sobre outros, só perdura por vontade? Que isso significa ter uma conduta deliberadamente agressora para com o outro, estendida por tempo indeterminado? Sou só eu que acho que os erros, porque isolados, são o que fazem de nós humanos ao tentar resolvê-los? Ou será o feitio a chave mestra que permite arrumar o insanável numa gaveta própria, advertindo os outros para nunca a abrirem?
Este relativismo absoluto irrita-me.
E não é de todo próprio do meu feitio..."

quinta-feira, fevereiro 21, 2008


Quando te peguei naquilo que tinhas como mão, percebi que havia pouco a fazer. Não havia morte. Havia pouca ausência de silêncio. Que quer isso dizer. Falo das poucas palavras, das coisas pequenas que deixavas sair a espaços, permeada com a percepção da tua incapacidade. Até o toque dos teus dedos, como uma miúda que tacteia no escuro, era medroso. Era inseguro porque à teimosia das tuas perguntas estava associada a tua nova resolução, ainda que o rio que deixavas correr pela cara abaixo desmentisse tudo como uma empolada resolução de ano novo.

Os teus olhos não eram os mesmos, mas não por causa do inchaço. A tua confusão era a minha confusão, e os abraços possiveis mais ameçavam parecer-se a encontrões na rua, dados pelos desnorteados que seguram demasiadas coisas em braços delgados.

Olhei e vi apenas o longo discorrer do conforto, permeado pelas ansiedades que já não te reconheço como tuas. Depois, multiplico-te pela número de coisas em caras que vejo, e reconheço-te, já cansado, por toda a parte. Identifico-te num alinhamento de criminosos suaves de todos os dias, percebo que as perguntas são inúteis, e sei-te como a medida de controlo do meu sangue. Aquele que ainda bombeia, percebendo-te como a cerca de madeira podre que espera pelo Verão e a pintura das felicidades adiadas.

Afinal, a cal queima, mas não está viva, por mais que lhe dêem esse nome, e eu não te aceito ainda completamente.
Felizmente, nunca o farei.
Acho.







Her sadness was also hard to watch. It contaminated her voice, also made her appear even weaker. When I looked at her I felt as if she was shutting down part by part. And there was also a smell. It was the smell that you sense inside a terminal patients hall, or a psychiatric ward. The odour was of pain, reclusion and perhaps a prelude to madness. A friend of mine, who was a nurse, defined it as the odour of calm despair. She looked at me a cracked a smile. I was scared, and my remorse just went out the window. Rage was back for the weekend.


I turned to my notebook and the pages seemed to pulse. I was imagining things, of course, but for two very long minutes I couldn’t stop thinking about Cronenberg’s “Naked Lunch”. Anytime now my notebook would grow hairy paws and scuttle away like some nameless and grotesque sort of insect. Or perhaps it might turn back and bite me.
Nothing happened of course.
Well, the notebook never gained paws or insect-like wings, but something happened alright. And as I ripped the pages, and my heart raced like a bloodhound on a fresh scent, I realized that she never read those pages, or any pages for that matter. But I always got the feeling that sometimes you should tell the whole story. Just cut no corners and give the straight version. If not for any other reason, she deserved to know not the truth but my suspicions about it.


Mas quando é que algumas pessoas vão perceber que as mulheres (também) predam?
Provavelmente quando os dentes afiados das ditas partirem tendões, criando os descrentes mancos de ilusões semi-condescendentes.
Não é evolução, mas demonstração.
E entendo ainda menos aqueles que se queixam de tal facto, mas passeiam alegremente na savana. Que diabo. As pintas e os dentes são auto-demonstrativos não? Se colocam o corpito de gazela curiosa ao alcance das fauces, não estará tudo dito?

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

OS DENTES DA OBSESSÃO

Parece que já terá sido tudo dito sobre este filme, mas este é de facto um filme diferente. Traz algo, incomoda, fascina, coloca-se debaixo da pele. Lewis é um actor absolutamente magistral. Os maneirismos são de tal forma espantosos que a transformação parece total e originária, ou seja, uma não transformação, mas como que o teletransporte de Plainview para as cenas em que alguém grita "Acção". É um filme sobre a obsessão mas também sobre as lógicas que assistem ao desenvolvimento dessas obsessões, especialmente com a metáfora consumidora do sucesso. A assustadora personagem de Daniel Plainview representa, até mesmo na deformação suave do seu corpo e expressão, as consequências da obsessão pelo conseguir, em meio a todas as complexidades que claramente o lançam na espiral de insanidade, culminada numa cena final que ficará na história.
A realização e fotografia são excelentes, sem grandes flores mas plenas de uma visão entre o realista e a unha na carne, como se pode atestar pela beleza árida do sol poente na planície, e o negro sujo do petróleo em poças. Padece, em meu ver, de um pouco de falta de ritmo, arrastando por vezes a acção em sequências que parecem apenas pequenas mutações de outras sequências anteriores, o que dão a aparência de um filme um pouco "comprido".
Algumas cenas, como a da Igreja, têm aquele cunho meio cómico, meio alienado que associo sempre a PT Anderson e que, pelo menos para mim, funciona. É de facto um filme algo distante, onde nenhuma das personagens nos conquista ou repugna de forma contundente, mas no fundo assenta num universo onde toda a gente parece movida por algo que transcende a sua dimensão pessoal, para as lançar no meio dos dentes da obsessão própria por alguma forma de sucesso. O" tem que ser", o "tem de se conseguir ou ganhar". Até o nome do personagem encerra essa ideia de simplicidade brutal. Plainview ou a visão simples do mundo nos dentes da obsessão.

"Eu simplesmente não suporto que mais ninguém tenha sucesso" - Daniel Plainview.

Está tudo dito, portanto...


terça-feira, fevereiro 12, 2008

Adoro este filme.
Simplesmente.



Soundgarden foi e é ainda uma das minhas bandas de eleição. A minha preferida do Seattle Sound, ou Grunge, se preferirem. Esta é a minha faixa preferida, por todas as razões e mais algumas, especialmente tendo em conta o historial de vida que lhe está subjacente.
Mas sobretudo pela frase chave.
Dá-me pedaços de mais do que posso aguentar.
Só isso dava um livro...



Long time coming
It seemed to take me through
Long time coming
Many served the few
And long to taste the shame
That bows down before you

Long time coming
It seemed to get me by
Long time coming
It seemed to satisfy
You longed to taste the shame
That everybody tries

Shame shame
Throw yourself away
Give me little bits of
More than I can take
If it sits upon your tongue
Or naked in your eyes
Give me little bits of
More than I can try

Long time coming
It seemed to take me through
Long time coming
Many served the few
And long to taste the shame
That bows down before you

Shame shame
Throw yourself away
Give me little bits of
More than I can take
If it sits upon your tongue
Or naked in your eyes
Give me little bits of
More than I can try



Se há coisa que aprecio é que me digam as coisas. Que se há tais coisas para dizer, desde que pareçam minimamente justas e adequadas aos seus emissores, que as digam. Que as veiculem. que as deixem sair. Que diabo, se a intenção é justa e honesta, ninguém será obrigado, pelo menos nas relações pessoais, a manter construções convenientes ou adequadas, porque cai bem, porque é simpático e civilizado.
No meu caso pessoal, gosto que me mandem passear assim que as pessoas achem genuinamente que é o destino que me cabe. Existem poucas coisas mais decentes que mandar à merda (ok, polidamente de preferência) quando a pessoa acha que é só isso que resta fazer. Os subentendidos, normalmente formados por silêncios, descasos, e desconsiderações, são como pequenas cobardias disfarçadas de polidez descontraída. O que está muito bem, já que não será surpresa para ninguém que tal forma de agir está impregnada em quase todas as morfologias de relação pessoal/social, mas acho que tal deve ser para quem quer, e para quem acha adequado. O que não é o meu caso.
Sim, custa. E não parecerá, numa primeira análise, nem simpático nem sequer próprio de boa pessoa. Mas se alguém que nos quer mandar à merda o fizer de forma polida e directa, a verdade é que o sentimento inicial de choque e tristeza será rapidamente substituído por um respeito distante mas sólido pela sagrada escolha que cada pessoa tem em escolher o que quer para si. Prefiro claramente isso a uma espécie de polidez vazia e oleosa, onde o sujeito de tal prática olha para o céu, assobia, e apresenta um manancial de desculpas perfeitamente adequadas, educadas e, helas(!), polidas. Pode parecer que fica bem, mas não passa de adubo para mal-entendidos, frustração constante do mínimo de expectativas existentes em qualquer forma de proximidade. Em última análise, alguém vai estar sempre no seio das questões que o assaltam em instantes como estes, emerso em dúvidas e baralhado sobre os comportamentos que deverá ter. E isso não é simpático.
Não julgo que a civilidade dos comportamentos se meçam pela adequação subjectiva que cada um fará deles. Acho, pelo contrário que o esclarecimento deve ser tónica de todo este tipo de comportamentos. Aqueles que fazem, que agem, que aparecem, podem, ao fazê-lo, estar a violar ou perturbar uma forma de estar de alguém que quer redefinir o espaço que é destinado a tal visitante. E, pelo menos para mim, existem poucas coisas piores que a sensação do penetra, daquela pessoa que toda a gente andava a torcer para que se esquecesse de aparecer, pelo que acho que não se justifica deixar o dito por não dito. Não ponho de parte a ideia do afastamento pela inacção. Parece boa estratégia. Mas o que não é de todo aceitável é mascarar as acções com palavras desdramatizadoras, qualificando de "gestão normal" aquilo que é claramente uma perda de interesse, naturalmente imcompatível com qualquer relação de proximidade.
Sinceramente, mais vale ir pregar para outra freguesia, nem que seja acompanhado de uma máxima algo zen onde sabemos que hoje mandaram-nos pastar, mas amanhã podemos ser nós a mandar outros ruminar.
Convinha era esclarecer.
Não será?


segunda-feira, fevereiro 11, 2008

People, close or not, took me for morose on frequent occasions, and somewhat of a nut job, which became practical. Sometimes it’s really good to left alone because of your behaviour. But most of the times it’s simply a generic and practical form of rejection. One becomes accustomed to it, I guess, and after all, loneliness is a multipart concept. It is never built by a single element. And that is why it might become so difficult to kill.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

O acaso faz coisas engraçadas. Por pormenores que nem sequer vale a pena discutir, devido à sua aparente falta de lógica, algumas coisas acontecem. Parecem encenadas para nós, com todos os requintes de um encaixe situacional puro. Mas é uma sorte ou numa espécie de interpretação simétrica, um azar. Daqueles que parecem construídos artesanalmente. Tem requintes, por isso parece vivo, mas somos nós que lhe damos a força vital. Por vezes não se passa nada de especial, mas o evento tem tudo de único. Porque é nosso e porque a marca que fica é impassível de traduzir.
É esta a mais comum forma de isolamento que existe. E a mais eficaz, infelizmente.
"Como raio é que exteriorizamos quando não nos dá para gritar e partir bibelôs mandando-os contra a parede? Quando não há lagrimas e estridências, nem cenas para câmaras imaginárias? Quando não existem discursos irrepetíveis prestes a sair da boca em fotografias temporais que se imortalizam? Como é que se conta a outrém da dimensão da perda, para que não pareça tão igual a tantas outras? A dor real parece-se um pouco como uma mordaça. Quem ouvir os grunhidos talvez a queria tirar e ouvir os gritos, mas à partida não permite que seja evidente o que se passa com cada um.
Com ela era exactamente assim. Com demasaida gente, creio."

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Uma raridade.
Para mim, leitor e ávido espectador de "The Shining", este é e será sempre a minha imagem indelével de Danny Torrance, assim como Jack Torrance será sempre Jack Nicholson. Sempre.

Há algo na expressão deste miúdo que não sei definir, algo de encantador mas perturbador ao mesmo tempo. Talvez tenha sido a mão e visão do Stanley a gravá-lo desta forma, mas fica aqui para que avaliem.

Quanto a Nicholson, é Nicholson.

Danny e Jack.


The Shining.







Refúgios com telhados letrados.
"The others slept heavily through the rest of the night. I was in and out, dozing, waking, dozing again. The night was far from silent; I heard the triumphant screech-squawk of a pouncing owl, the tiny cry of some small animal perhaps about to be eaten, a larger something blundering wildly through the undergrowth. Under all of this, a steady tone, were the crickets. There were no more screams. I doze and woke, woke and dozed, and I suppose if I had been discovered standing such a slipshod watch in Le Dio, I probably would have been courtmartialed and shot.
I snapped more solidly out of my last doze and became aware that something was different It took a moment or two to figure it out: although the moon was down, I could see my hands resting on my jeans. My watch said quarter to five. It was dawn.
I stood, hearing my spine crackle, walked two dozen feet away from the limped-together bodies of my friends, and pissed into a clump of sumac. I was starting to shake the night-willies; I could feel them sliding away. It was a fine feeling.
I scrambled up the cinders to the railroad tracks and sat on one of the rails, idly chucking cinders between my feet, in no hurry to wake the others. At that precise moment the new day felt too good to share.
Morning came on apace. The noise of the crickets began to drop, and the shadows under the trees and bushes evaporated like puddles after a shower. The air had that peculiar lack of taste that presages the latest hot day in a famous series of hot days. Birds that had maybe cowered all night just as we had done now began to twitter self-importantly. A wren landed on top of the deadfall from which we had taken our firewood, preened itself, and then flew off.
I don't know how long I sat there on the rail, watching the purple steal out of the sky as noiselessly as it had stolen in the evening before. Long enough for my butt to start complaining anyway. I was about to get up when I looked to my right and saw a deer standing in the railroad bed not ten yards from me.
My heart went up into my throat so high that I think I could have put my hand in my mouth and touched it. My stomach and genitals filled with a hot dry excitement. I didn't move. I couldn't have moved if I had wanted to. Her eyes weren't brown, but a dark, dusty black - the kind of velvet you see backgrounding jewelry displays. Her small ears were scuffed suede. She looked serenely at me, head slightly lowered in what I took for curiosity, seeing a kid with his hair in a sleep-scarecrow of whirls and many-tined cowlicks, wearing jeans with cuff and a brown khaki shirt with the elbows mended and the collar turned up in the hoody tradition of the day. What I was seeing was some sort of gift, something given with a carelessness that was appalling.
We looked at each other for a long time ... I think it was a long time. Then she turned and walked off to the other side of the tracks, white bobtail flipping insouciantly. She found grass and began to crop. I couldn't believe it. She had begun to crop. She didn't look back at me and didn't need to; I was frozen solid.
Then the rail started to thrum under my ass and bare seconds later the doe's head came up, cocked back toward Castle Rock. She stood there, her branch-black nose working on the air, coaxing it a little. Then she was gone in three gangling leaps, vanishing into the woods with no sound but one rotted branch, which broke with a sound like a track ref's starter-gun.
I sat there, looking mesmerized at the spot where she had been, until the actual sound of the freight came up through the stillness. Then I skidded back down the bank to where the others were sleeping.
The freighter's slow, loud passage woke them up, yawning and scratching. There was some funny, nervous talk about "the case of the screaming ghost," as Chris called it, but not as much as you might imagine. In daylight it seemed more foolish than interesting - almost embarrassing. Best forgotten.
It was on the tip of my tongue to tell them about the deer, but I ended up not doing it. That was one thing I kept to myself. I've never spoken or written of it until just now, today. And I have to tell you that it seems a lesser thing written down, damn near inconsequential. But for me it was the best part of that trip, the cleanest part, and it was a moment I found myself returning to, almost helplessly, when there was trouble in my life - my first day in the bush in Vietnam, and this fellow walked into the clearing where we were with his hand over his nose and when he took his hand away there was no nose there because it had been shot off; the time the doctor told us our youngest son might be hydrocephalic (he turned out just to have an oversized head, thank God); the long, crazy weeks before my mother died. I would find my thoughts turning back to that morning, the scuffed suede of her ears, the white flash of her tail. But eight hundred million Red Chinese don't give a shit, right? The most important things are the hardest to say, because words diminish them. It's hard to make strangers care about the good things in your life."

Stephen King - The Body - 1982

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Cloverfield - (Atenção, Spoilers!!!)
O que muita gente dirá, provavelmente, que é mais do mesmo, e que New York (não escrevo Nova Iorque porque acho que o Y é necessário ) não precisa de levar mais porrada, especialmente por parte de uma qualquer criatura que desafia todas as capacidades artisticas e dementes da natureza.
Bem, em meu ver, aquilo que retive foi precisamente o contrário. Nunca vi nada assim. Este é o filme que Blair Witch gostaria de ter sido, embora se deva dar o crédito do conceito "bicéfalo" a esse filme. E bicéfalo porquê?
Bem, em primeiro lugar, pela espantosa campanha de marketing viral que durante seis meses levou inclusivamente à criação de clubes de especulação acerca do que se veria neste Cloverfield. de J.J. Abrahams. Como seria a criatura, o que seria, e por aí fora.
Em segundo lugar porque a aparentemente caótica realização, usando uma "handycam", resulta brutalmente na criação do medo, do desespero, e do mal estar que poderia ser passar por algo como o que é retratado neste filme. Não é bem o enredo, mas as emoções que vão perpassndo pelo mesmo, associado ao magnífico ambiente que cheira a real em cada segundinho. A cena imediatamente anterior à entrada no metro, onde podemos ver um vislumbre da criatura que se ergue bem acima deles, emitindo o rugido ensurdecedor, é de parar a respiração. Mas há muitas mais. E o horror parece real. O barulho, o sangue, a devastação.
Sim, tem algo de reminiscência do 9/11, e que ao que parece, levantou alguma celeuma em alguns sectores da crítica e opinião pública dos EUA. Mas sinceramente, não entendo este excessivo pudor em torno de tudo o que possa ser semelhante aos eventos das torres gémeas. Que diabo, um monstro derruba prédios não é verdade? E neste filme não me parece existir qualquer ideia de aproveitar o subcontexto dos ataques à cidade de forma rentabilizar a ideia. A ideia vive por si mesma, e baseia-se na relação entre várias pessoas em meio ao medo, ao despespero, e a uma viagem alucinante que parece real.
A câmara é tão errática que se aconselha a tomada de um Vomidrin antes da sessão, mas é precisamente essa sensação de "in your face" que torna a experiência ainda melhor.
O marketing viral acerca desta produção não atingiu Portugal como os EUA, nem nada que se pareça. Por isso o efeito do "hype" passou ao lado de muita gente que não os maluquinhos do youtube, leia-se eu, que espremem todos os trailers de todos os filmes que estejam em projecção. Mas ainda que não tivesse tido contacto com o trailer, o impacto seria o mesmo, talvez até maior.
Este é o monstro assustador que Godzilla não foi, e o filme que Blair Witch não trouxe.
Recomendo, sem reservas, apesar das reservas de tantos.










sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Entre várias outras, uma das razões pela qual House M.D. é possívelmente a minha série favorita, a seguir a Firefly, (pelo menos por enquanto já que me falta dar conta da série "Heroes", "Lost", etc...) prende-se com a forma como o personagem principal, e as outras também, vão crescendo e mudando com incrivel sucesso, pelo menos em termos do meu escrutínio pessoal. Já gostei e detestei todas as personagens (com excepção talvez do Wilson - onde já vai o clube dos poetas mortos), num momento ou noutro, embora mais umas que outras. Este efeito é, no entanto, muito mais intensificado no que diz respeito à personagem principal que Hugh Laurie (grande, grande Prince George em Black Adder! Quem diria!) carrega com um grau de excelência só comparável à eficácia na ausência de sotaque.
Entre todos os momentos, são as conversas entre House e Wilson que constituem alguns dos meus momentos preferidos. Porque o primeiro faz coisas ao segundo que talvez nenhum de nós aceitasse com tal bonomia, mas também porque o segundo consegue irritar ou por vezes criar um instante de hesitação que nenhum real idiota sentiria perante as mesmas circunstâncias. No fundo, parecem um pouco como miudos a comparar habilidades, mas com a sofisticação própria da inteligência acima da média, e da desconexão com o real que a mesma traz não raras vezes. House até me faz lembrar algumas pessoas, e confesso que já fiz de Wilson mais vezes do que gostaria de admitir. Mas tudo aquilo parece tão genuíno, tão próprio das coisas que a imperfeição das relações que temos com as pessoas são capazes de provocar e está tão bem escrito, que cada segundo é um absoluto prazer. E sim, parece que vicia.
Até que ponto alguém poderia levar mesmo uma amizade até rebentar com ela?
Até que ponto é que a aceitação de um amigo pode esticar?
(...)
Em semana e meia despachei a terceira série, e agora é esperar pela quarta em DVD, porque acompanhar os horários da série na TV não me é possível. Enfim, adiante.Enjoy!