ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, maio 30, 2008

A propósito de uma conversa com uma amiga acerca do combate entre razão e emoção, ficou-me algo a roer a pinha. Porque não entendo muito bem o antagonismo que algumas pessoas se esforçam em manter relativamente a algo que deveria ser complementar. Eu modestamente julgo que se trata de uma batalha dos equilíbrios. A ideia não se centra na desconfiança somente, mas naquela que se gera a partir dos exageros. No que me diz respeito, as pessoas excessivamente emotivas entram num registo onde a emoção parece justificar tudo, e aí o respeito pelas pessoas e pelas sensibilidades deverá prevalecer. Alguns emotivos (excessivamente, reitero) vestem uma espécie de casaco de impunidade, como se o facto de sentirem qualquer coisa justificasse qualquer entorce se personalidade ou de atitude perante outros, especialmente os que estejam mais próximos. E eu não afino de todo por esse diapasão. A emocão não deverá, em meu ver, claro, nunca por de parte o outro ou outros e encerrar a pessoa numa espécie de estado de inimputabilidade.


A emoção é apenas uma parte do laço que une as pessoas. A afeição intelectual, o reconhecimento pelas qualidades, os gestos, a lógica do fazer bem e fazer por não podem, mais uma vez na minha perspectiva, estar afastados da relação com as pessoas, quer as amemos, sejamos grandes amigos, ou qualquer estágio intermédio. E alguns emotivos são incapazes de fazer isto. Com todo o respeito por eles, são pessoas que normalmente não me puxam, assim como eu provavelmente não os puxarei a eles.


Claro que por racional nunca se deve traduzir insensível. Racional é quem consegue sentir, no meio do sentir consegue ter alguma percepção do mecanismo que a aproxima de alguém, e até trabalhar nesse sentido.


Mas claro está, essa é a minha visão. Não tenho nenhuma guerra contra os Camilianos ;), mas gosto de os ver como parte de um ecletismo em sermos humanos. Coração e razão numa tentativa de sermos melhores ao (também) tornarmos melhores os outros. Nunca esquecer que amar e gostar é também entender, e só com o coração dificilmente se entende coisa alguma para além da pulsão própria. A ideia da dita paixão cega é, em meu ver, própria de um sectarismo emocional onde bem espremido só sobra o egoísmo de uma voracidade sentimental. Voracidade essa onde o próprio acaba por anular todos os outros porque só o que ele sente acaba por ser importante. E eu cá não dou para esse peditório. Podemos amar rendidos, e isso é algo muito bonito, mas nunca à custa de tudo aquilo que pareça não obedecer a esse apetite.


Equilíbrio. Emoção, sensibilidade, intelecto, entendimento, paixão, acção, dádiva. Tudo isto.


Mas cada um terá a sua ideia, claro. Desde que não prejudique ninguém com isso, preferencialmente.


O seu a cada um.




3 comentários:

R. disse...

Uma questão de equilíbrio,sim.o que nem sempre é fácil. fui toda a minha vida,uma pessoa movida pela emoção,e não tive outro remédio,que arcar com as consequências que daí chegaram.acho até,que foi quando descobri que pensar primeiro e agir depois,podia trazer mudanças positivas à minha vida.nem sempre é possível,claro.e é aqui que temos que saber jogar com os sentimentos,quando eles nos caiem em avalanche..

E subscrevo o que disseste sobre a paixão cega.

Um beijo

Anónimo disse...

ponhamos as coisas deste modo:
não me importo muito de ser cega só de um olho...pouco me interessa racionalizar o que me aproxima de outrém...
...a menos que isso seja um tema muito interessante de conversa infindável e saborosa e verdadeiramente enriquecedora porque assim a tornamos...
a voracidade pode não ser negativa, se doseada e não só afectiva, mas também vontade de conhecer mais, saber mais, é o inesgotável dos porquês...
camilianos? gosto mais dos queirosianos ;)

o seu a cada um? talvez...
prefiro preferir as três pessoas possíveis, a 1ª, a 2ª do singular, se possível a 1ª do plural. aí, quando tudo existe em simultâneo, julgo que reside a perfeição.

A disse...

Ehehehehe

gosto muito do comentário anterior até porque concordo (e muito) com o que escreveu.

Convenhamos: quem aqui lê o que escreves sem conhecer o escritor por detrás das palavras poderá ficar com uma sensação errada da pessoa que tu és. Ora conhecendo como te conheço, diria que quase tudo o que aqui descreves neste post soa a uma dor ou amargo de boca de algo ou por algo que entendes que é como o descreves, mas que no fundo não o é de todo.

Ora bem, caro amigo, o termo racional adequa-se a toda a gente comummente dita normal. Todos fazemos opções, todos os dias, e com maior ou menor grau de impulsividade afectiva, existe um pensamento que nos assiste a todos. Todos ponderamos, todos somos racionais. Não existe racional para um lado, e emocional para outro. Se tu defendes isso, defendes mal. Tu e a tua amiga. Basta que leiam um bocadinho umas obras de filosofia para lá chegarem. E de ciência, já agora.

Podes pensar que és mais racional que outros, mas não és. Apenas levas mais tempo a ponderar em algo que outra pessoa, e pode bem haver quem demore mais tempo que tu. E muitas vezes, podes até estar a pensar em fazer merda, e no fim, "racionalmente", acabas mesmo por fazer merda. E o facto de andares em círculos à volta de um tema também não te faz mais racional. Levar mais tempo a falar ou a escrever sobre determinada coisa, não faz com que entendas melhor a "coisa". Apenas levas mais tempo. Justificar o amor que se sente? Que necessidade ridícula é essa? Quem to pede que o faças? Pedes-to a ti próprio? Porquê? Para quê? É fundamental falar-se sempre do mesmo? Quantas vezes amaste alguém num exercício meramente injustificável e as coisas que fizeste por essas pessoas apenas porque sim?
Sim, o amor explica-se e acima de tudo, sente-se, somos um somatório gigante de coisas que nos trouxeram até determinado ponto das nossas vidas, mas o amor também acaba por vezes, e muitas, nem sabemos porquê. Não temos explicações para tudo, não temos repostas para tudo e não é por sermos mais ou menos racionais, a vida simplesmente ultrapassa-nos, e aí reside o gozo desta merda toda.

Quanto às paixões ditas cegas e "irracionais" bem como os comportamentos que lhes assistem, pensa lá um bocadinho e vê lá bem sde não estiveste já nesse barquinho. É que isto de se dizer que se ama irracionalmente ou cegamente ou que expressão fôr, tem muito mais de meramente especulativo do que outra coisa. Coisas e paixões da boca pra fora todos já tivémos, e paixões e amores que nos marcaram para a vida toda também.
Não é porque saltamos do barco que temos de nos esquecer o que lá fomos e que já não voltamos a ser.

E mais te digo: triste todo aquele que arranja justificação dita normal e explicativa e "racional" para amar seja lá quem for. Nem tudo se explica, caro amigo. É resumir o amor em poucas linhas e nunca conseguir arranjar o inexplicável na sua própria vida, essa parcela de perigo em que sempre temos de fazer mergulhar a nossa existência. Até te digo mais: é uma espécie de seguro no amor, e é medo do futuro.

Querer amar sem sofrer (nem que seja apenas um bocadinho) é a maior estupidez que um ser dito e auto-proclamado racional pode querer fazer, apenas porque algo assim nem sequer existe!

Esse teu conceito de racionalidade tem pouco de equilibrado, eu diria até de real e concreto e... racional.
As coisas não são estanques, mas cá está: cada um acredita no que quiser e de acordo com a sua própria vivência. Mas uma coisa é certa: todos somos racionais.