ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, junho 04, 2008

"It is the Tale, not he who tells it." - Parte II
S King 1982


"Branca"

Parte 2


"(...)
Era fim-de-semana. Passava já das duas da tarde quando acordei. A minha memória fotográfica, que muito me ajudara no ofício de taxista licenciado, levou-me a entrar no meu Mini e ir em busca da casa da cliente da noite anterior.
Vista à luz do sol a casa mais parecia um palacete. Era um paralelepípedo de dois andares, rodeado por um jardim que permitiria a realização de pequenas provas de MotoCross ou futebol. Estava pintado de um cor-de-rosa muito leve, e tinha imensas janelas. Um formigueiro nas mãos indicou-me que era tempo de ir procurar o carregador o quanto antes. Ou então falar com o meu amigo Mário que seria certamente capaz de arrancar as imagens do cartão.
Reparei no carro que estava estacionado à porta, mas este podia pertencer à casa em questão como a qualquer outra. Tinha no entanto duas pequenas amolgadelas no pára-choques e um pneu meio vazio. Fiz um comentário interno e machista e lancei-me ao caminho.
Cheguei a casa do Mário cerca de vinte minutos depois. Estava a descarregar alguma música da net. Agarrou na máquina, ligou-a ao computador e fez-me uma descrição completa das suas funcionalidades mesmo sabendo que eu só entenderia um terço da informação. O ecrã reflectia o sol ardente que castigava o dia. Sentia as gotas de suor na testa. O cheiro a seco estava por toda a parte e aquela inexprimível sensação de espaço que o Verão trazia propagava-se a cada centímetro da cidade.
Esta ideia desfez-se num esgar de horror quando o Mário começou a mostrar as fotografias que ainda não tinha visto. Se a perspectiva que eu tinha era de que as coisas se aprestavam a correr mal, depois de ver estas imagens tudo foi transportado para um outro nível. Um bicho feio e espinhoso começou a bambolear-se dentro do meu estômago. O Mário arregalava os olhos em descrédito. Era o cenário de um pesadelo sádico e não pude deixar de pensar que havia dado as minhas costas àquela mulher, completamente descansado da vida.
Sai disparado de casa do Mário, levando a máquina e sem lhe dar quaisquer explicações. Meti-me no Mini e só por milagre não parti o motor durante a viagem para casa da minha cliente. Não sabia exactamente o que ia fazer, mas isso não constituía qualquer forma de argumento dissuasor.
Cheguei à porta de casa e vi o portão fechado. O carro continuava no mesmo sitio, e não se via vivalma. O ar propagava um ruído de água chapinhada à distância, que provavelmente viria da piscina construída no quintal. Toquei à porta e a princípio ninguém respondeu. Voltei a tocar com mais veemência, despertando a atenção dos cães das vivendas adjacentes. Ninguém veio à janela. Era uma tarde incandescente de Sábado, e o rádio já avisara acerca da enchente que as praias haviam tido."
(...) to be continued

1 comentário:

Nuno Guronsan disse...

Posso apenas dizer que depois de ler as duas primeiras partes me lembrei do Hitchcock? Acho que não consigo fazer melhor elogio, meu amigo.

Continua que isto promete.

Abraço.