
Uma história em dez partes, dez mentes, dez visões.
Este é o link para o regulamento, - http://vitaminay.blogspot.com/2008/05/desafio.html - e conforme o estipulado, eis a minha contribuição, com muitos agradecimentos pelo voto de confiança dado pela excelsa Helena. :)
Aquela manhã de nevoeiro disperso estava a acordar aos poucos. Tal como aqueles olhos que iam abrindo de mansinho, a medo, e ficaram focados na janela gigante que dava para a praceta onde permanecia uma estátua de um qualquer marquês. Pôs-se de joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, e levantou um pouco a cabeça. Torceu todo o corpo para a esquerda e só então conseguiu lembrar-se do que tinha acontecido. (ÿpslon, vitaminaY)
A memória chegava-lhe em imagens difusas, ele sabia que situação onde se encontrava era mais do que uma manhã embaraçosa depois de uma noite que não quis passar sozinho. a cada expiração, a dor lembra-lhe da posição do seu corpo contorcido... os olhos a custo procuravam alguma familiaridade naquele quarto-jaula, param no preciso instante em que o pé toca em algo, foca uma mulher, Leonor, uma imagem difusa da noite anterior, também atada, contorcida, de olhos fechados, a começar a murmurar repetidamente…- “como fomos capazes…como fomos capazes…”(indigente andrajoso, indigente andrajoso)
As lágrimas não demoraram a jorrar-lhe dos olhos. a disposição de todos os objectos naquele quarto fazia prova do caos da noite anterior: o cinzeiro que não chegava para tantas beatas, as lâminas de barbear usadas e dispostas numa fila metodicamente organizada, os restos do sangue debaixo do abajour carcomido pelo cortejo de lâmpadas acesas nos últimos dias. Ele tentava aligeirar o nó que feria os seus pulsos em vão e as cordas marcavam cada vez mais as veias onde o sangue corria descontroladamente. Cheio de culpa e náuseas, ele não conseguia parar de imaginar como seria possuí-la neste cenário desolador. Uma e mais outra vez.(M., borboletas na barriga)
Foi a última imagem nítida que teve. Se à nitidez, como ao branco para os esquimós, se podem atribuir inúmeras tonalidades, aquela com que se via a tomar de assalto o corpo quase sem vida que se punha a jeito pela proximidade serviu perfeitamente de passagem para o espaço onde nos entretemos enquanto estamos no vai não vai para ir fazer companhia a morfeu. Esse espaço em que o inconsciente começa a tomar conta da vida regrada e, durante umas horas, nos permite o voo livre, foi onde tudo começou a ficar mais claro. O zapping mental que o assolou, os fotogramas em flashes acelerados temperados com a sensação típica da maceração dos vapores alcoólicos e químicos que ainda lhe inundavam a maior parte do cérebro, conduziu-o a uma inesperada epifania. "preciso de sair já daqui"- pensou. não teve tempo de equacionar a fuga. Com um som estridente de grilhões, abriu-se a porta do quarto...(jc, numb)
..., e conseguiu vislumbrar uma sombra. Parecia tenebrosa. Por outro lado, medonhamente familiar. Conseguindo ultrapassar a dificuldade de focar em contraluz, apercebe-se e grita arregalando os olhos em pedido de auxílio e susto:- Pai! - gritou ele, visivelmente assustado e esmagado com o tráfico de flashbacks que estavam a vir à memória, sentido ter cometido o erro fatal, sem se lembrar concretamente a razão de estar ali no meio daquele turbilhão de recordações rápidas.- Pai, as correntes não! Por favor, pai! Não, pai! - entre gritos casados com expulsão trágica de cuspo descontrolado no discurso de misericórdia de quem sente o maior aperto da vida - Pai, eu não queria ter estado com a Leonor, pai - justifica-se ele, num tom de claro desespero, acompanhado de início de choro, a decorrer para a compulsividade.- Eu não sei o que fazer mais de ti, meu filho..., filho?! - suspirando o homem forte e alto, demonstrando uma calvíce digna dos 54 anos - nem isso te posso chamar. Por isso trago-te aqui alguém que não sabes quem é, mas que te conhece muito bem.(Amélia, Bichísses em Sério)
Queria não olhar para aquela figura que tinha assomado à porta. Não queria crer que o meu pai a tinha trazido até ali.- Não! Ela não! – murmurava entre soluços sentidos e sofridos, fruto da agonia ímpar que estava a sentir .-Ela nunca me quis! Porquê agora?- Sussurava segurando a cabeça com as mãos.Os dedos crispados arrancavam pequenos fios de cabelo, de onde escorriam gotas de um suor inundado pelo sofrimento.Tudo era irreal à sua volta, a insanidade tomava conta do seu ser. Contorcia-se na tentativa de se libertar daquele estado de impotência máxima, em que os seus movimentos eram tolhidos pela cordas que o aprisionavam violentamente.-Leonor! Não me deixes aqui sozinho! – balbuciava enquanto olhava para o corpo inerte que jazia ao seu lado.De repente um som estridente chamou-o à realidade, e um grito saíu-lhe da garganta, seca e dilacerada pela dor:- Cobardes! (Ju, ascoisasqueuacho)
… Sempre foste um cobardolas! Olha para mim! Olha-me nos olhos, meu cabrão de merda! Foi para isto? Responde-me, foi para isto?, vociferava Luís, cujos olhos raiados de revolta enfrentavam, agora, os de seu pai. Este, impávido, fechou silenciosamente a porta deixando quem houvera trazido dentro daquele quarto… (M&M, A Amante do Sr. Eng.º)
Nao era a sua mae. Ela havia morrido ha muitos anos, quando ele ainda era pequeno. Esteve muito tempo doente. Sem nunca se saber o porque. Seria da falta de amor? Seria da pancada que levava daquele com quem se casara? Seria profunda tristeza? Quem o pai trouxera era a avo. Aquela de quem Luis tanto gostara mas que preferira sempre olhar para o lado. De certa forma, ela abandonara-o e Luis nunca se sentira confortavel com isso. - Leva-a daqui! Ela e nojenta! - gritava Luis com uma forca vinda das entranhas. - Eu disse-te que ele nao me ia querer aqui - disse aquela mulher alta, pintada, de cabelo grisalho longo, apanhado - Vamos embora daqui. Eu nao mereco isto.(Angelo, Angelo no pais das maravilhas)
Acordou lavado num suor que lhe colava o corpo aos lençóis brancos, e percebeu que tudo não passara de um pesadelo. Um pesadelo ridículo e sem fundamento como tantos que tinha tido quando era criança.Olhou-se ao espelho, e ali na penumbra, podia jurar que tinha visto o rapaz do espelho esticar o braço, tocar-lhe no ombro e dizer em tom condescendente – “és sempre o mesmo!”Se o contasse, iam julgá-lo louco!Definitivamente não era um assunto a falar com a Leonor.A Leonor?Lembrou-se de repente do papel que tinha encontrado na tarde anterior, que era amarelo e tinha anotações escritas à pressa pela letra dela. Anotações com horários de partidas e chegadas, e até com alguns preços.Agora que caía em si pensava que realmente Leonor tinha partido, e que não tinha havido sequer oportunidade para uma despedida.Para onde teria ela ido? (Helena - http://rosa-rosae-rosarum.blogspot.com/2008_06_01_archive.html )
A Leonor era uma combinação de morte. Morte de medos, de cautelas, de bom senso, de tudo quanto significasse equilíbrio para o objecto de desejo que ela escolhesse. A Leonor tinha dentes, eles mordiam e as chagas resultantes eram explicadas com uma sinceridade tão desarmante quanto afiada. A Leonor não queria saber, ou queria saber quando queria. Falava de liberdade e exalava esse perfume mesmo quando os abraços eram nus. Era como tocar no num cheiro trazido pelo vento. E foi assim que ela desapareceu. Envolta na mesma lógica de sonho desconfortável, simplesmente foi. Foi na naturalidade que a caracterizava, como o sabor a excitação depois de um sonho vívido, quase como que deixando saudades de algo que provavelmente nunca existiu. (Stephen King - http://estacoesdiferentes.blogspot.com )
E assim finda a experiência "decapartida".
Obrigado pela oportunidade!
E uma vez que me foi pedido, dou-lhe o seguinte Título - "Despertares..."
4 comentários:
Muitoooooooooo obrigado pela participação :)
Mas... a tua parte foi a décima... não precisas passar a ninguém! Terminaste a história! Podes dar-lhe um título? ;)
:) nice!
um "blog esquisito" ...
Esse comentário era pra mim? hmmm bem, anyway...
Dá uma espreitadela ao meu blogue, acabei de publicar os 2 textos finais do desafio literário. Muito obrigado por teres participado, as histórias saíram absolutamente brilhantes! Espero pelo menos 1 comentário a este post! ;)
Até ao próximo desafio!
Enviar um comentário