ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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terça-feira, junho 03, 2008

"It is the Tale, not he who tells it." - Parte I
S King 1982


Embora saiba quais os riscos de me atrever a escrever histórias, e por essa mesma lógica, a escrever seja o que for, a verdade é que se há nem que seja um pormenor que gosto nas histórias que escrevo, tenho sempre o impulso de as exteriorizar. Poderia dizer que escrevo só para mim, mas a verdade é que embora seja um impulso, que o é, uma mania, na qual se tornou, e uma necessidade, com a qual já nem argumento, há um desejo de ser lido, de passar alguma coisa, de tentar chegar a alguém. Um desejo de expressão, sei lá. Qualquer coisa menos a ocultação. Porque essa já existe e tenho milhentos pedaços de histórias que morreram porque inexplicavelmente já não era minhas.
No meio do caos, da ansiedade, do medo, nascem algumas coisas. E sejam boas ou más, porque sei que uns poderão gostar e muitos simplesmente poderão detestar, uma coisa sei que são. Honestas. Não há flores. Vendo o peixe ao preço que o compro. É o que temos.
E como me disse uma grande amiga, ser lido é uma ambição honesta para quem escreve. Seja ou não, eu tenho-a. Ainda que a duras penas.
Por tudo isso e como este blog é um veículo de escrita que uso há tanto tempo, vou dar algum tempo de antena às minhas histórias, usando esta minha casa como se a mesma tivesse paredes de vidro transparente para deixar ver algo a quem passa.
Por isso mesmo, aqui fica, em jeito de folhetim, a primeira parte da primeira dessas pequenas aventuras pela folha de papel.

(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)




"Branca"

Parte 1

"Ainda que me mate, mesmo assim confiarei Nele.” - Job 13:15
"Eram cerca de quatro da manhã e o calor que fazia dentro do táxi roçara há muito o insuportável. Era uma noite quente e húmida, daquelas que provocam as manchas nos lençóis, sejam elas de sangue, suor ou lágrimas. O tempo perfeito para que tudo descarrilasse, para que as iras se agigantassem e as pessoas perdessem um pouco a noção do que as rodeava. Estávamos em meados de Julho e a cidade incendiada sofria a queda dos corações mudos por pequenos crimes.

Já tinha tido a minha quota parte de marados naquela noite. Dois bêbados, uma menina rica que chorava baba e ranho por entre o inchaço que tinha na face, e um filósofo que me fez dar três voltas ao Restelo antes que a bebedeira lhe permitisse localizar a casa.

A minha penúltima cliente daquela noite era uma mulher muito bonita. Tinha a pele mais impecavelmente bronzeada que alguma vez vira. A noite estava tão quente que mesmo no escuro consegui ver as gotas de suor que lhe escorriam pelos braços. Senti a cobiça num impulso e invejei o percurso descendente das gotas. Duas palavras certeiras e penso que a minha teoria da ausência de paixão à primeira vista iria pelos ares, mesmo depois de cinco anos de pragmatismo na faculdade. Era daquelas pessoas que apenas se vêm uma ou duas vezes na vida. Parecera-me na altura a mulher mais bela do mundo, com toda a inacessibilidade que isso acarretava. Fiquei mudo. Ela pouco falava, mas fazia-o com toda a graça que o corpo já adiantara.
Deixei-a à porta de uma vivenda no Restelo, recebi uma gorjeta digna de nota e fiquei alguns minutos parado. A voz metralhada da colega da central que indicava-me destinos e clientes à espera, mas eu permanecia estático. Perguntei-me onde viera parar e segui abadonei o local pouco tempo depois, ainda meio dormente.
Foi quando retornei à zona de Alcântara que reparei.
As ruas estavam pejadas de gente em férias, entrando ou saindo das portas apinhadas das discotecas. As mulheres nas suas indumentárias reduzidas, os homens perdidos nos olhares ansiosos e expectantes. Estava a olhar para um atrasado mental que seguia atrás de mim com bichos-carpinteiros na buzina e no banco de trás vi algo que cintilava. Parecia uma caixa de metal. Lancei a mão e toquei-lhe. Era uma máquina fotográfica digital que, a julgar pela aparência, não deveria ter mais de duas semanas. Nao precisei de mais que três segundos para reconhecer uma qualidade e preço impensáveis. Concluí que pertencesse à minha última cliente e num ápice apoderei-me da máquina. Poderia muito facilmente ter voltado a casa da senhora e devolvido o aparelho, mas era demasiado fácil, estava demasiado à mão e naqueles dias a hipótese de conseguir alcançar uma máquina daquelas era tão quimérica como arranjar um emprego para o qual efectivamente estudara. Não me orgulho do que sucedeu, mas também não penso que, dadas as mesmas circunstâncias, agisse de qualquer outra forma. Sempre tinha tido uma tendência para os pequenos furtos, aqueles que surgem com a ocasião. Umas vezes por necessidade, mas a maioria por pura impulso. E o antigo brocardo acerca de ladrões e ocasiões acabava por bater certo.
Era o meu último turno da noite, e seguiam-se dois dias de descanso, que coincidiam com o fim-de-semana pela primeira vez em cinco meses. Ainda por cima tinha uma máquina nova. Caraças, se a vida por vezes não era boa!
Naquela mesma noite pus-me a inspeccionar a máquina. Ainda tinha bateria, embora eu soubesse que acabaria por ter de comprar um carregador. Mas uma bateria de lítio de ultima geração dá muitos pontapés antes de morrer efectivamente.
Quando lá percebi minimamente como a coisa funcionava, cheguei à conclusão de que a máquina estava plena de fotografias e dois filmes pequenitos em formato digital. Dizer que estava curioso era um eufemismo. Além disso, a imagem daquela mulher estava constantemente a saltitar dentro da minha cabeça, em meio a pressentimentos. No entanto, como nunca fui de ligar a essas coisas, resolvi chegar a casa e tentar ver algumas das fotografias, temendo a todo o instante que a bateria pudesse terminar.
E assim foi.
Deitado na cama, por volta das seis e picos da manhã, a máquina ainda tinha energia suficiente para mostrar o seu conteúdo através do LCD brilhante. O que vi a principio agradou-me, já que se tratava daquelas fotografias que nos dias de hoje percorriam a Internet numa velocidade alarmante. A minha cliente resolvera fazer um espectáculo privado e erótico e nunca esperaria que alguém pudesse ver aquelas imagens. Mas conforme fui avançando no número de fotografias, a curiosidade e excitação foi dando lugar a uma coisa bem mais desconfortável. Parece que os parceiros sexuais começaram a fartar-se dos rituais do costume, passando para práticas mais complicadas e perigosas. Numa das fotografias a minha cliente empunhava um segmento de arame farpado com mais ou menos um metro e meio de comprimento. Na seguinte, uma faca na mão esquerda e uma corda na mão direita. Depois uma cama e um homem amarrado com um sorriso idiota, e provavelmente ébrio, estampado na cara. Quando premi o comando para ver a fotografia seguinte, a máquina deu o último suspiro e apagou-se definitivamente. A bateria de lítio havia lutado com bravura, mas tinha chegado a hora.
Senti um arrepio próprio daquela sensação que obtemos quando algo não corre bem, ainda que não saibamos porquê. É um vento frio quando nem sequer há brisa. Uma picada na imaginação que se assemelha ao inicio de uma terrível dor de dentes.
Escusado será dizer que só adormeci quando o cansaço conseguiu levar a melhor sobre todas as outras inclinações do espírito. Mas para grande azar meu, os sonhos com a continuidade das fotografias foram os piores que eu poderia imaginar.
E para além deles…"
(to be continued...)

2 comentários:

Anónimo disse...

Este conto esta guardado na minha memoria desde que o li (ha uns meses). Esta muito bem conseguido.
I'm proud of you :)

A disse...

E graças a deus(?) que te conheço há tempo suficiente para poder ter estas e outras histórias impressas a papel porque ler durante tanto tempo o Blog dá-me cabo dos olhos :D

Já sabes o que acho de todas elas. Que estão fantásticas.

Algum editor que passe por aqui para dar crédito ao meu amigo se faz favor! ehehehe

Beijinhos grandes