A propósito de uma conversa com uma amiga:
A sinceridade é uma lâmina de dois gumes, e, em meu ver, não deve confundir-se com a propensão para chegar junto a outros, e muito menos com o esquema de protecção de vulnerabilidades ao qual, bem vistas as coisas, ninguém escapa mesmo. Bem sei que deve haver por aí um ou outro artista que nunca sentiu qualquer necessidade de se defender seja de quem ou do que for, e tiro-lhe o chapéu. Não sei é até que ponto esse fenómeno lhe será positivo, porque o primeiro rebentamento pode acabar por ser atómico, onde quase toda a gente começou com bombinhas de Carnaval. O olhar descoroçoado deve ser uma constante a qualquer pessoa que já alguma vez deu a mão a alguém, e nessas matérias, embora uns bem mais que outros, somos todos praticantes e destinatários. Excepto talvez aqueles dois ou três felizardos.
A sinceridade, a meu ver, surge como uma condição necessária para se estabelecer contacto minimamente sustentável. (A sinceridade minimamente regrada, bem entendido, porque se dizemos a alguém que acabamos de conhecer o que pensamos sobre o magnífico decote que exibem, assim, a ferros e sem aquecimento, a coisa poderá certamente correr mal.) A sinceridade a que me refiro é aquela que assenta em contar a história o mais certeira e honestamente possível. Não confundir com contar todas as histórias, dar o flanco imediatamente, por-se a jeito. Falo sim de dizer realmente o que se pensa acerca de qualquer coisa, sem ser necessário discorrer de forma académica sobre as opções éticas ou estéticas.
Há uma história bem ilustrativa disto, contada pelo homónimo que inspira este blog e que diz o seguinte:
"Certa ver, um entrevistador perguntou-me se eu escrevia sem guião, sem montar a história previamente a escrevê-la. E eu disse-lhe que as minhas histórias eram situacionais, um fóssil, pré-existente, que se vai desenterrando com um pincel, deixando ver o que na realidade lá está. Sou um firme crente, disse-lhe, que as histórias já existem, e que se trata apenas de as desenterrar sem tentar partir os ossos todos do fóssil no processo de desenterrar.
Ele disse que não acreditava em mim, e eu disse-lhe que isso não me chateava, desde que ele acreditasse que eu realmente acreditava no que tinha dito."
- S King - On Writing - 1997
No fundo é isto mesmo. A sinceridade surge como condição necessária para o que se revela. Não significa que todos estejam em condições de revelar tudo a outros. O fóssil desenterra-se com algum cuidado, mas sempre assente na lógica do entusiasmo da revelação, e no que realmente se vai mostrando. É aquilo. O esqueleto. Não no armário, mas na porta entreaberta, que vai oscilando, e em cujo espelho interno nos vamos revendo e mostrando a quem decide olhar.
A sinceridade não é o coração aberto indiscriminadamente. É sim o único caminho para ter a possibilidade de realmente o abrir.
3 comentários:
Concordo. Sinceridade é não dizermos que temos o coração aberto quando na realidade o não temos. E preferirmos o silêncio igualmente, quando, se temos que o proteger, a verdade não é uma opção. A verdade ou o silêncio.
A sinceridade, não tem de andar de mãos dadas com a simpatia. A simpatia move mais o mundo que a sinceridade, porque no fundo poucas pessoas dispensam realmente a simpatia, mesmo quando dizem preferir a sinceridade.
:) hello, devil is all around...me.
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