"O antes e o depois.
A percepção de algo que fomos, e que num instantinho deixamos de ser. Uma entrada de luz, lenta, como o processo de criação de um daguerreótipo. E a imagem parece eternizar-se, exactamente como aquelas maravilhosas mas assombradas “fotografias” com as quais nenhuma fotografia recente pode competir. A nossa lâmina de prata vai-se expondo e a superfície intocada, plena de uma constância tão clara como o uso inconsciente da linguagem, vai moldando em pretos e brancos, formando contornos impassíveis de reproduzir da mesma forma.
Um daguerreótipo é único. Singular. Irrepetível. Um outro será sempre um segundo à frente ou atrás, ainda que pareça idêntico. A reprodução de tal coisa fica então sujeita ao toque do digital, da repetição infinda, de uma qualidade e transparência que parecem levar o mundo ao colo até ao entendimento da forma das coisas, mas que lamentavelmente é uma reprodução denunciada antes mesmo de se apresentar.
Há um antes e depois. Não quer dizer que haja um melhor e um pior. Há um antes e um depois, uma cor constante e lisa, sucedida por luzes brancas e negros eternos. Esses negros são edifícios do inconsciente que ruem e não há, em muitos casos, como os reerguer.
E se tivermos azar, estamos entalados."
3 comentários:
... é a vida que corre.
se andasse devagar, nao seria assim, certamente.
e na vida não há experiências....
Sorry alx, mas eu farto-me de fazer experiências, sempre com base no "antes" para ver o que acontece "depois" !
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