Stephen King - 1982
(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)
"FOME"
Parte III
(...)
"Quando tinha 22 anos, a velha máxima da excepção que confirma a regra quase se verificou. Quase. Surgiu a mulher mais complicada de comer que alguma vez conheci. E não porque a sua virtude estivesse cheia de ferrolhos. Ela era algo parecida comigo, e isso era um problema. Uma mulher lindíssima, mas cheia de cautelas e armas, multiplicando os problemas. Testámo-nos até à infinidade das nossas capacidades, laureando o conhecimento mútuo com provas de acesso a locais onde supostamente ninguém tinha acedido antes. Era um pouco como jogar ao cabo de guerra, mas ao contrário – ninguém puxava a corda, a competição estava na capacidade que cada um tinha de a ir largando cada vez mais. Era uma prova de curiosidade, medo e orgulho, mas apesar da ferocidade da contenda, a superioridade emocional dela acabou por ser o seu calcanhar de Aquiles. À custa de tanto evitar algo, a sua curiosidade sofreu uma mutação invulgar, e por isso mesmo, violenta.
Estou a ouvir um ruído estranho. Mas o sol ainda brilha. Não entendo, sinceramente. É demasiado cedo! Mas sei que me estou a enganar de qualquer forma. Seja de que forma for, será sempre demasiado cedo. E este não é um caso daqueles em que eu possa dizer que com o apetite dos outros posso eu bem. Das outras. Estou a tremer. Aterrado. Porque é que não fujo? Porque seria inútil. E já agora, para onde? Além disso, este falso senso de propósito é a única coisa que me está a impedir de brincar de outra forma com as facas da cozinha. Isso e o medo da dor, claro. A nobreza de espírito há muito que comprou um bilhete só de ida. Com dentes à porta, é salve-se quem puder.
Como dizia, as coisas complicaram-se.
O problema com os cínicos convictos que eu conheci até hoje é sempre o mesmo. Quando se enamoram não há qualquer espécie de filtro ou deferência. É uma doença que os come de dentro para fora, como um parasita transformador. Há quem diga realmente que o amor é sempre assim, mas como um descrente observador, tenho de discordar. Há gradações, e também pode haver saúde mental numa viagem de montanha russa. Ou então simplesmente não sei como é. Pensem nisso. Eu não tenho tempo agora.
A verdade é que ela simplesmente se deu a grandes trabalhos para infligir danos e negar o óbvio. Quando as coisas atingiram um ponto inimaginável para mim, e aparentemente também para ela, tudo se emaranhou. Acho que as pessoas julgam que coisas destas só ocorrem na mente febril de tipos que viram demasiados filmes estranhos, mas a verdade é que basta abrir um jornal, ouvir uma história mais negra do colega de trabalho da mesa ao lado, e chegamos à conclusão que coisas estranhas acontecem todos os dias. Escabrosas, feias, bonitas, improváveis. Mas ocorrem.
Talvez aquilo que ela tenha feito se enquadre nessa noção. A realidade acabou por comê-la, com a minha colaboração é certo, mas a verdade é que os dentes afiados nem sequer eram meus. Triturada pela antítese do que até então tinha sido a sua normalidade, ela acabou por tirar a própria vida. E talvez até tivesse uma beleza própria a noção da morte por amor. Só que para tipos como eu e ela, aquelas são noções que não passam da folha de papel, impressas numa espécie de código de conduta daqueles que se reconhecem e qualificam à distância como ementas de um mau restaurante. Ela acabou simplesmente por morrer de inanição. Pelo reconhecimento de algo que não era seu, que lhe mordia com a vontade de quem persegue sangue pelo cheiro, bem como a coloração e o efeito. Ela não morreu por amor, mas pela novidade, pela inadaptação do seu instinto de sobrevivência a algo que não era de todo obediente. Acho que ela tinha uma noção muito própria acerca da saciedade do amor. Arrisco até dizer que teria sido muito pior conviver com as mutações da paixão, conceito esse arredio de um modo de viver expectante, observador, e pleno de um controlo que afinal não existia. Ela culpava a sua refeição, a fonte de alimento daquela coisa desusada e invisível. Uma universal e mortal indigestão
Não é fácil - ainda que alguém como eu se pudesse por então à margem emocional de muita coisa - ser a causa de morte de algo ou alguém. Mesmo que o tiro destinado a nós seja na realidade endereçado a uma noção aleatória e combinada de estímulos, regados a mistério. Se pensarmos que os únicos poetas que entenderam minimamente o conceito ficaram malucos para além da resgatável, então a explicação apresenta-se a si mesma. É um maremoto, e quando ocorre, nem uma casca de noz nos dão. Somos completamente engolidos. Comidos. E venho sempre dar aqui, já viram.
É o medo. O céu já é mais púrpura que vermelho. A noite vem já ali, a passos rápidos, com botas de sete léguas.
Olho pela janela e vejo o causador do barulho precoce. Um “labrador” castanho-escuro, cheio de energia. Olha para mim através da janela e abana a cauda afectuosamente, baixando a orelhas em afeição motivada pelo desejo de brincadeira. Que sorte! Para ele é apenas a noite quente que se instala, acalmando um pouco o calor abrasador que se abate sobre o manto de pelo durante todo o dia.
Mas dizia… ah sim….
A partir daí as coisas descambaram.
Mentir, respirar e caminhar eram apenas reflexos. Acho sinceramente que nunca disse duas frases seguidas e feitas de honestidade a qualquer uma das mulheres que por alguma razão me despertaram o interesse e cobiça em cerca de dez anos. O momento agonizante do fim da sensualidade era uma espécie de carimbo gelado não da realidade, mas do que eu conseguia fazer da mesma. Era insuportável e ainda assim era necessário caminhar adiante. Não havia como controlar os acessos de adrenalina. Conseguir. Chegar lá, ter apenas a noção de que era capaz, daquilo que havia logrado. Resistências caídas por terra. Viciante como qualquer espécie de poder, por mais mesquinho que seja.
Com o passar do tempo as lágrimas e ressentimentos não passavam de gotas de chuva tépida em cima de um guarda-chuva de aço. É assustadora a facilidade com que me fui tornando imune, agora que penso nisso. Naquela altura era tudo um gozo, uma imensa montanha russa, uma infinda e íngreme pista de neve. Fui devorando. Comendo. Durante aquilo que me pareceu uma eternidade, embora fosse isso que talvez me esperasse.
Estou a passar a língua pelos dentes. E vejo que ainda estão planos. Não vai demorar muito mais tempo. O céu já está negro. O “labrador” está quase invisível agora, a não ser pela dentição esbranquiçada da qual pende a língua naquela respiração sempre ofegante. Ouvi um ruído. Algo que arranha o chão enquanto se arrasta um bocadinho. O som de unhas em madeira.
O cheiro aparece então. Alfazema e carne crua, parece-me, mas isso é porque a língua já sangra devido a um pequeno corte na boca. As comensais começam a aparecer. Nada de atrasos elegantes quando se tem fome.
Algo passou terrivelmente depressa. De uma parede para a outra. Num salto impossível. Tenho quase a certeza que está algo no chão, a não ser que este tenha ganho vida. Uma delas levanta-se. O rosto perfeito está ornamentado por uma boca escancarada da qual emergem duas presas afiadas o suficiente para cortar madeira como se fosse papelão velho. Os olhos são estranhamente meigos, langorosos.
Estou a escrever só com uma mão agora. Quase me custa quando aperto a minha mão e sinto a laringe esmagar-se num estalido desagradavelmente húmido. Ela não grita. Morre com os olhos em sofrimento surdo, mas de alguma forma triunfante. O sorriso que exibe é quase insuportável de contemplar.
Duas agulhas enormes no ombro. Sinto qualquer coisa explodir na articulação, e depois a dor impensável. Mais quatro, duas em cada perna, na zona dos gémeos. Depois a humidade, a sensação de algo dolorosamente molhado.
Os meus dentes emergiram. Mas já não servem de nada.
Outros dentes, na mão…esquerd
Est a tnr aina escrvr…
A minha costla… n consgn..sangue…
Dpoutjwçdkgjºaçkdfjygºdsflh
Olfjkgdlkfndff….
Rpfpfgn nf fdfds
ccccccccccccccccccccccccccccccccccc……….
Estou a ouvir um ruído estranho. Mas o sol ainda brilha. Não entendo, sinceramente. É demasiado cedo! Mas sei que me estou a enganar de qualquer forma. Seja de que forma for, será sempre demasiado cedo. E este não é um caso daqueles em que eu possa dizer que com o apetite dos outros posso eu bem. Das outras. Estou a tremer. Aterrado. Porque é que não fujo? Porque seria inútil. E já agora, para onde? Além disso, este falso senso de propósito é a única coisa que me está a impedir de brincar de outra forma com as facas da cozinha. Isso e o medo da dor, claro. A nobreza de espírito há muito que comprou um bilhete só de ida. Com dentes à porta, é salve-se quem puder.
Como dizia, as coisas complicaram-se.
O problema com os cínicos convictos que eu conheci até hoje é sempre o mesmo. Quando se enamoram não há qualquer espécie de filtro ou deferência. É uma doença que os come de dentro para fora, como um parasita transformador. Há quem diga realmente que o amor é sempre assim, mas como um descrente observador, tenho de discordar. Há gradações, e também pode haver saúde mental numa viagem de montanha russa. Ou então simplesmente não sei como é. Pensem nisso. Eu não tenho tempo agora.
A verdade é que ela simplesmente se deu a grandes trabalhos para infligir danos e negar o óbvio. Quando as coisas atingiram um ponto inimaginável para mim, e aparentemente também para ela, tudo se emaranhou. Acho que as pessoas julgam que coisas destas só ocorrem na mente febril de tipos que viram demasiados filmes estranhos, mas a verdade é que basta abrir um jornal, ouvir uma história mais negra do colega de trabalho da mesa ao lado, e chegamos à conclusão que coisas estranhas acontecem todos os dias. Escabrosas, feias, bonitas, improváveis. Mas ocorrem.
Talvez aquilo que ela tenha feito se enquadre nessa noção. A realidade acabou por comê-la, com a minha colaboração é certo, mas a verdade é que os dentes afiados nem sequer eram meus. Triturada pela antítese do que até então tinha sido a sua normalidade, ela acabou por tirar a própria vida. E talvez até tivesse uma beleza própria a noção da morte por amor. Só que para tipos como eu e ela, aquelas são noções que não passam da folha de papel, impressas numa espécie de código de conduta daqueles que se reconhecem e qualificam à distância como ementas de um mau restaurante. Ela acabou simplesmente por morrer de inanição. Pelo reconhecimento de algo que não era seu, que lhe mordia com a vontade de quem persegue sangue pelo cheiro, bem como a coloração e o efeito. Ela não morreu por amor, mas pela novidade, pela inadaptação do seu instinto de sobrevivência a algo que não era de todo obediente. Acho que ela tinha uma noção muito própria acerca da saciedade do amor. Arrisco até dizer que teria sido muito pior conviver com as mutações da paixão, conceito esse arredio de um modo de viver expectante, observador, e pleno de um controlo que afinal não existia. Ela culpava a sua refeição, a fonte de alimento daquela coisa desusada e invisível. Uma universal e mortal indigestão
Não é fácil - ainda que alguém como eu se pudesse por então à margem emocional de muita coisa - ser a causa de morte de algo ou alguém. Mesmo que o tiro destinado a nós seja na realidade endereçado a uma noção aleatória e combinada de estímulos, regados a mistério. Se pensarmos que os únicos poetas que entenderam minimamente o conceito ficaram malucos para além da resgatável, então a explicação apresenta-se a si mesma. É um maremoto, e quando ocorre, nem uma casca de noz nos dão. Somos completamente engolidos. Comidos. E venho sempre dar aqui, já viram.
É o medo. O céu já é mais púrpura que vermelho. A noite vem já ali, a passos rápidos, com botas de sete léguas.
Olho pela janela e vejo o causador do barulho precoce. Um “labrador” castanho-escuro, cheio de energia. Olha para mim através da janela e abana a cauda afectuosamente, baixando a orelhas em afeição motivada pelo desejo de brincadeira. Que sorte! Para ele é apenas a noite quente que se instala, acalmando um pouco o calor abrasador que se abate sobre o manto de pelo durante todo o dia.
Mas dizia… ah sim….
A partir daí as coisas descambaram.
Mentir, respirar e caminhar eram apenas reflexos. Acho sinceramente que nunca disse duas frases seguidas e feitas de honestidade a qualquer uma das mulheres que por alguma razão me despertaram o interesse e cobiça em cerca de dez anos. O momento agonizante do fim da sensualidade era uma espécie de carimbo gelado não da realidade, mas do que eu conseguia fazer da mesma. Era insuportável e ainda assim era necessário caminhar adiante. Não havia como controlar os acessos de adrenalina. Conseguir. Chegar lá, ter apenas a noção de que era capaz, daquilo que havia logrado. Resistências caídas por terra. Viciante como qualquer espécie de poder, por mais mesquinho que seja.
Com o passar do tempo as lágrimas e ressentimentos não passavam de gotas de chuva tépida em cima de um guarda-chuva de aço. É assustadora a facilidade com que me fui tornando imune, agora que penso nisso. Naquela altura era tudo um gozo, uma imensa montanha russa, uma infinda e íngreme pista de neve. Fui devorando. Comendo. Durante aquilo que me pareceu uma eternidade, embora fosse isso que talvez me esperasse.
Estou a passar a língua pelos dentes. E vejo que ainda estão planos. Não vai demorar muito mais tempo. O céu já está negro. O “labrador” está quase invisível agora, a não ser pela dentição esbranquiçada da qual pende a língua naquela respiração sempre ofegante. Ouvi um ruído. Algo que arranha o chão enquanto se arrasta um bocadinho. O som de unhas em madeira.
O cheiro aparece então. Alfazema e carne crua, parece-me, mas isso é porque a língua já sangra devido a um pequeno corte na boca. As comensais começam a aparecer. Nada de atrasos elegantes quando se tem fome.
Algo passou terrivelmente depressa. De uma parede para a outra. Num salto impossível. Tenho quase a certeza que está algo no chão, a não ser que este tenha ganho vida. Uma delas levanta-se. O rosto perfeito está ornamentado por uma boca escancarada da qual emergem duas presas afiadas o suficiente para cortar madeira como se fosse papelão velho. Os olhos são estranhamente meigos, langorosos.
Estou a escrever só com uma mão agora. Quase me custa quando aperto a minha mão e sinto a laringe esmagar-se num estalido desagradavelmente húmido. Ela não grita. Morre com os olhos em sofrimento surdo, mas de alguma forma triunfante. O sorriso que exibe é quase insuportável de contemplar.
Duas agulhas enormes no ombro. Sinto qualquer coisa explodir na articulação, e depois a dor impensável. Mais quatro, duas em cada perna, na zona dos gémeos. Depois a humidade, a sensação de algo dolorosamente molhado.
Os meus dentes emergiram. Mas já não servem de nada.
Outros dentes, na mão…esquerd
Est a tnr aina escrvr…
A minha costla… n consgn..sangue…
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Olfjkgdlkfndff….
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ccccccccccccccccccccccccccccccccccc……….
F….
Lisboa – Carnaxide - 16-02-2004
Lisboa – Carnaxide - 16-02-2004
2 comentários:
Cool...
Uma das minhas (tuas) histórias preferidas. :) Qual delas a melhor?
Vénia prolongada, my King. :)
Beeeeeeeeeeeeijos...
... dos nossos ;)
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