ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, março 31, 2008

A verdade é que a certa altura, mesmo quando estamos cobertos pela ideia de que fazemos o melhor que podemos, ou que estamos a tentar fazer alguma coisa, somos incapazes de qualificar algumas atitudes e ideias como as asneiras ou idiotices absurdamente profundas que são. A estupidez é tão imensa que ensurdece, e damos connosco a afogarmo-nos na própria parvoíce, como se as soluções para quaisquer buracos no asfalto pessoal pudessem resolver-se com ausência de gravidade a substituir cascalho e alcatrão.
A visão geral é nossa, e as tendências analíticas externas estão certas, porque a visão que se lhes apresenta é plena de argumentação. E cada um sabe o que vê, o que está assente em cada perspectiva, a mais das vezes escorada pela afeição que lhes causa tal reacção.
E ao ver o caleidoscópio, os fragmentos surgem como a mais antiga história do mundo, inevitavelmente estilhaçada como qualquer coração foi e será sempre. Vestir uma capita de optimismo assemelha-se a arrancar unhas à vez, e no entanto tentamos. Tenta-se sempre porque mesmo na estupidez que em silêncio lá vamos reconhecendo, existe um desespero parcial que fala sempre mais alto e que conduz a uma inevitabilidade.
Hoje de manhã enterrei um pequeno animal de estimação que morreu ontem no seu aquário. É a coisa mais insignificante do mundo e bordejará o ridículo, mas por vezes não conseguimos escapar à noção trazida pelos pequenos detalhes que iluminam a tristeza da nossa própria incapacidade em sermos aquilo que todos os esforços feitos almejam.
Tentamos e tentamos e a cada morte parcial construimos o contorno que projectará a sombra do que também somos.
Ao olhar para os olhos meio perdidos, que contavam aquelas histórias rocambolescas, eu percebi que era novo. Que a minha pele ainda era macia, a minha sujidade nova. Eu ainda esperava. Ainda olhava para as coisas com expectativa, com a ideia de que a mudança, mesmo em meio à grande dormência e cansaço em que eram mergulhados todos os meus dias, ainda seria possível, senão mesmo devida. Essa percepção acordou-me o medo e a tristeza, os quais, outrora fornos calcinados, ardiam agora em chama considerável.

quinta-feira, março 27, 2008

A propósito de algo que vi no outro dia, há uma perplexidade que nunca consegui afastar do meu reservatório de dúvidas existenciais onde ocasionalmente, por alturas de auto-análises menos benevolentes (que são muitas), acabo por ir beber.
Porque raio têm tantas mulheres a mania da queca de despedida, a última troca, o adeus carnal, whatever?
Sinceramente parece-me algo saído de uma outra coisa que também me faz confusão, como os velórios de caixão aberto. E antes que a ala moderada me lance calhaus lá do alto, a verdade é que aquilo que pode ser entendido perfeitamente como um último adeus ou uma relutância religiosamente direccionada em deixar alguém ir pareceu-me sempre um prolongamento excruciante de uma dor que já suficientemente grande e infelizmente, de certa maneira, sempiterna.
A queca de despedida, (e peço desculpa pelos termos menos próprios quando se fala de algo que para muitas mulheres me parece uma tentativa de dar algum sentido ao que já o perdeu ou colocar um laçarote cor-de-rosa em cima de algo que definitvamente já não disfarça o cheiro a podre), está nessa linha. É o prolongamento do que por vezes são agonias intensas de separação, de dúvidas acerca de decisões que a frio parecem claras como água mas no turbilhão da água a ferver mais parece o ataque de mil piranhas com fatos térmicos.
A queca de despedida é uma espécie de ilusão moribunda à qual se dá uma carrada de medicamentos paliativos, desenhando em papel que arde uma espécie de diagrama tosco do que antes era matéria e substancia e não um rabisco de destino que acabou por ir às urtigas.
A queca de despedida surge como uma tentativa de ir com uma boa recordação no saco, mas o que se leva é uma espécie de ataque da manada (será este o substantivo) de porcos espinhos com um caso sério de raiva. A intenção surge como o desejo de que o último momento se pareça com algo que define os contornos do que ficou afinal para trás, mas sinceramente, sempre me pareceu a glorificação de uma fraqueza perfeitamente natural, porque humana, mas à qual se dá uma dimensão supostamente decente e especial, quando afinal não passa de uma brincadeira, por vezes cruel, com carvão já quase ardido de umj lado, e não raras vezes incandescente do outro.
A queca de despedida pode ser, no fundo, profundamente injusta, porque pode assentar num pedido que uma das partes não está em estado de recusar, o que muitas vezes é o que deveria fazer.
De todo em todo parece-me algo de uma natureza cruel, inútil, e sinceramente, não entendo essa psicose na qual tudo tem de ficar num suposto bom termo, quando afinal de contas o que fica é a tristeza do pós sexo e para alguns a irrecuperabilidade de um amor que já morreu, ou que simplesmente não voltará. Parece-me um espancamento adicional ao invisual, para ser um bocadito menos clichê.
Seja como for, não entendo.
O meu amigo Jorge, que conhece a minha demanda contestatária à religião organizada (que não a fé, entenda-se claramente ), enviou-me estas duas pérolas. Christopher Hitchens dá, de uma forma brilhante, informada e contundente, uma rabecada à religião organizada ( e os católicos que percam a mania da perseguição porque não é só o Vaticano, mas há muito a dizer do outro lado da barricada dos adoradores) e aos seus efeitos, que por natureza são inegáveis, mas que de alguma forma são constantemente mascarados por discursos de desdramatização. A religião é, efectivamente, a maior fonte de ódio inter-civilizacional do mundo moderno, e talvez desde sempre, e normalmente está assente em dogmas que constituem uma constrição inaceitável à capacidade de pensar e questionar, como se os valores humanos estivessem de alguma forma ligados a um estaticismo de dogmas e supostas moralidades construídas sob um estigma de culpa milenar.
Tenho imenso respeito pela fé e a crença pessoal, mas nenhum pela religião organizada, responsável por coisas como decapitações públicas, limpezas étnicas, assassinatos de jornalistas e artistas, condenações morais e acções de boicote à teoria da evolução das espécies em detrimento do criacionismo, e claro, está, disparates como a condenação do desgraçado do Harry Potter, Phillip Pullman e a sua saga “His Dark Materials” e mais recentemente, à série Californication (isto porque a série tem demasiado sexo e drogas, o que pode chocar, em detrimento da paixão de Cristo de Gibson, que é o maior ensaio de porrada gore disfarçado de mitologia religiosa, e que foi recomendado a crianças por alimárias como César das Neves e quejandos…).
Em muitas coisas significa uma negação da natureza humana, e como tal, não posso aceitar, nem nunca aceitarei senão num ecletismo muito cuidadoso. Não me chateia nada a ideia de querer bem ao próximo, pelo contrário, mas tal não pode derivar de regras consolidadas meramente pela tradição, pelo tempo, pelo instituído, e pior que tudo, pela imutabilidade das ideias, como se nada evoluísse em função da própria dinâmica da natureza.

Disclaimer: Atenção que não digo que não hajam acções positivas (mesmo a nível mundial) levadas a cabo por tais organizações. Existem muitas pessoas abnegadas, válidas e generosas nessas organizações, até abertas à mudança, mas sempre afogadas pela ala maioritária encerrada no próprio dogma. No entanto, esse valor e positividade não pode, de forma nenhuma, escamotear a enorme responsabilidade pelos danos que causam em coisas como liberdade pessoal e agregação da diversidade. Não há compensação que chegue para justificar muito do que se passa. E muito do que muitos vão permitindo sem sequer se questionarem, são cúmplices.


Deixo-vos, no entanto, com quem diz muito mais e de forma absolutamente mais completa, brilhante, e claro está, corajosa.

1. Palestra no Canadá -
http://www.youtube.com/watch?v=PY8fjFKAC5k


2. Programa do Bill Maher -
http://www.youtube.com/watch?v=RIZS7jIy608


quarta-feira, março 26, 2008

Californication é a série que vai ocupando o pouquíssimo tempo que tenho para tal desde o "House" (varri as três séries num ápice à custa de muito tempo de sono), e estou banzado. Além de ser brilhante e arriscadinha para cacete, produz um manancial de matérias acerca do comportamento da mulher "nova-angelina" que me admira que tenha chateado mais os conservadores do que as feministas.
Pode ser que a coisa se componha lá para o fim, mas Hank Moody é o epíteto de que os bons rapazes são o sustentáculo do onanismo no mundo.
E tanto mais que haverá a dizer...
Esperemos até que a série acabe.
People, close or not, took me for morose on frequent occasions, and somewhat of a nut job, which became practical. Sometimes it’s really good to left alone because of your behaviour. But most of the times it’s simply a generic and practical form of rejection. One becomes accustomed to it, I guess, and after all, loneliness is a multipart concept. It is never built by a single element.
And that is why it might become so difficult to kill.
“Temos uma experiência familiar da ordem, da constância, da perpétua renovação do mundo material que nos rodeia. Todas as suas partes são frágeis e transitórias, os seus elementos agitados e migratórios, todavia ele subsiste. Está unido por uma lei de permanencia e, embora sempre a morrer, renasce a cada instante. A dissolução apenas dá origem a novos modos de organização; uma morte gera mil vidas. Cada hora, ao chegar é apenas um testemunho de quão passageiro e, no entanto, quão seguro e quão certo é o grande todo. É como uma imagem nas águas, sempre a mesma, embora as águas fluam constantemente. O sol entra no ocaso para tornar a despontar; os dias são engolidos pela escuridão da noite para dela nascerem tão novos como se nunca tivessem findado. A Primavera transforma-se no Verão, e, pelo Verão e pelo Outono, é transformada em Inverno, ainda mais confiante pelo seu regresso último, para triunfar daquela sepultura para a qual resolutamente se apressou desde a sua primeira hora. Lamentamos as flores de Maio porque se destinam a murchar; mas sabemos que Maio um dia obterá a sua vitória sobre Novembro pela revolução daquele círculo solene que nunca se detém,que nos ensina no cume da nossa esperança a ser sempre sóbrios e no mais profundo da desolação a nunca desesperar.”

John Henry Newman - “The Second Spring”


(Um padre... quem me conhece, saberá o porquê da profunda ironia...)
As escolhas em torno do amor e da auto-identificação não são nem bonitas, nem fáceis. Não são epifanias, nem colares de flores conceptuais que fariam qualquer flatulência desaparecer num aroma mítico capaz de colocar costureiros famosos em guerra aberta pela fórmula. Não são instantes em que o mundo pára, ou nos quais os contornos da nossa personalidade se abrem como um mapa perfeitamente claro à prova de perguntas idiotas a autóctones que, como eu, nunca sabem a merda dos nomes das ruas dos locais onde moram. Não são flashes de sorte milenar assim qualficados por uma capacidade aturdida de julgar que o mundo parou ali para nos dar uma visão da simplicidade de todas as explicações de encaixe.
São apenas verdades, plenas de tudo o que as caracteriza, com a força de algo cuja identificação conceptual é impassível de debate subjectivo. São o que são, com a puta da dimensão que possuem, e levam tudo à frente.
O amor é muitas vezes é uma guerra fraticida entre aparentes siameses fundidos numa só esquizofrenia feita de tempo, vivência e confusão que tempo algum parece mascarar.
E no entanto, lá vamos nós. Vivos. Temos de ver e ouvir, pelo menos, e viva o velho, que sorte teremos se for só isso que a laranja mecânica em forma de coração nos permitir ver.
Mas que merda esta da beleza real da pureza de alguns conceitos.
Porra.

terça-feira, março 25, 2008

“I consider myself a handicapped person in that I used to believe that everyone, uh, that their intention in the world was to learn more, to do better, to seek out the truth, and the older I get, I realize that’s not the case with most people. They’re pretty content with the way things are and to just kind of live day by day.”
MJK

E dizer mais para quê...?
Há dias em que a lógica de inclusão pode deixar-nos simplesmente doidos e no entanto não deixamos de acolher outros, nem que seja para saber onde nos posicionamos, ou onde nos posicionam e aceitar o positivismo como forma de estabelecer objectivos.
Torna-se necessário perseguir essa lógica não niilista e por vezes claudicar sob o peso de um “pessimismo da mente” mas tendo em conta um claro “optimismo da vontade”(*).
(*) A partir da ideia de Antonio Gramsci

quinta-feira, março 20, 2008

Embora seja um reflexo estúpido, e a bem dizer, inútil, algumas pessoas (present company included) julgam que se consegue ter uma atitude conciliadora na maioria dos casos. Atitude onde se consegue levar a lógica da inclusão ao ponto de sublimar as positividades para que as negatividades e inconsistências inter pares simplesmente se esboroem, ou pelo menos não sejam impeditivas de nada. Claro que isto é pior que pregar ao deserto, e a ilusão de que não haja um elemento de umbiguismo ao analisar a situação de cada um perante aquilo que é o quotidiano escolhido acaba por ser remada em lago seco.
É uma estupidez porque a lógica da liberdade pessoas permite fazer essas escolhas, bem ou mal fundamentadas na análise do outro é certo, e as consequências são próprias de um posicionamento único na vida que cada um tem e relativamente às pequenas e grandes escolhas que fazem. Pode custar que a inclusão, ou exclusão, sejam produto da autonomia de cada um, mas é um mistério que nasce na infância e perdura, para alguns, durante uma vida inteira.
Mais complicado é ainda achar que as formas de experienciar paixões (porque as paixões em si são gostos, e esses são mesmo de cada um) são partilháveis, ou que aquilo que por vezes faz uma diferença crucial na nossa vida pode ser entendido como tal por terceiros. Pior ainda é tentar dissertar acerca dessa importância, mencionando os homens ou mulheres em que nos tornamos em consequência desses eventos.
Triste é ter de remeter ao silêncio ou ao eco. Ter de achar no isolamentos dos pequenos milagres do gosto e preferência, a impossibilidade da universalização. Sentir que, afinal de contas, o entusiasmo que quase nos rasgou ao meio é uma experiência estético/anímica profundamente solitária, tem duas vertentes. Acirra o isolamento do que deveria ser o mais importante, e torna manca a inclusão.
Dizem que a vida nunca cessa de nos surpreender. Mas é curioso, penosamente curioso acrescento, verificar que as experiências mais singulares de cada um e as motivações que geram as paixões que por sua vez deram origem a uma personalidade são os elementos dissociativos. E coisas às quais voltamos quando a vida aperta, ou quando tudo e mais o céu parecem acizentandos, encontram esses fenómenos, esses amores internos, são (quase) a única presença de escuta activa.
No fundo, quase ninguém quer saber o que alguém realmente é, ou que pode ser, e sobretudo, porque se quer continuar a sê-lo.
E no entanto há tanta gente dizer o contrário...
Porque será?

terça-feira, março 18, 2008

“ Aqui em baixo, portámo-nos bem ontem, queremo-nos portar bem amanhã, mas nunca nos portamos bem hoje.”


Lewis Carrol - ”Alice no outro lado do espelho”

segunda-feira, março 17, 2008

Como de resto já nos tem vindo a habituar, a Pixar promete muito com este Wall-E.
Counting the days...


Hal Hartley não reúne consensos, acho eu.
Mas este filme e esta idéia subjacente são suficientes passa assombrar um período inteiro de vida. A quase toda a gente que conheci até hoje, acrescento...


quinta-feira, março 13, 2008

Alguns têm tabaco, outros bebida, outros psicólogos...
Entre outras coisas, tenho isto.
Estranho conforto, diziam-me há tempos.



À prova de Estação...
Vem aí o Verão...




"Aqueles" Amigos não são sobrevivência. São vida, e daí a sua raridade.
Constância ou não, omnipresença ou ausência frequente, são o sustentáculo de uma escolha que tem de se fazer. Alguma dedicação às pessoas é difícil, exige trabalho e uma grande capacidade e persistência. Exige uma crença simples, um gosto por gostar e é muitas vezes esta a particularidade mais difícil de manter verificável ou operacional. O desejo talvez se mantenha, mas a paciência morre e com ela a capacidade de agir. O marasmo é uma espécie de fatiota semi-colorida de normalidade, e cedo ou tarde, insuportável.

Essas pessoas, de quem nós gostamos, às quais temos alguma capacidade de dizer isso mesmo, (e cuja cortesia nos é efectivamente retribuída), são afinal o produto de uma escolha extremamente simples. Existem quando os temos e quando sentimos a sua falta. Não nos dão escolha e só os podemos ignorar até um certo ponto. São perigosos. São inconstantes. São necessários. São vida. Quando desaparecem, prenunciam algumas mortes emocionais enquanto metafóricas. Quando estão, são quase tudo o que resta.



A visão que cada um tem do que podem ser os seus limites é necessáriamente variada. Relaciona-se com a capacidade de contenção e a ausência final dessa mesma capacidade.
De uma certa forma, talvez se prenda com a opinião final, a última grande tirada destinada áquelas poucas vezes em que numa situação de risco real, podemos dizer aquilo que remoemos durante tanto tempo. É o bradar daquelas palavras que em cada momento no qual faz algo que se julga justificável, figuram como uma figura de bastidores. Talvez um ponto, que segreda as deixas que eu já se está cansado de conhecer, e ganham finalmente o vento do discurso directo.
Se é certo que são mais as ocasiões em que temos de ouvir, há momentos em que temos definitivamente de dizer.
For my readhead.


O Pedro ouvira muitas vezes as discussões entre os donos de cães e gatos. Uma espécie de compita em que se exultavam as qualidades, mas muito timidamente se enunciavam os respectivos defeitos. Era uma escolha, pronto. Uma espécie de perfilhamento pelas ditas características intrínsecas de cada animal.

Nunca tivera dúvidas.
Cães.
Porquê? Os olhos, a língua pendente, mas sobretudo a capacidade de mostrar afecto, algo que a etologia acabava por provar. Achava fascinante que a suposta qualificação de irracionalidade nos animais não os impedisse de sentir estados de alma, de afeição, aparentemente inacessíveis para o funcionamento cerebral não complexo a essencialmente traduzido em instinto. O simples facto de um animal intuir reacções e desenvolver uma afeição deixava-o curioso sobre a incondicionalidade que sobrevinha. Curioso e rendido.

Saiu para a rua com o papel na mão, sentindo o calor tão normalmente divorciado da pouca luminosidade a que o dia se permitia. Cruzou algumas ruas, cumprimentou alguns vizinhos mais idosos que contornavam o seu ócio da melhor forma possível através de sorrisos em rostos tristes e sulcados por milhares de sóis. Vislumbrou a praça do Martim Moniz, polvilhada de sombras diurnas e alguns andares apressados. Junto à esquina do hotel uma mãe puxava uma criança em pranto pelo braço. Ao lado das bancas, dois homens de camisa desfraldada discutiam o início da época de futebol que se seguiria.

Por todo o lado, em maior ou menor numero, deambulavam cães. Em passadas tristes ou mais animadas, com a marca da fome e maus tratos, ou bem alimentados à custa das generosidades do lixo ou gentes das cidades. Deitados ao sol, quando o havia, ou simplesmente abrigados da chuva, piscando os olhos debaixo do gotejar, era uma realidade tão omnipresente como a percepção das pedras da calçada debaixo dos pés.

Já na Praça da Figueira, uma senhora afectada passeava um cão relativamente grande. Andava como se escolhesse as lajes do pavimento, ignorada pelo amigo que a puxava entusiasmado pela trela. Reparou que a mulher tinha um rosto bonito, mas absolutamente glacial. Como se um dos inúmeros manequins presentes das vitrinas da Rua dos Fanqueiros houvesse ganho vida e passeasse por ali. Por alguma razão que desconhecia, Pedro resolveu segui-la. Tinha ainda algum tempo, e o fim de semana na Baixa, ainda por cima sob a ameaça de chuva, costumava ser calmo.
Aquela mulher parecia muito deslocada naquele lugar, cheia de uma irrealidade que ele não conseguia explicar. A mulher puxava levemente pelo animal, obrigando-o a voltar ao caminho com a paciência de quem corrige o andar titubeante de um filho. O céu plúmbeo fazia com a roupa clara que trazia brilhasse. Uma espécie de foco ambulante no meio de um cinzento fosco e triste de uma cidade desesperada por sol. A afectação no andar era de tal forma evidente, que quando Pedro a viu sentar-se na pastelaria Suiça e pedir um café, os dedos encaracolaram numa pose digna de qualquer caricatura que ele pudesse imaginar. A boca falava quase sem afastar os lábios, e ele perguntava-se como seria possível articular discurso com os maxilares colados. A suposta contenção elegante da boca normalmente traduzia-se numa entoação estranha da linguagem. Como ouvir alguém com problemas respiratórios.

O empregado voltou com a chávena e colocou-a na mesa. Não existiu um obrigado ou qualquer aceno que o indicasse. Havia uma expressão de incómodo generalizado, como alguém que se vira apanhado num chiqueiro gigantesco e evitava tocar no que fosse. Olhou para a chávena e chamou o empregado. Sem olhar para ele exigiu supostamente a troca do mesmo. Pedro achou que seria provavelmente por estar sujo ou fendido num dos rebordos. Mal sabia ele que era pelo facto do recipiente estar demasiado quente, o que, segundo ela, a impedia de segurar no mesmo. Veio a nova chávena. Ela tornou a não olhar para o empregado ou sequer esboçar algum gesto de agradecimento.

Pedro começou a ficar impaciente. Preparava-se para recomeçar a andar quando a mulher olhou para o pequeno cão e o afagou. O rosto desfez-se e apareceu algo parecido com uma luz em meio a tanta cera endurecida e programada. Ela nunca teria noção dessa mudança, e isso acabou por desgostá-lo um pouco. Ou alegrá-lo. Não sabia bem.
Estava na hora de andar em frente.
Já tinha visto tudo.



"Penso que ninguém ignora o quão difícil é racionalizar uma perda. Obviamente que a dimensão e importância contam, mas a fúria e desorientação pode ir da perda da carteira (leve), ao desaparecimento de um ente querido (pesadíssima). Julgo que é a falta de explicação.

A racionalização da perda é impossível precisamente porque não se encontra uma explicação para tal. É um facto cuja origem remonta a algo aleatório, comandado por uma vontade alheia à vitima da perda. Claro que existem aquelas que pessoas que encolhem os ombros, soltam uns praguejos, e a coisa lá vai. No fundo a aceitação surge como uma explicação parcial – o velho – estas merdas acontecem. Outros esbracejam e disparam com fúria de encontro ao mundo. Julgam-se traídos e feridos de morte no orgulho, porque afinal perder algo é perder, é ficar numa posição de fraqueza ou vulnerabilidade. E existe ainda um grupo que mistura as duas coisas, sendo que a segunda cresce consoante a importância da perda. Eu cá gosto de pensar que faço parte deste grupo, embora por vezes as coisas não sejam assim tão objectivas, ou fáceis.

No caso dele os acontecimentos tiveram lugar exactamente assim. Ela não explicaria nada, porque ela nunca o fazia. Simplesmente desaparecera como o sol num fim de tarde, inexorável na marcha. Mas ao contrário do astro, ela nunca retornaria. Para alguém que esmiuçava a razão para tudo e mais alguma coisa, um abandono sem justificação era a mais requintada das chapadas na cara. E tudo isto porque a legitimação das suas dúvidas ou protestos era dolorosamente relativa. A ela e a ele importava a liberdade do espírito, e ela levava o conceito às últimas consequências. Era assim, porque era.
E ficamos assim.
Pronto.

Da mesma forma que as acções dele contribuíam para um estreitamento da afeição entre ambos, a verdade é que também não tinham qualquer efeito numa cristalização do sentimento mútuo. Num dia em que o vento podia soprar para qualquer lado, ela poderia ir com ele. Podia sempre desaparecer com a mesma naturalidade com que aparecera e se entregara a ele quase com desespero. E como o destino não é desprovido de ironia, acabou por acontecer isso mesmo.

No período de uma vigília solar, ela resolveu ir-se embora, movida por algo que nem ela própria sabia muito bem o que era. O impulso informe desaparecera, fazendo pouco do tempo dispendido e da aparente construção de uma qualquer espécie de amor. O sol pusera-se e para ela era apenas uma questão se seguir o movimento da terra, e ir adiante. Embora normalmente contido e analítico, ele sentiu este choque com especial impacto. Em primeiro lugar porque sabia que ela não retornaria. Em segundo, porque não encontrava uma única explicação para o facto. E em terceiro, porque na ilusão de poder alterar uma forma de pensar, fora demasiado longe na entrega. Um pouco como um anfitrião generoso que abre a porta a um ladrão encantador, confiante que este de apiedará dele e deixará a honra falar mais alto, ele expôs a sua casa e acreditou que isso seria suficiente. E provavelmente até seria, em circunstancias ditas normais. ( embora eu não saiba muito bem o que é isso quando se fala de amor. Para ser honesto, seja em que circunstância for…)

Ela foi-se embora depois de uma daquelas noites que normalmente os casais costumam marcar. Aquelas noites que vêm à baila nos jogos de salão mais indiscretos e nas conversas cúmplices próprias da corte sexual entre amantes. Deixa marcas, memórias, e acicata o amor com sangue. As mais dolorosas quando pintadas em forma de memória. Desapareceu de manhã, deixando um bilhete lacónico mas absolutamente coerente com ela própria. Ia-se embora porque as coisas já não tinham o mesmo impacto. Porque simplesmente deixara de gostar dele e ponto final. Porque não havia porquês – desaparecera e isso era tão simples e conclusivo como isso.

Ele percebeu então que nunca a entendera realmente. Era fácil culpar a ilusão provocada pela novidade ou o inebriamento, mas essa seria uma faceta de cobardia que ele não reconhecia em si mesmo. Embora lhe fizesse entender que a entendia e respeitava o seu ponto de vista e forma de vida, sabia perfeitamente que não lhe estava a dizer a verdade. No fundo, ele sabia que ia ainda mais longe. Não se tratava de conseguir mudá-la eventualmente, mas sim de uma descrença básica. Ele julgava que ela estava enganada, que de uma certa forma não sabia o que dizia, e que a verdade pungente da normalidade agregada às coisas acabaria por mostrar-lhe um outro cenário. Como se sabe, não só ele se enganara redondamente, como tivera uma dupla desilusão. Nem ela ficaria, nem ele veria comprovado o que lhe parecia claro e indisputável. Ficara a perder em duas frentes e isso fez com que os parafusos lhe saltassem.

Ele soubera, no último momento, o quão inútil era fazer juras de amor, pedidos, trazê-la de volta a uma qualquer consciência ou recrudescimento da emoção. Simplificando, era inútil dar-lhe motivos, porque ela só tinha uma face na sua vivência do Amor. Para ela tudo era desconhecido e alheio, como se obedecesse a uma ordem partilhada. A entrega acontecia pela percepção informe da emoção, que surgia motivada por um nada concreto. Quando amava, ela simplesmente não sabia porquê. Quando partia, o argumento era exactamente o mesmo. Nenhum.

A pior coisa que existe para qualquer forma de amor é a inalterabilidade. O inapelável. A simples ideia de que não existe coisa alguma que se possa fazer para chegar ao reduto da vontade do objecto do desejo. No fundo é ausência de razões perante a inviolável liberdade da outra pessoa. Pede-se uma tarefa para superar, mas ela nunca chega. Os amantes, julgo eu, desesperam precisamente quando a perda é irreversível.
E por duas razões.

A primeira, porque a inércia forçada cria um senso de impotência dupla – pela vontade em aceitar desafios maiores que a vida, e por entender que não existe nenhum que seja eficaz, aumentando assim a sensação de inutilidade.

A segunda porque, supostamente (e também sujeito a debate aceso) o amor atinge o seu ponto mais elevado quando se apresenta inacessível. Para algumas pessoas, a intolerabilidade do sofrimento acessório é uma realidade tão presente como a verificação do sentimento. As pessoas rendem-se no campo de batalha, precisamente quando já não há inimigo. E o querer atinge as fronteiras do desespero.
É estúpido e de alguma forma ilógico. Gosto de pensar que muitas pessoas, (e incluo-me nelas), aceitam a continuidade da dor e irreversibilidade até criarem anticorpos absolutamente eficazes. Um amor real que se consiga esquecer realmente nunca retorna. É a morte no seu estado puro. No fundo tudo ocorre como a vida de uma simples lâmpada. Momentos antes de fundir, qualquer lâmpada solta um jorro de luz mais intenso que em qualquer instante da sua vida útil. Aqui é exactamente a mesma coisa. Nunca se quer tanto alguém quando a perda é irreversível. Nunca esse alguém se parece tanto com um jorro de luz divina. Nunca o amor está tão lamentavelmente vivo e simultaneamente moribundo.

A luz dele durou imenso tempo. Em certa medida, arrisco-me a dizer que ele nunca ficou totalmente na penumbra. E tinha tanto para o poder explicar. O mais engraçado, ou não, é que em coerência com a sua forma de pensar e sentir, ela estava igualmente imune a todo este processo.

É sempre bom e reconfortante pensar que de alguma forma esta situação poderia ter uma solução. Que o afastamento dos caminhos era apenas um soluço em algo que parecia destinado a suceder porque simplesmente fazia sentido. Mas como ele descobriu, a vida é muito mais complicada do que isso, e o amor não é definitiva nem somente a maravilha que muitos pintam. É uma alternância caprichosa entre um elevado estado de saúde e imortalidade e a mais abjecta e debilitante doença.
E nunca ninguém nos pediu a opinião, certo?
No caso dela, simplesmente aparece e desaparece.
Ou talvez não...
Eu já não arrisco nada."
Baú - Maio 2003




terça-feira, março 11, 2008


No quase silêncio das vozes que ambos ouvimos, faça-se então esse silêncio. Recordemos o dia em que apareceste e deixem-me sentar o corpo. Observar-te na passagem brava dos teus passos pelos meus dias. Sorrir, desassossegado. Dizer as palavras sem voz, tocar sem luz.
Imaginar-te no mundo e ficar assim.
Sorrisos, patas pequenas, alfarrobas, vermelhos.
Tudo é pele magnetizada em rocha.
Mais uma pulsação para o mundo.
Curva impensável, dança de paladar.
Vénia. Mãos. Sol.
E lá algo dá à cauda.
Big Fish in small pond. Em tudo.
Feliz Aniversário, Lover!!!




segunda-feira, março 10, 2008

(Ante Scriptum - post grandito - se quiser, e entendo perfeitamente que o faça, passe adiante. O programa recomeça dentro de momentos.)
Bem, em primeiro lugar devo dizer que este foi de facto um ano do caraças em filmes. O ultimo dos cinco escolhidos que me falta é justamente expiação, o qual, sem saber bem porquê, fui deixando para último lugar na cronologia de visionamento. Mas penso que já posso fazer a minha análise pessoal, uma vez que de entre os cinco, a não ser que algo me vá espantar absolutamente, deverá ocupar o lugar de lanterna vermelha.
O meu maior problema é, digamos assim, "classificá-los", precisamente porque este foi um ano de filmes tão intrinsecamente diferentes uns dos outros que cada um deles é de facto uma experiência em si mesmo, e em meu ver, conceptualmente divergente dos restantes, o que resulta numa riqueza de temporada cinematográfica de fazer salivar. Que grande ano este. Que grandes filmes. Que ausência de fórmulas! Como é que é possível que "No Country For Old Men" possa ter sido metido no mesmo saco do "Gladiador" (ou-filme-do-Esteves-Gaivota-situado-no-tempo-do império-romano-matas-me-a-família-mato-os-a-todos!!)? Bem, louvo a academia por um gesto e encolho os ombros com o outro. Mas fico imensamente feliz com um ano em que nem a comédia nem emoção mais selvagem tenham ficado de fora, tudo com olhares tremendamente inspirados.
Assim sendo:
MICHAEL CLAYTON
Para começar, grande Clooney. Grande interpretação. Uma performance cheia, mas tão cheia de uma contenção subtil que só os olhos e aquela máscara de estoicismo(?) poderiam fazer o filme. E julgo que é esse um dos grandes trunfos. O desencanto subtil com que o filme acomanha o trajecto de um Clooney em fato escuro mas muito longe do design e coolness de Ocean, mas perfeito no retrato de um ser humano apertado por todo o lado, e de quem aparentemente toda a gente depende. Há algo na subtileza do filme que faz lembrar uma situação onde qualquer pessoa poderia gritar, digamos o realizador, lançado naquilo que muitos justificariam um histronismo narrativo, e no entanto, pertante tudo o que acontece, alguém fala com a mesma ira e peso nas costas, mas sem evangelizar de forma alguma. Michael Clayton arrepia porque Tilda Swinton parece real, porque tudo aquilo parece real, especialmente o corte de relacionamentos e a terra de ninguém emocional onde tanta gente parece viver. A honestidade e simplicidade deste conto do facilitador conquistou-me. Vénia á elegância triste deste filme.
THERE WILL BE BLOOD
Que Daniel Day Lewis é um actor de outra galáxia, já era quase vox populi. Mas o homem lá se vai transcendendo, e Daniel Plainview é provavelmente a sua obra prima de composição. O homem petróleo, aparentemente negro, repelente mas necessário(?) como Plainview, que nos deixa o filme inteiro a tentar decidir se o detestamos, se o entendemos, ou se simplesmente nos rendemos à incapacidade natural de qualificar personagem tão rica e tenebrosa como esta, é o triunfo de Lewis, mas também da câmara suave e contida de Anderson. P.T. Anderson assina aqui aquele que poderá muito bem vir a ser um clássico. Um filme com uma tal voz própria e um registo de tal forma original que, tal e qual como a fabulosa cena final, deixa-nos hesitantes entre o horror, a compreensão, ou a total confusão perante o mundo em que vivemos, especialmente se nadarmos no charco das obsessões e as lógicas do sucesso. O sucesso a todo o preço é aqui retratado numa lógica impiedosamente clara, e no entanto, não há um grama de evangelização nos fotogramas. Há sim uma interpenetração de danos e hipocrisias, salvaguardadas por algo que parece ser amor paternal (mas que se vem a abater-se sob o peso da tal panóplia de obsessões), e que parece deixar todos os personagens emersos na confusão que se mostram incapazes de resolver. Planos maravilhosos ( por vezes lentos, concedo) e uma sensação de crescimento anormal, o sucesso que se devora e engorda a si mesmo, e tudo sob a magia de Lewis, absolutamente magistral. Os outros vão igualmente bem, mas o homem é de facto um scene stealer, e aqui, tirando o registo de Paul Dano (atenção a este rapazito... Já em Little Miss Sunshine o moço deu cartas, e sem falar uma carrada de tempo) , todos parecem desaparecer quando Lewis resolve falar com uma voz que me fez lembrar um registo distorcido e mimetizado da voz de Sean Connery.
Tem ainda, no meio de toda uma panóplia de negros, algumas cenas de hilariedade confessa. A cena da "conversão" de Plainview na Igreja merecia ser por si uma curta metragem. O fabuloso e desconcertante final, idem, algures entre a risada sincera e o horror.
Enfim, um filme de fôlego, enorme, pessoal, belo, horrendo e idiossincrático. Paul Thomas Anderson tirou um magnífico coelho da cartola.
JUNO
Desde "Hard Candy" que fiquei de olho em Ellen Page. Pequenita, de olhos penetrantes, e um talento assombroso, quer-me parecer que vai ser a estrela que Rachel Evan Hunter ainda não conseguiu ser, mesmo após o filme "Thirteen".
Mas associada a esta actriz está o magnífico argumento que conseguiu levar a estatueta para casa, e merecidamente. Diablo Cody, ex-sripper, tão tresloucada como a personagem que criou neste argumento (vejam uma entrevista dela e digam lá se não é a "Juno" com mais dez anos), escreveu uma pérola de ternura e emoção sem resvalar uma única vez que seja para o campo lastimável do delicodoce, do queridinho (argh). O humor é de primeira água, o pai e a madrasta são assombrosos e toda a narrativa se desenrola com uma inteligência e economia na abertura da barragem emocional que toca verdadeiramente.
Este argumento prova, mais uma vez, que se pode escrever sobre temas emocionais e íntimos com inteligência e sem fórmulas que não sejam honestidade e sentido de humor ao contar uma história. A premissa básica poderia ser banal, mas não há um instante de banalidade neste filme, começando pela banda sonora e acabando na forma real e humana como os protagonistas lidam com as emoções que os atrapalham, os fazem engasgar e dizer algumas coisas o melhor que sabem, e transmitir coisas que realmente sucedem ou que podemos facilmente reconhecer. E o humor é mesmo do melhor, especialmente nas cenas entre Juno e o casal "adoptivo", tudo filmado com um descaramento maravilhoso próprio da disfuncionalidade que em certa medida, talvez só exista na lógica comparativa entre vidas. Não é um claro "feel good movie", porque nada se cristaliza numa imobilidade bonitinha. Como diz o pai de Juno, o máximo que podemos fazer é ter alguma sorte, e depois logo se verá. E é mesmo assim.
Ellen Page e Diablo Cody, e claro, Jason Reitman criaram uma gema na linha de Miss Sunshine e quejandos. Mas de todos as tragicomédias indie, é talvez a minha preferida sendo claramente o filme que (subjectivamente) mais me tocou. Tenho assim muita dificuldade em compará-lo com o primeiro da lista, que é igualmente arrebatador, mas por outros motivos... ou talvez os mesmos?
NO COUNTRY FOR OLD MEN
E chegamos ao topo do pódio, (ok, talvez dividido com Juno). Há quem diga que este filme é premiado como filme do ano porque a academia resolveu mudar a lógica de reconhecimento. Por mim tudo bem, porque este ano premiou-se o génio, a originalidade e qualidade. E os Cohen, de quem sou fã de longa data ( Blood Simple e Brother Where Art Thou são material de revisitação frequente) tiraram a furiosa história de Cormac McCarthy da página e mostraram exactamente o que está no coração da mesma, desde os personagens ao subcontexto. Na linha de Blood Meridian e The Road, esta não é uma história de redenção ou luz, mas também não cai no niilismo absoluto. É apenas o retrato de um mundo onde infelizmente, o mal é real e não recai em qualquer lógica de influência ambiental, mas sim de uma génese interna. É também um conto negro acerca daqueles que são deixados à sua sorte, e dos que os predam. Uma história onde o mal-estar surge desde o primeiro segundo, e a violência nunca se torna uma torta na cara para inebriar. Surge natural a partir de certa altura, e a referência a Cigurh na comparação à peste bubónica parece particularmente feliz, já que ele se abate sobre as suas vítimas sem que muitas destas façam ideia do porquê da sua inamovibilidade assassina. Até o assassino com princípios rígidos acaba por fugir aos mesmos a certa altura.
É um filme sem música, o que aumenta a claustrofobia operada através da tensão ou a aridez implacável de tudo o que vai acontecendo ou do que se vai observando. A realização parece artesanal, como se cada plano tivesse sido superiormente escolhido para anteceder um outro. A fotografia é também muito boa, a qual, associada ao silêncio, faz com que a manta de incómodo se vá instalando como uma corrente eléctrica fraca que não nos deixa relaxar. E sinceramente, se há coisa que não me pareceu minimamente, é que o filme tenha sido de alguma forma lento ou mesmo parado.
É também um filme estranhamente belo. Como a desolaçao do deserto o conseguirá ser no crepúsculo.
E depois... que dizer do elenco que já não tenha sido dito.
Entreguem 50 Oscares a Bardem, porque ele os merece todos. Esta interpretação é das coisas mais espantosas que já vi. Reparem na expressão dos olhos do homem, caraças! Até parece que ele consegue controlar as próprias olheiras e os globos oculares raiados de sangue. A composição do personagem é arrepiante, e Xavier Bardem deixa sair um jorro de negro em cada aparição, roubando claramente as cenas. Só não as roubaria se as tivesse de partilhar com Tommy Lee Jones, que está igualmente soberbo. As linhas do rosto sulcado que parecem estar ao comando dele e contam em si mesmas uma história, o olhar, a voz, tudo pleno de uma emoção tão infectada mas ao mesmo tempo tão contida, que não nos deixa nunca fugir para a confortável noção de que eles estão só ali a fingir até que alguém grite "corta"!!!!
Enfim, uma obra prima.
E esperemos que o pai do Xerife Bell não esteja completamente certo...
Enfim, a academia resolveu premiar os miolos, conteúdo e a emoção real este ano.
Não ficava assim feliz desde que Peter Jackson ganhou com a sua obra prima do intransponível "Lord of The Rings"
Salvé!

sexta-feira, março 07, 2008

Tiro o chapéu a Diablo Cody.
"Juno" é uma gema como há algum tempo não via. Um filme pleno de uma habilidade fabulosa em transmitir sentimento a rodos e evitar o vomitante delicodoce com a destreza de uma patinadora de gelo às piruetas. Terno, comovente, tocante, hilariante, e esperto que se farta. Mesmo, mesmo, mesmo esperto.
Voltarei a este filme, porque há tanto nele a comentar, tantos assuntos relevantes, que o tempo não me permite agora fazê-lo. Mas "Juno" é, até agora, o filme que mais me tocou, de entre os Oscarizáveis. Só me falta "Attonement" e "No Country for Old Men".
A saga continua...

quinta-feira, março 06, 2008

Religião para quê...?
Cameron: "Men should grow up."

House: "Yeah. And dogs should stop licking themselves. It's not gonna happen."
--//--
Wilson: "Everybody lies"... except "politicians"? House, I believe you are a romantic. You didn't just believe him, you believed in him. You wanna come over tonight and watch old movies and "cry"?
(pause)
Dr. Cameron's getting to you. Well, I guess you can't be around that much "niceness" and not get any on you."
House: Is that why you haven't put the moves on her?
Wilson: What makes you think I haven't put the moves on her???
House: [Stops and stares]
Wilson: [points] Oh!! [he's onto something big]
[whispers]
Oh ""boy""! You're in trouble!!
Há já uns anos largos vi este filme, indicado pelo meu "ex-sogro". "Deliverance", ou em Português, o histriónico mas até justo "Fim de Semana Alucinante".
E percebi naquela altura que Tarantino, na sua genialidade, também tem boa memória ou uma necessária mente de pesquisador. A verdade é que se juntarmos este filme ao excelente e gloriosamente amalucado "Catch 22", veremos que uma certa vaga de cinema tem progenitores. É pena é que esse contágio não seja mais prolífero, e se produzam ainda mais filmes com esta inteligência e humor de primeira água.




Scene from "Deliverance"





Scene from "Catch 22"

Uma amiga minha enviou-me o magnífico anúncio que se segue, e que sublimará a opinião que tenho da corja de idiotas que assola as salas de cinema, dando outra designação ao termo má educação e falta de respeito pelos outros.
No outro dia estava numa sala de cinema a ver o (excelente e espartano) Michael Clayton, e tinha ao meu lado um animal de carga que revolvia o saco das pipocas como se estivesse a procurar ouro num regato do Yukon. Era um cagaçal tal que até a namorada lhe teve de dizer, depois de enfardarem a maioria das pipocas, que ele devia fazer menos barulho.
Associado a alimárias como estas, existem os míopes ou simplesmente mentecaptos, com claras dificuldades para ler, que não sabem o que quer dizer o anúncio em letras garrafais que passa simpaticamente no ecrã a instruí-los a desligar ou silenciar a porra dos telemóveis.
Isto é, no mínimo, falta de respeito, e sobretudo próprio de quem vai a uma sala de cinema com a clara noção de que desfrutar da obra é secundário perante o enfardamento sonoro do milho estourado associado a toques de telemóvel seguidos da frase
"Agora estou no cinema... depois ligo-te". E isto claro, se tivermos sorte.
Martin, estou contigo.
Associação Amigos no Cinema, toca a reunir.
A estupidez fora das salas de cinema, para bem da arte e do respeito por todos.




quarta-feira, março 05, 2008

Por vezes as pessoas enervam-me.
Ao ponto cáustico.
Ao elemento mais volátil.

Como certamente o farei a alguém...
Não raras vezes ouço a questão, normalmente vinda de pessoas com quem tenho alguma proximidade, na qual estas desconhecem a imagem ou efeito que projectam nos outros. não quer isto dizer que se importem com o que outros possam opinar em confronto com a sua identidade pessoal, mas tão somente a forma como serão vistos. Arrisco que qualquer um de nós talvez já tenha gostado de ser invisível e introduzir-se em local onde o próprio é motivo de conversa. Há, para algumas pessoas, um lado semi-perverso/voyeur, mas existe outro que, em meu ver, se prende com o desejo de saber quem somos, nem que seja por espelho conceptual e necessariamente exógeno. Em suma, quem nos vê, o que verá? Quantas conclusões erradas que nos poderiam levar às lágrimas (de riso, pelo tiro tão ao lado, ou de tristeza, pelo tiro ainda mais ao lado mas dado com intenção de ferir), ou críticas justas acerca de instantes ou momentos que a memória enterrou onde quer que o subconsciente guarda ou destrói tal informação.
A verdade é que se o velho clichê está certo, e nenhum homem é uma ilha ( com todo o devido respeito, eremitas e capuchinhos, se não estão doidos, ficarão muito rapidamente. Eu pelo menos ficaria, pronto...), a projecção da nossa personalidade, físico, opiniões, capacidades, forma de nos identificarmos enquanto seres humanos com valores expressos na glóriosa lógica da liberdade pessoal, não pode ser despicienda. Nem que seja para nos conhecermos melhor, para que o papel que afinal queremos escrito para nós seja alvo de uma melhor adaptação.
Algumas pessoas têm identidades matizadas consoante a forma como o mundo as afecta. Vão perdendo o discernimento e uma elegância perfeitamente certeira conforme a proximidade lhes permite mostrar as coisinhas mal amanhadas de que também são feitas. Algumas pessoas acabam por tornar-se tremendamente eficazes na sua viagem social, multiplicando as suas façanhas e mesmo actos dignos de bom registo junto dos outros e perante si mesmos. Essas mesmas pessoas passeiam a sua liberdade com um desplante maravilhoso, pleno de uma beleza propria das coisas livres e dos actos oriundos da convicção apaixonada que, não deturpada por lógicas emocionais, e como tal, parcelares, as permite ter uma visão tão clara sobre as coisas que chegam a pintar quadros ainda mais belos e nítidos a fotografias oculares que não são as suas. Claro que essa eficácia, (numa espécie particular de pessoas), perde-se quando surge ocasionalmente o desejo de se encaracolarem num gesto fetal, por pura necessidade, em muitos casos, inconsciente. E aí a sua elegância perde-se a meio dos gestos ensanguentados da sua genuinidade, a qual mora no bairro dos disparates internos. Alimenta-se do tremendo equilíbrio que existe entre aquilo que a vai fazendo ganhar o núcleo doce e bom dos dias, e as fragilidades que a lógica omnipresente da alternância obriga. E é nesse equilíbrio que nasce o conhecimento, e antes de chegar a ele que tantos param, iludidos pela conclusão que tiram, e que constitui a tal imagem que a mosquinha, em vôo errático, tanto gostaria de conhecer.
Sabe-se lá quem encontrará na descrição, e quem gostará de trazer para a luz?
Tanta curiosidade. Como a entendo.
Como sempre, os agnósticos acham que tudo depende deles. Seja a que custo for...