S King 1982
"Branca"
Parte 2
"(...)
Era fim-de-semana. Passava já das duas da tarde quando acordei. A minha memória fotográfica, que muito me ajudara no ofício de taxista licenciado, levou-me a entrar no meu Mini e ir em busca da casa da cliente da noite anterior.
Vista à luz do sol a casa mais parecia um palacete. Era um paralelepípedo de dois andares, rodeado por um jardim que permitiria a realização de pequenas provas de MotoCross ou futebol. Estava pintado de um cor-de-rosa muito leve, e tinha imensas janelas. Um formigueiro nas mãos indicou-me que era tempo de ir procurar o carregador o quanto antes. Ou então falar com o meu amigo Mário que seria certamente capaz de arrancar as imagens do cartão.
Reparei no carro que estava estacionado à porta, mas este podia pertencer à casa em questão como a qualquer outra. Tinha no entanto duas pequenas amolgadelas no pára-choques e um pneu meio vazio. Fiz um comentário interno e machista e lancei-me ao caminho.
Cheguei a casa do Mário cerca de vinte minutos depois. Estava a descarregar alguma música da net. Agarrou na máquina, ligou-a ao computador e fez-me uma descrição completa das suas funcionalidades mesmo sabendo que eu só entenderia um terço da informação. O ecrã reflectia o sol ardente que castigava o dia. Sentia as gotas de suor na testa. O cheiro a seco estava por toda a parte e aquela inexprimível sensação de espaço que o Verão trazia propagava-se a cada centímetro da cidade.
Esta ideia desfez-se num esgar de horror quando o Mário começou a mostrar as fotografias que ainda não tinha visto. Se a perspectiva que eu tinha era de que as coisas se aprestavam a correr mal, depois de ver estas imagens tudo foi transportado para um outro nível. Um bicho feio e espinhoso começou a bambolear-se dentro do meu estômago. O Mário arregalava os olhos em descrédito. Era o cenário de um pesadelo sádico e não pude deixar de pensar que havia dado as minhas costas àquela mulher, completamente descansado da vida.
Sai disparado de casa do Mário, levando a máquina e sem lhe dar quaisquer explicações. Meti-me no Mini e só por milagre não parti o motor durante a viagem para casa da minha cliente. Não sabia exactamente o que ia fazer, mas isso não constituía qualquer forma de argumento dissuasor.
Cheguei à porta de casa e vi o portão fechado. O carro continuava no mesmo sitio, e não se via vivalma. O ar propagava um ruído de água chapinhada à distância, que provavelmente viria da piscina construída no quintal. Toquei à porta e a princípio ninguém respondeu. Voltei a tocar com mais veemência, despertando a atenção dos cães das vivendas adjacentes. Ninguém veio à janela. Era uma tarde incandescente de Sábado, e o rádio já avisara acerca da enchente que as praias haviam tido."
Vista à luz do sol a casa mais parecia um palacete. Era um paralelepípedo de dois andares, rodeado por um jardim que permitiria a realização de pequenas provas de MotoCross ou futebol. Estava pintado de um cor-de-rosa muito leve, e tinha imensas janelas. Um formigueiro nas mãos indicou-me que era tempo de ir procurar o carregador o quanto antes. Ou então falar com o meu amigo Mário que seria certamente capaz de arrancar as imagens do cartão.
Reparei no carro que estava estacionado à porta, mas este podia pertencer à casa em questão como a qualquer outra. Tinha no entanto duas pequenas amolgadelas no pára-choques e um pneu meio vazio. Fiz um comentário interno e machista e lancei-me ao caminho.
Cheguei a casa do Mário cerca de vinte minutos depois. Estava a descarregar alguma música da net. Agarrou na máquina, ligou-a ao computador e fez-me uma descrição completa das suas funcionalidades mesmo sabendo que eu só entenderia um terço da informação. O ecrã reflectia o sol ardente que castigava o dia. Sentia as gotas de suor na testa. O cheiro a seco estava por toda a parte e aquela inexprimível sensação de espaço que o Verão trazia propagava-se a cada centímetro da cidade.
Esta ideia desfez-se num esgar de horror quando o Mário começou a mostrar as fotografias que ainda não tinha visto. Se a perspectiva que eu tinha era de que as coisas se aprestavam a correr mal, depois de ver estas imagens tudo foi transportado para um outro nível. Um bicho feio e espinhoso começou a bambolear-se dentro do meu estômago. O Mário arregalava os olhos em descrédito. Era o cenário de um pesadelo sádico e não pude deixar de pensar que havia dado as minhas costas àquela mulher, completamente descansado da vida.
Sai disparado de casa do Mário, levando a máquina e sem lhe dar quaisquer explicações. Meti-me no Mini e só por milagre não parti o motor durante a viagem para casa da minha cliente. Não sabia exactamente o que ia fazer, mas isso não constituía qualquer forma de argumento dissuasor.
Cheguei à porta de casa e vi o portão fechado. O carro continuava no mesmo sitio, e não se via vivalma. O ar propagava um ruído de água chapinhada à distância, que provavelmente viria da piscina construída no quintal. Toquei à porta e a princípio ninguém respondeu. Voltei a tocar com mais veemência, despertando a atenção dos cães das vivendas adjacentes. Ninguém veio à janela. Era uma tarde incandescente de Sábado, e o rádio já avisara acerca da enchente que as praias haviam tido."
(...) to be continued
1 comentário:
Posso apenas dizer que depois de ler as duas primeiras partes me lembrei do Hitchcock? Acho que não consigo fazer melhor elogio, meu amigo.
Continua que isto promete.
Abraço.
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