ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, agosto 28, 2008

Velha questão.
Somos o que somos, ou somente o que fazemos, ou somente aquilo que existe em função do que temos?
Confrontado com essa questão tenho sempre problemas em definir, em primeiro lugar, a definição mais ou menos consensual de ambição. A perseguição dos chamados objectivos, da otenção de algo, por vezes baralha-me. E baralha-me porque sempre julguei que somos definidos pelo que somos em fazemos em função daquilo que caracteriza a nossa pessoa, e não a produção de cenários em consequência do que se torna visível.
Estou plenamente convicto que ambição e evolução, no meu "livro", define-se algures num conceito misto entrincheirado entre o desejo de ser e crescer humanamente. Realizar coisas que tenham a ver com a nossa dimensão enquanto seres individuais. No fundo, a forma como os nossos recortes, internos ou externos, nos individualizam. O nosso senso de humor, conhecimento, sensualidade, humildade, mau-feitio, e uma série de inexplicáveis tiques que encaixam porque as empatias parecem ter vontade própria. Sempre encarei a evolução como a leitura de mais um livro, mais uma coisa que se aprende, algo mais que se vê, mais uma forma de descrever um sentimento junto ao manacial que cresce connosco. Sempre pensei que era o ser humano que ia fazendo que contava, e não o que o ser humano que era poderia ir fazendo.
Não estamos obviamente alheios a elementos básicos de avaliação dos feitos dos outros. Não podemos isolar as conquistas como algo exógeno, porque mesmo na era da meritocracia e do planeamento, as grandes conquistas podem não ter substância palpável. Podem não ser produto do obtido a custo de tantos feitos sujeitos a fotografia. Para mim assenta num complexo de tudo, mas principalmente no reduto de humanidade a que me dão acesso, e onde normalmente florescem os comportamentos associados a tudo o que causa desde a admiração ao desejo. É o que a pessoa é, o contorno que tem, e não o que supostamente rodeia o seu percurso dos dias mais pragmáticos.
Somos o que fazemos, é um facto. A ambição é absolutamente necessária. Crescer, juntar ideias e histórias, tudo é fundamental para despertar o olhar, a curiosidade, e com sorte, a empatia.
Mas em alguns casos, aparentemente o que se detém supera o que se é, o que se demonstra ultrapassa o que se consegue dar.
Respeito, evidentemente, mas mentiria se dissesse que não em entristece perceber até que ponto o que se é capaz de ter ou gerir ultrapassa o que se pode ser, dar e sobretudo, trocar como segredos ou cruzes em mapas para onde afinal todos verdadeiramente nos encontramos.
Manias...


quarta-feira, agosto 27, 2008

Há dias falaram-me de sorrisos perdidos e alegrias escondidas. Em outros tempos de gargalhada supostamente fácil contrastando com o aparente peso de um presente que se deveria ver mais "meio-cheio". Falaram-me de descaracterização, de assumpção do fado nacional, como se de alguma forma a lógica para as minhas dores pudesse ser produto de um complexo nacional já antigo, o da queixa pela queixa.
A verdade é que talvez eu sorria menos hoje. Sinceramente não sei. Tinha uma amiga que me dizia que eu nunca sorria abertamente nas fotografias, mas sinceramente acho que ela se confundia entre sorriso triste e receio de mostrar os dentes tortos que ostento. Brincava com ela acerca disso, mas a verdade é que o meu sorriso é diferente, como eu próprio julgo que o serei. Factores de crescimento, ou simplesmente a percepção de cantos escuros a quem uma certa luz de vivência não fez particularmente bem.
Sinceramente, tenho dificuldades em estar lúcido perante aquilo que me rodeia e conseguir ostentar um sorriso absolutamente fácil. Talvez preste demasiada atenção a certas coisas, ou talvez me importe excessivamente com outras. Não perdi o meu sentido de humor, e julgo que o cultivo, mas tenho a perfeita noção que ele se tornou menos leve, talvez, e a capacidade de brincar nunca ande demasiado afastada de um traço cáustico ou irónico, que felizmente só surge com quem tenho real confiança. Quem o vê, saberá do que falo.
Não sou uma pessoa mais derrotada. Nem sequer uma espécie de pólo deflector da espécie bípede e supostamente pensante, (sim, porque há gente que mais valia ingressar nos carreiros dedicados à vegetação, sempre alimentavam alguém.).
Há sim uma maior consciência. Considero que aceitar essa consciência de coisas onde falho redondamente, ainda que tente por tudo fazer o contrário, e saber que se calhar o meu melhor e o de muitas pessoas bem mais válidas do que eu terá uma importância zero perante coisas tão simples como respeitar o próximo e aprender algo, por vezes rouba-me o riso fácil. Sinceramente, e aqui aceito todas as vergastadas possíveis, mas é como eu penso, portanto temos pena, as (muitas, não todas claro) pessoas já me iludiram, agradaram e convenceram mais. Já me deram um alento maior em simplesmente ser-lhes agradável, em entender as suas idiossincrasias, em simplesmente ter mais afeição pelo conceito de humanidade em geral. E no entanto, um bilião e meio de chineses estar-se-á a cagar para isso, certo? E sei que muita da minha consciência perante as coisas é infinitamente parcelar, incompleta, e vale o que valem os meus valores e argumentação mais ou menos lógica. Mas é assim que sinto, vejo e interiorizo. É assim que percepciono muitas das coisas que deveriam ser quase óbvias e que permanecem no esconderijo tão eficaz de outras coisas como simplicidade, sensibilidade, empatias e entropias necessárias.
Continuo a gostar de pessoas e do mundo, mas sim, verdade seja dita, com o meu antigo sorriso talvez mais fácil (e inconsequente) foi-se um amor abstracto de outros dias a esses conceitos e realidades. Tornei-me mais pessimista, mas nunca niilista. Entendo menos hoje do que se calhar entendia com a força de anos pouco pisados. E essa falta de entendimento por vezes é o mais doloroso de tudo, porque em mim reverbera como uma daquelas más canções que não conseguimos deixar de trautear por mais que a detestemos.
Estou apenas a ver.
Por vezes com um sorriso, outras sem ele.
Com as minhas razões, as quais consigo explicar detalhada e logicamente. À meia dúzia de gatos pingados que se interessam, claro - a vida reservou-lhes vários castigos e este é um deles.
Mas eu ainda sou eu. Diferente, como o sou a cada respiração que fica para trás, e a cada dia que é mesmo único e não torno a ver.
Repetindo até à exaustão, digo - pessimismo da inteligência, optimismo da vontade.
E querer, é tudo, ainda que cauteloso, criterioso e sobretudo, exigente.
A grande mancha de abstenção de vida que observo não me faz sorrir.
Como eu próprio, muitas vezes, não me crio sorrisos.
Mas ainda me consigo rir de mim mesmo.
E enquanto for assim...


terça-feira, agosto 26, 2008


Sim, ainda me levam os D. Quixotes, os Wall-Es, os Aragorns, os Atticus Finchs e os Fermin de Torres.
Ainda me levam à certa uma parcela dos idiotas de Dostoievsky, e um certo desejo de simplesmente ver as coisas com bons olhos, com uma lente positiva, de ajuda, de construção, de dar o que se precisa para que algo ou alguém funcione melhor.
E não há quem nos coloque de joelhos que possa dar uma visão diferente, ainda que os cabeças de abóbora sejam cada vez menos frequentes...




segunda-feira, agosto 25, 2008

"Your whole life, people are gonna ask you to be weak. They're gonna practically beg you. But all anyone really wants is for you to be strong." - Ethan Hawke - "The Hottest State"
A insegurança é um presente envenenado parido da sensibilidade.
Sempre me surgiu como uma medida de análise do mundo, das suas ordens de grandeza, de abarcar algo do que nos transcende, quer porque nos maravilha, quer porque nos atemoriza.
A insegurança nunca deve ser debilitante. Nunca deve funcionar como um elemento que tolha a personalidade ao ponto desta se esconder atrás daquela. Nunca pode substituir-se a uma análise um pouco mais realista, e porque não, humanista, dos pedaços de fenómenos de que é feita a vida onde cada um intervém, e onde acaba por ter importância. A não ser que sejamos todos um doppelganger da Eleanor Rigby, alguma insegurança surge quase como um contorno necessário do simples facto de sermos finitos, falhos e necessariamente limitados.
A insegurança, em meu ver, não deve nunca ser confundida com fraqueza. Se há coisa que exige coragem é o confronto com os temores, com as auto-ameaças de incapacidade. Merece alguma deferência a capacidade de pairar às cegas, quando é notório que não sabemos voar.
Para algumas pessoas, qualquer forma se insegurança parece um capricho, uma mariquice própria de quem não consegue ser plenamente objectivo. Para outras, é uma forma de fazer género, ou sair à pesca de cumprimentos. Para outras ainda é como um estigma, uma espécie de repelente de aplicação tópica que supostamente contamina a pessoa ao ponto de a descaracterizar.
Mas a insegurança não é volitiva. A insegurança é um desenrolar de questões. É tão controlável por vezes como um espirro ou travar uma queda em pleno ar. Não é uma espécie de avitaminose da alma, e sim um olhar e sentir que por vezes transcende o próprio, misturando desejo, culpa, auto-crítica e na mais das vezes, um desconhecimento completo do que são os efeitos externos de quem se é. Na sua pior fase, gera auto-desconhecimento.
Acho que não conheço ninguém que não tenha uma qualquer insegurança. Sinceramente, acho que nem quero conhecer, obrigadinho. Os complexos de Deus cansam um bocadito, e não há pachorra para a racionalização absoluta do que são pequenas rachaduras de mente ou alma, como preferirem. Ninguém é inseguro porque quer, assim como não creio que existam indivíduos absolutamente seguros. Parece-me apenas humano temer (mas sempre tentar pelo menos reagir) coisas que nos levam a questionar a percepção do que está à nossa frente, e do que é o mundo em que nos colocamos. No qual temos influência.
A insegurança também permite evoluir, porque ao contrário do que se pensa muitas vezes, em alguns casos, pode ultrapassar-se. Não creio que se possa eliminar toda. Há algo em cada mente isolada no escuro que se teme, receia, ou redunda em desconforto.
Os inseguros de que falo são fortes. Porque vivem, progridem e agem, ainda que sintam sempre alguma coisa a morder-lhes os calcanhares. São parcialmente agredidos por dúvidas, e não páram no desejo de evolução. Têm uma parcela de alma perdida que lhes dá um charme inimitável. São palpáveis. Humanizam-se. Comovem-me a espaços.
Bem hajam.



quinta-feira, agosto 21, 2008

Acontece em todas as vidas, ou talvez a todas as pessoas, o surgimento de algumas aves raras que conseguem ter uma certa chave. É uma chave feita da percepção do nosso projecto, da planta que antecede a nossa personalidade, a qual julgamos a espaços estar erigida. E nessa medida, comete-se um erro. As boas notícias é que esse erro é apenas ocasional, já que tem uma simetria positivista que lança alguma dúvida deliciosa acerca da natureza de qualquer outro fora do nosso espaço mental. As más notícias é que julgo sermos capazes, eu pelo menos sou, de dar o ouro ao bandido com um sorriso, e ainda assim andar anos numa busca pela obtenção de indultos.
Burrice à parte, a verdade é que algumas pessoas entram. Limpam os pés e tocam ao de leve nas cerâmicas, com o cuidado de quem admira e delira por estar num tal local. O sorriso é cordato, o toque em tudo é um misto de gratidão pelo acolhimento e sede de experimentação. E alguns de nós, (eis-me novamente de mão no ar) são anfitriões ansiosos. Daqueles que mostram a colecção de Rembrandts sem pensar que ao mesmo tempo deram a combinação do cofre e a escala dos seguranças.
Ao evoluirmos com alguém, seja em que registo for, a familiaridade e a expansão afectiva exigem sempre uma maior entrega. E não falo apenas em entrega pessoal materializável, como o sexo, um toque na face, um gesto, uma conversa de ossos de fora. Falo daquelas coisas que nos circunscrevem, como formas desenhadas com cantos obscuros e particularidades esbatidas para criar uma sombra necessária à sensação de substância. Falo de unir os pontos para poder fazer o desenho. O mais curioso, é que por vezes alguém aceita esse algo. Alguém aprende a saber onde está tudo, como uma governanta especialmente eficaz, com a diferença que talvez não se pareça com a Mrs. Doubtfire.
E não há nada mais precioso, volátil e perigoso que esse acesso. Que o desligar do filtro que permite perceber onde as fundações estão mais carcomidas pela ferrugem de demasiada água corrida. Talvez porque de alguma forma, essa seja a experiência última, só uma jugular exposta permite que se passe do eco ao real diálogo. E no entanto, em alguns casos, o que somos é apenas uma espécie de escaparate onde se esperam as medalhas e os troféus. Onde a ambição não é medida pelo desejo de progressão e abrangência humana, mas pela suposta grandeza de coisas. Não existe pior percepção de que a ameaça da pequenez, ou que um olhar compassivo pelas piores razões. Essa evolução do que somos não permite ofuscar a dimensão do que deveríamos ter. E aqueles que possuem a chave, colocam-na na fechadura e partem-na com um golpe, na tentativa de nos encerrarem dentro da pequenez que não temos, das dúvidas que não pedimos e da culpa que dificilmente merecemos.
É algo terrível perceber não as diferenças, mas as condescendências, não as características, mas o que supostamente deveríamos fazer com elas. Nada pior que a simulação de uma roda de hamster quando é relva que se sente debaixo das patas, ainda que em alguns casos, seja apenas criada por aquilo que nunca, nada ou ninguém pode encerrar endefinidaemnte. Não há nada pior que crescermos para a pequenez aos olhos daqueles que entraram pela porta destrancada e viveram na casa até a gastar como visitas e nunca como moradores.
Algumas pessoas sabem onde acertar, e fazem-no com uma implacabilidade assustadora. Ou então não o percebem, o que é ainda pior. Ego ou insegurança à parte, aos que entram pede-se cuidado. Compaixão, talvez, ou só mesmo atenção. Porque aquilo que se obtém sobre outrem torna essa pessoa vulnerável durante muito tempo, e algumas coisas são possuem o valor que lhes é dado por quem as sente assim.
É complicado surgir para alguém como uma espécie de atestado de incompetência humana e emocional, especialmente quando o conceito do que éramos nunca fora atribuido pelo próprio. Tão terrível como sentirmo-nos a concretização de um espaço negro, onde antes a luz passava reiteradamente e dizia-se que costumava ficar. Sentir que o conhecimento prévio e rendido é apenas um flanco tenro é um modo de morte parcial. O que vale é que é direccionada...
Algumas pessoas deveriam poder dizer o que quisessem, mas nunca com o conhecimento de causa capaz de acertar no âmago do que nem sequer são verdades ou mentiras, mas apenas diferenças. São pessoas que deveriam esquecer o que sabem, ou pelo contrário, nem se permitirem a relembrar em voz alta, sob pena mostrarem de forma contundente a tristeza que é termos mesmo de nos proteger, e mais vezes do que seria desejável. Mas isto nem passa. E muito menos fica. E as portas estreitam-se mais um pouco ainda, felicitando-se quem saltou antes das reconstruções de quaisquer muralhas.
Assim nos cercamos uns aos outros.
Ferais, em círculo.
Alguns pouco atentos, ou apenas atentos em demasia somente às feridas de outros.
E é pena...


A pedido de uma amiga repito aqui o seguinte texto.
E a verdade é que não lhe retiro uma vírgula. Creio nele como um religioso comungará, e de alguma forma, aceito que as incompreensões sobre a bestialidade de que sou ocasionalmente feito não colocam de todo a ideia em cheque.
E e será o que me parece.
Como tudo, não passa de uma tentativa.
Porque o melhor que podemos fazer, é o melhor que podemos fazer...
Obrigado, A...
"Sempre achei extremamente difícil contar uma boa história de amor. Talvez porque a natureza contraditória do fenómeno faça com que a sua materialização se deva revestir de especiais cuidados, sob pena de ficar soterrado pelos constrangimentos, e não elevado pela intensidade daquilo que o torna (perigosamente) único.
Também considero que o amor é um “transmorfo” subjectivo. Cada hóspede da sua influência cria um universo próprio para o poder vivenciar, e as manifestações alteram-se consoante a capacidade do seu portador. É como um vírus (a maior parte das vezes benigno, mas nem sempre) cujas mutações correm pelo contorno do seu portador, chegando mesmo a transformá-lo.

Recordo aquele texto que andou a circular na internet, do MEC (A Causa das Coisas continua a ser, para mim, a referência. A crónica "Almoços" é a melhor e mais hilariante crónica que alguma vez li na vida), a propósito do chamado "Elogio do Amor Puro". Entendendo a posição do senhor (e o texto é de facto belo), mas não posso deixar de discordar com algumas coisas, que foram defendidas e assumidas como máxima de vida por uma carrada de gente, começando logo pela designação "Amor puro".
Não sei o que significa. Que vem a ser amor puro? Pureza num conceito tão contraditório, violento e caótico como este parece-me quase como colocar uma tiara de fada na cabeça da MAE WEST. Não joga. Quanto muito existe um destilar da capacidade de querer, a qual torna o sentimento tão afiado e intenso que corta tudo à sua passagem, mas não há nada de puro, nada de cândido ou limpinho. Amor é sangue e pele debaixo das unhas, e transmuta-se como uma segunda pele, adaptando-se ao tamanho e ritmo dos corações. Quando estes se partem, a tal pele estala, e como diz o outro, o vento acaba por levar tudo. O amor é sim o mais contaminado de todos os sentimentos, julgo eu.
Depois elogiar o amor sem razão alguma, aleatório, estúpido, cego e doente, mais parece uma ronda de tiro aos patos. Mas que merda de mania esta de achar que os mais elevados e poderosos sentimentos humanos se caracterizam por uma total ausência de relação "causa-efeito", ainda que seja parcial! Será assim tão nobre e bonito olhar para alguém e, assim do nada, deixar de ter capacidade de “empatizar” seja com o que for porque a suposta rajada aleatória do amor varre tudo à sua passagem? Será que a ideia do valor intrínseco da pessoa, daquilo que nos encanta na sua capacidade de comunicar, de ser, de se mexer, de problematizar, de fazer rir, de deixar sair as contradições que a fazem humana, são meros detalhes despiciendos, perante a tal grandeza da estupidez linda do suposto amor de origem desconhecida? A mim parece-me terrível que algo tão importante como o amor possa ser definido como uma indeterminação arbitrária, onde aquilo que sou como pessoa é simplesmente dispensável, perante o grande mistério totalitarista do amor que não se sabe de onde vem.

Tenham paciência...

Existe, obviamente, mistério no Amor. Porque entre dezenas ou centenas de pessoas que conhecemos, muitas delas com charme, encanto, inteligência, beleza, só muito poucas nos fazem suar com a antecipação do toque. É esta espécie de triagem que constitui o mistério, por uma combinação de coisas cuja matriz desconhecemos, e que nos retira o peso do corpo ao descobri-la. Mas que diabo, o substrato está lá. Há algo que reconhecemos como fundamento parcial daquele ser humano que nos encanta. Olhamo-lo, ouvimo-lo, cheiramo-lo e sabemos que lá está algo que tem coincidência com os nossos pontos de aceitação, com juízos estéticos, éticos, emocionais, e mesmo aquilo que nos irrita compõe o ramalhete. Aceitar a total falta de fundamentação, é, em meu modesto ver, reduzir a pessoa e o próprio amor a uma espécie de esoterismo dogmático, e o amor tem para mim muito pouco de religioso ou de "é assim porque é e o que é que a malta há-de fazer." (E sou tão sensível ao maravilhoso final do "The Dead" do Joyce como qualquer romântico inveterado.)

Se a beleza do amor é a falta de comunicação, a casmurrice, a ansiedade, os gritos, a falta de um mínimo de lógica e senso, as tragédias gregas, e se só isto significa esse algo que entra por nós a dentro e nos desequilibra, nos faz melhores, mais completos e mais vivos, então eu estou mesmo morto e não recebi o aviso lá em casa. Escandaleira, possessividade paranóica e drama não é amor, mas apenas uma forma de exercer poder sobre alguém.

Amor real, para mim, traduz-se em sentirmos que, por causa de alguém, somos muito melhores do que éramos, mais capazes, mais completos, e sobretudo, diferentes. Diferentes porque maiores, porque algo transforma as realidades, que parecem sempre iguais, em algo para o qual existem fundamentos, mas raramente uma explicação cabal.
Amor é perdermo-nos no que somos, e no que alguém é. É perceber que o coração pode partir-se e esse risco pode transformar-se num abandono à realidade que se vê sem cores ou formatos. Amor não é um tom pardacento ou misturado no completo desconhecimento. É passar do cinzento ao vermelho, e viver as gradações como se caíssemos de uma falésia, mas nunca em total desconhecimento.

Amor não é puro.

É justamente o contrário.
O amor é a mais notável forma de contaminação.

As boas histórias (acerca dele) são feitas de perguntas, de descobertas e sobretudo, de reconhecimentos inauditos, braço dado com as novidades de quem levou aquilo que era um pouco mais longe no nosso reconhecimento.

(E, claro está, é também um aroma corporal de fazer dobrar os joelhos e transpirar sem calor...)"
"As Harold took a bite of Bavarian sugar cookie, he finally felt as if everything was going to be ok. Sometimes, when we lose ourselves in fear and despair, in routine and constancy, in hopelessness and tragedy, we can thank God for Bavarian sugar cookies. And, fortunately, when there aren't any cookies, we can still find reassurance in a familiar hand on our skin, or a kind and loving gesture, or subtle encouragement, or a loving embrace, or an offer of comfort, not to mention hospital gurneys and nose plugs, an uneaten Danish, soft-spoken secrets, and Fender Stratocasters, and maybe the occasional piece of fiction. And we must remember that all these things, the nuances, the anomalies, the subtleties, which we assume only accessorize our days, are effective for a much larger and nobler cause. They are here to save our lives. I know the idea seems strange, but I also know that it just so happens to be true. And, so it was, a wristwatch saved Harold Crick."

Stranger Than Fiction - Zach Helm

quarta-feira, agosto 20, 2008

They say that you have a very big chance to overcome your obstacles if you believe in your capability to endure the tasks that will allow you to overcome them.
I always thought that was pure bullshit. Sometimes things happen and all the logic of compensated effort does not work. Pure cynicism puts luck in charge, but perhaps the truth lies somewhere in the middle of all this.
Thankfully, there is always another story to tell, I guess...


Existe uma frase, frequentemente trocada entre amigos, que sempre me fez confusão. Também é verdade que ao mesmo tempo sempre se revelou certeira. Pelo menos em parte.
“Um dia ainda te vais rir disto tudo”, dizia um amigo meu, ou melhor vários amigos meus, perante a incapacidade em fazer alguma coisa que fosse para combater o meu suposto estado de mortificação. Coitados. Dá-me sempre pena, porque também sempre me custou imenso, perceber a debilidade da eficácia dos nossos esforços quando alguém nos arrancou as entranhas com as unhas e as deixou em cima da mesa com um bilhete. A presença é tão importante como parcialmente ineficaz, e no entanto, alguns pretensos consoladores são os tipos mais injustiçados da história dos gestos de amizade. E claro está, em meio ao desespero, cospem pérolas destas porque o silêncio é uma alternativa insuportável.
E depois existem outros que ouvem. Que sabem. Raríssimos.
E essas são outras histórias.



segunda-feira, agosto 18, 2008

"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982

(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)

"FRIO BRANCO"

Parte III
"Durante as duas semanas seguintes falei com a minha cliente exclusivamente através de telemóvel. A voz dela variava entre o exausto e o nervoso. Com o passar dos dias, comecei a achar isto normal e fiz o meu trabalho de casa, mas pouco lhe podia adiantar, já que ainda não sabia exactamente o que ela pretendia que eu fizesse. Havia no entanto um detalhe curioso. As conversas ficavam sempre a meio e ela não voltava a telefonar. E durante as conversas, enquanto a minha cliente falava, existia sempre um ruído de fundo estranho. Pareciam gatos famintos ou qualquer outra coisa de desagradável, estridente e indefinido.

Dois dias depois do último telefonema, chegou uma carta ao escritório. Quando a abri, ia cuspindo o chocolate quente pela sala inteira. Dentro do envelope, estava um cheque com a primeira provisão. Eram cento e cinquenta contos em moeda antiga, escritos numa letra cuidada. Olhei para o cheque durante vinte minutos, convicto de que seria um engano. Mas não. Estava lá o meu nome e a quantia por extenso. Acompanhando o fantástico cheque, vinha uma carta escrita na mesma caligrafia cuidada.

«Dr:
Junto envio-lhe a provisão para fazer face às despesas que tem com este caso, e agradeço-lhe o trabalho efectuado até este momento.
Espero que esteja dentro de valores razoáveis.
Aproveito no entanto esta missiva para lhe fazer um convite para passar alguns dias connosco na dita casa que meu pai pretende vender. Ele está um pouco diferente e diz que gostaria de nos reunir para passarmos alguns dias. Falei-lhe de si, e ele achou bem que viesse. Diz que gostava de falar consigo e eu preferia que estivesse presente no que poderá ser a discussão do testamento. Se puder contar com a sua presença, por favor tenha a bondade de me ligar para o meu telemóvel.
Com os melhores cumprimentos

Alexandra X»

Sem pensar, telefonei à minha cliente, aceitando e desfazendo-me em agradecimentos pelo convite. Se ela ia pagar-me cento e cinquenta contos de provisão, eu até trabalharia um bocadinho na horta da casa de família, se ela o quisesse. Estava cada vez mais curioso, mas também incomodado.
Naquela noite fui jantar fora com a minha namorada. Depois fomos ao cinema e terminámos a noite num hotel não muito caro. Estávamos deitados, exaustos pelo sexo e o dia a dia de doidos, quando ela me perguntou se e quando eu iria nesta estranha expedição. Eu disse-lhe que partiria dali a quinze dias. Ela sorriu e desejou-me boa sorte enquanto a sua mão esquerda voltou a encontrar algo no centro das minhas virilhas. Eu respondi quase imediatamente, embora, por um terrível segundo, tivesse julgado ver o rosto da minha cliente no vidro da janela. Não era água o que lhe escorria do rosto.

A casa da minha cliente e respectiva família ficava perto da Malveira da Serra, nas proximidades de Torres Vedras. Estava à espera de algo como a Quinta da Marinha, ou Aroeira, ou coisa que o valesse, mas não. A dita casa de férias estava situada na boca de um denso pinhal e junto a um pequeno regato que corria a cerca de cinquenta metros da casa. Tratava-se de um casarão imenso, com perto de 15 quartos, distribuídos entre dois pisos. Era relativamente novo, mas tinha sido construído segundo os padrões de estética dos velhos solares que ainda hoje se encontram espalhados um pouco por todo o país, maioritariamente recuperados e destinados ao turismo de habitação. Tinha um quintal imenso, no qual repousava uma piscina vazia em forma de lua crescente, demasiado parecida com uma bocarra aberta num sorriso demente e azulado. Existia também, mais atrás, um campo desportivo no qual se podia praticar quase tudo, desde basquetebol, o que não me soava nada mal, até futebol de cinco ou mesmo ténis. O bosque ficava por detrás, no sopé da pequena elevação onde se encontrava a casa. O vento soprava frio e uivante, assobiando com ar de poucos amigos enquanto carregava folhas mortas e agulhas de pinheiro.
Parei o meu Ibiza velhinho perto de alguns carros. Só dois deles equivaliam em dinheiro a uma década de salários, se eventualmente mos pagassem. Saí do automóvel com o saco onde estavam as minhas mudas de roupa, e fiquei especado a olhar para um Porshe Boxter S. Naquele preciso instante arrependi-me da decisão que tomara. Pensei seriamente em meter-me no carro e acelerar até Lisboa, mas tinha o cheque da minha cliente na carteira e não me conseguia forçar a devolvê-lo.
Entrei no portão e um indivíduo de compleição sólida fez-me um sinal. Tinha um ar afável e humilde, o que não encaixava bem dentro de um físico que denunciava uma força desmedida. No entanto, e apesar da aparência vigorosa, o cabelo farto que despontava de ambos os lados da cabeça era prematuramente grisalho. Ao dar o primeiro passo para dentro do quintal, um “golden retriever” correu na minha direcção num galope rapidíssimo. Fiquei paralisado enquanto ele me cheirava, fungando entusiástica e comicamente. O homem ao fundo fez-me um sinal, penso que para me acalmar, e segundos depois tinha o cão rendido aos meus afagos, como a língua pendente o comprovava. A pessoa em causa era uma espécie de faz-tudo. Podia ser o mordomo ou capataz ou uma coisa qualquer parecida, e cumprimentou-me calorosamente. Ao apertar-me a mão percebi que aquele homem era ainda mais forte do que aparentava. A mão que apertou a minha num cumprimento cordial assemelhava-se a um torno com dedos, mas o sorriso era aberto e simples.

O senhor desculpe o susto, mas este malandro não faz mal a ninguém. É o pior cão de guarda que já vi. Se os ladrões cá vierem e lhe derem uma bolacha ou um carinho, ele é capaz de os acompanhar no saque. Não é, meu malandro?! – disse, fazendo uma festa ao animal com um carinho sincero.

Eu peço desculpa, mas venho da parte da senhora Dona Alexandra.

Sim, uma das filhas do patrão. Eles foram todos almoçar lá abaixo à adega do Faria. O senhor é o Doutor Gabriel Gusmão? O advogado da dona Alexandra?

Sim, sou eu.

Desculpe perguntar, mas pensei que fosse mais velho.

“Tens razão amiguinho. Muita razão. Mas que posso fazer?”

É normal. Eu ainda sou novo na profissão, sabe?

Sim, imagino. Mas venha, não fique aí ao frio! Vamos instalá-lo e esperamos os dois pelos patrões.

Fiquei a gostar deste homem num ápice. Tinha aquela qualidade genuína que nenhuma palavra poderia dar mas que surgia em todas as que proferia e movia-se como alguém para quem nada no mundo parece difícil.
Abriu-me a porta e deixou-me à vontade no salão principal. O fausto exterior parecia pálido perante o desfile de riqueza que se vislumbrava no interior. Móveis antigos, uma lareira imensa, tudo com um toque ancestral mas não caduco. Cada passo dado ecoava por todo o lado, em estalidos que se perdiam na distância. A casa era enorme, quase desproporcionada para albergar qualquer família, por muito numerosa que fosse. Sem saber bem porquê, dei comigo a subir um lance de escadas em caracol, da qual uma diva do cinema poderia fazer uma cena de queda perfeita, e entrei num corredor superior, muito comprido, com portas de ambos os lados. Ao fundo, uma outra sala, com uma salamandra imensa, e o mesmo gosto irrepreensível nos móveis. Entrei num quarto, sem saber que viria a ser aquele onde pernoitaria, e parei a olhar para a cama de casal. Os lençóis de linho bordados à mão provavelmente custavam mais que a minha própria cama e isso deu-me uma imensa vontade de rir, a qual consegui conter. No meio da exploração ouvia uma espécie de ruído estranho, muito à distância, ou abafado. Pareciam gatos, ou portas perras que guinchavam, queixosas da falta de óleo. Toda a casa estava impecavelmente arrumada, mas tinha um ar de tristeza e desolação que a embaciava como uma névoa invisível e o ruído só aumentava essa noção de desconforto.
O meu amigo deu-me uma leve palmada nas costas. O susto fez com o que o meu coração disparasse, mas o meu amigo continuava tão afável como antes e tranquilizou-me. No entanto, e só por um segundo, pareceu-me ver um escurecimento no olhar. Uma tristeza, uma nuvem passageira, um esgar de resignação amarga. Acabei por ignorar sem mais aquela situação, pois tinha muito em que pensar. Algo que surgia como lógico e omnipresente, especialmente quando me sentei na minha cama de casal, bestialmente confortável e com lençóis que fariam carícias semelhantes a mãos informes.

O que é que eu estava ali a fazer?

Os meus anfitriões demoravam-se e como não conseguisse sossegar, resolvi dar um passeio pela casa. Saí do quarto, trancando a porta sem saber muito bem porquê. Toda a habitação estava em silêncio, à excepção daquele ruído distante e dos estalos do soalho impecavelmente encerado, encimado por tapetes igualmente limpos e laboriosamente trabalhados. Desci as escadas e entrei no salão. Lá fora, o tempo fechara e a tarde prometia uma chuvada terrível. O céu estava tão plúmbeo que quase ameaçava cair e o vento soprava insistente. Olhei pela janela e vi somente prados onde alguns bovinos pastavam, além do bosque onde as árvores se abraçavam dançando ao sabor do vento.
O salão estava vazio. Sentei-me num dos sofás e saboreei a lareira acesa, que crepitava entusiasticamente. Do lado esquerdo, iluminada pelas difusões luminosas e irregulares do lume, estava uma enorme estante repleta de livros magnificamente encadernados. Tive uma tentação quase irresistível de pegar em alguns deles, mas a minha educação tocava o gongo mental e, assim sendo, limitei-me a olhar para as lombadas. Edgar Allan Poe, Defoe, Swift, Camus, Shakespeare, Garcia Marquez, H.P. Lovecraft, todos se ombreavam silenciosos em versões luxuosas das suas obras. Algumas delas ainda escritas ou traduzidas em português antigo, algumas delas primeiras traduções adquiridas a alfarrabistas e bibliotecas antigas e infelizmente desmanteladas. Passei os olhos por não sei quantos autores, sentido o calor da lareira e maravilhando-me com a multiplicidade dos exemplares, até que encontrei uma série de livros negros, sem inscrição na lombada. Eram todos aparentemente iguais e ocupavam uma fileira da estante, como soldados eximiamente alinhados. Mais uma vez fui tentado pela minha curiosidade e achei-me novamente detido, não pela minha consciência, mas pela voz do meu amigo informando-me que o almoço estava pronto e que os patrões iriam demorar. Afastei-me da estante num salto e assenti em acompanhá-lo. Tinha o estômago a dar horas. Algo mais estava diferente. Só quando descemos para a cave, que dava para a garagem e para uma janela de onde se podia ver toda a extensão da paisagem para além do campo de jogos, é que percebi de onde vinha aquele meu desconforto. O ruído aumentara ligeiramente de volume, como se estivesse mais perto, e havia como que um aumento da atmosfera opressiva da casa. A tristeza densificara-se e a atmosfera parecia pesar, como uma melodia minimalista e magoada.

Almocei sozinho numa sala totalmente mobilada com nogueira escurecida. Tudo estava no lugar, arrumado e limpo. Não havia um grão de pó em cima das prateleiras e ainda se notava um pouco do aroma do óleo de cedro. O meu amigo informou-me de que os seus patrões ainda demorariam, pelo que não havia outra alternativa senão comer algo antes que a fraqueza levasse a melhor. O tempo lá fora escurecera de tal forma que se tornou necessário acender as luzes para que eu acertasse com o garfo na comida e não na magnífica toalha de mesa bordada. Ao contrário de tudo o resto, as luzes deixavam muito a desejar, pelo menos em termos de eficiência. Era uma luz amarelenta, débil, que mais parecia cobrir as coisas com um pó dourado e luminoso que propriamente lançar-lhes claridade. Os cantos das divisões permaneciam numa espécie de penumbra indefinida, como focos de escuridão geometricamente colocados na casa.
Enquanto devorava uma fantástica sopa de peixe, seguida de um bacalhau à lagareiro igualmente magnífico, o som do meu mastigar era o único que se fazia ouvir, para além do vento uivante lá fora, do gotejar da chuva e aquele outro ruído estranho, que pé ante pé, ficara novamente mais audível, mas ainda assim imperceptível quanto à sua origem ou possibilidade de identificação. Comecei então a experimentar um desconforto que aumentava gradualmente. Por alguma razão estranha, senti-me sorumbático sem qualquer justificação para tal, já que no máximo estava assustado com a minha futura tarefa, mas não triste. Levantei-me o mais depressa possível da mesa. Aquele malfadado ruído começava a dar-me cabo da cabeça. O meu amigo ouviu-me levantar e perguntou-me com amabilidade se eu desejava mais alguma coisa. Abanei com a cabeça, perguntando de poderia dar uma volta pela casa, ao que este assentiu usando o seu sorriso generoso.

Mas vou-lhe pedir que não entre nos quartos que têm as portas fechadas. Os patrões não gostam, pode ser?

Sim, com certeza. Muito obrigado.

Ele voltou a desaparecer pela porta da rua. Ouvi o cão que latia alegremente e, no instante seguinte, o semi-silêncio retornou novamente. Resolvi levantar-me e começar a expedição à casa, bem como ao terreno circundante. Obedecendo a uma lógica elementar, resolvi começar de cima para baixo. O andar cimeiro era constituído unicamente pelos quartos, uma ou duas salitas de transição e o sótão. Era óbvio que nem sequer sabia o que estava a fazer, mas qualquer coisa servia para me manter ocupado e fugir à estranha plangência que parecia toldar-me os movimentos e a capacidade de pensar. Subi a escada que conduzia ao meu quarto e entrei no corredor. Estava invulgarmente escuro, já que a luz que emanava das janelas era a proveniente de um sol encoberto por um mar de nuvens. Acendi a luz e tive a mesma pequena desilusão que tinha tido na sala de jantar. As lâmpadas vomitavam a mesma luz fraca e doentia. Os cantos da casa permaneciam escuros, juntos por uma espécie de extensão escura que os unia, já que a luz não conseguia iluminar os rodapés. As paredes exibiam réplicas e serigrafias de quadros famosos. Uma delas, o “Filósofo em Meditação”, de Rembrandt, era um dos meus favoritos de sempre e naquele lugar ficava fantasticamente apropriado. A luz que entrava naquela casa era algo parecida com a cor vislumbrável no dito quadro, semelhante a uma neblina que tocava os objectos ao de leve mas nunca os chegava a iluminar. As sombras nunca pareciam estáticas, mas surgiam como desenhos criados com mestria, ondulando num cenário que parecia quase vivo. A atmosfera era bisonha e simultaneamente bela, possuidora de um aspecto solene, antigo e até venerável. Passei por alguns corredores, olhando para outros quadros, igualmente cópias de telas famosas. Vi um quadro de Cargaleiro e outro de Paula Rego, mas não consegui distinguir se seriam originais ou cópias, acabando por decidir que provavelmente esta gente teria dinheiro para comprar o artigo genuíno. Mas era o quadro de Rembrandt que não me saía da cabeça, talvez porque me sentisse dentro dele. Nadava naquela atmosfera onde podia sentir uma certa solidão amarga e uma profundidade de pensamentos que moldavam o isolamento, tornando batimentos cardíacos num ensurdecedor concerto de percussão. Penso que se pode determinar o estado de solidão e silêncio quando ouvimos o tamborilar do nosso próprio coração. Andei mais um pouco. Abri portas de quartos, contra a indicação do meu amigo, mas ele também não precisaria de saber deste meu pequeno pecadilho. Não vi nada de especial, a não ser algumas camas desarrumadas e roupas em cima de cadeiras. No entanto, ao abrir uma das portas fechadas, verifiquei que um dos quartos estava às escuras. Pensei que alguém estaria a dormir naquela divisão e tive o ensejo de fechar a porta imediatamente. No entanto o frio que emanava da divisão indicava claramente que ninguém seria capaz de dormir ali. Dei um passo em frente, e a penumbra era total. O ar estava invadido por um aroma estranho que se situava algures entre o adocicado e metálico. A opressão invisível que sentia na casa parecia um pouco mais acentuada naquele espaço, mas talvez fosse a minha imaginação a funcionar. Tacteei a parede em busca do interruptor, e tive um instante de surpresa. A parede estava molhada e tremendamente fria, como se tivesse chovido dentro daquele quarto. Chovia lá fora, é certo, mas não caía uma única gota do tecto, nem existia qualquer janela aberta que permitisse tal encharcamento das paredes. Com algum esforço consegui encontrar um interruptor, e a mesma luz morta fez-se presente. Era um quarto normal, perfeitamente arrumado. Entrei para o observar e verifiquei algo que me desconcertou imediatamente. As paredes estavam de facto encharcadas. Fios de água escorriam em cascatas mínimas banhando todas as quatro paredes. Examinei este fenómeno anormal e, pela primeira vez, a minha mente começou a rejeitar a normalidade no cenário. Senti que os meus testículos diminuíam de tamanho e que o sangue acelerava, tentando fazer uma corridita com o coração que começara adiantado. A água escorria em gotas, mas o chão estava completamente seco, bem como o tecto. Os cantos da divisão permaneciam escurecidos, mas o mais engraçado é que a água brotava das paredes e, por alguma razão que nem sequer vou tentar explanar, era novamente como que absorvida pelas mesmas. Não havia uma única gota no chão."
(...)
(to be continued)
"Keep me past the gate
I've worn the world without a word
And I don't care too much for what they say
Grip my smothering end
Another day will pass again
Keep My fire alive for I'm not afraid
Can I make them understand
Who in the world would have thought this
God I'll never know your plans
Doin what i got to
What I Got to hang on
Cause I'm doin what I got to
What I got to hang on
Hanging on by a thread this is what
I got So hang on to this"

Travis Meeks - DOTN

(não prestem atenção ao vídeo, e ouçam só à música)

domingo, agosto 17, 2008

Regresso.

"Pessimismo da inteligência, optimismo da vontade."

Agora, mais do que nunca.

Negativista nunca, mas talvez partidário de uma certa forma estranha de lucidez, não sei. Também me estou completamente nas tintas.

O programa segue dentro de momentos.