ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, junho 09, 2008

"It is the Tale, not he who tells it." - Parte III
S King 1982
"Branca"
Parte 3
"Depois do quarto toque a porta da vivenda abriu-se. Não consegui ver ninguém do lado de lá. A transpiração aumentou desta vez devido a algo que não o calor. As palmas das minhas mãos não cessavam de suar e ignoro se os pássaros e cigarras cantavam, mas era provável que o fizessem.
Saltei o portão, que estava trancado e aproximei-me da porta de entrada. A relva estava impecavelmente tratada. Os ladrilhos de tijoleira que atravessavam o relvado até à porta estavam limpos ao ponto de parecerem novos. Acima de mim dois pássaros descreviam elipses, encantados com o Verão.
Depois apareceu o cheiro. Um cheiro terrível porque era dolorosamente nauseabundo, delicioso e indefinível. Ainda por cima contrastava com o aroma da estação, onde se adivinhava o calor que se colava a tudo e a toda a hora.
Entrei e a escuridão do corredor fez-se imediatamente sentir. Um arrepio, apesar da temperatura. E o cheiro. Bolas, o cheiro era algo como eu nunca sentira, ou imaginara sentir. Era repulsivo, mas ao mesmo tempo tinha algo de magnético.
A luz indicou-me a saída para a piscina. Chamei por alguém, mas debalde. Não se ouvia um único som. A pessoa que abrira a porta simplesmente desaparecera.
O terreno que circundava a casa estava pleno de árvores. De ciprestes a castanheiros, passando por um maravilhoso salgueiro, tudo estava ladeado de um tapete de relva, alguma dela já amarelecida devido ao implacável brilho do sol. A piscina ficava situada após um ligeiro declive relvado, recebendo toda a plenitude da luz solar. Quando vi o cenário da piscina fiquei parado, sentindo apenas o calor na face e aquele cheiro. As árvores permaneciam caladas em cumplicidade bem como os pássaros. Aliás, parecia que havia entrado dentro de uma gigantesca garrafa de plástico, deixando o mundo lá fora.
Dentro e à volta do rectângulo de água estavam corpos. Homens. Mortos há algum tempo, pensava eu. Alguns deles boiavam numa água avermelhada e nojenta, outros secavam o sangue ao sol, em olhares parados e corpos destruídos. Era mais ou menos quinze, ou assim me recordo antes do estômago protestar e lançar toda a comida do dia no tapete verde. Podia jogar-se golfe dentro daquela casa, e provavelmente alguém deveria fazê-lo.
Fiquei parado, sem reacção, olhando através das arvores em direcção ao céu. Continuava a não ouvir-se nada. Virei-me e pensei em correr o mais depressa possível, mas olhei para cima. À janela, envolta numa branca e diáfana camisa de dormir estava ela. Acenou-me como quem cumprimenta um recém-chegado, e sorria, ao que me parece. O cheiro aumentou de intensidade, a ponto de mais parecer uma rajada odorífera capaz de trazer lágrimas aos olhos. O medo começou a instalar-se levemente, mas confesso que nem prestei atenção, tal era a ansiedade em vê-la. Sinceramente, nem perguntei porquê. Tinha de a ver, simplesmente.
Entrei dentro da casa. Nem percebi que o sol parava exactamente nas janelas, sendo que nenhum dos seus raios se projectava no solo da imensa habitação. A luz solar simplesmente não entrava, limitando-se a alumiar debilmente como uma lâmpada velha. Era como entrar num imenso caixote com janelas, que mantinha a escuridão cá dentro e a luz lá fora.
Subi as escadas e lá estava ela. No meio da escuridão vi-a deslocar-se para o quarto, e arrastava atrás de si uma cauda, possivelmente da camisa de dormir. Mas parecia estar a mover-se. Que estranho…
Abri a porta do quarto e ela acolheu-me com um sorriso terrível. Os olhos eram límpidos e os dentes de uma brancura irreal. A nudez, absolutamente perfeita, parecia estar viva, como uma estátua esculpida ao milímetro e dotada de vida. O cheiro era agora uma miscelânea infecta, sensual, e absolutamente indefinível. Algures entre excrementos frescos e o mais doce dos óleos de amêndoa, misturados com milhares de outras fragrâncias. Tinha lágrimas a escorrer pelas faces devido à irritação que o estranho odor causava aos meus olhos, mas essa não era a única razão."
to be continued...

1 comentário:

Anónimo disse...

Que crueldade... parar agora... :)