"It is the Tale, not he who tells it." - Parte III
S King 1982
"Branca"
Parte 3
"Depois do quarto toque a porta da vivenda abriu-se. Não consegui ver ninguém do lado de lá. A transpiração aumentou desta vez devido a algo que não o calor. As palmas das minhas mãos não cessavam de suar e ignoro se os pássaros e cigarras cantavam, mas era provável que o fizessem.
Saltei o portão, que estava trancado e aproximei-me da porta de entrada. A relva estava impecavelmente tratada. Os ladrilhos de tijoleira que atravessavam o relvado até à porta estavam limpos ao ponto de parecerem novos. Acima de mim dois pássaros descreviam elipses, encantados com o Verão.
Depois apareceu o cheiro. Um cheiro terrível porque era dolorosamente nauseabundo, delicioso e indefinível. Ainda por cima contrastava com o aroma da estação, onde se adivinhava o calor que se colava a tudo e a toda a hora.
Entrei e a escuridão do corredor fez-se imediatamente sentir. Um arrepio, apesar da temperatura. E o cheiro. Bolas, o cheiro era algo como eu nunca sentira, ou imaginara sentir. Era repulsivo, mas ao mesmo tempo tinha algo de magnético.
Saltei o portão, que estava trancado e aproximei-me da porta de entrada. A relva estava impecavelmente tratada. Os ladrilhos de tijoleira que atravessavam o relvado até à porta estavam limpos ao ponto de parecerem novos. Acima de mim dois pássaros descreviam elipses, encantados com o Verão.
Depois apareceu o cheiro. Um cheiro terrível porque era dolorosamente nauseabundo, delicioso e indefinível. Ainda por cima contrastava com o aroma da estação, onde se adivinhava o calor que se colava a tudo e a toda a hora.
Entrei e a escuridão do corredor fez-se imediatamente sentir. Um arrepio, apesar da temperatura. E o cheiro. Bolas, o cheiro era algo como eu nunca sentira, ou imaginara sentir. Era repulsivo, mas ao mesmo tempo tinha algo de magnético.
A luz indicou-me a saída para a piscina. Chamei por alguém, mas debalde. Não se ouvia um único som. A pessoa que abrira a porta simplesmente desaparecera.
O terreno que circundava a casa estava pleno de árvores. De ciprestes a castanheiros, passando por um maravilhoso salgueiro, tudo estava ladeado de um tapete de relva, alguma dela já amarelecida devido ao implacável brilho do sol. A piscina ficava situada após um ligeiro declive relvado, recebendo toda a plenitude da luz solar. Quando vi o cenário da piscina fiquei parado, sentindo apenas o calor na face e aquele cheiro. As árvores permaneciam caladas em cumplicidade bem como os pássaros. Aliás, parecia que havia entrado dentro de uma gigantesca garrafa de plástico, deixando o mundo lá fora.
Dentro e à volta do rectângulo de água estavam corpos. Homens. Mortos há algum tempo, pensava eu. Alguns deles boiavam numa água avermelhada e nojenta, outros secavam o sangue ao sol, em olhares parados e corpos destruídos. Era mais ou menos quinze, ou assim me recordo antes do estômago protestar e lançar toda a comida do dia no tapete verde. Podia jogar-se golfe dentro daquela casa, e provavelmente alguém deveria fazê-lo.
Fiquei parado, sem reacção, olhando através das arvores em direcção ao céu. Continuava a não ouvir-se nada. Virei-me e pensei em correr o mais depressa possível, mas olhei para cima. À janela, envolta numa branca e diáfana camisa de dormir estava ela. Acenou-me como quem cumprimenta um recém-chegado, e sorria, ao que me parece. O cheiro aumentou de intensidade, a ponto de mais parecer uma rajada odorífera capaz de trazer lágrimas aos olhos. O medo começou a instalar-se levemente, mas confesso que nem prestei atenção, tal era a ansiedade em vê-la. Sinceramente, nem perguntei porquê. Tinha de a ver, simplesmente.
Entrei dentro da casa. Nem percebi que o sol parava exactamente nas janelas, sendo que nenhum dos seus raios se projectava no solo da imensa habitação. A luz solar simplesmente não entrava, limitando-se a alumiar debilmente como uma lâmpada velha. Era como entrar num imenso caixote com janelas, que mantinha a escuridão cá dentro e a luz lá fora.
Subi as escadas e lá estava ela. No meio da escuridão vi-a deslocar-se para o quarto, e arrastava atrás de si uma cauda, possivelmente da camisa de dormir. Mas parecia estar a mover-se. Que estranho…
Abri a porta do quarto e ela acolheu-me com um sorriso terrível. Os olhos eram límpidos e os dentes de uma brancura irreal. A nudez, absolutamente perfeita, parecia estar viva, como uma estátua esculpida ao milímetro e dotada de vida. O cheiro era agora uma miscelânea infecta, sensual, e absolutamente indefinível. Algures entre excrementos frescos e o mais doce dos óleos de amêndoa, misturados com milhares de outras fragrâncias. Tinha lágrimas a escorrer pelas faces devido à irritação que o estranho odor causava aos meus olhos, mas essa não era a única razão."
O terreno que circundava a casa estava pleno de árvores. De ciprestes a castanheiros, passando por um maravilhoso salgueiro, tudo estava ladeado de um tapete de relva, alguma dela já amarelecida devido ao implacável brilho do sol. A piscina ficava situada após um ligeiro declive relvado, recebendo toda a plenitude da luz solar. Quando vi o cenário da piscina fiquei parado, sentindo apenas o calor na face e aquele cheiro. As árvores permaneciam caladas em cumplicidade bem como os pássaros. Aliás, parecia que havia entrado dentro de uma gigantesca garrafa de plástico, deixando o mundo lá fora.
Dentro e à volta do rectângulo de água estavam corpos. Homens. Mortos há algum tempo, pensava eu. Alguns deles boiavam numa água avermelhada e nojenta, outros secavam o sangue ao sol, em olhares parados e corpos destruídos. Era mais ou menos quinze, ou assim me recordo antes do estômago protestar e lançar toda a comida do dia no tapete verde. Podia jogar-se golfe dentro daquela casa, e provavelmente alguém deveria fazê-lo.
Fiquei parado, sem reacção, olhando através das arvores em direcção ao céu. Continuava a não ouvir-se nada. Virei-me e pensei em correr o mais depressa possível, mas olhei para cima. À janela, envolta numa branca e diáfana camisa de dormir estava ela. Acenou-me como quem cumprimenta um recém-chegado, e sorria, ao que me parece. O cheiro aumentou de intensidade, a ponto de mais parecer uma rajada odorífera capaz de trazer lágrimas aos olhos. O medo começou a instalar-se levemente, mas confesso que nem prestei atenção, tal era a ansiedade em vê-la. Sinceramente, nem perguntei porquê. Tinha de a ver, simplesmente.
Entrei dentro da casa. Nem percebi que o sol parava exactamente nas janelas, sendo que nenhum dos seus raios se projectava no solo da imensa habitação. A luz solar simplesmente não entrava, limitando-se a alumiar debilmente como uma lâmpada velha. Era como entrar num imenso caixote com janelas, que mantinha a escuridão cá dentro e a luz lá fora.
Subi as escadas e lá estava ela. No meio da escuridão vi-a deslocar-se para o quarto, e arrastava atrás de si uma cauda, possivelmente da camisa de dormir. Mas parecia estar a mover-se. Que estranho…
Abri a porta do quarto e ela acolheu-me com um sorriso terrível. Os olhos eram límpidos e os dentes de uma brancura irreal. A nudez, absolutamente perfeita, parecia estar viva, como uma estátua esculpida ao milímetro e dotada de vida. O cheiro era agora uma miscelânea infecta, sensual, e absolutamente indefinível. Algures entre excrementos frescos e o mais doce dos óleos de amêndoa, misturados com milhares de outras fragrâncias. Tinha lágrimas a escorrer pelas faces devido à irritação que o estranho odor causava aos meus olhos, mas essa não era a única razão."
to be continued...
1 comentário:
Que crueldade... parar agora... :)
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