ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, maio 23, 2008


Por razões que dizem respeito à delicadeza do assunto e algum sigilo que deve assistir, quanto mas não seja, às pessoas que são forçadas a trabalhar em antros destes, não serão mencionados nomes. Mas uma vez que pretendo meter-me pessoalmente nesta trapalhada e pelo menos chatear os cornos a este idiota, fica pelo menos a exposição de uma das muitas situações que este país permite, e que deverá ser um recado para os liberais que tanto apregoam a liberalização da lei laboral, que, como já vários especialistas, incluindo o professor Monteiro Fernandes, vieram denunciar como uma falácia no que diz respeito ao favorecimento da economia. Bem sei que para uns quantos, tratar as pessoas como números é apenas uma consequência da chamada economia global, mas só espero já estar a fazer tijolo quando as consequências da objectificação selvática das pessoas der os seus frutos.
Uma amiga, fotógrafa, foi contratada em regime de "prestação de serviços", ou seja, uma treta muito conveniente supostamente suportada por recibos verdes para justificar a ausência de um vínculo laboral. O idiota do empregador, além de não ter sequer uma casa de banho utilizável pelos funcionários ou clientes, deixar que a luz seja cortada por falta de pagamento, e utilize estagiários como trabalho escravo que dá muito jeito, não paga contribuições à Segurança Social, dá ordens, indica local de trabalho, contrata uma actividade e não uma tarefa isolada, paga sempre ao mesmo dia ou quase, o mesmo montante por transferência, exige horário de trabalho e estabelece folgas. Ou seja é o protótipo do prevaricador imbecil, porque nem prevaricar sabe.
Ou seja, ao comunicar a "cessação do contrato de prestação de servições", está, claramente, a despedir ilicitamente porque, como imaginam, isto não é um contrato de prestação de serviços nem aqui nem na China (bem, lá vale tudo, mas aqui, por enquanto, ainda não).
Escusado será dizer que o trabalho nunca esteve atrasado, a moça nunca faltou, e comete apenas o pecado de custar uma centena de contos ao mês, quando afinal há aí tanto estagiário para espremer durante uns meses.
Estes casos repetem-se por toda a parte, à mão de gente que certamente alinhará pelo discurso de que com a flexibilização, nada disto acontecia. Claro que não. Com a flexibilização, a arbitrariedade é clara, e assim a moça poderia ser mandada às urtigas dentro da lei.
Gostaria de perguntar à malta mais "liberal" se este tipo de exemplos não comprova que muitos tipos com uma chafarica aberta, se puderem poupar uns cobres, fá-lo-ão seja á custa de quem for? É lamentável que tanta gente, do alto dos seus gabinetes simpáticos e polidos mandem postas de pescada acerca do que deveria ser a liberalização de uma protecção que tem simplesmente a ver com a sobrevivência de todos os dias, quando a grande maioria dos exemplos assenta numa lógica economicista e ponto.
Este é o exemplo das "boas intenções" da liberalização. Energúmenos como este com cheques em branco.
E o mais caricato, apenas para dar um exemplo, é o facto de bancos exigirem uma situação estável para concederem empréstimos para habitação que são afinal de contas um dos seus objectos de negócio mais relevantes. Se isto não é esquizofrenia, não sei o que será.
Por enquanto ainda se consegue, pelo menos, assustar cabrões destes. Não sei o que será quando a "maravilha" do flexível puder deixar as pessoas completamente desamparadas, sem qualquer espécie de direito ou ideia de reconversão para, sei lá, ter uma vida. Mas para alguns isso é um luxo incomportável no admirável mundo novo.
É nestas alturas que me lembro da Tenente Ripley - "Ao menos (os Alien) não se fodem uns aos outros por uma percentagem...)
Pois...

2 comentários:

hgp disse...

como já comentei algures esta semana, que país é este em que praticamente todos perderam já qualquer tipo de ambição, amor-próprio ou confiança, endeusando precariedade a "nova segurança" quando ela de segura nada tem?
Qual é o país digno desse nome que só tem para nos oferecer a resignação e a vida adiada ou a fuga como opções?
E se a vida é adiada, então até quando?

Nuno Amado disse...

Em Portugal não são só os trabalhadores que têm de mudar e evoluir (até que a mentalidade do trabalhador vulgar tem mudado bastante), o empregador em Portugal continua com uma mentalidade pré-Abril 74, que só não leva mais avante porque a lei não deixa! É tempo do "patrão" português começar a tirar os lucros do seu trabalho e não do ordenado do vulgar trabalhador por conta de outrém... os ordenados dos trabalhadores não podem ser razão para lucro ou prejuízo do empregador! Se assim for, ou vai à falência ou é um ordinário "chupista"... e não, não pertenço ao PCP ! LoooL