"Branca"
Parte 4
" Senti-me inexplicavelmente rendido. Olhava para aquela mulher e nada mais havia que uma erupção infinda de um sentimento nascido havia passado já mais de quinze anos.
Tinha onze anos e o corpo ameaçava crescer a qualquer momento. O cabelo era feito de um castanho luzidio e tinha um sorriso alvo livre de qualquer marca de vida. Eu tinha dez anos e senti algo perfeitamente inaudito. Algo que não tinha entrada no mundo masculino da pré-puberdade. O afloramento daquilo que é reconhecido como o amor de rapazinho. O chamamento nada subtil das feromonas, (que curiosamente já se vendem em embalagens como catalizador de atracção sexual à dose). A idealização e reconhecimento da perfeição de algo. A primeira e talvez a única real noção de amor que temos durante a vida inteira. Contra todas as expectativas, a rapariga perfeita viria a partilhar um beijo comigo. Um beijo algo tímido, pouco mais que um roçar de lábios. Até hoje, não tinha qualquer noção de algo remotamente parecido. Aquele beijo foi o despoletar da mais intensa e excruciante rendição de sentimentos que viria durante a vida inteira, até aquele momento. Tudo isto era misturado com uma ganância e apetite sexual que causava dor física e por alguma razão inexplicável, aquela sensação achava-se multiplicada milhares de vezes. Algo tão arrasador que tolhia-me cada movimento.
E agora acho-me aqui.
Estou nu, e vejo que aquela mulher eras tu. A minha cliente eras tu. E és absolutamente perfeita.
E a cada segundo o cheiro vai-me deixando mais dormente e mais concentrado na tua perfeição. Doem-me os pulsos. Olho para eles e estão com uma coloração roxa que não faz adivinhar nada de bom. Mas esqueço tudo. As imagens da piscina não importam nada. Já nem me lembro bem delas. As da máquina fotográfica são ainda mais enevoadas. O teu contorno parece esbater tudo até ao imperceptível.
O sabor dos teus beijos, o sexo, parece tudo uma imensa primeira vez de um primeiro toque onde tudo é perfeito e tudo se rende. É insuportável, é maravilhoso. Apetece-me morrer e cristalizar o momento.
A tua língua sai da boca ocasionalmente, lambendo o sorriso. Tem um formato estranho, parece bífida. Mas é obvio que o delírio de estar aqui contigo é de tal forma avassalador que qualquer alucinação é sustentável. Sorris e só vejo isso mesmo. Dói-me a visão e arrasa-me o toque em sequência. As luzes do dia ficam lá fora, mas aqui há intermitências. São os pirilampos dentro da máquina fotográfica. Soltam-se um a um. O cheiro permanece como uma manta anestésica que tudo cobre.
Beijas-me mais uma vez.
Estás nua.
Sentas-te em cima de mim, fazemos amor novamente. Há algo a serpentear em cima da cama mas nem vejo o que é. Só tu existes.
Olhas para mim directamente, e dás-me um beijo que desta vez tem o odor da casa. Os olhos lacrimejam mais uma vez. Tudo é uma maravilhosa queda, dor e prazer misturados numa parafernália que parece insustentável.
Olhas-me novamente e…
…Amor, o que vais fazer com essa faca?"
FIM
Lisboa - 05-02-2004
5 comentários:
Olá!
Deixei-te um desafio no meu blog, espero que aceites!
:)
Bom feriado, se for caso disso...
bjs
Muito bom. A rendição ao sublime daa beleza misturada com o odor de algo brutalmente fatal mas do qual nem sequer nos apercebemos, tal arrebatados estamos na forma mais puramente carnal...
Muito bom, amigo.
E aquela última frase... de um humor negro, negríssimo que só te fica bem nesta tua versão de contador de histórias...
Abraço forte.
Love hurts, de facto.:)
Confirma-se que o nick te assenta como uma luva.
Beijinho.
A metáfora da paixão... Mesmo sabendo que mata (ou fere), lá vai o desgraçado para a boca do lobo (para a faca da jeitosa?) achando que com ele será diferente (nunca é).
Beijinho, king!
Tive de copiar os capítulos para word, pintar as letras de negro, imprimir e, só depois, ler. Sim, porque a literatura não é um post, exige os seus rituais. Gostei muito.
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